O olhar para além das fronteiras – reais e imaginárias boderCrossings, 2

Capa BorderCrossings II (1)

Se há uma literatura de língua portuguesa que nos fala directa e comovidamente, é esta que tem saído dos Açores durante as últimas décadas, ou então a que às ilhas regressa vinda das mais longínquas geografias (…)

Vamberto Freitas, BorderCrossings: Leituras Transatlânticas II

Lélia Pereira Da Silva Nunes

Do território cultural dos Açores, mais precisamente desde a bonita praia do Pópulo, na Ilha de São Miguel, até para além das fronteiras Atlânticas, nos acostumamos a encontrar o olhar aberto, perspicaz e recorrente de Vamberto Freitas sobre a inquestionável existência da literatura açoriana, vista a partir de uma configuração estética de estruturas profundas da condição humana, assim como sobre a existência de uma literatura luso-americana que tematiza, sem deixar de problematizar, a vivência e a experiência da comunidade açoriana na América – “uma literatura da nossa imigração”, como bem clarifica o Autor na página vestibulanda do Prefácio deste boderCrossings:leituras transatlânticas II.

Trata-se de uma coletânea de ensaios da maior qualidade distribuídos por 342 páginas e concebidos à luz da produção literária sem limites geográficos de permeio, sem fronteiras nem amarras de qualquer natureza: tão somente a liberdade de cruzar espaços, o prazer, a felicidade de dar vida a uma escrita que tem como referenciais a memória coletiva, as experiências dos e/imigrantes e as ideias que captam o nosso tempo, circulam na sociedade em que vivemos e que identificamos como laços de pertença. Vamberto não “doura a pílula” e deixa claro aos desavisados que não escreve para agradar ou satisfazer a curiosidade de alguns sobre livros ou novos nomes em circulação no mundo. Novidade? Surpresa? Nada de novo nem surpreendente para seus leitores, que reconhecem sua escrita séria, contundente, inteligente e de grande lucidez quanto a tudo em que acredita, defende e transmite como professor, jornalista e escritor. É o que é – voz firme a fomentar a difusão de uma nova geração de escritores que se apresentam como “escritores luso-americanos” e a divulgar toda a produção literária dos últimos vinte anos “nas duas margens” atlânticas. Autêntico, intenso, profundo é como defino “borderCrossings: Leituras Transatlânticas 2”, verdadeira arte literária no lavrar a palavra liberta, vibrante, culta que, de maneira singular, ecoa o seu poder de sedução na escrita, no discurso crítico, na extrema sensibilidade ao confessar que a literatura transfronteiriça – como representação identitária de um povo ou país – é o pilar mestre de sua escrita crítica (p.19).

Reitero o que já afirmei em outras oportunidades. Sim, Vamberto Freitas escreve com domínio absoluto sobre a Literatura Açoriana como a Literatura produzida na Diáspora. Escreve com estilo próprio, mundividências, esbanjando cultura e verdade, dando visibilidade à criação, aproximando geografias de nossos afectos e a transnacionalidade cultural e histórica, de forma persistente. Nesta cartografia que assim se desenha é inegável a trama imbricada entre literatura, sociedade e cultura na representação do real e no desvendar o imaginário ao longo do tempo e do espaço. Se, por um lado, a literatura é o alto-falante a transmitir a inquietude social, a constante mutação da sociedade e a inovação do pensar, por outro está a cultura como força inovadora, factor de entendimento da sociedade, reveladora das expressões criativas e salvaguarda da memória colectiva – a Identidade Cultural. Há uma associação perfeitamente visível nesta sua colectânea de ensaios e resenhas sabiamente agrupados por convergência de temas e enfeixados sob a égide de leituras transatlânticas: “Literatura e Açorianidade,” “Diáspora e Açorianidade”, “Imaginários Americanos” e “Brasil Próximo e Distante”. Afinal, em recente troca de e-mails, o próprio Vamberto declara que “essa de literatura e sociedade é para mim o ponto de partida desde sempre.” Está dito e bem.

Observem. É no universo das suas análises, na escrita ensaística, no diálogo cultural e no debate plural e geracional que este seu jeito de encarar a sociedade se faz presente de forma vigorosa. Ao ler a sua recente publicação no blogue Nas Duas Margens, intitulada “Uma revisitação à memória poética de David Oliveira”, dei de cara, já nas primeiras linhas, com esta afirmação: “Se a literatura também nos leva eventualmente a um melhor entendimento de nós próprios, do nosso tempo e do nosso lugar, a presença do poeta luso-americano David Oliveira é-nos (ou deveria ser) uma outra referência de beleza e ‘verdade’.” Marca extraordinária da sua escrita contundente, por vezes num tom de rebeldia, numa subtil ironia, o Autor fica a desafiar-nos a segui-lo para além das fronteiras reais ou imaginadas.

