Mil e uma noites, ou a estranheza do nosso tempo

Capa Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Dias

Orgulhamo-nos de dizer que nos tornámos pessoas razoáveis. Temos consciência de que durante muito tempo o conflito foi a narrativa definidora da nossa espécie, mas mostrámos que essa narrativa pode ser alterada.

Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites

Vamberto Freitas

Este novo romance de Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Dias, não podia deixar de ter como leitmotiv o que o narrador denomina de “a estranheza” dos tempos. Toda a sua obra, aliás, e particularmente a partir de Os Versículos Satânicos, tem como tropo estrutural a condição universalizada da humanidade – o estranhamento em terra própria, o estranhamento de já sermos sempre o outro em qualquer geografia. Se a imigração é o tema maior de muita literatura mundial (a nova ficção mundial, chamou-a a revista Time já nos anos 90, precisamente em relação a Salman Rushdie e a inúmeros outros colegas seus) na segunda metade do século passado, os nossos dias tornaram-se ainda mais dramáticos na movimentação voluntária ou forçada de milhões de cidadãos de todos os recantos do mundo. Num desses seus romances, Rushdie escreve que uma viagem de Bombaim a uma qualquer aldeia indiana é muito mais longa do que uma viagem da mesma cidade sul-asiática a Londres. Bem sabemos, creio, o que quer dizer – vamos perdendo o solo natal para nos tornarmos, todos, Ninguém em Terra-de-Ninguém. A questão da identidade foi sempre, e continua a ser, outro grande impulso temático tanto da sua ficção como do seu nada menos significante ensaísmo. Para além de ficção mais ou menos científica, o seu novo romance poderá ser visto como que um acto artístico revisionista, uma visão que não tem sido nada amena, quando não aterrorizadora, e que tem tido a violência cega, o conflito irracional e prendido a noções da religiosidade, que os fracos ou derrotados da História arremessam como arma da sua ira contra todos os outros. Há nomes ou designações aqui – religiosas e nacionais – que nunca são referidas nesta prosa onde o realismo dá lugar à magia negra ou salvífica num mundo infernizado por forças que já não entendemos, que não somos capazes de entender. De resto, todos os ingredientes temáticos da escrita ficcional de Rushdie estão presentes – um imigrante indiano em Nova Iorque que vai da euforia do amor e bem-estar a perdas que lhe parecem irremediáveis após a morte da sua mulher, à saudade das suas origens e mundos abandonados, o chão do seu nascimento tornado alheio, a obsessão do regresso a casa relembrando-nos que os heróis também clamam pelos deuses e pelos seres que lhe deram vida e forma à sua aventura – ou desventura. Outro sinal que me parece fundamental para uma outra leitura da obra presente – a reafirmação da vida, crença que não há escuridão sem um ponto de luz, que poderemos não ser capazes de avistar ou virarmos o rumo milenário da nossa história sem a ajuda de forças-outras, mas a racionalidade vencerá um dia. Estamos, aqui, no campo da fantasia e da realidade, os nossos dias e vivências como que um simulacro da ficção, a magia devolvendo-nos a normalidade da vida e da morte, do trabalho e da diversão, do amor e do prazer. Não é uma utopia – é o que um ser humano aparentemente deseja para si e para os seus.

