As letras da nossa Diáspora

Capa Portuguese Writers

Que há um lugar nas tradições literárias do Novo Mundo para as letras dos imigrantes de língua portuguesa e dos seus descendentes luso-americanos e canadianos torna-se a mensagem mais importante que antologias como esta enviam para o mundo.

George Monteiro, Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada

Vamberto Freitas

É certo que me é já difícil escrever sobre estas questões da nossa literatura diaspórica sem repetições de vários géneros. Que seja assim. A repetição de palavras e frases faz parte da própria poesia, ou da insistência poética numa imagem, metáfora, ideia ou sentimento decisivos. Afinal, esta repetição textual de que falo poderá ser notada só entre um pequeno grupo de leitores aqui e um pouco por toda a parte onde se lê e se aprecia a escrita de uma nação lusa peregrina. Mais do que isso, também sabem esses mesmos leitores, para além do prazer estético de um texto literário, será aí que se encontra o registo permanente de como um povo que viveu e vive consciente da sua própria história, e a nossa sempre se confundiu com a de outros nas mais dispersas geografias e tradições. Escrevo precisamente no Dia Internacional do Obrigado 2016. Primeiro ri-me com esta ideia, depois aceitei-a de bom espírito. Obrigado, pois, ao professor e escritor Luís Gonçalves, da Princenton University, e ao poeta Carlo Matos, da City Colleges of Chicago, por mais esta antologia da literatura luso-americana e canadiana, Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada. Portugal poderá esquecer, com alguma frequência – menos quando precisa de remessas emigrantes, ainda necessárias ao equilíbrio das nossas finanças – que fora do continente europeu e das ilhas atlânticas a Nação está presente e cada vez mais actuante nos quatro cantos do mundo, e que grandes cantos são eles no outro lado do Atlântico, quando incluem os Estados Unidos, o Canada e o Brasil. Levamos séculos de preconceitos irónicos quando pensamos na nossa própria peregrinação – falamos de um povo aventureiro que deu mundos ao mundo, depois tratamo-lo como um movimento de desgraçados incapazes sobreviver na terra-pátria, os de língua despedaçada tornados outros aquém e além mar perante uma elite provinciana, quase sempre muito mal informada sobre tudo o que acontece no outro lado da sua casa e rua. Notícia infinitamente repetida: os portugueses no mundo primeiro morreram a trabalhar no duro, para agora nos darem uma das mais dinâmicas diásporas de luso-descendentes, provando que a sua grandeza em nada é menor à de outros povos. Desde meados do século passado, quando estas gerações seguintes começaram a penetrar nas instituições do ensino superior, o outro lado da moeda ficou bem à vista de todos – indivíduos em todas as áreas da actividade humana evidenciaram a sua capacidade de integração, na indústria, na política, nas artes, com as suas obras literárias no centro dessas manifestações. Todos eles herdaram de nós uma grande tradição literária, mas foi a custo próprio. Das cozinhas dos seus avós, quer na urbanidade da costa leste americana ou nos campos da Califórnia, receberam o amor e a miticidade das origens ancestrais. Portugal, todo ele no continente e nas ilhas, viraria um lugar distante, desconhecido, mas desejado. Creio que os escritores e poetas na presente antologia (alguns são da primeira geração de imigrantes) conhecem o nosso país de perto, outros já participaram em grandes eventos culturais e literários entre nós. Se nada disto pode ser contabilizado nos valores e bolsas que hoje dominam as nossas sociedades, a verdade é que a sua escrita constituirá a essa imensurável riqueza – a identidade de todo um povo, a essencial auto- estima dos que perpetuarão não só o nosso nome como afirmarão sem equívocos a dignidade das suas pátrias de nascença e da ancestralidade.

George Monteiro, que ainda há bem pouco tempo antologiou, com Alice R. Clemente, a poesia luso-americana, definindo assim parte substancial do cânone em desenvolvimento da mesma literatura, afirma no prefácio a este volume que se trata de uma colectânea que vem em seguimento de outras – quanto a prosa e poesia nas duas línguas – e cujas contribuições foram solicitadas aos escritores e poetas nestas páginas. Monteiro juntamente com a falecida Professora Nancy T. Baden e Onésimo Teotónio Almeida foram os pioneiros neste acto de levar as literaturas imigrante e luso-descendente na América do Norte à legitimação institucional através dos seus próprios estudos e publicações sob chancelas universitárias, principalmente a já histórica Gávea-Brown/A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies. Os dois organizadores de Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada pertencem a essa nova geração de estudiosos e autores, desfrutando dessa vantagem fundamental à continuidade desta escrita, conhecem melhor do que ninguém os seus próprios colegas espalhados pelos dois países naquele continente, muitos dos quais ainda desconhecidos do público leitor, e até de quem, como eu, dedica boa parte da sua vida ao seu estudo. Entre nomes com o seu lugar assegurado em qualquer lista de leitura, tanto em português como em inglês: Katherine Vaz, George Monteiro, Anthony Barcellos, Lara Gularte, Millicent Borges Accardi, Nancy Vieira Couto, Rose Silva King, Sam Pereira, Darrell Kastin, Diniz Borges e Frank X. Gaspar; encontramos outros que começam agora a divulgar por vários meios os seus escritos entre nós, em géneros que incluem a poesia, ficção, biografia e autobiografia, desta vez dos dois lados da fronteira: Amy Sayre Baptista, Alyse Knorr, Richard Simas, Diana Ramos Firestone, Brian Sousa, Ian E. Watts, Jennifer Jean, Joe Amaral, Linette Escobar, Marina Carreira, Sarah Chaves, Emanuel Melo, Paula Neves, Jozhe e Catarina Costa Laranjeira; deixo aqui outros nomes que, também nas duas línguas, já são conhecidos nos dois lados do Atlântico, em maior ou menor grau, como António Ladeira, Eduardo Bettencourt Pinto, Esmeralda Cabral, João S. Martins, Augusto Mark Vaz, Paulo da Costa, Miguel Moniz e Manuel Carvalho. Não se faça uma ideia aqui de qualquer hierarquização de nomes ou obras, trata-se tão-só da minha própria reacção e leituras destes últimos anos. Suponho que alguns destes autores ainda não foram publicados em forma de livro, os seus trabalhos estando, como já disse, dispersos pelas mais variadas publicações. Foi-me gratificante encontrar alguns deles pela primeira vez, e de quem espero, esperamos, muito mais no futuro – esqueçam qualquer noção judicativa por enquanto, o que li, li com agrado e surpresa.

Acontece que a publicação deste volume coincidiu com a saída nos Açores de O Conto Literário de Temática Açoriana, seleccionado e acompanhado de um longo estudo por Mónica Serpa Cabral. É uma outra colectânea da nossa ficção desse género desde o século XIX até aos nossos dias, e que vem do mesmo modo confirmar alguns autores canónicos e apresentar ainda outros. Desde há anos a esta parte que reclamo um lugar no nosso corpus literário para os escritores e poetas da Diáspora, indiferentemente da língua em que escrevam, desde que o seu referencial temático e certas linguagens pertençam à nossa Tradição, recriando imagens e metáforas representativas do nosso passado ancestral e histórico. Acontece isso pela primeira vez no trabalho de Mónica Serpa, com a inclusão de um conto de Katherine Vaz (“A Minha Busca De El-Rei D. Sebastião/My Hunt For King Sebastião”, do seu livro Fado & Other Stories). Nem todos os leitores em ambos os lados do mar concordarão com esta nova proposta, mas também ninguém poderá negar que na era da globalização as comunidades redefinem a sua identidade, ou identidades, as geografias dos seus afectos misturam-se irremediavelmente, as línguas em que se expressam parte de um mesmo património cultural e literário. As literaturas imigrantes, em toda a parte, assemelham-se muito, ou poderão mesmo ser consideradas no que também passou a designar-se por literaturas “pós-coloniais”. Se a História de uns e outros não coincide em traços específicos, encontra-se em temáticas coincidentes – a voz do outro a surgir ou a renascer das margens societais, a resposta ao poder e às linguagens das classes dominantes nesses mesmos espaços nacionais, a resposta à própria literatura canónica outrora definida e imposta por um sistema literário institucionalizado e legitimado sem nunca levar em conta essas vozes esquecidas e marginalizadas, como há anos foi reafirmado em The Empire Writes Back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin. À antiga palavra difamatória de portugee, nalgumas páginas de autores famosos e obras referenciais nessas culturas, contrapõe-se agora e decididamente a palavra portuguese. Se algum escritor luso-descendente se apropriar de tal terminologia será em tom de ironia, retirando toda a sua carga racista ou chauvinista. É também isto que a literatura luso-descendente emergente fará – criar um novo arquivo criativo da nossa gente em toda a parte, proporcionar um sofisticado espelho artístico de quem fomos e somos nas terras que eram só dos outros. A osmose natural entre estas literaturas permite, para além de todo o prazer e sinal civilizacional que é a arte em qualquer parte, um mais completo entendimento da nossa História, vem cimentar a identidade de um povo, que é sempre mais complexa e diversificada do que antigos estudos e discursos tentavam fazer passar.

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Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada, Seleccionado e Organizado por Luís Gonçalves & Carlo Matos, Charleston, SC, Boavista Press, 2015. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 29 de Janeiro 2016.

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Vamberto Freitas — Jornalismo e Cidadania: Uma Ética de Pluralidade e de Diferença

T m Marques

Sou do mar ou sou da terra,

meu trisavô dos Açores?

Só sei que andaste na guerra

Mais o Rei libertador,

E que depois, no Mindelo, um que na praia saltou

Eras tu — e tão imberbe! —,

Ó avô do meu avô!

David Mourão-Ferreira

(“Xácara dos Campos de

Elvas” in Os Quatro Cantos do

Tempo)

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Por Teresa Martins Marques*

Jornalismo e Cidadania: Dos Açores à Califórnia (Edições Salamandra, 2002, com dedicatória para Urbano Bettencourt) é o mais recente volume de Vamberto Freitas, ensaísta, crítico literário e jornalista cultural de créditos firmados em jornais regionais, nacionais e estrangeiros ao longo das últimas duas décadas. Amplamente reconhecido por prestigiados críticos e confrades, a ele se referiu João de Melo como “um homem atento à sua própria e alheia humanidade, um estudioso inconformado, um teórico subversivo”1. Sobre a sua envergadura de ensaísta se pronunciou também José Manuel Mendes reconhecendo-lhe qualidades de “pesquisa, informação, competência hermenêutica, policromia expositiva, arrojo, alguma intuição que se não trai, a conjugação de diversos saberes, uma sensibilidade e uma argúcia admiráveis”2.

