Enquanto Salazar morria

Capa O Coro dos Defuntos

A televisão, nos seus noticiários e nas suas imagens, deixava perceber que o caixa-de-óculos andava com um ar triste. Os homens percebiam-no, entre dois carapaus fritos poisados numa fatia de broa e um copo de branco.

António Tavares, O Coro Dos Defuntos

Vamberto Freitas

O caixa-de-óculos acima mencionado é Marcelo Caetano numa das suas Conversas em Família, e já muito perto do fim dos seus dias em São Bento e da singular narrativa que é este Coro Dos Defuntos, de António Tavares, vencedor do Prémio Leya 2015. Estamos nos anos entre 1968 e Abril de 1974, com parte da sociedade portuguesa, pois, entre os séculos XV e XX, numa incompreendida guerra activa longe de casa e, em parte, na sonolência de uma ruralidade ainda medieval, onde os lobos uivam, os homens plantam o sustento e bebem carrascão na taberna local, as mulheres dentro de casa espreitando ensimesmadas por detrás do cortinado o pouco do seu mundo no exterior de ruelas de terra batida algures no interior do país — do país, mais precisamente, de Aquilino Ribeiro. Creio que muitos de nós já não estávamos habituados à ficção da nossa ruralidade, à transfiguração da vida de um povo encurralado entre serranias e mar, num pequeno país governado pela tradição católica e pela ditadura de uma classe dominante à beira-mar sentada, espoliando a riqueza dos outros lá longe, e fazendo de conta que para além de Lisboa e de duas ou três cidades não haveria mais ninguém, a não ser os filhos da terra perdida que agora eram chamados a morrer em nome de uma pátria que também lhes era mais imaginária do que real. Só na representação uma realidade toma os seus contornos mais claros, só na representação nos tornamos conscientes da comédia ou da tragédia que nos coube viver ou assistir, mesmo que sejamos os seus personagens mais importantes. O escritor americano James Salter dizia na sua própria ficção que só as coisas escritas “tem alguma possibilidade de ser reais”. Há todo um país em nós que parece nunca ter existido, ou então o esquecimento dá inevitavelmente lugar ao mito, em que a verdade pouco interessa, ficando só a memória que nos vão – vamos — reinventando para um ajuste contínuo de uma nada menos mítica identidade nacional que teve de se diluir num mundo novo, que nos chegou tardiamente, e que só a arte, particularmente a literária, agora recorda e sugere nos seus infindáveis contornos, formas, significações e interpretações múltiplas, o dialogismo entre uma realidade e outras sendo uma constante da melhor literatura, a que tem a sociedade, a vida comunitária, como tema central. Não há povo nenhum que não tenha de saber quem é e o lugar que ocupa, ou pensa que ocupa, no concerto do mundo – mesmo que esse outro mundo para além dos seus horizontes seja mais da imaginação do que de geografias reais e histórias-outras. No então começo da mediatização das nossas vidas num Portugal profundo (como no Portugal insular), esse espaço começa a ficar muito mais perto do que qualquer uma das cidades logo alí no outro lado dos montes. “Na aldeia – diz o narrador deste romance na precisa altura em que se vê o primeiro-ministro “com um ar triste” numa televisão ainda pouco clara e tremida – “sabia-se mais sobre as visitas do homem e respectivas taregas ao espaço do que sobre a vida das terras vizinhas, para não falar do resto do país ou do mundo”. É certo que falar destas questões já nos parece algo anacrónico, inexistente, até que uma bela peça literária, como este Coro Dos Defuntos, apareça com toda a beleza de uma linguagem própria – deliberadamente em diálogo directo, recorde-se, com um Aquilino Ribeiro, que poucos já lêem, ao que consta – e uma sucessão de imagens e metáforas que recriam com maior cor e clareza um pedaço desse Portugal que permanecia escondido e totalmente ignorado até aos nossos dias. A fantasia do nosso cosmopolitismo citadino assim preferia, e prefere. Li há anos uma autora lisboeta que disse numa crónica de jornal que, ao atravessar o Tejo até à margem sul num domingo de tédio, tinha encontrado um “outro país”.