Não sou caudatária e nem peco por exagero de definição ao dizer que o olhar interpretativo de Vamberto Freitas tem muito da maneira de ver a sociedade inerente ao mais importante crítico da literatura do Brasil, o mestre Antônio Cândido (1918), autor de Formação da Literatura Brasileira (1959) – um grande esclarecedor das relações entre literatura e sociedade. Lidar com essa teia de complexidades que é a interacção social sempre foi a sua inspiração. Os textos de borderCrossings 2, tal qual já ocorria no primeiro volume, publicado em 2012, contemplam a diversidade de gêneros literários (ficção, poesia e ensaio). São textos que saíram nas colunas “borderCrossings” (em Açoriano Oriental), “Nas Duas Margens” (em Portuguese Times) e no seu blogue “Nas Duas Margens” entre os anos de 2011 e 2013, textos com grande mobilidade discursiva. Ora chegam como um tsunami cultural, em ondas gigantescas que vão de roldão até a praia. Protagoniza polémicas. Provoca-nos. Ora é mar sereno a deslizar macio até beijar a cálida areia. Exala sensibilidade. Comove-nos. Salvo melhor juízo, seu compromisso é unicamente com a boa literatura produzida nos Açores e para além das fronteiras arquipelágicas, nos espaços da diáspora desde a América do Norte ao extremo Sul do continente. Para rematar, quero chamar a atenção para a margem de “cá”, o meu Brasil. A maioria dos textos seleccionados por Vamberto Freitas fala de uma realidade muito próxima e sobejamente conhecida dos açorianos onde quer que estejam. Entretanto, na última parte de borderCrossings II o Autor abriu uma avenida imensa, contagiante, quase uma Sapucaí em dias de Carnaval e por ela deixou passar a sua escrita vestida de apaixonada brasilidade – “Brasil Próximo e Distante” traz ensaios de grande beleza a falar-nos da arte literária do mestre Rubem Fonseca em Bufo & Spallanzani (2011), da iluminada Angela Dutra de Menezes no impagável O Incrível Geneticista Chinês (2012), do professor George Monteiro em Elisabeth Bishop in Brazil and After (2012), da narrativa histórica de Lucas Figueiredo no interessante A Última Pepita: Os Portugueses e a Corrida ao Ouro do Brasil (2012), do jovem autor português Paulo José Miranda, no curioso romance Filhas (2012) que, tendo por cenário Florianópolis, interliga gerações desde o povoamento açoriano em terras de Santa Catarina, e, para encerrar, a admirável produção literária inovadora de Luiz António de Assis Brasil em Figura na Sombra (2012), o último romance da série histórica dedicada aos “Visitantes do Sul”.

Termino lembrando a velha e batida citação do escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948): “Um país se faz com homens e livros”. Sem dúvida, Vamberto Freitas, na sua arte literária, faz (e sempre fez) a sua parte. Por caminhos do mar, traçou sua rota na incansável aventura de construir pontes e olhar para além das fronteiras – reais e imaginárias.

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Vamberto Freitas, BorderCrossings: leituras transatlânticas II, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014. Ensaio publicado na coluna “Pedra de Toque” no Açoriano Oriental de 22 de Dezembro de 2015.

Eugénio Lisboa, e a memória dos dias portugueses

Capa Acta Est Fabula

Na minha idade, o que menos que me convinha era assistir a mais uma revolução. Mas a tentação é grande, só para ver metidos na pildra, sumariamente, alguns destes meninos.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula

Vamberto Freitas

Por certo que as palavras de Eugénio Lisboa citadas aqui não transmitem de modo algum o centro do que são os temas predominantes do V volume das suas memórias, Acta Est Fabula: Regresso a Portugal (1995-2015). Por outro lado, essas palavras resumem perfeitamente o estado de espírito do autor não só enquanto escrevia as páginas que agora tenho aqui à minha frente, como descrevem o estado em que Portugal se encontra desde há décadas a esta parte. Eugénio Lisboa regressa a Portugal depois de ter vivido e trabalhado em Londres durante 17 anos como Conselheiro Cultural da nossa embaixada naquela cidade, e muito depois de ter deixado Moçambique, a sua terra de nascença, em 1976, nas condições que bem sabemos. Aos 85 anos de idade, um dos nossos mais proeminentes escritores tem esse direito – e dever – de também denunciar a sua sorte num livro que dá conta da uma vida ao serviço da nação, em várias frentes. O seu passado na ex-colónia africana está documentado em volumes anteriores destas memórias e escritas-outras. Com a sua chegada permanente ao nosso país, seria ainda Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, Professor Catedrático Visitante na Universidade de Aveiro, e participante constante em inúmeros encontros literários e culturais nos mais diversos países, sempre em defesa e divulgação do que é nosso, do que é o nosso melhor e o menos corrompido. A memória colectiva de um povo reside aí, nas suas artes, na sua literatura, nas suas academias, nenhuma destas instâncias da realidade ou da imaginação, no entanto, aqui como em toda a parte, livres dos roedores parasitas escondidos nas suas brechas. Um escritor, pois, fala de si e das circunstâncias em que escreve as memórias de um percurso intelectual, as memórias que vão muito além de si próprio, debruçando-se constantemente sobre todos os outros que deram forma e sentido à sua existência numa vida constantemente examinada, avaliada, contextualizada. Antes de mais, pois, seria um lapso de enorme desonestidade literária ignorar esse estado de espírito num preciso momento, que suspeito afligir muitos mais para além de Eugénio Lisboa. “Pilhar muito e depressa, do mesmo passo que se aconselha às vítimas as virtudes cristãs da pobreza resignada é o breviário por que se regem os que actualmente nos desgovernam. Nunca tantos foram tão roubados por tão poucos”. Portugal eterno. Os que nos “desgovernam” são herdeiros longínquos e de redobrada esperteza.