Do seu incansável labor em prol da cultura dá vivo testemunho o conjunto das suas publicações reunidas em livro : Jornal da Emigração: A l(USA)lândia Revisitada (1990), Pátria ao Longe: Jornal da Emigração II (1992), O Imaginário dos Escritores Açorianos (1992), Para Cada Amanhã: Jornal da Emigração III (1993), América: Entre a Realidade e a Ficção: Jornal da Emigração IV (1994), Entre a Palavra e o Chão: Geografias do Afecto e da Memória (1995), Mar Cavado: da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas (1998), A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga (1999).

Deste último volume são coligidos os dois primeiros ensaios de Jornalismo e Cidadania, que é introduzido por um iluminante texto proemial de Mário Mesquita — “Divagações Insulares em Forma de Prefácio” — abrindo com uma epígrafe de Michael Waltzer, a qual nos diz que “a característica comum mais importante da humanidade é o particularismo”(p.7). Não deixa de ser curiosa esta constatação em plena era da globalização, pelo que introduz de polifónico, de diferencial, na consonância de vozes, nem sempre orquestradas com mestria nas ágoras políticas, onde as vidas anónimas dos cidadãos são regidas por batutas cada vez mais sem rosto. Tal particularismo aponta para a identidade cultural própria do arquipélago açoriano expressa em movimentos culturais de que as obras de ficção, de poesia ou de ensaio literário constituem algumas das faces protagonizadas por intelectuais de sedimentado prestígio nas letras, dentro e fora do arquipélago, como Vitorino Nemésio, Natália Correia, José Martins Garcia, entre muitos outros, mas também por alguns mais novos como João de Melo, Onésimo Teotónio Almeida, Adelaide Batista ou Vamberto Freitas. São estes alguns do nomes justamente apontados já em 1993 por José Medeiros Ferreira, salvaguardadas as diferenças que entre si apresentam, as quais não deixam de constituir formas de fecundo particularismo na mundividência insular de “raízes comovidas” não apenas a oeste, mas em outros pontos cardeais da rosa dos ventos, que configuram política e culturalmente o arquipélago, fazendo jus ao título da obra de onde Mário Mesquita extraiu a epígrafe supra citada — Pluralisme et Démocratie — que pode também servir de metáfora apaziguadora a vários títulos, e, nomeadamente, à questão do universalismo e do particularismo da literatura açoriana, dizendo Mário Mesquita que “não parece incompatível admirar, simultaneamente, Antero no seu olímpico portal da universalidade e Nemésio na sua proclamada insularidade”(p.12). (Esta aproximação dos dois autores feita por Mário Mesquita levou-me a seleccionar para epígrafe deste meu texto aqueles versos de David Mourão-Ferreira, trineto de açorianos, e que ainda jovem escolhe Antero para tema da sua primeira conferência e que dedica, como se sabe, pela vida fora a sua atenção crítica à obra de Nemésio).

Afigura-se-me interessante a sintonia entre o paratexto de Mário Mesquita e o pensamento cultural de Vamberto Freitas expresso em múltiplos lugares da obra e desde logo no jogo de espelhos das respectivas epígrafes: ao particularismo enunciado por Mário Mesquita corresponde no primeiro ensaio de Vamberto — “Discursos Culturais nos Açores” — a oportuníssima citação de Nemésio: “Um homem numa rocha e em volta o mar” que é, em si mesma, metonímia do espaço-físico da Ilha e sinédoque do espaço-gente do Arquipélago, isto é, uma extremamente bem conseguida particularização-generalizante, que reproduz em mîse-en-abîme a questão da identidade da literatura açoriana, particular e englobantemente nacional e universal, segundo se lê no incipit deste primeiro ensaio: “(…) busca de um entendimento aprofundado da realidade açoriana adentro do país português”(p.23). Nada é, pois, deixado ao acaso nestes textos cuja clareza, precisão, fluidez e elegância de linguagem constituem outras tantas estratégias de sedução do leitor para a linha temática que ocupa recorrentemente a escrita de Vamberto Freitas: “Tive sempre dois temas como área de abordagem, preocupação inevitável da minha dupla condição de açoriano agora residente no arquipélago, mas sempre ligado à experiência imigrante açoriana nos Estados Unidos: discursos culturais e a memória do tempo entre os que ficaram e a manutenção da cultura ancestral entre os que partiram”(p.18). Todavia, aqueles dois temas significam muito mais do que o autor modestamente deixa supor. Aqueles dois temas constituem boa parte do thesaurus literário e cultural, são afinal o fio condutor de que se tecem as obras-primas, ou as obras raras de qualquer literatura. Por esses dois temas fica Vamberto condenado a pesquisar os escaninhos da memória individual e colectiva, as problemáticas da evasão e do regresso, da comunhão e da solidão do homem. Por esses dois temas fica ainda Vamberto condenado à condição de ter de ser um pensador imerso e emerso da circunstância do seu tempo e simultaneamente da cadeia de significações literárias — memória cultural intergeracional. Aqueles dois temas trazem consigo a marca indelével do cidadão e do pensador construído a pulso, letra à letra nas páginas dos jornais e dos seus nove livros, ainda outra metáfora das nove ilhas ou das nove musas, que, simbolicamente, protegem todo o criador literário, independentemente do género em que a sua obra se configure.

Montaigne — o génio criador do género ensaio — sustentou que a deambulação característica do seu percurso vivencial teria sido afinal o húmus da sua criação. A deambulação do autor de Jornalismo e Cidadania: Dos Açores à Califórnia, peregrino da vida, carregando às costas ainda adolescentes a memória-evasão da sua Ilha Terceira natal para as paragens da Califórnia, será o húmus que fará germinar o jornalista cultural, de quem Mário Mesquita, então director do prestigiado jornal, apresenta o seguinte retrato retrospecto: “Onde o Diário de Notícias julgava ter encontrado um correspondente que lhe assegurasse o contacto informativo com os portugueses da Costa Leste, o que já seria excelente (e mais não lhe era pedido…), descobriu, afinal, um jornalista cultural, capaz de se aventurar na área da crítica de livros (de ficção e de não ficção), portugueses, açorianos, luso-americanos ou mesmo americanos”(p.15). É, pois, um retrato muito elogioso este que nos chega traçado pela mão de Mário Mesquita, e também pela outra mão de Onésimo T. Almeida que em boa hora o recomendou.

São ainda as deambulações do regresso ao solo “dos que ficaram” em São Miguel — a outra ilha, não rival da Terceira, mas salutarmente concorrente cultural, e ambas matematicamente condenadas a encontrarem-se, porque as linhas concorrentes quando prolongadas sempre se encontram num ponto. Será este ponto — lugar geométrico e geográfico de afectos, da alma cultural das ilhas, que, prolongado, ainda virá a ser traço de união a ligar Vamberto ao solo do continente, ao sol e ao mar, água da memória onde Vamberto recentemente aportou reinventando nestas saudáveis deambulações “o-espírito-dos-vários-lugares” que determina nova radicação, que o mesmo é dizer, nova forma de ver de perto, de conhecer outras gentes, de criar novos laços, de vivenciar o outro lado da Pátria, de se enriquecer culturalmente.

À escrita de Vamberto Freitas patenteada neste volume bipartido — (Primeira Parte: Nos Açores; Segunda Parte: na Diáspora) — correspondem as duas tipologias ensaísticas enunciadas por Sílvio Lima no Ensaio Sobre a Essência do Ensaio : a impessoalista à maneira de Bacon e a pessoalista à maneira de Montaigne. Constituem particular exemplo da primeira os “Discursos Culturais nos Açores” e “Jornalismo e Cidadania nos Açores”. Integram-se na segunda muito especialmente os textos “Carta a João Brum” (excelente actualização da tradição latina da epístola, nomeadamente de Cícero e de Séneca), bem como a comovente “Breve Conversa com o Correio dos Açores”. Mas, o que se me afigura particularmente relevante no conjunto ensaístico que este livro apresenta é a notável coerência do pensamento do seu autor, independentemente do tom discursivo adoptado. É todo um programa de vida que se lê em filigrana nestes textos, programa esse que poderá ser definido como uma defesa intransigente de uma ética da pluralidade e da diferença, que se traduz na consciência muito nítida da interdependência cultural, com uma cada vez maior diluição de fronteiras nacionais, mas também numa imperiosa necessidade de afirmação e preservação da identidade específica dos valores próprios da comunidade ancestral, reconhecendo muito lucidamente o autor que “na cultura haverá sempre uma convivência entre a tradição e a audácia intelectual, no sentido de se abalar, ao mesmo tempo que se dá continuidade às assunções ou cosmovisões mais vincadas do grupo”(p.46). Esta defesa da Tradição não é de forma alguma estática e acrítica, mas antes geradora de radicação dos elementos das novas gerações: “uma Tradição perpetuada, renovada de quando em quando, conforme a vontade de cada geração ou artista individual, desafiada e até subvertida”(p.42). Uma Tradição que se constitui como um dos baluartes da acção cultural em que Vamberto Freitas de há muito se empenha, pois que inteligentemente reconhece que “uma cultura sem memória, sem fundamento histórico é uma contradição insustentável”(p.42).

O jornalismo, e dentro deste o extraordinário papel dos Suplementos Culturais, é justamente posto em relevo por Vamberto Freitas (e ao fazê-lo o autor sabe do que fala já que dirigiu com brilhantismo durante cinco anos — 1995-2000 — o Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores) : “Os nossos suplementos culturais foram as nossas mais autênticas universidades”(p.53). Esta afirmação de Vamberto Freitas recorda-me, aliás, uma outra similar de Fidelino de Figueiredo, inserta em O Medo da História (1957): “O jornalista é o professor da actualidade, ensina a vê-la, a julgá-la, a extrair dela um comportamento”. Na defesa do jornalismo como factor de democratização política e cultural Vamberto situa-se na linha dos grandes vultos do pensamento cívico do século XX, na senda de um António Sérgio, de um Raúl Proença, de um Jaime Cortesão, de um Raúl Brandão, todos eles mestres espirituais de José Rodrigues Miguéis. Nunca será de mais recordar aos intelectuais fechados nas torres de marfim das revistas especializadas que o défice cultural galopante que caracteriza este país (e utilizo palavras recentes de Vasco Graça Moura) necessita de ser urgentemente travado e para isso é imperioso o empenho de todos os que pensam e que escrevem em todos os lugares onde a sua voz possa ser ouvida. Outro tanto nos dizem as clarividentes palavras de Vamberto Freitas onde ecoa uma nota de Jorge de Sena: “Os agentes culturais antidemocráticos, em qualquer parte, dependem da ignorância dos cidadãos, do reino da estupidez e do obscurantismo generalizado”(p.72).

