VAMBERTO FREITAS: A NOVA LITERATURA LUSO-AMERICANA

Capa Imaginários Luso-Americanos

Miguel Real

Só recentemente tivemos oportunidade de ler Imaginários Luso-Americanos e Açorianos. Do outro lado do espelho (Ponta Delgada, Edições Macaronésia, 2010), de Vamberto Freitas, livro que, de certo modo, se evidencia como cume e corolário da actividade de crítico literário, de professor e de jornalista do autor.

Um conjunto de ensaios extremamente interessante porque, como veremos, supera a repetição, hoje cansativamente recorrente, sobre a existência de uma literatura especificamente açoriana e, de certo modo, abre novos horizontes para a literatura portuguesa.

Numa síntese extremamente concisa, Vamberto Freitas, como crítico literário, está para a literatura açoriana e luso-americana a partir da década de 90 (cf. p. 13 e entrevista à revista “Provincetown Arts” no final do livro) como Urbano Bettencourt tem estado, desde a década de 80, para a literatura açoriana. Temos consciência de que a frase anterior se evidencia mais como caricatura do que como explicação analítica, mas, enquanto síntese lapidar, ela, de certo modo, ainda que superficial, revela-se verdadeira. Urbano Bettencourt, enquanto crítico literário, estendeu a sua análise ao mundo ilhéu do Atlântico (a região da Macaronésia), enquanto Vamberto Freitas se dedicou à literatura luso-americana publicada nos Estados Unidos da América.

Ao longo da década de 90, Vamberto Freitas publicou dois importantes livros sobre literatura açoriana: O Imaginário dos Escritores Açorianos (Salamandra, 1992) e Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas (Salamandra, 1998). Em O Imaginário dos Escritores Açorianos, Vamberto Freitas recobre a produção literária do que designa por “geração de 70” açoriana (p. 204), destacando os textos de João de Melo, José Martins Garcia, Cristóvão de Aguiar, Álamo de Oliveira, Fernando Aires, Dias de Melo, Vasco Pereira da Costa, J. H. Santos Barros e Daniel de Sá. Para a defesa da tese geral, “Onésimo Teotónio Almeida e a sua geração” (pp. 199 ss.) é, indubitavelmente, o mais importante capítulo do livro, dotado de elementos autobiográficos.

Na introdução, Vamberto Freitas caracteriza a literatura açoriana “pela fuga constante, geográfica e/ou interior, do homem das ilhas, onde quase obsessivamente os [escritores] caminham à procura da sua identidade e tentam penetrar e comunicar a condição humana que lhes foi dada ver e viver” (p. 7). Desta “fuga constante” teria nascido “um dos mais originais e profundos imaginários da literatura portuguesa deste século [XX]” (idem).

Simultaneamente, fazendo jus à sua condição migrante, Vamberto Freitas publica entre 1990 e 1994 quatro livros da série Jornal da Emigração (1990: A L(USA)lândia Reinventada; 1992: Pátria ao Longe; 1993: Para Cada Amanhã; 1994: América: Entre a Realidade e a Ficção), onde tematiza um variadíssimo leque de questões ligadas à vivência americana da comunidade açoriana. No último livro da série, o autor confessa terem sido os três primeiros volumes “uma crónica mais ou menos pessoal (ou pessoalizada) da experiência imigrante portuguesa nos Estados Unidos (Salamandra, 1994, p. 9). O quarto, diferentemente, foi dedicado à América “como espaço imaginado, transfigurado, sonhado, vivido e criticado” por um conjunto diversificado de escritores americanos que, de certo modo, têm em comum com os escritores açorianos uma certa experiência de exílio”.

Em Imaginários Luso-Americanos e Açorianos. Do outro lado do espelho, Vamberto Freitas reúne um conjunto de textos de crítica e historiografia literária publicados já este século. Neste livro, para além da homenagem prestada a Nancy T. Baden, a americana que se dedicou ao estudo da literatura açoriana, Vamberto Freitas defende 4 teses fundamentais:

  1. Para além da existência de uma literatura especificamente açoriana, existe igualmente uma literatura luso-americana singular, não como consequência mecânica ou directa da primeira, mas como sua repercussão diferida – como um eco de eco, criada já pelas segunda e terceira gerações migrantes;
  2. Do ponto de vista do imaginário americano, esta nova literatura luso-americana, criada “do outro lado do espelho” (a América, subtítulo do livro), inclui-se na nova literatura étnica migrante americana;
  3. Para além de José Rodrigues-Miguéis como precursor (“Miguéis e a lusoamericanidade literária”, p. 34 ss.) e do silêncio de Jorge de Sena, esta nova literatura luso-americana inicia-se, na poesia, com George Monteiro (“The Coffee Exchange: da poesia de George Monteiro”, p. 73 ss.) e na prosa com Onésimo Teotónio Almeida com a criação do termo “L(USA) e as suas aplicações literárias da década de 70: Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia (1975), Ah! Mònim dum Corisco! (teatro) (1978) e (Sapa)teia Americana (1983);

  4. Do ponto de vista da ligação aos Açores, o imaginário desenvolvido pela nova literatura corresponde a um elo vinculativo sentimental das segunda e terceira gerações relativamente à pátria familiar de origem, como Vamberto Freitas o evidencia no capítulo “Nova escrita da (nossa) experiência transnacional; as gerações seguintes” (p. 58 ss.), da análise de Leaving Pico, de Frank X. Gaspar: (“… a reinvenção da história num romance luso-americano” (p. 46 ss.) e da obra de outros novos autores, como Lara Gularte e Katherine Vaz.

Assim, Vamberto Freitas reivindica para estes novos autores e esta nova literatura criada a partir da década de 90 nos Estados Unidos da América e no Canadá um vínculo substancial unitivo, ao nível do imaginário, tanto com a literatura açoriana propriamente dita quanto com a literatura portuguesa em geral. Como escreve o autor: “Existe em toda a escrita luso-americana sucessivos regressos à nossa ancestralidade por parte de narradores e personagens, regressos feitos pela imaginação mítica das histórias que pais e avós foram transmitindo aos que depois tudo transfigurariam na sua escrita. Outros ainda entrecruzam tudo isso e encetam um diálogo com alguns dos nomes canónicos da literatura portuguesa, particularmente Camões, Fernando Pessoa e Eça de Queirós” (p. 12).

Um livro de obrigatória leitura para o desenho actual da literatura portuguesa e açoriana, nomeadamente do seu prolongamento açor-americano.

Miguel Real

Azenhas do Mar, Sintra, 8 de Setembro de 2010.

5

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s