Este volume de Acta Est Fabula intercala a prosa narrativa de Eugénio Lisboa com abundantes entradas do seu diário correspondente aos vinte anos aqui relatados. É um recurso formal que nos conta o mais memorável dos dias vividos, e desperta no leitor a vontade de agora ler o diário integralmente, algo que nos está prometido. Vejo nesta opção do autor uma vantagem que reforça a “verdade” desses dias e andanças dispersas, dando-nos não a memória irremediavelmente selectiva com a passagem dos anos e de outros acontecimentos, que tendem a anular ou acrescentar sub-conscientemente ao que na realidade foi experimentado, vivido ou sentido, e sim a sua reacção ou pensamento imediato ao que então o envolveu. São páginas fulgurantes pouco comuns entre nós, o falso pudor da maioria dos nossos escritores impede-os de confessar publicamente o que reservam para as mesas dos cafés e outros redutos de má língua e ressentimento. Mais do que isso, Eugénio Lisboa demonstra como a vida de um escritor não precisa de ser a chateza do dias e das noites. Um mero encontro com um livro inesperado numa estante qualquer, uma conversa relaxada e que vá além do último mexerico na república das letras, a visita a um museu, a assistência a uma peça de teatro ou musical, tornam-se tão relevantes e apetecíveis como uma viagem ao país mais desconhecido ou falado. É-me essencial ler Eugénio Lisboa também por estas razões – a vida da mente, a vida intelectual e literária como centro de um percurso totalmente dedicado à contínua reinvenção da Tradição criativa de uma língua global e cultura erudita que contêm em si mais relevância e consequência do que toda a política de um país, ou de que todo o ruído falsamente ideológico. O autor diz-nos a dada altura que numa viagem ao Peru leu num jornal citadino a resposta de um escritor à maldita pergunta de “para que serve a cultura?”, também muito comum entre nós. Serve, respondeu o articulista, para que esta pergunta nunca mais seja feita. Eugénio Lisboa tenta separar aqui a noção de autobiografia e memórias, mas felizmente a sua prosa conjuga os dois géneros perfeitamente. Não é necessário contar-nos pormenorizadamente “os factos”, relembrando aqui Philip Roth, naturalmente noutro contexto e por outros motivos literários. As reacções de Eugénio Lisboa às inúmeras figuras familiares, políticas, intelectuais ou do mero acaso que se cruzam na sua vida dizem-nos mais sobre a sua pessoa do que qualquer informação fria sobre si, ou sobre seja quem for. Só um mestre da escrita consegue estes efeitos nos leitores, transpor para o lado de fora os seus estados interiores nas mais variadas situações, nos mais inesperados acontecimentos, ante qualquer interlocutor ou descoberta no vasto campo das artes. Outra grande virtude de memórias escritas numa determinada fase da vida, em que todas as “dívidas” já foram pagas, todas as ambições concretizadas, ou mais realisticamente, ultrapassadas, todos os fretes agora absolutamente desnecessários: as “verdades” relevantes para a sua obra literária estão aqui sem reticências, tudo quanto, para nós leitores, explica ou formaliza o seu lugar numa cultura que se estende por vários continentes e ilhas fica devidamente contextualizado. Entre nós, algumas destas questões raramente vão além do paroquial e do pateticamente tido como sendo imortal, tudo reduzido a dois ou três nomes em cada época lusa. Eugénio Lisboa é-nos a voz rara que está simultaneamente nas margens e no centro, vendo ora árvore na floresta, ou a floresta com todas as suas árvores. Poderá residir há muitos anos ali nos arredores, mas para ele há, sempre houve, mais vida criativa na língua portuguesa noutras geografias longe da nossa capital, e de Coimbra mais acima. Eugénio Lisboa não escreve como um cosmopolita de fabrico nacional – ele é um dos símbolos vivos do cosmopolitismo autêntico, esse que viveu e se sente em casa no mundo, nunca esquecendo as suas origens, neste caso moçambicanas e ancestrais na terra portuguesa.