Qualquer leitor minimamente empenhado sabe muito bem que este romance é também uma paródia ao clássico As Mil e Uma Noites (os fabulosos contos árabes e de outras origens sul-asiáticas que começaram a ser compilados a partir do século IX), as histórias contadas ao rei persa Xariar por uma narradora de nome Xerazade para escapar a uma sentença de morte certa após uma noite no perpétuo leito nupcial do monarca. Isto só para dizer que a narrativa de Salman Rushdie é, em primeiro lugar, uma comédia que envolve uma Guerra dos Mundos, desencadeada pelos jinn e jinni, saídos de toda a parte (até a representação de uma famosa série cómica de televisão americana dos anos 80 é para aqui chamada), vindos e vindas de um reino fantástico algures no universo, capazes, cada um deles ou delas, da maior generosidade ou crueldade conforme o seu lugar numa hierarquia sem tempo nem ciência, o seu estado entre a matéria e o espírito tornado numa amoralidade em estado puro. Estamos a mil anos deste tempo diegético, a história tendo o seu início em 1195, quando o filósofo Ibn Rushd (atenção ao nome do autor) de Sevilha, pensador profano e humanista, acasala com uma menina jinni que lhe aparece à porta em busca de amor e sexo, deixando os dois espalhados pelo mundo uma tribo de descendentes, adormecidos até que a sua mãe volta à terra para enfrentar outros espíritos do seu reino celeste, que declararam a guerra ao nosso planeta já no nosso tempo presente, praticando por todo o lado a violência gratuita e a morte apocalíptica. O diálogo entre Rushd e um Ghazali, outrora um místico persa, é entre, por um lado, a vontade incontestável de um Deus-Todo-Poderoso e um Deus-Outro, que Rushd afirma “que em última instância está para além da nossa compreensão”, insinuando que nos cabe ir decidindo a vida segundo a ética desenvolvida pelos pensadores livres e pelos nossos antepassados. Note-se que o narrador nunca se refere a algo mais do que brevemente insinuar o caos vivido no Médio Oriente e o terror que os jinn e jinnis vão infligindo ao resto do mundo, neste caso concreto em Nova Iorque, cidade onde vive e lecciona o próprio autor, nunca se dizendo direta ou indiretamente que foi também a cidade que na realidade viveu a fúria fantasmagórica e absoluta vinda do céu. Acontece, entretanto, que é nessa Nova Iorque fictícia onde vive um imigrante vindo de Bombaim e de nome Geronimo Manezes – evocando de imediato a mítica figura do guerreiro nativo-americana, e ainda um indiano provavelmente de descendência híbrida, e que o autor disse numa entrevista ser uma homenagem a um goês que vivia na sua cidade natal. Uma vez mais, Rushdie nomeia as suas personagens denotando origens mistas, e os nomes portugueses orientalizados são quase uma constante em toda a sua obra, com a distinção de serem precisamente esses personagens que simbolizam os valores e as virtudes em prol da vida. Manezes, viúvo de uma mulher nova-iorquina de bem, jardineiro agora de uma grande mansão nas margens do rio Hudson, solitário e saudoso do seu amor e da sua terra ancestral, acorda um dia com os pés literalmente fora da terra, levitando ligeiramente numa misteriosa condição sem cura nem explicação. É um dos descendentes, meio humanos meio etéreos, de Rushd e da jinni de Sevilha, e está prestes a ser convocado pela própria mãe para a sua salvação numa guerra sem tréguas contra os espíritos maléfícos que atacam por toda a tarde, numa destruição aterrorizadora, que pode vir de uma chuva de raios ou de outra violência mortífera entre os que menos esperam, e muito menos merecem. A guerra está em curso, e a salvação da humanidade só será possível com a ajuda sobrenatural dos nossos protectores vindos desta ou de outras galáxias, onde fica o seu reino paradisíaco, cuja actividade principal é o sexo imparável como diversão exclusiva.

Dois Anos, Oito Meses e Vinte Oito Noites, no entanto, é simultaneamente uma continuação de narrativas prévias de Salman Rushdie e uma partida para uma ficção bem mais leve e divertida, quer na construção dos seus personagens, quer nos eventos principais do seu enredo, sem nunca perder a seriedade do que julgo ser a intenção primeira do seu autor – os tempos ruinosos e, repita-se, estranhos em que todos vivemos, que só poderiam vir de forças inexplicáveis, como quem diz – somos nós que criamos os nossos infernos sem depois sabermos como deles sair, como apagar o fogueira cósmica. Ler Rushdie é ler sobre o que nos está acontecer, como crise existencial e civilizacional no Ocidente, como crise contínua noutras partes do mundo e cujo suposto distanciamento das nossas sociedades, e ainda mais das nossas filosofias de vida, não nos poupa. Nova Iorque aparece aqui de novo como o centro perfeito onde se congregam todas as nações, é a geografia por excelência da dor e do sonho universais. Aparecem nestas páginas, para além das figuras históricas e do pensamento já mencionadas, representantes de todas as classes sociais e práticas culturais. A escrita tem esta função primordial – contar as histórias de como nos afundamos, e depois a aventura de nos reerguermos, de voltar a ter os pés na terra, de sobreviver ao fogo e à maldição genesíacas. O outro romance do autor situado na mesma grande metrópole americana intitula-se precisamente Fury/Fúria, a batalha constante pela normalidade no quotidiano, pela identidade que cada um dos seus seres vai reinventado para si num gesto de equilíbrio e permanência num mundo sem regras nem fronteiras de qualquer espécie. A odisseia continua a ter o postulado intemporal – o regresso, ou os regressos, à essência do nosso próprio ser, na solitude ou na convivência com todos os outros.

Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites é um romance de divertimento puro, mas de alusões literárias e filosóficas que nos remetem para o início da narrativa, que parece ser a nossa nos tempos presentes. Já se passaram mil anos, e a vida reafirma-se, sempre. A utopia, pois, não será nada de fantástico, e sim o desejo da “normalidade” para uma humanidade a saque, e sem saber quem derrotar no processo da sua libertação.

_______

Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites (tradução de Ana Saldanha), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, de 20 de Novembro de 2015.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s