Na luta contra o obscurantismo ainda no séc. XIX (e outros exemplos poderiam ser colhidos anteriormente) prestigiados escritores como Garret, Castilho, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz, Antero, Ramalho, Oliveira Martins, Rebelo da Silva, Latino Coelho, Guilherme de Azevedo não desdenharam fazer ouvir as suas vozes em registo cívico nas tribunas de opinião dos jornais, como formadores e reformadores de mentalidades. Desse papel transformador dá boa conta Luiz António de Assis Brasil referindo-se ao autor deste livro: “Há pessoas que vivem, bem ou mal o seu tempo; outras há, entretanto que o transformam. A esta última categoria pertence Vamberto Freitas (…). Não se eximindo de dar a sua visão pessoal dos fenómenos, Vamberto marca a presença de um intelectual disposto a viver o seu tempo (…) mas disposto a transformá-lo .”3

A escrita ensaística e cívica de Vamberto Freitas, de que o presente volume constitui um dos mais interessantes exemplos, mostra, com efeito, o seu autor conforme o descreveu George Monteiro tendo como pano de fundo O Imaginário dos Escritores Açorianos: “Directo, numa jogada que consegue a um tempo ser agressiva e apaziguadora, Vamberto Freitas põe as cartas na mesa (…) cheio de paixão e de convicção das autênticas reivindicações da literatura açoriana nas manifestações concretas dos seus textos”4. Tal como apontou também Diniz Borges relativamente aos ensaios de Mar Cavado, é ainda o compromisso do crítico/escritor perante a sociedade e a literatura que este livro revela5. Será, pois, um homem plural — soma do pedagogo, do crítico e do jornalista cultural — que se revela sobremaneira nas páginas de Jornalismo e Cidadania o qual, conforme Carlos Cordeiro apontou, “se empenha nessa incessante procura do autoconhecimento açoriano (…) e da cidadania nas sociedades democráticas”,6 sendo ainda (em palavras de Carlos Cordeiro que inteiramente subscrevo) “um importante interventor no debate cultural açoriano, avesso, como humanista, a todo o tipo de centralismo destruidor da personalidade e da dignidade das comunidades e, por consequência, acérrimo defensor da originalidade da cultura açoriana, ou seja, da identidade cultural do povo açoriano”7. Sobressai ainda mais, se é possível, neste livro o espírito de missão que tanto enobrece Vamberto Freitas e faz dele um cidadão exemplar: “escrever ou fazer jornalismo é, creio, obedecer a um forte chamamento interior, a uma profunda necessidade de comungar com os outros toda a tradição intelectual que é a nossa, e de que uma sociedade aberta (…) não prescinde” (p.71).

Não será, pois, de estranhar que Vamberto Freitas deposite tanta esperança no papel das segundas gerações quer ao nível da investigação ensaística (de que constitui exemplo o trabalho de Miguel Moniz justamente posto em relevo neste livro), quer ao nível da criação literária protagonizada, entre outros, por poetas e ficcionistas como Frank X. Gaspar, Katherine Vaz, ou Erika de Vasconcelos. Estes autores motivam-lhe aliás um curiosíssimo credo cultural: “Creio firmemente que a leitura destes escritores terá influência no modo como nos percebemos a nós próprios, principalmente entre as novas gerações que nas universidades já vão lendo e criticamente analisando o ser-se açoriano ou descendente de açorianos na América do Norte”(p.81). Quer a literatura, quer o jornalismo funcionarão como a necessária voz das comunidades, posto que “uma comunidade sem voz é uma comunidade oprimida, feita objecto e instrumento dos outros, perdendo assim a sua capacidade (e vontade, quando o oprimido se curva perante o ‘destino’) de ser sujeito e protagonista do seu próprio drama e destino”(p.89). A luta contra a desmemória (interessante neologismo vambertiano) constitui uma das frentes de batalha, pois o que importa é não perecer no vácuo do próprio vazio das comunidades, numa errância colectiva sem destino ou sonho (p.91).

Observe-se ainda neste livro a harmoniosa conjugação entre pensamento e imagem visível na belíssima capa de Álamo de Oliveira onde vemos um barco de papel de jornal navegando sobre ondas alterosas. (Curiosamente o barquito aguenta-se direito o que é, em si mesmo, esperançoso prenúncio sobre o futuro deste papel de/do jornal…). Como oportunamente escreveu Eugène Delacroix no seu Diário, o melhor triunfo do escritor é fazer pensar os que podem pensar. Na ligação entre o pensamento e a acção, na defesa de uma ética de pluralidade e de diferença, uma das lições cívicas que veementemente destaco neste notável livro de Vamberto Freitas será a profunda necessidade de vivenciar e de transmitir aos outros a Obrigação da Esperança.

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*Investigadora literária.

(Dirige a organização do Espólio de David Mourão-Ferreira).

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1 Cf. Contracapa de Mar Cavado – Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas, Lisboa, Edições Salamandra,1998.

2 Idem, ibidem.

3 Cf. “Vamberto Freitas e o Sistema Literário Açoriano” in Vértice, nº88, (Lisboa), Janeiro-Fevereiro de 1999.

4 Cf. “Imaginário Açoriano” in Jornal de Letras, nº 550 (Lisboa), 19 de Janeiro de 1993.

5 Cf. ”Navegando na Literatura dos Açores” in Diário Insular (Angra do Heroísmo), 14 de Junho de 1998.

6 Cf. “A Ilha em Frente” in Jornal de Letras, nº753 (Lisboa), 11 de Agosto de 1997.

7 Idem, ibidem.

A Literatura Açoriana, outra vez

Capa Conto Literário de Temática2

Agora, a clausura é mais psicológica do que física. Contudo, o imaginário literário açoriano continua a desenvolver temas em torno do bloqueio dos sonhos da necessidade de partir, do sentir-se só, das ausências que oprimem, da melancolia e do abandono.

Mónica Serpa Cabral, O Conto Literário de Temática Açoriana

Vamberto Freitas

Foi publicado já no fim do ano que passou, e é definitivamente um dos livros que vai marcar o ano literário, a sua influência será duradoura entre todos os que se interessam pela literatura e cultura açorianas no contexto da nossa modernidade. Como todas as colectâneas deste género, O Conto Literário De Temática Açoriana, seleccionado, organizado e contextualizado histórica e teoricamente num desenvolvido estudo por Mónica Serpa Cabral, pode e deve aspirar a um estatuto de “cânone”, mesmo que provisório e discutível pela presença de uns e ausência de outros, servindo de ponto de partida para outras propostas vindas de estudiosos da mesma área. Que é um contributo imenso para o esclarecimento e divulgação do melhor, ou de uma amostra parcial do melhor, que a partir do fim do século XIX se escreve entre nós, também creio ser questão pacífica. O único antecessor deste volume será a Antologia Panorâmica do Conto Açoriano – Séculos XIX E XX, de João de Melo, publicado em 1978 pela Editorial Vega. O pós-25 de Abril de 1974 trouxe este interesse e, diria, devoção imediata a uma confirmação e renovação do pensamento literário nos Açores, ou às ilhas referente a partir do exterior. Que a nossa geração, situada em vários quadrantes políticos e ideológicos desde então, se virou decididamente para dentro da sua casa natal num gesto de reconhecimento e valorização da sua literatura, era de esperar dado a necessidade de reposicionamento cultural adentro de uma nação e de uma língua agora em liberdade e numa etapa decisiva de globalização, que colocou as questões identitárias na base da nossa sobrevivência como comunidade real e imaginária. Quem somos, e de onde vimos? Por sermos quem somos, para onde vamos? Que a geração seguinte, a já nascida em liberdade e em condições sócio-económicas e culturais bem mais evoluídas, a que já vive um novo mundo radicalmente desconsertado pelas novas tecnologias e residentes na Aldeia Global continua a sentir essa necessidade, assim como, através de obras como esta, prestar homenagem ao acto literário entre nós, confirma que uma Tradição não se quebra, reinventa-se. Trata-se, mais do que uma surpresa, a confirmação de que a “revolução” em curso por toda a parte não desfaz o nosso mais íntimo ser, o sentido de pertença, a diferença no todo, o aconchego da geografia e da história, a literatura como o mais duradouro e fiel repositório da – repita-se a palavra – identidade de um povo. É certo que a literatura das e nas ilhas remonta ao século XVI com as Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, mas foi só com a as primeiras brechas ou visões de liberdade autonómica nos Açores que a nossa literatura teve a génese que nos trouxe até aos dias presentes. É de tudo isto que, directa ou indirectamente, Mónica Serpa Cabral nos fala numa alongada introdução teórica e histórica da obra presente – reafirma e contextualiza a temática geral da nossa ficção, amplia o cânone quando inclui pelo menos uma escritora açor-americana, Katherine Vaz, assim como inclui dois autores não-açorianos, pela temática açórica nalguma da sua escrita contista, António Mega Ferreira e Carlos Alberto Machado, este residente há uns bons anos na Ilha do Pico, e fundador da Companhia das Ilhas, a editora responsável por esta colectânea. Como Katherine Vaz, outros escritores luso-descendentes da América do Norte poderiam já estar presentes nestas páginas, mas a autora do grande romance Saudade fica como figura representativa de toda uma geração no outro lado Atlântico, e que alguns de nós reclamamos para a nossa literatura desde há muito, mesmo que a sua obra seja escrita na língua inglesa, os seus recursos à história e memória ancestral fazem do idioma um mero signo-outro de uma literatura comum. Até nisto, temos sido pioneiros na vida criativa do nosso país, e adentro de geografias dispersas que constituem o vasto mundo da lusofonia.

De facto, em Portugal, – escreve Mónica Serpa Cabral logo nas primeiras páginas, numa secção intitulada ‘Imaginário e Tema’, recorrendo ao trabalho teórico do antropólogo Gilbert Durand – um país pequeno situado à beira-mar, e, em particular nos Açores, ilhas localizadas a meio Atlântico, é inevitável o fascínio exercido pelo horizonte. Assim, os traços apontados por Durand ao povo português, em especial o impulso para a partida, o sonho com o impossível, são perfeitamente detectáveis, quer na História quer na literatura açoriana, particularmente no fenómeno da emigração, em que levas sucessivas de açorianos deixaram a terra-natal à conquista do sonho que a ilha não poderia concretizar… Desta forma, a partida afirma-se como uma fuga, uma forma de insolência e de libertação das garras do destino, mas principalmente como uma procura, estimulada pela esperança universal de melhoria de vida que pulsa em cada homem”.