Acta Est Fabula é um livro de ternura ante família e amigos em Portugal e em toda a parte, e um delicioso ajuste de contas com muitos outros, especialmente certos escritores da nossa praça, para quem o seu umbigo era e é o centro do universo, os que, em retrospectiva ou na actualidade têm dado ou dão muito menos do que a sua imaginação tenta impor. A prosa de Eugénio Lisboa é outra lição de como a linguagem escorreita e de semântica clara se torna arte pura na exposição ou discussão de qualquer tema, por mais complexo que seja. Um dos sinais de um grande escritor é nunca temer os outros, em qualquer língua, nunca deixar de homenagear aqueles ou aquelas que o próprio autor considera seus mestres ou referências essenciais. Dos seus gostos e paixões já sabemos de outros volumes destas memórias. Mesmo assim, Eugénio continua deixando cair passo a passo as suas leituras, os seus outros autores de eleição, em literatura de diversos géneros e temas, os thrillers em língua inglesa sempre presentes nos dias ou momentos de descontração. Vai fazendo o leitor sorrir quando menciona um desses nomes de literatura de aeroporto, e o que pensariam certos “sofredores” da nossa praça, especialmente Vergílio Ferreira, sendo que lhe serve mais frequentemente de gozo sem negar o seu valor literário entre nós, fazendo-nos sorrir em reconhecimento sem desrespeito, relembrando-nos das obsessões do autor de Manhã Submersa pelos prémios literários, que nunca eram suficientes para este e para uns tantos escritores lusos. Sobre outros ainda, como com Eduardo Prado Coelho, mesmo depois da sua morte, não poupa uma letra no seu desdém qualificativo. Não esqueçamos que Eugénio Lisboa pertence a um grupo único na nossa literatura desde meados do século passado até aos nossos dias: os escritores que por razões políticas ou sorte de nascimento e circunstâncias históricas são considerados “estrangeirados”, e cujos nomes, de Adolfo Casais Monteiro a Hélder Macedo são bem conhecidos, todos os eles, queiram ou não os que de cá nunca saíram, ocupando um espaço indelével no nosso cânone literário. Em todas estas questões, Eugénio Lisboa sempre desconsertou os arranjinhos domésticos na nossa feira de vaidades, literárias e académicas. Por fim, expressa a melancolia que é fazer um balanço de uma vida bem vivida, e que continua a ser um ponto de honra nas nossas letras. “O volume V das minhas memórias – escreve já em Abril deste ano – aproxima-se do fim. E ocorre-me tudo quanto lá deveria ter posto e não pus. O que mostra como a nossa vida, na sua riqueza, não cabe nunca, no papel de um livro, mesmo avantajado. Fazemos o que podemos, mas podemos pouco”.

Pouco? Deixe esse juízo com os seus leitores. Eles também vão achar isso, mas por razões diferentes da sua. Resta-nos mais um volume destas memórias, e depois, pelo menos ainda, o diário no seu todo. É muito, afinal – e é do melhor da nossa literatura.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula. Memórias – V – Regresso a Portugal: (1995-2015, Guimarães, Opera Omnia, 2015. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 18 de Dezembro de 2015.

Uma revisitação à memória poética de David Oliveira

capa In The Presence of Snakes

How could I have known/I would remember you/in the breath of brandy and coffee?/Como saberia eu então/que te recordaria/no hálito de brandy e café?

