Imaginários Luso-Americanos e Canadianos

Kale-Soup-for-the-Soul

Aqueles poetas que estão só agora a começar a descoberta das suas raízes ancestrais até aos que para quem essa integração já é total, uma parte inseparável da sua identidade, mesmo que algo afastada das suas origens.

Alice R. Clemente e George Monteiro, The Gávea- Brown Book of Portuguese-American Poetry

Vamberto Freitas

O meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho — falo aqui dos textos publicados em 2010 como resposta a algumas perguntas que me fazem com certa frequência sempre que escrevo sobre a mesma temática – é um conjunto de ensaios publicados em revistas universitárias, ou lidos em colóquios e outros encontros literários e culturais em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá. Estavam, essas palavras, até então longe do público leitor, por mais reduzido que seja, e creio que é mesmo bastante reduzido, o que se interessa por estas questões, e está consciente do que envolveu o movimento literário do século passado, e ainda mais deste — a questão da identidade em geral, e particularmente da nossa identidade num mundo cujos valores estão perpetuamente em mutação. Esses ensaios (pelo menos foi a minha intenção ao escreve-los) são uma narrativa coesa sobre a nossa escrita em língua inglesa – poesia, ficção e outros géneros de escrita que registam a memória dos luso-descendentes na América do Norte, inclusive os que nasceram em Portugal mas optaram por escrever em inglês, e que já criaram para si um respeitável nicho nos seus próprios países, alguns comentados em grandes jornais como o The New York Times, por exemplo, e nas mais variadas publicações literárias, premiados do mesmo modo ao mais alto nível. A lista de nomes é já substancial, temos como que um outro cânone literário em construção, de autores vivos e mortos: George Monteiro, Katherine Vaz, Oona Patrick, Frank X. Gaspar, Lara Gularte, Joseph M. Faria, Michael Spring Garcia, David Oliveira, Alfred Lewis, Francisco Cota Fagundes, Lawrence Oliver, Charles Peters, Laurinda C. Andrade, Charles Reis Felix, Julian Silva, Emily Daniels, Art Coelho, Carlo T. Matos, Sam Pereira, Anthony Barcellos, Darrell Kastin, Millicent Borges Accardi, Nancy Vieira Couto, Sue Fagalde Lick, Thomas J. Braga, e, no Canada, Erika de Vasconcelos, Anthony De Sá, Paulo da Costa, Fernanda Viveiros e Esmeralda Cabral. De resto, existem outros escritores que, não sendo de descendência lusa, os seus livros contêm fundos ou abordam a vida e história comunitárias açor-americanas, como são os casos de Joseph A. Conforti, em Another City Upon a Hill: A New England Memoir, e Julie Drew no romance Daughter of Providence. Faltam aqui nomes? Faltam, mas são estes os que mais li e a na maior parte dos casos comentei, querendo apenas mostrar a multiplicidade de vozes a que já poderemos recorrer para o prazer do texto e de outras significações literárias que nos interessam de modo directo, histórico para alguns leitores, identitário para outros. As coletâneas de consulta obrigatória, para estes como para alguns outros escritores e poetas são Luso-American Literature-Writings By Portuguese-Speaking Authors In North America (Robert Henry Moser e António Luciano de Andrade Tosta), The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry (Alice R. Clemente e George Monteiro), Writers of the Portuguese Diaspora in the United States and Canada: An Anthology (Luís Gonçalves e Carlo Matos), assim como, no que diz respeito ao Canadá, Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers (Fernanda Viveiros). Tenho, pois, dedicado um olhar sistemático em volta de, e acerca dessa escrita, que começa a nascer em abundância a partir do início dos anos 90, dando seguimento a outros que já vinham escrevendo há décadas, só que estavam “isolados” nas suas universidades ou em comunidades electivas ou de afectos, pensando que mais ninguém da sua ancestralidade estava a fazer o mesmo. Quando por cá começámos a escrever sobre as suas obras aconteceu uma explosão de interesse, como ainda hoje nunca aconteceu com os próprios escritores açorianos no restante país. Já estou para além de queixas e ressentimentos, trata-se aqui apenas de uma constatação. Não só alguns deles foram traduzidos e publicados a nível nacional, como a Katherine Vaz, Frank X. Gaspar, Erika de Vasconcelos e Anthony De Sá, recebendo a maior atenção nos grandes periódicos lisboetas, como depressa passaram a ser estudados nas universidades de Lisboa, Porto, Aveiro e Minho. Alguns desses autores começaram também a ser convidados para apresentações e leituras nalgumas dessas instituições, e em 2008 realizou-se um grande encontro na Universidade de Lisboa sob o título de “Congresso Internacional sobre a Narrativa Portuguesa: Narrating the Portuguese Diáspora”. Alguns anos antes, teve lugar outro colóquio na prestigiada Yale University, “One Hundred Years of Portuguese-American Writing”, em Abril de 2001.

