O olhar para além das fronteiras – reais e imaginárias boderCrossings, 2

Capa BorderCrossings II (1)

Se há uma literatura de língua portuguesa que nos fala directa e comovidamente, é esta que tem saído dos Açores durante as últimas décadas, ou então a que às ilhas regressa vinda das mais longínquas geografias (…)

Vamberto Freitas, BorderCrossings: Leituras Transatlânticas II

Lélia Pereira Da Silva Nunes

Do território cultural dos Açores, mais precisamente desde a bonita praia do Pópulo, na Ilha de São Miguel, até para além das fronteiras Atlânticas, nos acostumamos a encontrar o olhar aberto, perspicaz e recorrente de Vamberto Freitas sobre a inquestionável existência da literatura açoriana, vista a partir de uma configuração estética de estruturas profundas da condição humana, assim como sobre a existência de uma literatura luso-americana que tematiza, sem deixar de problematizar, a vivência e a experiência da comunidade açoriana na América – “uma literatura da nossa imigração”, como bem clarifica o Autor na página vestibulanda do Prefácio deste boderCrossings:leituras transatlânticas II.

Trata-se de uma coletânea de ensaios da maior qualidade distribuídos por 342 páginas e concebidos à luz da produção literária sem limites geográficos de permeio, sem fronteiras nem amarras de qualquer natureza: tão somente a liberdade de cruzar espaços, o prazer, a felicidade de dar vida a uma escrita que tem como referenciais a memória coletiva, as experiências dos e/imigrantes e as ideias que captam o nosso tempo, circulam na sociedade em que vivemos e que identificamos como laços de pertença. Vamberto não “doura a pílula” e deixa claro aos desavisados que não escreve para agradar ou satisfazer a curiosidade de alguns sobre livros ou novos nomes em circulação no mundo. Novidade? Surpresa? Nada de novo nem surpreendente para seus leitores, que reconhecem sua escrita séria, contundente, inteligente e de grande lucidez quanto a tudo em que acredita, defende e transmite como professor, jornalista e escritor. É o que é – voz firme a fomentar a difusão de uma nova geração de escritores que se apresentam como “escritores luso-americanos” e a divulgar toda a produção literária dos últimos vinte anos “nas duas margens” atlânticas. Autêntico, intenso, profundo é como defino “borderCrossings: Leituras Transatlânticas 2”, verdadeira arte literária no lavrar a palavra liberta, vibrante, culta que, de maneira singular, ecoa o seu poder de sedução na escrita, no discurso crítico, na extrema sensibilidade ao confessar que a literatura transfronteiriça – como representação identitária de um povo ou país – é o pilar mestre de sua escrita crítica (p.19).

Reitero o que já afirmei em outras oportunidades. Sim, Vamberto Freitas escreve com domínio absoluto sobre a Literatura Açoriana como a Literatura produzida na Diáspora. Escreve com estilo próprio, mundividências, esbanjando cultura e verdade, dando visibilidade à criação, aproximando geografias de nossos afectos e a transnacionalidade cultural e histórica, de forma persistente. Nesta cartografia que assim se desenha é inegável a trama imbricada entre literatura, sociedade e cultura na representação do real e no desvendar o imaginário ao longo do tempo e do espaço. Se, por um lado, a literatura é o alto-falante a transmitir a inquietude social, a constante mutação da sociedade e a inovação do pensar, por outro está a cultura como força inovadora, factor de entendimento da sociedade, reveladora das expressões criativas e salvaguarda da memória colectiva – a Identidade Cultural. Há uma associação perfeitamente visível nesta sua colectânea de ensaios e resenhas sabiamente agrupados por convergência de temas e enfeixados sob a égide de leituras transatlânticas: “Literatura e Açorianidade,” “Diáspora e Açorianidade”, “Imaginários Americanos” e “Brasil Próximo e Distante”. Afinal, em recente troca de e-mails, o próprio Vamberto declara que “essa de literatura e sociedade é para mim o ponto de partida desde sempre.” Está dito e bem.