O Conto Literário de Temática Açoriana abre com Nunes da Rosa e Rodrigo Guerra do grupo faialense que no fim do século XIX e durante as primeiras décadas do século passado desenvolveram e fundaram mesmo o conto também como género açoriano, vindo até à actualidade com escritores como Joel Neto, Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo e Nuno Costa Santos, duas gerações em convivência e escrevendo lado a lado, e fazendo sobressair pela primeira vez na nossa literatura toda a ruralidade e condição sócio-económica que então dominava nas ilhas, a opressão e miséria da maioria levando, sempre, a esse desejo de “fuga” de que nos fala o passo aqui citado, dando deste modo continuidade a todas as vozes que historicamente se pronunciaram sobre a nossa escrita. Estão incluídas mais três mulheres que cultivaram em maior ou menor grau o género, todas elas mais do que merecedoras de permanecerem como autoras referenciais – Natália Correia, Maria de Fátima Borges e Madalena Férin. Estranhamente, optou-se pela ausência de Leonor Sampaio da Silva e o seu Mau Tempo e Má Sorte: contos poucos exemplares, que venceu o Prémio Humanidades Daniel de Sá em 2014, e que é mencionado no já referido estudo, mas sem nenhum dos seus contos nas restantes páginas. Os contos desta autora não só dialogam com toda a tradição literária açoriana, como desconstroem, através da sátira e paródia, muito do imaginário e temática da nossa literatura. Bem sei que nestes projectos existem tanto limites de espaço como critérios de natureza vária que podem – e devem – ser definidos por quem escolhe e organiza, ficando aqui apenas uma observação, que me parece justa e pertinente. A verdade é que considero este livro como o início de uma definição muito bem fundamentada do que poderá vir a ser a afirmação parcial – no que diz respeito à nossa ficção – do cânone que mais cedo ou mais tarde será aceite entre nós, mantendo-se naturalmente aberto às gerações seguintes. Fica ainda claro que muitos dos nossos escritores açorianos aqui presentes – Vitorino Nemésio, Dias de Melo, Cristóvão de Aguiar, José Martins Garcia, Onésimo Teotónio Almeida, e Joel Neto, em primeiro plano – acabariam por desfrutar de uma projecção nacional pouco comum entre a maioria dos nossos autores, não necessariamente, estes, por falta de qualidade, mas sim por estarem ou terem estado longe da máquina editorial e publicitária do continente, o inevitável centro que faz e desfaz quem quer, ou pura e simplesmente ignora quem está longe da vista. Por outro lado, não deixo de relembrar que isto de centro e margens na vida cultural é comum em quase todos os países, sem que esse facto retire a legitimação das várias literaturas adentro de qualquer espaço cultural ou linguístico, a arte o principal ponto de referência identitário de um povo nas suas circunstâncias geográficas e históricas. A questão do “reconhecimento” a níveis mais amplos poderá ou não acontecer ao longo dos tempos, só que literatura açoriana já penetrou em várias e prestigiadas academias estrangeiras, desde os Estados Unidos e Brasil à Inglaterra, e até mesmo, ironia das ironias, no continente português. A verdade é que, cada vez mais, a classe culta poderá não conhecer a fundo a nossa literatura, mas sabe da sua existência, e quando a ela se refere fá-lo com respeito e admiração, pelo menos entre um pequeno rol de escritores e estudiosos. Ainda há pouco tempo uma das maiores editoras nacionais solicitou a um dos nossos escritores uma grande antologia da poesia açoriana.

Mónica Serpa Cabral é uma das mais distintas estudiosas na área da literatura açoriana. É licenciada pela Universidade dos Açores em Estudos Português e Inglês, tendo depois feito o seu mestrado e doutoramento na Universidade de Aveiro, especializando-se na obra narrativa de João de Melo e no conto açoriano. No seu regresso à Universidade dos Açores, fez um pós-doutoramento entre 2012 e 2015, que envolveu a organização deste O Conto Literário de Temática Açoriana. Estamos, sem dúvida alguma, perante um dos maiores contributos à apreciação e divulgação da ficção açoriana produzida durante mais de um século.

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O Conto Literário de Temática Açoriana, Organização, Estudo e Notas de Mónica Serpa Cabral, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 22 de Janeiro de 2016.

João de Melo e o Imaginário Açoriano

Com Emanuel Félix e João de Melo NY 24 de Abril 1993

Com Emanuel Félix e João de Melo, em Nova Iorque, quando éramos bem mais novos, e mais ou menos pelo tempo desta entrevista

Entrevista de Vamberto Freitas

João de Melo, nascido em 1949, na freguesia da Achadinha, em S. Miguel, meio ambiente rural depois de transfigurado e chamado Nossa Senhora do Rozário da Achadinha, servindo assim de fundo principal a O Meu Mundo Não É Deste Reino, a alguns dos contos em Entre Pássaro e Anjo e a Gente Feliz Com Lágrimas, vive no Continente desde os 11 anos de idade e tem já um substancial número de títulos publicados. Antes, ou por entre esta escrita acima mencionada, havia ele conseguido o seu lugar proeminente na literatura portuguesa contemporânea, com outros livros, nomeadamente Autópsia de um Mar de Ruínas e os Anos de Guerra, o primeiro um romance sobre a sua experiência em África como combatente do exército português, e o segundo uma antologia de diversos géneros sobre o mesmo período e realidade histórica.

Apesar desta “dispersão”, é como romancista que se reconhece de imediato o seu nome. Os seus dois grandes romances de temática “açoriana” inspiram-se nos anos da sua infância, vão até ao presente, e a partir desse seu pequeno mundo ilhéu, somos levados a vários países e continentes seguindo a sorte das suas personagens, cada uma delas um símbolo vivo e inesquecível de todos quanto no país português foram sobrevivendo ou tombando na sua caminhada vivencial durante a maior parte deste século.

Acompanhar João de Melo nesse seu período ficcional – ora trágico ora cómico, ora de lágrimas ora de alegrias e risos – é ficar para sempre com um outro imaginário completo do povo e da nação que fomos e somos.

“…Nos Açores do presente”, diz ele no decorrer da entrevista que aqui se segue,” persistem muitos dos dados que em parte explicam os mistérios, os equívocos e a espiritualidade de todos os portugueses”.

João de Melo já disse também noutra parte que neste momento está virado, na sua escrita, após a publicação recente de Gente Feliz Com Lágrimas, para outras realidades nacionais. Poderá assim ser, mas o seu lugar na literatura portuguesa contemporânea foi já assegurado com os livros aqui referidos.

São algumas das suas personagens, situações e atitudes, que aparecem e reaparecem particularmente no seu imaginário açoriano, que aqui abordamos. Deste outro testemunho do autor que nos fica, vamo-nos tornando conscientes, também, do “permanente desafio” que encara toda uma nova – passe a expressão hoje um tanto caduca – geração literária em Portugal.

Esta conversa com João de Melo foi iniciada antes da saída do seu último romance. Por razões de espaço, e Gente Feliz Com Lágrimas muito tem sido recenseado e merece ainda tratamento aprofundado, concentrando-nos desta vez quase só em O Meu Mundo Não É Deste Reino.

-Até que ponto O Meu Mundo Não É Deste Reino é um romance autobiográfico?

João de Melo – Começando pelo princípio: não me move nenhuma espécie de preconceito contra a concorrência da autobiografia para o imaginário dos escritores. Sei que a questão não é, nunca foi, pacífica entre nós. Para mim, a autobiografia pode ser a peça móvel de um xadrez sem regras: aquela que estabelece um compromisso de fundo entre a vida do escritor e os mundos que se lhe sobrepõem. Mas não é esse o caso de O Meu Mundo Não É Deste Reino, onde não há nenhum processo declarado de mediação. O narrador é tão equidistante daquele “mundo” quase primordial, quanto o será das personagens e das suas vicissitudes concretas. Evidentemente, persiste no livro uma grande margem de subjectividade, um saber fingido que se confunde com a invenção pura. De resto, o romance pretende ter uma amplitude temporal de cerca de 500 anos, mas que mal atinge os primórdios da minha infância. Já se emigrava em força quando eu era um menino açoriano. Mas, no livro, José-Maria e Maria-Água entram no processo mítico dos futuros barcos que hão-de passar por ali. Acabam por regressar ao ponto de partida. Lembra-se de João-Lázaro? É uma personagem eterna, com o seu quê de bíblico e de revolucionário: entra em metamorfose, morre, ressuscita (transfigurado e sublime) para anunciar um novo tempo, aquilo a que ele chama “o progresso dos países”. Ora, a minha contingência humana está à vista…

– O passado açoriano é-lhe uma herança cultural e psíquica pesada. O seu romance foi um acto de catarse? Aceita a realidade do passado como riqueza pessoal, ou desejaria um dia ser um escritor em que a sua origem fosse irreconhecível?

JM – De catarse, isso sim. É mais dificilmente dissociável das expectativas e emoções que o romancista põe nas criações que “vive”. E quanto à minha geografia social, assumo-a, obviamente, como matriz e como opção original. A minha intenção consiste em transpor, a partir de uma ilha, um universo simbólico que se aproxime de um mundo real deste país. Não me sinto limitado, sou mesmo um observador privilegiado. Nos Açores do presente persistem muitos dos dados que em parte explicam os mistérios, os equívocos e a espiritualidade de todos os portugueses. A literatura do após-25 de Abril inscreve nas suas preocupações uma procura quase mítica da nossa identidade cultural. Diria, por isso, que O Meu Mundo só por artifício pode ser baptizado de “romance geográfico” ou “açoriano”. A minha ideia foi propor nele uma nova mitologia literária, segundo a qual a “ilha” pode ser a alegoria possível de um país. Por isso a Achadinha passa a chamar-se “Rozário”, no masculino e em grafia desactualizada, para que mais depressa se aproxime da sinonímia de Portugal. Um país rural e urbano, insular e continental, sem dúvida, no interior do qual coexistem as mais diversas tensões culturais e vivências.

O Meu Mundo Não É Deste Reino, apesar dos inesquecíveis pesadelos e tristezas que nas suas páginas se sucedem, é um romance muito optimista. Concorda?

JM – Inteiramente. Lembra-se da metáfora dos pássaros, no final do livro? Ali, como noutros livros meus, sou português por gosto, não por fatalidade. Mas o país que somos não pode estar todo no nosso tempo. É tão medieval ou terceiro-mundista, por exemplo, quando o pode ser já de macrocéfalo, existencial ou de vanguarda. A nossa evolução histórica processa-se muito em espiral, desde a paróquia provinciana até ao fascínio das catedrais, em sentido figurado. É esse o trajecto de O Meu Mundo, conforme creio: pelo optimismo do tempo que levará ao futuro.