David Oliveira, In The Presence of Snakes

Vamberto Freitas

Se a literatura também nos leva eventualmente a um melhor entendimento de nós próprios, do nosso tempo e do nosso lugar, a presença do poeta luso-americano David Oliveira é-nos (ou deveria ser) uma outra referência de beleza e “verdade”. Nascido na pequena cidade de Hanford, no Vale de São Joaquim, antigo aluno do grande poeta Philip Levine, que leccionou na California State University, em Fresno, ali ao lado, as suas andanças levaram-no às mais próximas e longínquas geografias dos seus afazeres e afectos, tendo residido durante muitos anos em Santa Bárbara, a cidade onde também viveu, leccionou e escreveu durante muitos anos Jorge de Sena, e cujo campus da California University alberga desde há muito o importante Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, a Phnom Penh (Camboja), onde creio também ter ensinado a língua inglesa. Nem todas as terras distantes (quando vistas aqui das “margens” atlânticas) nos são estranhas ou desligadas das nossas próprias tradições e actualidade cultural e criativa, por mais desconhecidas que sejam as vozes da nossa Diáspora em toda a parte. David Oliveira foi um dos directores (entre outras actividades editoriais) da prestigiada revista de poesia Solo (assim como tem colaboração noutros periódicos temáticos, como American Review, Cafe Solo, Poetry International e Third Coast), e com presença em várias antologias, duas das quais sob os títulos de How Much Earth: The Fresno Poets e Geography of Home. Em 2000, fez sair In The Presence of Snakes/Na Presença de Víboras, tendo ainda no ano seguinte participado activamente (com a leitura dalguns dos poemas do mesmo livro) no Colóquio da Yale University, “Portuguese-American Literature: The First One-Hundred Years”. A poesia de David Oliveira foi, para mim a partir desse convívio, inesquecível e um dos mais gratificantes momentos com a nossa literatura em língua inglesa. Na altura falei muito pouco com ele, e nunca mais o encontrei ou com ele comuniquei por outras vias, mas da sua presença em Yale deduzi então que se identificava inteiramente com esse outro mundo da sua ancestralidade, e que não iria desdenhar este meu chamamento da sua pessoa e obra ao rol de escritores e poetas que, na América do Norte, estão a construir todo um imaginário literário e cultural também, repita-se, muito nosso.

Antes de mais, devo dizer que o Vale de São Joaquim é para mim uma das íntimas e significantes geografias. Para além de ser essa mítica terra da imigração açoriana na América do Norte, é lá onde desde há muito vive praticamente toda a minha família imediata, incluindo a minha filha, Vanessa, precisamente na cidade natal do poeta aqui em foco. Vivi lá pouco mais de um ano, em Porterville, a cidade ou zona rural de outro escritor luso-americano, Anthony Barcellos, autor do belíssimo romance The Land of Milk and Money, e com quem andei na escola primária local, mas era para o Vale que eu viajava a alta velocidade quando sentia a solidão das grandes áreas de Orange County e de Los Angeles, onde estudei, vivi, e trabalhei durante mais de um quarto de século. Ainda hoje quando regresso (cada vez menos) aos Estados Unidos, raramente me aventuro para fora dos meus e dessas pequenas cidades onde residem. Se um dia (possibilidade muitíssimo remota) eu voltasse a viver na América, não tenho a mínima dúvida que seria na companhia da minha gente, quase todos eles os meus significant others, nesse outro “território do coração” onde também estão enterrados, como no título do romance da luso-canadiana Erika de Vasconcelos, alguns dos “meus queridos mortos”. Por outras palavras, ou como escreve muito mais artística e eloquentemente David Oliveira no seu poema intitulado exactamente “San Joaquim”: it is your good luck/to always be in a place where things grow/é a tua sorte/estares sempre num lugar de onde as coisas brotam. São estes, bem sei, os sentimentalismos das minhas mais comoventes memórias, mas desde há muito que deixei de pedir desculpa, a mim próprio e aos outros, por esta e outras coisas mais. Não há açoriano sem mar em si, não há português sem memória diaspórica.

