Fatias-de-vida numa América em transição

Capa Tudo o que conta

Chega uma altura em que percebemos que tudo é sonho, e só as coisas guardadas por escrito têm alguma possibilidade de ser reais.

James Salter, Tudo o que conta

Vamberto Freitas

Li uma edição em inglês do novo e último romance de James Salter – falecido aos 90 anos de idade a 10 de Junho deste ano — All That Is, sabendo que tinha sido traduzido em Portugal, e publicado pela Livros do Brasil, com o título de Tudo o que conta (em mais uma notável tradução de Francisco Agarez, que eu viria a ler depois), mas é-me por vezes difícil querer ler um autor norte-americano pela primeira vez, e fazê-lo em tradução, a minha longa formação americana não o permite, ou pelo menos desaconselha-me com alguma frequência. Ao contrário de muitos outros leitores, não nutro nada contra as traduções literárias – sem elas não teríamos conhecimento da melhor literatura do mundo, não haveria qualquer influência mútua entre línguas e culturas, perderíamos boa parte da nossa capacidade de nos vermos e entendermos na pele do outro, nos mundos que à distância não necessitam de perder o seu mistério ou estranheza para que possamos sentir a pertença, que provavelmente também quer dizer, vagamente, universalidade. Edmund Wilson, que havia passado boa parte da sua vida rodeado de luso-americanos em Cape Cod e um dos críticos canónicos do modernismo do seu país, punha-se a aprender línguas (francês, russo, hebraico, húngaro – para ler o que mais despertava o seu interesse e curiosidade, e dizia que desconfiava sempre das traduções, de todas as traduções, e apontou em certa ocasião e publicamente como exemplo negativo o seu próprio amigo Vladimir Nabokov, quando este traduziu para inglês Eugene Onegin, de Alexander Pushkin. Claro que exagerava, e isso manteve-o alheio a algumas das melhores literaturas do mundo, inclusive a nossa e as de língua hispânica. Já no fim da vida, revia alguns dos seus preconceitos culturais, e lamentava-se não ter lido algumas obras latino-americanas que nos anos 70 do século passado já estavam muito presentes nos departamentos de línguas e literaturas de quase as universidades norte-americanas. Numa carta ao seu colega V. S. Pritchett, o ficcionista e ensaísta britânico, dizia que queria ler Eça de Queirós, mas, uma vez mais, não o fazia por desconhecer completamente a língua do nosso escritor. Ironicamente, ou talvez não, o filho de Wilson, e da nada menos conhecida escritora Mary MacCarthy, Raul K. Wilson, viria a tornar-se professor universitário de literatura comparada, e o Português é uma das línguas que conhece; quem sabe se ouvia uma ou outra palavra nossa dita por alguns luso-descendentes quando passava os verões com o pai em Wellfleet. Seja como for, suponho que outros no nosso país vivem o mesmo dilema quanto às suas leituras, que irá acontecendo cada vez mais, mesmo entre quem nunca viveu noutros países, mas conhece vários idiomas devido a afectos culturais electivos. São estas as nossas outras comunidades imaginárias – vividas ao longe e através da palavra, mas parte íntima do nosso modo de ser e estar. Não queria alongar-me mais nesta questão, só que o romance de James Salter merece inteiramente algumas destas considerações agora que está presente nas nossas livrarias à procura de leitores, que creio não ficarão desiludidos com a descoberta de um autor maior, e que no seu próprio país nunca esteve demasiado exposto à publicidade do costume, apesar de ter tido uma vida que lhe teria permitido um acto contínuo de auto-promoção. Aliás, também foi guionista de cinema, e o seu primeiro romance, The Hunters (1965), uma transfiguração da sua longa experiência no Pacífico durante a II Guerra Mundial e vida como piloto na Força Área Americana viria a ser a base do filme com o mesmo título dois anos depois, e com Robert Mitchum no papel principal.