– A esperança, no entanto, como motivo na literatura portuguesa actual, parece estar dissipada quase por completo. É este apenas um fenómeno literário, o reagir de intelectuais perante o seu mundo, ou vê que a população em geral assim sente e vive na sua terra?

JM – A literatura é o país dos pobres. Enquanto a realidade for insuportável, deve competir ao imaginário dos livros conceber essa porta de saída para o ideal social. Por isso não posso concordar com a sua constatação. Tenho visto muitos motivos de esperança na moderna ficção portuguesa. É mesmo o que dela mais quero reter. Podemos não festejar as grandes vitórias da felicidade, mas parece-me que não está enjeitada a crença nessa possibilidade. Se é certo que a liberdade trouxe responsabilidades acrescidas aos escritores, é no mínimo óbvio que ela comportou de imediato conquistas inestimáveis. Nunca mais ninguém foi preso por delito de opinião; a Censura foi suprimida, assim como as polícias políticas. O que mais depressa se libertou dentro de nós foi a expressão de um novo imaginário. Não há temas-tabus nem o receio de ver os livros apreendidos e os seus autores presos. E no plano estritamente literário, há outra constatação a fazer: as duas ou três gerações de escritores que estão no activo não sentem necessidade de se combaterem entre si. Por vezes, coincidem mesmo numa única dinâmica de escrita. Que eu saiba, isso é único e era inédito na história literária portuguesa.

– Vejo em O Meu Mundo Não É Deste Reino influências diversas da literatura moderna e pós-moderna – Faulkner e Márquez, por exemplo. Lê muito os seus contemporâneos?

Que mais lê actualmente?

JM – Conheço muito mal a obra de Faulkner. A minha tribo literária anda dispersa, algo desarrumada, e é muito heterogénea. Houve escritores importantes na minha formação: Dostoivski, Kafka, Camus, Beckett e alguns portugueses – Eça, Nuno Bragança, Urbano Tavares Rodrigues. Depois chegaram os latino-americanos. Não somente Garcia Márquez, ao contrário do que se diz, mas também Cortázar, Roa Bastos, Carpentier e mesmo Borges. Leio imenso, de resto. E julgo-me razoavelmente documentado quanto à escrita portuguesa actual. Aqui, na minha opinião, oscilamos entre o óptimo e os “piccoli equivoci senza importanza”, como diria o Tabucchi. De momento, sinto-me pouco permeável a esses estímulos. A minha geração só tem uma alternativa: ou vive na periferia dos modelos estrangeiros, ou então cria o seu próprio modelo de literatura.

– Os representantes da Igreja são também os protagonistas de O Meu Mundo Não É Deste Reino. Aparecem aí como uns imbecis de indescritível vileza. Não acha que o papel da Igreja nos Açores foi e é muito mais complicado?

JM – Já o é no romance, suponho. E não creio que nos meus outros livros haja uma visão sectária da Igreja. Limito-me a denunciar a inteligência perversa de certos padres, que não resistem a assumir o estatuto dos poderosos e dos exploradores. Insurjo-me contra os ocultos poderes eclesiásticos, na proporção dos seus compromissos com a ociosidade, o espírito de seita, o preconceito ideológico e a fluidez moral. Sou sobretudo um crítico das hierarquias, como sabe. Os mesmos bispos que abençoaram as naus das descobertas e conquistas aparecem depois a benzer os barcos que partiam para a guerra colonial (que era uma guerra “santa”, na palavra do cardeal Cerejeira!). E os papas da Inquisição, seriam por ventura os mesmos que hoje excomungam os teóricos da “teologia da libertação” – com o absurdo de estarem a renegar a Igreja dos pobres e a politizá-la diferentemente, de país para país. Por outro lado, foi sempre um propósito muito meu questionar as patriarcais figuras da sociedade portuguesa.

– Creio que o único e verdadeiro acto de amor, para além da vida de João Guilherme com a mulher até certa etapa do seu percurso, ocorre entre um dos filhos desse protagonista e uma bonita prostituta local. As relações humanas estão completamente despedaçadas no romance…

JM – Aí, discordo, João-Maria e os dois filhos são o triângulo de um trapézio amoroso muito mais vasto, no romance. Aquele povo, que se fecha por detrás das suas portas, fica de ouvido à escuta e não recusa a sua solidariedade a um homem que se levanta contra os que estão destruindo a sua felicidade. Todas as mulheres desse livro são luminosas, realizam prodígios na vida dos seus homens. A coragem delas será porventura mais quotidiana e menos excepcional do que a desses homens. Poderia isso inibir-me de perscrutar o mundo miúdo das mulherzinhas, se elas são rigorosamente o contrário das outras? Já imaginou a coragem que é precisa para dar à luz, e ser isso tão grandioso quanto natural?

– O mar em O Meu Mundo Não É Deste Reino torna-se um símbolo ao mesmo tempo de vida e morte, de esperança e de aterrorização, é “um mar branco”. Será que o povo açoriano é o único povo ilhéu que olha para o mar só como possível via de fuga e para a terra como único e desejável sustento?

JM – A simbologia do mar – que a personagem do curandeiro define como sendo “branco” – faz parte de uma concepção de inocência. Para uns, ele é apenas um imenso deserto de água; para outros, o paradigma amniótico da Ilha. No geral, não é um elemento inimigo. Não significa violência ou morte: talvez o estigma de um destino que está por cumprir-se. Na minha infância (e decerto na sua), o mar exercia sobre nós múltiplos fascínios: passavam grandes barcos em direcção à América e a Lisboa, por ele se realizava o desejo de uma segunda condição humana. O J. H. Santos Barros assinalou isso, com grande lucidez, numa crítica que escreveu sobre o livro. Hoje, o mar está desdramatizado: não passam por ele, como nesse tempo, as ligações com o exterior. É com algum assombro que as personagens de O Meu Mundo ouvem João-Lázaro falar de aviões, do telégrafo e de outros prodígios. Não há nada de profético nesse expediente: na minha instrução primária, obrigaram-me a decorar os nomes das vias férreas, dos rios, das serras e dos castelos de Portugal – coisas de todo inexistentes na minha ilha. De tal forma que, quando cheguei a Lisboa, e como agora digo em Gente Feliz Com Lágrimas, desembarquei no país dos compêndios de História e Geografia, não no meu. Talvez fique agora mais clara essa analogia com o imaginário do romance, não concorda?

– A maior parte dos açorianos, assim como milhões de continentais, estão fora do país. Já alguma vez pensou também em emigrar? Que o faz querer ficar?

JM – Tive a sorte de viver um destino diferente do dos meus oito irmãos. Vim estudar para o seminário porque já então me não seduziam por aí além o estrume das vacas e o trabalho da terra. Se assim não tivesse acontecido, seria hoje, tal como eles, um homem canadiano num país de estrangeiros e trabalharia decerto na construção civil, lá para os lados do Pacífico ou no estado de Massachussets. Digo-o, aliás, neste último livro: “serei português com a moral e com o espírito, com o sangue até de quem traz em si um verso, um cheiro a mar, um fruto da sua terra”.

– A literatura de guerra, a referente à experiência portuguesa em África, foi sempre uma outra grande preocupação sua. Para além do seu romance Autópsia de um Mar de Ruínas e dos contos de Histórias da Resistência, você organizou e contribuiu para a colectânea Os Anos da Guerra, atreve-se a fazer aqui um breve balanço qualitativo do que até à data se escreveu sobre o assunto em Portugal? Espera ainda mais dessa geração que viveu a experiência africana?

JM – A guerra que nós vivemos em África não é a do tabu e do silêncio. Pode porém não ser obsessiva, ou estar já superada. Talvez perdure como experiência e como lição. Foi o nosso Vietname de 13 anos, repartido por três frentes. Nunca percebi o estranho preconceito “literário” que esse tema vem sugerindo a certos espíritos. Escreveram-se grandes livros sobre essa nossa vicissitude colectiva, com a diversíssima perspectiva de cada autor, claro está, mas também sobre o propósito de sondar, compreender e interpretar o país do logro e do equívoco – e sobretudo o drama que foi, para a minha geração, ter herdado sozinha o crepúsculo de um colonialismo sem Império (na rigorosa expressão de Eduardo Lourenço). A guerra trouxe para a Literatura Portuguesa grandes escritores, como é sabido. Os melhores deles incorrem na melhor tradição da escrita da História – desta vez anti-épica, desmontando a Epopeia e repondo valores humanistas que descobrem afinal um país periférico que sempre naufragou entre a mitomania imperial e o seu espaço geográfico, europeu.

– O que é hoje ser-se “escritor açoriano” em Portugal?

JM – Um desafio que permanentemente me confronta com o complexo anti-ilhas dos meios culturais lisboetas. Mas é um desafio para vencer, não duvide. Uma proposta que começa lentamente a ser ganha. Os escritores portugueses, na sua imensa maioria, vieram sempre da província. A população das nossas cidades, de resto, é uma espécie imigrante cujo imaginário não é essencialmente citadino. Por isso, e por convicção própria, não serei nunca um solitário. Lisboa tem-me dado o que nunca os Açores deram aos escritores. Não tem sido fácil. Essa justiça é-me devida. Mas não me lamento. Até porque tenho notícias de que os meus livros começam a chegar às ilhas.

– Finalmente, qual é o seu livro preferido entre todos que até hoje já escreveu?

JM – Gosto de todos eles, se bem que por motivos diferentes. Mesmo daqueles que já rejeitei e que cumprem apenas a função da ternura pela minha juventude. Penso que tenho vindo a “crescer” de livro para livro, só isso, e que não me aflige muito o problema da repetição pela escrita. Augusto Abelaira disse um dia que o melhor dos nossos livros terá de ser sempre o próximo, mesmo que nunca venhamos a ser capazes de o escrever. Concordo e estou por aí. De agora em diante se verá.

 

João de Melo e o Imaginário Açoriano

II

O objectivo principal, aqui, é apresentar ao eventual leitor, o mais completamente possível, o imaginário de um país na obra deste autor. Concentramo-nos nos seus dois romances – e que me perdoe o autor – “açorianos”, O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. É claro que, ao dirigir-lhe as perguntas, a opção de para aí levar a conversa foi inteiramente minha. Acredito que, felizmente para todos, chegámos já a este entendimento também quanto à Literatura Portuguesa – qualquer região, qualquer canto do nosso país poderá ser (e os Açores desde há muito que o são) ficcionado sem complexos, servir de fundo a livros que definitivamente a todos “pertencem” e a todos igualmente dizem respeito, que são apenas outro repositório, outro ângulo, outro retrato de situações e personagens da nossa comum condição humana.