Li O Coro Dos Defuntos com dois outros romances constantemente em mente, pela proximidade nas suas originalíssimas invenções – ou, por vezes , “transcrições” linguísticas para que melhor possamos ouvir os seus personagens que nos parecem vir de e pertencer a mundos paralelos, mas desconhecidos: O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, e um recente romance do terceirense Dimas Simas Lopes, O Mistério do Porto do Norte. Em qualquer um deles, temos recantos isolados, que servem de metáfora do restante país, o país que fomos e somos, e, porventura, gostaríamos de não ser. A grande diferença entre uma verdadeira classe culta e uma de trepadores sociais e profissionais a qualquer custo é que a humanidade nunca é, nunca pode ser, menosprezada, é vista como parte de uma sociedade que tanto é construtora como vítima do seu próprio destino, de uma história cujas circunstâncias nos trazem ao sítio que habitamos, nos fazem o povo que somos. Estes são os romances de momentos de transição da nossa vivência, da nossa assimilação de uma modernidade inescapável num planeta que desde os meados do século passado não deixa ninguém escondido ou intocado. Os narradores são quase sempre homens que tentam ver o fio condutor da reinante teia quotidiana, em retrospectiva, surrealista e submersa nas mais desvairadas crenças que um catolicismo primitivo requeria e impunha, permitindo a esses nossos escritores o recurso ao realismo mágico, à fantasmagoria de comunidades regidas por uma governação do medo, em que o questionamento vem sempre de um ou uma personagem, de imediato marginalizada ou difamada pelos poderes que durante séculos vigiaram e controlaram esses seus súbditos, voluntariamente reduzidos à insignificância de servidores braçais. Em todas estas narrativas, vemos como vão chegando as forças da libertação, mesmo a daqueles que não se sabem aprisionados de nada e ninguém, os seus dias totalmente vividos entre a terra e a taberna, as suas visões do mundo um chorrilho de disparates cuja comédia para o leitor está precisamente na criatividade com que se inventa e imagina tudo o que fica ao longe, fora da vista. Os indícios das grandes mudanças definitivas, radicais, destas vidas chegam das mais variadas formas, sempre vindas de quem percebe um burgo à espera de ser explorado com a venda de tudo que lhe é estranho, e mais ainda pelos personagens que se atrevem a sair em busca de algo no outro lado do monte, trazendo a notícia de “estranhos” modos de se ser e estar. Não há país nenhum no continente europeu que não tenha vivido este percurso histórico, todas as suas grandes literaturas espelharam e espelham a caminhada de cada povo rumo ao presente. Em O Coro Dos Defuntos, vemos e ouvimos a desintegração de toda uma sociedade (“este gajo anda à rasca”, diz outra figura do caixa-de-óculos na televisão), a chegada da manhã em Abril com a tropa a caminho de Lisboa.

Cavar, lavrar, semear, eram rituais – relembra o narrador numa linguagem mítica, bíblica, pouco antes de chegar, ou do que sabemos estar a chegar à aldeia, sem que os seus habitantes estejam inteiramente conscientes disso – de vida e de morte, mais do que a busca do sustento. Assim volviam as estações e os ritos prosseguiam, sempre para manter a aldeia e o solo vivo. E morriam os homens como o faziam as árvores e as plantas, os bois e as ovelhas e os restantes animais. Nada de mais natural. Tudo se resumia a esta ideia simples, a este princípio tão antigo como a própria vida., tão milenar como os instrumentos e os modos que se usavam. A avó partilhava, sem o saber e sem nunca as ter ouvido, as ideias do Manuel Rato e do filósofo Espinosa”.

Manuel Rato é o personagem rebelde, o filósofo que tem Espinosa, o judeu português de Amesterdão, e o alemão Johann Gottlieb Fitche como duas referências de vida e ensinamentos. Vai à América algumas vezes, onde trabalha como jardineiro, tornado-se uma espécie de teórico da estética da natureza, mas abandona-a sempre para regressar às origens. Aliás, o humor é uma constante deste romance, quer nos incidentes relatados quer na construção deste e de outros personagens. Nada é visto aqui como tragédia, mas sim como a simples passagem do tempo, a comédia humana a forma primeira da sua sobrevivência, o riso ante a estranheza de tudo que vai acontecendo, ou, uma vez mais, imaginado. Toda a informação é relatada ao narrador pela neta da mulher do regedor da aldeia, pois é ela e o padre que conheciam todos os segredos e malabarismos do dia a dia na existência destas almas entre a vida e a morte. Vamos acompanhando a azáfama e a modernidade no outro lado destas terras encurraladas pelas referências a nomes reais da história e da política daquela época, e as manifestações de cultura popular que vão aparecendo no pequeno e único ecrã televisivo do ponto de encontro local. “O rapaz da trova E depois do adeus foi cantá-la a Brighton, ao concurso da Eurovisão, e perdeu”.

O Coro Dos Defuntos relembra-nos e dá continuidade ainda a uma longa tradição literária que tem a nossa ruralidade como palco cómico da nossa dormência histórica, reafirma que a nossa literatura continua para além de um existencialismo citadino, cuja claustrofobia de homens e mulheres nos seus pretensos subterrâneos é tão ou mais cansativa do que a liberdade da loucura e da imaginação.

_____

António Tavares, O Coro Dos Defuntos, Lisboa, Leya, SA, 2015. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental na sua edição de 4 de Dezembro de 2015.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s