Observem. É no universo das suas análises, na escrita ensaística, no diálogo cultural e no debate plural e geracional que este seu jeito de encarar a sociedade se faz presente de forma vigorosa. Ao ler a sua recente publicação no blogue Nas Duas Margens, intitulada “Uma revisitação à memória poética de David Oliveira”, dei de cara, já nas primeiras linhas, com esta afirmação: “Se a literatura também nos leva eventualmente a um melhor entendimento de nós próprios, do nosso tempo e do nosso lugar, a presença do poeta luso-americano David Oliveira é-nos (ou deveria ser) uma outra referência de beleza e ‘verdade’.” Marca extraordinária da sua escrita contundente, por vezes num tom de rebeldia, numa subtil ironia, o Autor fica a desafiar-nos a segui-lo para além das fronteiras reais ou imaginadas.

Não sou caudatária e nem peco por exagero de definição ao dizer que o olhar interpretativo de Vamberto Freitas tem muito da maneira de ver a sociedade inerente ao mais importante crítico da literatura do Brasil, o mestre Antônio Cândido (1918), autor de Formação da Literatura Brasileira (1959) – um grande esclarecedor das relações entre literatura e sociedade. Lidar com essa teia de complexidades que é a interacção social sempre foi a sua inspiração. Os textos de borderCrossings 2, tal qual já ocorria no primeiro volume, publicado em 2012, contemplam a diversidade de gêneros literários (ficção, poesia e ensaio). São textos que saíram nas colunas “borderCrossings” (em Açoriano Oriental), “Nas Duas Margens” (em Portuguese Times) e no seu blogue “Nas Duas Margens” entre os anos de 2011 e 2013, textos com grande mobilidade discursiva. Ora chegam como um tsunami cultural, em ondas gigantescas que vão de roldão até a praia. Protagoniza polémicas. Provoca-nos. Ora é mar sereno a deslizar macio até beijar a cálida areia. Exala sensibilidade. Comove-nos. Salvo melhor juízo, seu compromisso é unicamente com a boa literatura produzida nos Açores e para além das fronteiras arquipelágicas, nos espaços da diáspora desde a América do Norte ao extremo Sul do continente. Para rematar, quero chamar a atenção para a margem de “cá”, o meu Brasil. A maioria dos textos seleccionados por Vamberto Freitas fala de uma realidade muito próxima e sobejamente conhecida dos açorianos onde quer que estejam. Entretanto, na última parte de borderCrossings II o Autor abriu uma avenida imensa, contagiante, quase uma Sapucaí em dias de Carnaval e por ela deixou passar a sua escrita vestida de apaixonada brasilidade – “Brasil Próximo e Distante” traz ensaios de grande beleza a falar-nos da arte literária do mestre Rubem Fonseca em Bufo & Spallanzani (2011), da iluminada Angela Dutra de Menezes no impagável O Incrível Geneticista Chinês (2012), do professor George Monteiro em Elisabeth Bishop in Brazil and After (2012), da narrativa histórica de Lucas Figueiredo no interessante A Última Pepita: Os Portugueses e a Corrida ao Ouro do Brasil (2012), do jovem autor português Paulo José Miranda, no curioso romance Filhas (2012) que, tendo por cenário Florianópolis, interliga gerações desde o povoamento açoriano em terras de Santa Catarina, e, para encerrar, a admirável produção literária inovadora de Luiz António de Assis Brasil em Figura na Sombra (2012), o último romance da série histórica dedicada aos “Visitantes do Sul”.

Termino lembrando a velha e batida citação do escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948): “Um país se faz com homens e livros”. Sem dúvida, Vamberto Freitas, na sua arte literária, faz (e sempre fez) a sua parte. Por caminhos do mar, traçou sua rota na incansável aventura de construir pontes e olhar para além das fronteiras – reais e imaginárias.

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Vamberto Freitas, BorderCrossings: leituras transatlânticas II, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014. Ensaio publicado na coluna “Pedra de Toque” no Açoriano Oriental de 22 de Dezembro de 2015.

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