João de Melo, como aliás o comprova a recepção crítica, e não só, de todos os seus livros até à data, é um escritor nacional que acontece, devido às circunstâncias da sua origem geográfica, escolher os Açores, e em Gente Feliz Com Lágrimas, o Continente assim como o Canadá, como ponto de partida para, uma vez mais, transfigurar o que ele entende ser a condição humana tal como é vivida pelo seu povo.

Com ele, temos percorrido séculos da nossa existência nacional. Este seu último romance transporta-nos para a actualidade, crendo ele que “… atravessa geografias, círculos familiares, tempos, sociedades, errâncias… tomara eu que nele se mirassem as famílias portuguesas que vieram da aldeia para a cidade, os que emigraram para a Europa e para a América, até como para o Brasil, ou que em tudo isso houvesse a noção de um país errante, mutável em busca da sua identidade.”

– Thomas Wolfe dizia que pouco lhe incomodava magoar indivíduos, da sua família ou não, que porventura se reconhecessem, ou pensavam que se reconheciam, negativamente, nos seus romances declaradamente autobiográficos. A criação artística tudo justificava. Demais a mais, as pessoas um dia desaparecem, mas os romances ficam. Sentiu-se alguma vez, ao escrever Gente Feliz Com Lágrimas, com dúvidas acerca da transfiguração de muitas das suas personagens e a possibilidade de alguém se reconhecer abertamente em alguma delas?

João de Melo – É suposto que Rui Zinho nunca tenha existido, como sabe. Mas a geografia e a memória de Gente Feliz Com Lágrimas passam-lhe pelo sangue e pelos nervos, antes de se converterem em escrita de ficção. Daí a minha ideia de que o romance não possa nem deva ser rotulado equivocamente – nem autobiográfico nem açoriano. Essa geografia interior, atravessando o espírito e o senso crítico de Zinho, é como um grifo ou um baixo-relevo e pretende envolver e projectar para o exterior da personagem um tempo e um espaço que coincidam com um país e com a sua história recente. Estão lá a Ditadura, a guerra, a infância, a morte desse país de sombras que atravessou a fronteira da noite e se encontra hoje na claridade diurna da sua liberdade política e cultural. Rui Zinho não existe sequer no “Livro Primeiro” de Gente Feliz, enquanto “ouve” Nuno, Amélia e Luís nessa confissão da infância comum. Não existe também a outro nível, quando Marta desfolha o discurso do cinismo acerca dum casamento que veio da paixão e da aprendizagem do amor até ao divórcio. De resto, Marta é uma mulher múltipla. Cumpre, neste livro, a função da mulher primordial, ao mesmo tempo única e numerosa. Tem o seu quê de quotidiano e divino em coexistência na mesma pessoa, na linha das sublimações femininas que compareceram já em anteriores ficções minhas.

Pois bem, um dos desafios de Gente Feliz com Lágrimas passa exactamente por aí: envolver o leitor numa rede de ficções quase desconcertantes. Há aí um processo heteronímico, uma espécie de jogo de iluminação que torna as personagens simultaneamente reais e transfiguradas. Ou seja, chega a ser um divertimento. Pessoalmente, não me reconheço por inteiro nisso. A minha infância foi duas vezes mais terrível do que aquela que lá vem narrada. Nuno Botelho será por ventura quem entra e quem sai mais vezes do imenso bastidor da minha vida e da minha pessoa, não o recuso. Mas não esteve na guerra e eu sim; é menos visceralmente anti-seminarista e não manifesta uma relação tão dramática com o lado religioso da sua formação ética e profissional. Poderia dizer que Nuno me escapa na espiral, sem dar aquele salto para a frente que foi o acto mais positivo da minha vida. Depois ele é em mim uma personagem do futuro; há nele algo de decisivo que ainda me não aconteceu. Por isso, tem 46 anos de idade (mais sete ou oito do que eu, na altura em que foi inventado), falhou um casamento e um amor que era eterno e acaba por resignar-se a um “Regresso Invisível” aos Açores, como se esse fosse o único remédio dos seus males. Em parte, perdeu o pé à vida (não apenas ao casamento e ao seu amor por Marta). E contudo é esse Nuno lúcido que denuncia, logo no capítulo segundo do livro, o país “necrófilo”. Sente-o por si, no momento em que hesita em descrever a figura paterna como “um cão de pai”.

É elementar dizer o seguinte, ainda: Gente Feliz atravessa geografias, círculos familiares, tempos sociedades, errâncias – mas acima de tudo pretende ser o romance dum país. Diversas pessoas me disseram já que aquela é a infância delas – nas Beiras, no Douro, no Alentejo, em Trás-os-Montes. Que a vida lisboeta de Nuno não pode ser pessoalizada apenas nele. Ao ouvir isso, senti finalmente que o romance começava a cumprir algumas das suas conjunturas. Penso, finalmente, que Gente Feliz Com Lágrimas chama a si uma condição dupla, pouco assumida na literatura portuguesa: coexistem, nas suas páginas, dois países distintos – o rural e o citadino. Por isso, é um romance de travessia (do campo para a cidade, com o regresso no fim ou talvez não: as páginas finais, em “A Felicidade Sábia”, recorrem à narrativa moral e à fábula da escrita…). Se alguém da minha família nele se reconhecer, tanto melhor. Mas tomara eu que se mirassem as famílias portuguesas que vieram das aldeias para a cidade, os que emigraram para a Europa e para a América, até mesmo para o Brasil, ou que em tudo isto houvesse a noção dum país errante, mutável e em busca da sua identidade.

– Se bem que se trate de dois romances que não necessitam um do outro e cada um dos seus mundos está completo perante qualquer leitor, foi-me difícil ler uma só página de Gente Feliz sem pensar em O Meu Mundo Não É Deste Reino. Foi como que ouvir uma história de gente diferente, mas colocada no mesmo palco, numa paisagem de imediato reconhecida. Por outro lado, logo nas primeiras páginas deste seu último romance, diz-se que Nuno, uma das suas vozes principais e à volta de quem o narrador une toda a história, anda desde há muito num ajuste de contas com tudo e com todos. Trata-se aqui da descarga catártica determinante e final?

JM – Em certa medida, é um livro que estava prometido a mim mesmo, para a minha libertação interior. Claro que a sua força motriz é a da catarse, mas a ideia da sua escrita nunca perdeu de vista a necessidade de fazer dele um objecto de criação e de literatura. Toda a minha ficção se inscreve no movimento de um pêndulo. Esse pêndulo oscila entre a mentira e a verdade da minha pessoa civil. Nada é realidade transcrita, e nada aparece escrito depois como ficção pura. Mas você talvez não devesse insistir muito nesse paralelismo apenas hipotético, entre O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. Leu Entre Pássaro e Anjo? Aí, há uma novela que fecha um ciclo de O Meu Mundo. Chama-se A Divina Miséria e é dos textos de que mais gosto. E leu Autópsia de um Mar de Ruínas? Nesse romance de guerra, quem circula é um tal furriel enfermeiro, quase um inominado, que é bem um alter-ego meu, daquilo que eu próprio vivi em Angola. Aí tem uma obra de catarse, por um lado, e de testemunho e aprendizagem ideológica, por outro. Está escrita. Por esse motivo, a experiência da guerra é imputada a outrem em Gente Feliz, e não foi minha intenção voltar a incorrer no tema. E, no entanto, foi-me indispensável dizer que a geração dessa “gente feliz com lágrimas” conheceu também o destino da guerra colonial, para só depois mudar o seu próprio e o destino do seu país.

– Uma das muitas ironias deste seu romance é a personagem Rui Zinho, o desdobramento de Nuno, o escritor, que aparece de quando em quando, alude aos seus outros livros sobre tudo isto, mas nunca se liga com muita emoção ao que vai decorrendo; na mente do leitor é uma personagem supérflua e esquecível. Quer isto dizer que o escritor, que é um Rui Zinho, merece o castigo e a frieza com que vive os seus dias? Que aqueles que ele descreve, e não os seus livros, é que são merecedores da nossa atenção?

JM – Esse Rui Zinho, o duplo de Nuno, é o seu lado maldito, a sua perversão interior. Separam-se como ramos do mesmo tronco e são, em certa medida, o verso e o reverso do mesmo rosto, mas não duma só pessoa. Ambicionam realizar a felicidade, penso eu, mas por caminhos incomunicáveis. Rui Zinho deixa-se seduzir pelo sucesso. Incorre na chamada “tentação literária” das vaidadezinhas e da auto-promoção pela cultura. É por essa corrida solitária, sôfrega e pouco escrupulosa que Marta se considera traída. Para Nuno, sobretudo pela sua inocência humana, sobra-lhe ainda um tempo de paixão. À semelhança de Álvaro de Campos, Marta poderia dizer que ama ainda não o tempo em que conheceu e casou com Nuno, mas quem ele era nesse tempo, antes de se dissolver no egoísmo e na cruzada da Literatura.

– Vejo neste livro uma alegoria ao desfazamento e eventual reconstrução de um outro Portugal. Para mim, um dos momentos de maior tristeza foi o regresso de Nuno/Rui Zinho à sua casa natal após 25 anos de ausência. É que acompanhamos a morte, o desenraizamento e a quase incrível solidão de toda esta gente, sabemos que este seu mundo vai continuar, como e com quem é que não. Impressionou-me bastante quando Nuno, ao ver que estranhos haviam profanado aquele templo na sua infância, corre raivosamente com as crianças que o espreitam do lado de fora. Estarei muito além das suas intenções quanto a temas e efeitos que desejou exercer sobre os leitores?

JM – Observa muito bem esse desenraizamento de Nuno/Rui Zinho. A possível correspondência desse episódio com a minha própria vida reside no afecto e na amargura que em mim se prolonga a partir da morte dos meus pais. A casa onde cresci, na Achadinha, foi vendida a estranhos, num intricado processo de partilhas que se vai produzindo fora do meu controlo. Vou frequentemente aos Açores, mas deixei de passar pela Achadinha: sei que me ia ser muito doloroso passar na rua, olhar para dentro daquela casa e mirar as sombras de quem fui e de tudo o que ali se viveu. Prefiro ficar por Ponta Delgada, arriscar uma ida à Maia, se tanto. Esta espécie de exorcismo interior converte-se, no livro, no último calvário de Nuno/Rui Zinho: aí tem a prova em como eu não sou nem um nem outro…

– Outra questão referente a Rui Zinho. Quando ele alude aos seus “leitores estúpidos” quererá dizer: Que buscam nestes meus livros, então ainda não notaram que as vossas vidas são a mesma comédia e tragédia que aqui procuram?