In the Presence of Snakes é feito de uma sequência de poemas admiráveis a todos os níveis linguísticos e imagísticos. Na simplicidade dessas linguagens que escondem os mais profundos abalos do coração e de um quotidiano de encontros e desencontros, de gente e coisas vistas ao longe e muito de perto, David Oliveira intercala o que parece ser pura autobiografia (à boa maneira do confessionalismo poético anglo-saxónico, que tem no centro do cânone americano Robert Lowell e Sylvia Plath, entre uns poucos outros) com os chamamentos às histórias familiares e de uma mítica do grupo a que pertencem por nascença, e que lhe foram transmitidos oral e comoventemente por pais e avós, nas cozinhas ao cheiro da sopa de couve ou nos campos cultivados de pastagens. Recria assim todo um mundo de afectos, gostos e perplexidades. Alguns outros escritores luso-americanos já nos habituaram à dualidade da sua condição existencialista, em que religiosidade e ancestralidade imigrante são outros dois grandes referenciais de toda a sua experiência; alguns deles leram os nossos escritores e poetas canónicos, Fernando Pessoa figurando quase sempre como ponto de partida (Katherine Vaz e Frank X. Gaspar, por exemplo) para a sua existência dupla entre-mundos, tão diferentes como o português e o norte-americano, mas tão apaixonadamente vividos e memorializados. Não há escritores modernistas americanos, aventuraria aqui, sem Walt Whitman dentro de si, sem a presença de “multitudes” na sua consciência, sem a presença do outro dentro de si. Na poesia de David Oliveira, essas nossas referências literárias poderão não ser topadas no imediato, mas povoam os seus poemas, por sua vez, todos os que, encerrados nos ranchos californianos, lhe iam transmitindo todo um modo de ser e estar que para sempre serviu como guião-de-vida fundamental. As sequências do poema “Stations of the Cross/Via Sacra”, que abre In The Presence of Snakes, são seguidas dos não menos maravilhosos “No Vinho a Verdade”, o já referido “San Joaquim” e, uma vez mais, “In the Presence of Snakes”, entre um conjunto de outros versos que constituem uma esplêndida narrativa do eu e do nós na sua poesia. Em quase todos estes poemas consta a figura do avô açoriano (da Terceira), herói e sábio que, na companhia de outros, (re)construiu uma nova “pátria”. Os três versos que reproduzo aqui como epígrafe são a ele, a esse patriarca de linguagens provavelmente recortadas e múltiplas, que aludem. À memória dessa fecunda ruralidade junta-se agora o cosmopolitismo descomplexado de David Oliveira, sempre em errâncias de múltiplas descobertas, que nunca excluem os retornos aos seus e aos tempos perdidos. A palavra escrita como um nunca esquecido país-outro, a reinvenção do passado, a emoção revivida. Trata-se de uma poesia de rítmica fulgurante, de invocações (celebrações, melhor dito) constantes à sensualidade do corpo e da vida, de outros modos ainda e sempre repartida, numa luta intelectual e artística contra a passagem do tempo e o desfasamento de um presente sempre incerto, frequentemente (inevitavelmente) alienante. De “No Vinho a Verdade”, no qual o avô lhe oferece o seu primeiro copo (Wine always tastes like this./In time, we get used to it/O vinho sabe sempre assim/Com o tempo habituamo-nos a ele), o poeta regressa à sua memória na última estrofe do memorável “In the Presence of Snakes”, que dá o título ao livro – I speak your name in the presence of snakes/and we stand together again/Digo o teu nome na presença das víboras/e voltamos a estar juntos.

Falta-me só dizer aqui da fina ironia noutros poemas deste livro, e da ternura em quase todos eles. David Oliveira demonstra aqui ser mais um herdeiro autêntico da melhor poesia, digamos, “vivencial” e, simultaneamente, erudita da tradição norte-americana desde o já referido poeta de Folhas de Erva e T. S. Eliot até aos melhores dos nossos dias. Diga-se, sempre que necessário, enfaticamente, que o autor de In the Presence of Snakes passa também a pertencer inteiramente ao espólio e à memória criativa da nossa Diáspora. A sua obra inclui outros títulos, como A Little Story e A Near Country.

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David Oliveira, In the Presence of Snakes, Santa Barbara, Brandenburg Press, 2000. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Parte deste texto foi readpatado e actualizado a partir de um ensaio meu publicado noutra parte. Publcado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 11 de Dezembro de 2015.

BorderCrossings: leituras transatlânticas III

Contracapa BC III

O estilo de ensaísmo que Vamberto cultiva, com invulgar força e brio, torna-se, para nós, ao longo da leitura destas páginas transatlânticas, em que sonda valores literários, culturais e éticos, em variadas latitudes e longitudes, uma garantia fiável de que nos podemos entregar, sem desconfiança, ao seu discorrer desempoeirado, clarificador, pleno de luz e de prazer (do texto).

Eugénio Lisboa, JL

A aproximação analítica aos livros dos outros faz com que Vamberto Freitas seja, de forma indiscutível, o nosso crítico mais atento, mais ecléctico, melhor informado e também o que melhor domina ferramentas que permitem a dissecação do texto, para proporcionar melhor leitura e melhor entendimento, sem que o seu ponto de vista fique maculado por qualquer pragmatismo.

Álamo Oliveira, Tribuna Portuguesa

Por isso é que BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras.

Santos Narciso, Atlântico Expresso

Em suma, Vamberto Freitas tornou-se um dos mais distintos intelectuais açorianos dos séculos XX e XXI. O seu contributo na afirmação dos estudos culturais açorianos como ‘estudos étnicos’ conferiu-lhe um papel destacado tanto nos Açores, como na diáspora.

Pilar Damião de Medeiros, Gávea- Brown

Enquanto muitos se refugiam sob a cinzenta teoria, já relativizada por nada menos que Tzvetan Todorov em La Littérature em péril, as melhores mentes críticas – e aí está Vamberto – preferem enfrentar as ousadias da originalidade e do chão virgem. Seu tema preferencial é a análise crítica de obras da lusitanidade, na medida em que se imbricam com a açorianidade literária (…) BorderCrossings é um feito intelectual que merece o olhar atento de quem estuda a literatura de nossa língua e, ainda, é o mais completo painel de uma produção artística que reafirma, mais uma vez, a colorida diversidade de que é capaz a lusofonia.

Luiz Antonio de Assis Brasil, JL

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*A ser lançado no dia 18 de Março de 2016, na Livraria Leya/SolMar, em Ponta Delgada.