Para além do interesse e de todas as afinidades entre nós e os luso-descendentes, particularmente entre os açor-americanos ou os açor-canadianos, os nossos colegas escritores e estudiosos no Brasil já começam a pensar e a desejar a inclusão desses escritores da América do Norte em encontros e outras abordagens brasileiras, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande dos Sul. O mundo da lusofonia alarga-se consideravelmente, e agora temos de nos habituar a acarinhar os que reclamam a sua ancestralidade, mesmo que em língua inglesa. Os nossos “nacionalistas” e “puristas” poderão torcer o nariz e olhar-nos com sobranceria, mas vai acontecer, já está a acontecer—Portugal continuado lá fora por outros meios e maneiras. Enquanto cá dentro andamos na maior e mais grave crispação nacional, os nossos escritores luso-descendentes ainda são capazes de nos olhar com inteligência, serenidade e ternura. A literatura tanto pode ser um acto crítico e de crítica a uma sociedade, mesmo quando centrado num protagonista encarcerado no seu espaço muito particular, como pode ser, e é quase sempre, uma espécie de “investigação” à condição humana num tempo histórico ou em circunstâncias tidas como normalizadas no decurso da vida colectiva. A literatura norte-americana do pós-II Guerra é um exemplo perfeito do que acabo de dizer. Numa época de paz aparente e de “prosperidade” nunca vista antes, a sua temática centra-se nos destinos pessoais de cada um dos seus narradores, mas inevitavelmente é a grande sociedade em volta que nos fica na memória, que explica a própria voz narrativa e o existencialismo filosófico que dominou aqueles anos de angústia e contentamento, a inevitável contradição entre a realidade e o sonho. Foi precisamente essa ambiência societal após a grande catástrofe que levou à rebelião narcisística dos Beat a meados dos anos 50 (não esqueçamos o seminal movimento pelos Direitos Civis de todos liderado pela comunidade afro-americana), que parecia de todo inconsequente e ainda mais uma birra de meninos bem criados, a uma nova literatura para um novo combate – a reafirmação étnica dos que estavam desde sempre nas margens da sociedade, a procura das raízes e a valorização de mundos até então escondidos nas cozinhas de mães e avós, a redefinição de ser-se americano e como, como no título de um dos últimos ensaios de Jorge de Sena – ser-se imigrante e como. Poderão os nossos escritores luso-descendentes nos EUA e Canadá terem chegado um pouco atrasados a essa nova literatura caracterizada pela multiplicidade de vozes e ancestralidade culturais e linguísticas, mas a partir dos anos 90 do século passado a sua produção é, por todas as razões temáticas e estéticas, admirável, tornando-se parte integrante, uma vez mais, de um novo cânone literário – se é que a sobrevivência de cânones literários ainda vai ter alguma importância num mundo novo a nascer – que um dia será expandido também entre nós. Quando comecei a trabalhar esta temática juntamente com alguns colegas noutras universidades norte-americanas há mais de quarenta anos, e guiados pelo que ainda mais cedo do que nós já tinha feito o professor e escritor George Monteiro e outros no então Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, não podia de modo algum imaginar esta abertura já aqui mencionada, mesmo que tardia, no nosso próprio país.

Continuam ainda alguns afundados num certo charco literário onde naturalmente não cabiam nem cabem os nossos escritores mais sérios, mas sim as atitudes de certa intelectualidade oca, alguma dela residente no Continente, e outros tantos nas ilhas. A ideia peregrina de que o cosmopolitismo, ou o igualmente indefinível universalismo, é uma necessidade específica de quem vive a, ou na nossa geografia cercada, só dirá respeito aos que nunca conseguiram ultrapassar o seu próprio provincianismo, ou estavam limitados por noções bem pouco informadas acerca do que tem sido a história literária em toda a parte. Por certo que toda esta riqueza literária continua a ser um reduto de minorias. Só que é desses que partem e vivem as linguagens que nos definem como povo – daqui e de toda a parte.

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Algumas destas palavras foram tiradas e revistas de outros trabalhos meus para servirem de base a uma conferência minha na American Corner, da Universidade dos Açores, a 26 de Outubro de 2015. A tradução da epígrafe aqui é da minha responsabilidade. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 13 de Novembro de 2015.

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