Se o parágrafo introdutório aqui ameaçava correr em todos as direcções, o próprio romance All That Is/Tudo o que conta tem uma estrutura semelhante – é feito de curtos capítulos cujos títulos vão-nos indicando nomes de personagens, sítios, cidades, países, datas, ou incidentes numa só palavra resumidos ou insinuados. Desde algum tempo que não lia um volume com quase quatrocentas páginas de uma leveza extraordinária, sem que isso deixe de conter todas as significações imagináveis com que a sua linguagem caracteriza cada personagem, a marca de um acto literário que, mais do que qualquer unidade de vida do seu personagem ou das personagens que se atravessam nos seus percursos existenciais, nos faz recordar ou nos imprime na nossa memória cada um desses seres inventados, são eles que carregam em si, individualmente ou como parte de um todo que deve ser a construção de um imaginário convincente, tudo o que poderá definir esse suposto significado que devem ter as suas e nossas vidas. A narrativa inicia-se com o protagonista, Philip Bowman, em combate no Pacífico e vem até à primavera de 1984, numa cena irónica de mais um casamento, uma cerimónia que se repete, assim como outras contadas diversas vezes no romance, o amor e o sexo quase sempre em contradição. Tudo o que o narrador nos apresenta é feito dessas cenas meio solenes meio corriqueiras, quase todos sabendo de antemão o destino que lhes está guardado. Ante esta desintegração de sonhos na modernidade, os únicos relacionamentos estáveis vêm muito de trás, dos pais e avós destas personagens, recordados sempre como que em contraponto à liberdade infeliz do presente. Se as nossas vidas são feitas de pedaços que só em restrospectiva parecem significar algo no fim de cada um, esses pedaços tragicamente são “tudo o que conta”. O próprio Philip casa cedo com uma patricinha sulista de Virgínia, que conheceu num bar nova-iorquino nos anos de festa e ilusões do pós-Guerra, filha de uma aristocracia quase feudal, que passa o dia a correr a cavalo nas suas herdades, o que sabemos também logo à partida estar condenado ao falhanço. Este é um mundo de, como outros já apontaram, da classe branca, de uma América que deixou de existir há muito tempo, de uma sociedade que se dava ao luxo do dinheiro e do carreirismo como se mais ninguém viesse um dia a demandar a repartição do bolo. Curiosamente, James Salter era um judeu-americano de segunda geração, nos anos em que os intelectuais de Nova Iorque praticamente dominavam a cultura literária erudita, reinventando outras linguagens e pela primeira vez criando novos imaginários de uma literatura até então provinciana. No próprio romance, o narrador deixa cair ou insinua e disfarça alguns outros escritores de imediato reconhecidos pelos leitores mais atentos, visto que esse mesmo narrador assume aqui o papel de editor numa casa que poderá ser muito bem, na realidade, a Alfred A. Knopf, o próprio fundador dando o seu nome à editora, também judeu, virado para a literatura de qualidade, americana e europeia. Creio que tudo isto terá alguma importância no impulso temático deste romance por entre a desconexão de uma narrativa aparentemente espartilhada por acontecimentos e situações de personagens tão diferentes, a viver, quando fora do cosmopolitismo da grande cidade, a claustrofobia de divisões sociais e do isolamento numa sociedade em mutação constante, e alienada para além das festas alcoolizadas de uma boémia imitativa de outros tempos, e da própria literatura. A prosa de Salter levou alguns a assumir que uma das suas grandes influências teria sido Ernest Hemingway, pela escrita clara e austera, assim como Henry Miller (outro judeu-americano), pela também leve sensualidade na sua escrita. Salter diria que não, e destacava dois outros autores como referências suas – André Gide e Thomas Wolfe. Não deixa de ser interessante que Wolfe, um dos mais palavrosos romancistas do modernismo americano – e que Harold Bloom diria um dia, com todo o destaque do New York Times Book Review, que ele não tinha um naco de talento literário – ser reclamado por outros escritores judeu-americanos como influência decisiva, Philip Roth incluído. Wolfe reafirmava as suas raízes sulistas em confronto com a outra América, o que pode explicar a leitura empática que alguns desses escritores de descendência judaica fariam da sua obra, eles próprios empenhados a reinventar uma América à sua imagem e filosofia de vida, a rebeldia de quem quer sair das margens e cavar fundo o seu lugar no centro. De certo modo, é isso que se retém, acima de tudo, deste romance.

Tudo o que conta é esse outra continuidade, à sua maneira e com a subtileza de um James Salter, cuja experiência existencialista vai dos campos de batalha a uma vida intelectual e literária na cidade desde sempre associada ao melhor da literatura modernista do seu país, de romances como O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, e O Sol Nasce Sempre, de Hemingway – os americanos, dentro e fora da América, a encontrar e a tirar o pulso a um mundo que lhes era quase alheio, e que as conflagrações mortíferas da Europa lhes forçara a entrar em cena, a sua arte literária espelhando ora um novo país em busca de si próprio, ora o mundo como palco alargado das suas angústias e dos seus amores e desamores. Deixo aqui sugerido outro escritor que faleceu muito novo, nos anos 80, mas que me faz lembrar esta prosa de James Salter – o contista Raymond Carver. Ambos poupam a palavra para significar o indeterminismo e a irrealidade do mundo pós-moderno – que aturamos, mas que nos aflige tremendamente.

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James Salter, Tudo o que conta (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, Livros do Brasil, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 27 de Novembro de 2015.

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