JM – Repare que esta acusação parte de Marta, não de Rui Zinho. Ela talvez queira denunciar esse canto de sereia, que é a escrita dos livros e a ocultação de Nuno. Na opção dela, os leitores são “estúpidos” porque não distinguem entre a verdade e a hipocrisia da feitiçaria criativa do seu homem. Pensa pior: que o escritor é, ele próprio, um produto da imaginação. Porque há o outro: aquele individuo distraído dela, do seu ciúme e da sua humanidade. O que Marta não suporta, no casamento com Nuno, é a ambivalência do ser, a sua ambiguidade.

– Durante todo este percurso de Gente Feliz Com Lágrimas tive este sentimento duplo: repulsa e saudade pelo mundo perdido que me ia sendo contado e dissecado. Creio que um dos temas principais deste romance é que, apesar de tudo, é-nos impossível libertar-nos do passado por completo…Será que os miúdos que espreitam Nuno dentro de casa da sua infância estão, sem o saber, a espreitar também o seu próprio futuro passado, ou pertencem já a um Portugal novo e com outros destinos?

JM – Parece-me haver, efectivamente, nessa “gente feliz com lágrimas” as marcas, aquisições e a sabedoria que permitem classificar este livro como um romance de “geração”. As pessoas da minha idade viveram intensamente a vicissitude do fim do século. Herdaram, de alguma forma, um país que não lhes pertencia. A Ditadura vinha de trás. O absurdo da “potência colonial”, também. A ideia tradicional de família, pátria, educação e poder, tudo isso exigiu de nós uma enorme força de contestação. Nuno Botelho reivindica para si o tempo de Lisboa, e fá-lo com a Censura, a política, as prisões de Caxias e do Aljube, o poder do nepotismo, a impunidade. Sobretudo, assistiu-lhe o logro de ter de fazer uma guerra colonial de cuja moral cedo se desobrigou a consciência mais esclarecida dessa geração. Se afinal não nos competira a nós nenhum ideal de colonizadores, porque razão nos devia ser exigido defender as Colónias da pátria? Suponho, por isso, que o romance comporta também esse não de raiz moral à guerra e à Ditadura salazarista e marcelista. A nossa ideia do destino encontrou-se em parte em Maio de 68, os Beatles, os hippies, o romantismo de Guevara na Bolívia, o levantamento estudantil e popular na Checoslováquia – como ideal de recusa aos bombardeiros B-52 do Vietname, por um lado, e a política do napalm e do adeus, até ao meu regresso em Portugal e em África. De modo que Nuno não vê conciliação possível entre as memórias dessa casa da infância e a curiosidade doentia daquela gente que o espreita no Rozário, vendo nele uma espécie de antepassado ou linóleo dum país estranho e distante dos Açores.

– As relações e a memória de pais/filhos são aqui descritas com uma radicalidade raramente encontrada na Literatura Portuguesa. Por exemplo, a descrição minuciosa da sedução física da mãe do Nuno pelo pai, que aliás, num dos casos, sobressai como um dos momentos de maior ternura e humanidade do romance. De resto, a violência e maus sentimentos, as raivas e os ressentimentos são predominantes…

JM – Acredito que o sentimento dominante do romance passa muito por essa estratégia de ruptura radical. A separação processa-se sobre eixos, mecanismos duplos, confrontos éticos que opõem o amor ao ódio. A violência, a ternura, a indiferença à paixão ideológica. Mas subsiste um outro dado no romance, pelo qual se alimenta toda a denúncia das relações familiares. Os filhos de Luísa e Emanoel Botelho, uns mais do que outros, ressentem-se ou denotam essencialmente o problema dum édipo ainda não superado, ou mal resolvido, no amor dos pais. Sedu-los a aparência duma harmonia, dum secretismo íntimo. Contudo, a maldição desse casamento reside no facto de ele se esgotar na procriação. A Mãe estava sempre grávida e era uma mulher sempre dividida entre a paixão pelo homem e a sua condição de fêmea materna, cuja utilidade prescrevia no fim da amamentação dos bebés. Por isso o pai não vai além duma prepotência sexual, agravada pelo facto de ele só ver nos filhos crescidos um capital investido. E esse é o logro visível e material da paternidade. Uma das personagens diz mesmo que o centro do mundo esteve sempre na cama dos pais. Outra dirá que o quarto deles é o altar da casa. Nuno/Rui Zinho, no regresso, experimenta ainda, perante a profanação da casa, a estranha sensação de que o útero materno persiste ainda naquele templo. Todos se movem mais ou menos por dentro desses domínios, onde os sentimentos são primordiais e absolutos. Ninguém quer ou quis ser um pai ou uma mãe à imagem e semelhança dos pais dos Açores. No Canadá, Nuno vai surpreender nos irmãos o resultado desse estigma.

– A “Outra Versão de Marta” que, ao mesmo tempo, desmistifica e humaniza a existência de Nuno/Rui Zinho, o escritor, para além de tudo o mais, parece querer dizer isto: uma vivência de memórias raivosas, de ambições e obsessões, a mulher é ou tenta ser a âncora, a estabilidade de tudo e de todos, a mãe-mítica que nunca se perde ou deixa de viver… Também em Gente Feliz Com Lágrimas vê a Mulher, e não só em Marta, como bóia de salvação…

JM – Muito bem observado. Marta é, na vida e no pensamento de Nuno/Rui Zinho, a possibilidade dessa mulher primordial, luminosa, eterna. O platonismo foi aí uma atitude consciente do romancista. Porquê? Porque sim, e pronto. Como disse, esse é um dos fascínios mais duradouros da minha escrita. Vem-me de convicção própria, por saber que a mulher é a maior razão de existir. Porque ela, para além de nos dar a vida, pode salvar-nos e dar-nos a ilusão de projectar o tempo no infinito. E porque já Paul Éluard o dissera duma forma absolutamente admirável: “la femme est l’avenir de l’homme”. Sei, de resto, que a minha escrita tem merecido algum eco num público feminino. Não quer isto dizer que me assista uma especial virtude quanto a esse discurso no feminino. Custou-me imenso “encontrar” a voz e o íntimo de Maria Amélia e de Marta, por exemplo. Foi mesmo aí que a escrita de Gente Feliz Com Lágrimas correu repetidamente o risco de encalhar. Aliás, foi um romance penoso, mesmo exasperante, que por pouco não me levou a desistir da Literatura.

– A solidão sofrida por todas as personagens em Gente Feliz é arrepiante; o desamparo, palavra que aparece no próprio romance, é total e absoluto. Apesar de tudo, ou talvez mesmo por isso, vejo gente ali muito forte, como a Amélia, por exemplo…

JM – A Vida de Amélia é, de longe, a mais sofrida e a mais heróica. Venceu tudo: a temeridade de deixar a casa e a vida da família, o embarque para Lisboa, as trevas marítimas daquela viagem tenebrosa no cargueiro, o convento, a doença, a expulsão, os amores mal sucedidos, o casamento medíocre. Isso não obsta a que ela seja porventura a personagem mais realizada e mais feliz no Canadá. Ou porque triunfou dos estigmas tradicionais da condição do emigrante, ou porque o Canadá realiza plenamente nela a ideia material e civilizacional de pátria e de “país dos sonhos perfeitos”. Amélia é a perfeita consciência de que a felicidade tem de facto o preço das muitas lágrimas que chorou – e por isso traduz um bem que ela não quer perder. O que há de admirável nela e não só é essa superior integração canadiana, mas sobremaneira o modo como superou os traumas e os estigmas do ser português, ao nível da educação, do sofrimento e do desgaste. Além disso, Amélia é uma “retornada” de África – e até isso ela converteu num acto de cultura vivencial. Sobra-me a ideia de que Portugal talvez seja um país de morte, e que o Canadá represente a ressurreição do ideal português em diáspora.

– Creio que você tem um especial carinho pela personagem Luís Miguel: camponês de gema, sincero nos seus dizeres e afazeres, corajoso e leal, sempre cheio de humor, em suma as qualidades humanas que neste bravo mundo, tal como sobressai no próprio romance, parecem ausentes. Estarei errado se disser que Nuno reconhece que perdeu muitas dessas qualidades e inveja comovidamente o irmão daquelas páginas?

JM – Luís é, até certo ponto, o inverso de Amélia. O seu heroísmo parece irreal, quase perverso. Assume-se como um emigrante derrotado, sem sorte nem expediente – ao contrário também de Jorge e de Linda, por exemplo – mas também o humor, o culto pelo lado lúdico das coisas. Personagem controversa, aliás, sendo um homem duma força física quase descomunal, é incapaz de qualquer violência. A guerra da Guiné levou-lhe todas as energias de revolta. A morte do pai ecoa dentro dele como um apaziguamento, uma trégua forçada. A contradição reside nessa dicotomia ou fractura interior que leva Luís a submeter-se à tirania da mulher com quem casou. Isto é, ele cresceu apenas por fora. O seu íntimo é de o de um menino, e o instinto vagueia entre o humano e o animal. Evidentemente, a bebida é um escape óbvio para essa fraqueza que chega a roçar a cobardia. Teve a cabeça a prémio na Guiné, foi um criminoso de guerra, mas ao contrário de Nuno, que é um sisudo e um introspectivo, não consegue pôr-se mal com a vida. A mim, interessou-me fazer com que Gente Feliz incorresse também no estatuto do “romance psicológico”. Só tinha duas possibilidades: escrever um livro sobre a vida-vidinha, ou transfigurar em termos duma análise eufórica e significativa de ser e do não-ser. Mas tive que criar as minhas próprias defesas. Sabia que a psicologia, no romance, é terreno resvaladiço, arbitrário, e que não podia incorrer na chateza dos painéis comportamentais. Quis falar de pessoas com muito mundo dentro de si, não daquela gente-gentezinha que por vezes está no oposto da condição humana.

– As duas mortes principais em Gente Feliz Com Lágrimas resultam de um cancro. Mas creio também que percebi que a sua visão da vida “nova” que levam os irmãos de Nuno no Canadá é, para ele, outra espécie de corrosão interior, outra forma de morte. Como vê as consequências dessa emigração?