Enquanto Salazar morria

Capa O Coro dos Defuntos

A televisão, nos seus noticiários e nas suas imagens, deixava perceber que o caixa-de-óculos andava com um ar triste. Os homens percebiam-no, entre dois carapaus fritos poisados numa fatia de broa e um copo de branco.

António Tavares, O Coro Dos Defuntos

Vamberto Freitas

O caixa-de-óculos acima mencionado é Marcelo Caetano numa das suas Conversas em Família, e já muito perto do fim dos seus dias em São Bento e da singular narrativa que é este Coro Dos Defuntos, de António Tavares, vencedor do Prémio Leya 2015. Estamos nos anos entre 1968 e Abril de 1974, com parte da sociedade portuguesa, pois, entre os séculos XV e XX, numa incompreendida guerra activa longe de casa e, em parte, na sonolência de uma ruralidade ainda medieval, onde os lobos uivam, os homens plantam o sustento e bebem carrascão na taberna local, as mulheres dentro de casa espreitando ensimesmadas por detrás do cortinado o pouco do seu mundo no exterior de ruelas de terra batida algures no interior do país — do país, mais precisamente, de Aquilino Ribeiro. Creio que muitos de nós já não estávamos habituados à ficção da nossa ruralidade, à transfiguração da vida de um povo encurralado entre serranias e mar, num pequeno país governado pela tradição católica e pela ditadura de uma classe dominante à beira-mar sentada, espoliando a riqueza dos outros lá longe, e fazendo de conta que para além de Lisboa e de duas ou três cidades não haveria mais ninguém, a não ser os filhos da terra perdida que agora eram chamados a morrer em nome de uma pátria que também lhes era mais imaginária do que real. Só na representação uma realidade toma os seus contornos mais claros, só na representação nos tornamos conscientes da comédia ou da tragédia que nos coube viver ou assistir, mesmo que sejamos os seus personagens mais importantes. O escritor americano James Salter dizia na sua própria ficção que só as coisas escritas “tem alguma possibilidade de ser reais”. Há todo um país em nós que parece nunca ter existido, ou então o esquecimento dá inevitavelmente lugar ao mito, em que a verdade pouco interessa, ficando só a memória que nos vão – vamos — reinventando para um ajuste contínuo de uma nada menos mítica identidade nacional que teve de se diluir num mundo novo, que nos chegou tardiamente, e que só a arte, particularmente a literária, agora recorda e sugere nos seus infindáveis contornos, formas, significações e interpretações múltiplas, o dialogismo entre uma realidade e outras sendo uma constante da melhor literatura, a que tem a sociedade, a vida comunitária, como tema central. Não há povo nenhum que não tenha de saber quem é e o lugar que ocupa, ou pensa que ocupa, no concerto do mundo – mesmo que esse outro mundo para além dos seus horizontes seja mais da imaginação do que de geografias reais e histórias-outras. No então começo da mediatização das nossas vidas num Portugal profundo (como no Portugal insular), esse espaço começa a ficar muito mais perto do que qualquer uma das cidades logo alí no outro lado dos montes. “Na aldeia – diz o narrador deste romance na precisa altura em que se vê o primeiro-ministro “com um ar triste” numa televisão ainda pouco clara e tremida – “sabia-se mais sobre as visitas do homem e respectivas taregas ao espaço do que sobre a vida das terras vizinhas, para não falar do resto do país ou do mundo”. É certo que falar destas questões já nos parece algo anacrónico, inexistente, até que uma bela peça literária, como este Coro Dos Defuntos, apareça com toda a beleza de uma linguagem própria – deliberadamente em diálogo directo, recorde-se, com um Aquilino Ribeiro, que poucos já lêem, ao que consta – e uma sucessão de imagens e metáforas que recriam com maior cor e clareza um pedaço desse Portugal que permanecia escondido e totalmente ignorado até aos nossos dias. A fantasia do nosso cosmopolitismo citadino assim preferia, e prefere. Li há anos uma autora lisboeta que disse numa crónica de jornal que, ao atravessar o Tejo até à margem sul num domingo de tédio, tinha encontrado um “outro país”.

Li O Coro Dos Defuntos com dois outros romances constantemente em mente, pela proximidade nas suas originalíssimas invenções – ou, por vezes , “transcrições” linguísticas para que melhor possamos ouvir os seus personagens que nos parecem vir de e pertencer a mundos paralelos, mas desconhecidos: O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, e um recente romance do terceirense Dimas Simas Lopes, O Mistério do Porto do Norte. Em qualquer um deles, temos recantos isolados, que servem de metáfora do restante país, o país que fomos e somos, e, porventura, gostaríamos de não ser. A grande diferença entre uma verdadeira classe culta e uma de trepadores sociais e profissionais a qualquer custo é que a humanidade nunca é, nunca pode ser, menosprezada, é vista como parte de uma sociedade que tanto é construtora como vítima do seu próprio destino, de uma história cujas circunstâncias nos trazem ao sítio que habitamos, nos fazem o povo que somos. Estes são os romances de momentos de transição da nossa vivência, da nossa assimilação de uma modernidade inescapável num planeta que desde os meados do século passado não deixa ninguém escondido ou intocado. Os narradores são quase sempre homens que tentam ver o fio condutor da reinante teia quotidiana, em retrospectiva, surrealista e submersa nas mais desvairadas crenças que um catolicismo primitivo requeria e impunha, permitindo a esses nossos escritores o recurso ao realismo mágico, à fantasmagoria de comunidades regidas por uma governação do medo, em que o questionamento vem sempre de um ou uma personagem, de imediato marginalizada ou difamada pelos poderes que durante séculos vigiaram e controlaram esses seus súbditos, voluntariamente reduzidos à insignificância de servidores braçais. Em todas estas narrativas, vemos como vão chegando as forças da libertação, mesmo a daqueles que não se sabem aprisionados de nada e ninguém, os seus dias totalmente vividos entre a terra e a taberna, as suas visões do mundo um chorrilho de disparates cuja comédia para o leitor está precisamente na criatividade com que se inventa e imagina tudo o que fica ao longe, fora da vista. Os indícios das grandes mudanças definitivas, radicais, destas vidas chegam das mais variadas formas, sempre vindas de quem percebe um burgo à espera de ser explorado com a venda de tudo que lhe é estranho, e mais ainda pelos personagens que se atrevem a sair em busca de algo no outro lado do monte, trazendo a notícia de “estranhos” modos de se ser e estar. Não há país nenhum no continente europeu que não tenha vivido este percurso histórico, todas as suas grandes literaturas espelharam e espelham a caminhada de cada povo rumo ao presente. Em O Coro Dos Defuntos, vemos e ouvimos a desintegração de toda uma sociedade (“este gajo anda à rasca”, diz outra figura do caixa-de-óculos na televisão), a chegada da manhã em Abril com a tropa a caminho de Lisboa.

Cavar, lavrar, semear, eram rituais – relembra o narrador numa linguagem mítica, bíblica, pouco antes de chegar, ou do que sabemos estar a chegar à aldeia, sem que os seus habitantes estejam inteiramente conscientes disso – de vida e de morte, mais do que a busca do sustento. Assim volviam as estações e os ritos prosseguiam, sempre para manter a aldeia e o solo vivo. E morriam os homens como o faziam as árvores e as plantas, os bois e as ovelhas e os restantes animais. Nada de mais natural. Tudo se resumia a esta ideia simples, a este princípio tão antigo como a própria vida., tão milenar como os instrumentos e os modos que se usavam. A avó partilhava, sem o saber e sem nunca as ter ouvido, as ideias do Manuel Rato e do filósofo Espinosa”.

Manuel Rato é o personagem rebelde, o filósofo que tem Espinosa, o judeu português de Amesterdão, e o alemão Johann Gottlieb Fitche como duas referências de vida e ensinamentos. Vai à América algumas vezes, onde trabalha como jardineiro, tornado-se uma espécie de teórico da estética da natureza, mas abandona-a sempre para regressar às origens. Aliás, o humor é uma constante deste romance, quer nos incidentes relatados quer na construção deste e de outros personagens. Nada é visto aqui como tragédia, mas sim como a simples passagem do tempo, a comédia humana a forma primeira da sua sobrevivência, o riso ante a estranheza de tudo que vai acontecendo, ou, uma vez mais, imaginado. Toda a informação é relatada ao narrador pela neta da mulher do regedor da aldeia, pois é ela e o padre que conheciam todos os segredos e malabarismos do dia a dia na existência destas almas entre a vida e a morte. Vamos acompanhando a azáfama e a modernidade no outro lado destas terras encurraladas pelas referências a nomes reais da história e da política daquela época, e as manifestações de cultura popular que vão aparecendo no pequeno e único ecrã televisivo do ponto de encontro local. “O rapaz da trova E depois do adeus foi cantá-la a Brighton, ao concurso da Eurovisão, e perdeu”.

O Coro Dos Defuntos relembra-nos e dá continuidade ainda a uma longa tradição literária que tem a nossa ruralidade como palco cómico da nossa dormência histórica, reafirma que a nossa literatura continua para além de um existencialismo citadino, cuja claustrofobia de homens e mulheres nos seus pretensos subterrâneos é tão ou mais cansativa do que a liberdade da loucura e da imaginação.

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António Tavares, O Coro Dos Defuntos, Lisboa, Leya, SA, 2015. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental na sua edição de 4 de Dezembro de 2015.