JM – Os “meus” emigrantes começam por ser sobreviventes dum Portugal infinitamente pequeno. Têm pela frente o problema da sua integração nas sociedades estranhas. Oscilam entre a “ilha eterna” que levam dentro de si e o estigma de se interrogarem por dentro quanto a essa identidade portuguesa que vem atormentando alguma da actual literatura portuguesa. A minha sondagem da emigração foi dupla: saber como suportavam eles o impacto do destino e como se confrontavam com o desafio de educar os filhos. E as crianças desses emigrantes começam a fazer uma opção entre os pais (ou o modelo social e pedagógico deles) e a sua própria diferença educacional. Não é um problema menor. É porventura mesmo o elemento da ruptura interior, que vai ter como protagonistas os filhos e os emigrantes da segunda geração. Ouço dizer que Jorge de Sena sentiu isso com alguma amargura, não sei. Vi desenhar-se esse cenário na vida dos meus irmãos emigrados. Os filhos resistem à Língua Portuguesa, à mentalidade dos pais e ao seu próprio modo de vida, isto é, acabam por confundir tudo na mesma ideia. Penso, por conseguinte, que a opção dos emigrantes terá de ser definitiva: serem canadianos no Canadá e americanos nos Estado Unidos. Aliás, o futuro e o destino deles já não estão nos Açores nem no Continente, e sim nesse reenraizamento progressivo e irreversível. De outra forma, não se acabarão tão cedo os seus dramas de integração. Mas compete ao poder político português não se deixar resignar a isso, como se tratasse duma fatalidade. Chocou-me imenso ver o abandono a que foram votados esses nossos compatriotas, a provar que nunca existiu entre nós uma política cultural de emigração.

– Quando falámos a última vez, antes da publicação de Gente Feliz Com Lágrimas, você falava de um “desafio permanente” para o escritor açoriano em Portugal, o ter de vencer ou sobrepor-se a atitudes continentais anti-ilhas. O sucesso crítico deste seu último romance, no entanto, convence-me que grande parte desse desafio foi já ganho, não?

JM – Persistem os complexos anti-ilhas, não tenha dúvida. É-me extremamente difícil convencer as pessoas deste lado do mar de que, falando nos Açores, estou no barco dum país que não pode ser parcializado nem reduzido a uma geografia insular. Tento provar que não sou um escritor regionalista. Falo numa só gente, dum país de séculos e dum tempo que é, simultaneamente, interior e exterior, dos outros e de todos nós. Não vou desistir. A aposta consiste em gostar infinitamente dos Açores. Em levar muita gente a gostar dessas ilhas que já não podem ser as “Desconhecidas” de Raul Brandão. Mais: não vou resignar-me a uns Açores “nemesianos”. É preciso que as pessoas saibam: a literatura dos Açores não nasceu nem morreu com Vitorino Nemésio. Ele é muito mais avô do que um pai dos escritores açorianos…

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*Entrevistas publicadas originalmente no suplemento Cultura do Diário de Notícias (Lisboa) no fim dos anos 80, e depois incluídas no meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, na 1ª edição das Edições Salamandra (Lisboa, 1992), e depois na 2ª edição, da editora Letras Lavadas (Ponta Delgada, 2013).

DISCURSOS CULTURAIS NOS AÇORES: Por uma estética da territorialidade

Capa A Ilha Em Frente

VAMBERTO FREITAS

Um homem numa rocha e em volta o mar

Vitorino Nemésio

Nos Açores — para falarmos aqui só da nossa contemporaneidade — começa a sistematizar-se teoricamente, nos anos setenta e continuando até aos dias de hoje, a nossa produção cultural ao longo dos séculos, utilizando-se linguagens culturalmente preocupadas acima de tudo com a busca de um entendimento aprofundado da realidade açoriana adentro do país português. É certo que antes e depois dessa década isso vinha a acontecer em textos por vezes avulsos e dispersos, ou em textos muitas vezes de uma informalidade quase emotiva, mas sempre através de linguagens que nunca descuraram uma contextualização, repita-se, nacional e, até, universal. Todavia, este trabalho intelectual de fundo veio após quinhentos anos de separação da restante nação lusíada: separação física pelo mar, “separação” pela falta de conhecimento das ilhas no Continente fora de reduzidos círculos intelectuais e governamentais, “separação” pela realidade económica de um país pobre e sem conceitos de desenvolvimento territorialmente abrangente, em que uma também muito reduzida elite açoriana mantinha tradicionalmente desde há séculos — quer através de negócios quer através da ida para as universidades continentais, particularmente Coimbra — uma mais estreita relação com o todo nacional. No segundo quartel do século passado, Antero de Quental alude vagamente nas suas cartas, agora publicadas, à condição açoriana no contexto nacional, quando, por exemplo, falava da Terceira e das outras ilhas, e do seu iberismo (em termos de cultura, e não, neste caso, de união entre Portugal e Espanha), ou ainda quando mencionava descomprometidamente o movimento ou sentimento separatista que já então se desenhava entre algumas figuras da nossa elite comercial, virada para as possibilidades americanas dos Açores.

Não é um objectivo deste meu ensaio recuar para além da referida década de sessenta, nem sequer deter-me aqui alongadamente, como seria de esperar noutro contexto, sobre as Semana(s) de Estudos em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Horta durante os anos 1961 e 1964, dinamizadas especialmente primeiro por José Enes e depois por Artur Cunha de Oliveira. Bastará relembrar, do mesmo modo, que já nos anos 20, quando o mais conhecido açoriano deste século, Vitorino Nemésio, chega a Coimbra acha por bem logo nos seus primeiros escritos públicos começar a explicar as idiossincrasias das suas ilhas atlânticas, lançando eventualmente (em 1932, na revista Ínsula, de Ponta Delgada) o conceito de açorianidade, numa tentativa teórica de enquadramento não só da nossa literatura como de toda uma postura psíquico-cultural das gentes das ilhas na sua pátria lusitana. O autor de Mau Tempo no Canal, atento “ao olhar de fora” que Raul Brandão traria à literatura portuguesa em As Ilhas Desconhecidas, reconheceu-se nas descrições aí contidas dos condicionalismos geográficos e históricos da sua própria terra “É (…) ao longo desses anos (escreve Onésimo T. Almeida no seu Açores, Açorianos, Açorianidade­) — o segundo quartel do século — que Vitorino Nemésio vai dar corpo à ideia de açorianidade como mundivência e vivência particular do povo açoriano, um modo específico de estar no mundo que se expressa, de entre outros modos, com uma determinada sensibilidade literária. Tendo experimentado ele próprio as diferenças culturais entre os seus Açores e o Continente para onde fora estudar, Nemésio descobriu-se açoriano. Ao encontrar-se com esse livro revelador da experiência contrária tida por Raul Brandão, que na viagem aos Açores fora profundamente tocado pela diferença da paisagem e das gentes, como ele narra em As Ilhas Desconhecidas, Nemésio sentiu-se iluminado pelas intuições e a perspicácia desse grande observador e aprofundou com ele o conhecimento dos seus Açores”.

Era finalmente a segunda descoberta “nacional” dos Açores, ironicamente a que despoletaria internamente todo um pensamento, sistematizado e teorizado, repita-se, sobre o que nos havia acontecido histórica e culturalmente durante os séculos que nos separavam da primeira descoberta e povoamento. Foi desse reconhecimento da nossa condição especificamente açoriana que Nemésio apresentaria ao nosso país (no seu ensaio de 1939, no número seis da Revista de Portugal, intitulado “O Poeta e o Isolamento: Roberto de Mesquita”) o primeiro grande poeta da açorianidade,  o poeta florentino de Almas Cativas. Nemésio, com efeito, interliga momentos biográficos do nosso poeta com a temática e estética de Almas Cativas, procedendo a uma extensa análise pouco habitual entre nós: rigor académico e pura emoção na descoberta literária e cultural que faz de Mesquita, como que encontrando a chave para todo o dramatismo histórico dos açorianos, apresentando o autor a todo o seu país como um poeta autenticamente ilhéu, mas cujo interiorismo transporta em si toda a condição humana do seu tempo. “O aspecto cultural da poesia de Roberto de Mesquita — escreve Nemésio — não poderia explicar-se sem esta sondagem rapidamente feita à atmosfera e ao meio ilhéu. Já veremos a que escola poética pertence a mensagem deste homem: um simbolismo em que portuguesmente se encontram Baudelaire com Verlaine, e a que algumas notas da metafísica de Antero e do seu timbre poético cortam o preciosismo — sem falar no sentimento da solidão atlântica, que esse, como já dei a entender, é que faz de Roberto de Mesquita um poeta original duradoiro. O que vamos ver agora é a condição de vida do poeta, aquilo que dá preço e nobreza à sua obra, sem sombra de carreira literária (…) As Almas Cativas significam: coisas e pessoas doridas na penumbra, prisioneiros da ilha geográfica e da ilha que está em todo o homem, que configura todo o homem”.

Dando ainda continuidade a esta questão, José Enes publicaria em 1954 “Açorianidade de Roberto de Mesquita”, no então suplemento O Pensamento, do jornal angrense A União: “(…) No meio do mar imenso que fascina e enclausura e dentro da pequenez das ilhas que satura e insatisfaz, o açoriano, na consciencialização do isolamento, sucumbe a uma forte melancolia, uma espécie de saudades por longes nunca vistos, e cai no devaneio. A amplidão dos horizontes, a violência das tempestades, o terror dos terramotos e a carência de recursos imprimem ao sentimento da solidão a tonalidade do abondono. Aquela melancolia e este abandono, modalizando a motivação subjectiva e a emotividade, aparecem em quase todos mas dum modo especial em Antero, Bernardo Maciel, e em Roberto de Mesquita”.

Pouco depois das referidas Semana(s) de Estudos (em parte ressuscitadas há alguns anos pelo Instituto Açoriano de Cultura, de Angra do Heroísmo, mas já sem a mística e a urgência das dos anos sessenta, no contexto específico do Estado Novo de então) apareceria um rol de escritores e de publicações cultural-literárias que até aos nossos dias abordariam criativamente toda esta questão, abrindo nesse processo sempre inacabado o espaço teórico e ensaístico para se falar nas questões culturais açorianas adentro de conceitos que remontam, precisamente, às posições de Nemésio nesse, para nós, célebre ensaio de 1932. Em 1977, o poeta (também florentino) Pedro da Silveira fazia sair em Lisboa (na Sá da Costa) a sua Antologia de Poesia Açoriana: Do Século XVIII a 1975, tornando-se esta de imediato uma obra referencial e extremamente polémica, não pelos poetas que incluía ou excluía, mas pelo seu vigoroso prefácio, que combina, numa linguagem muito pessoalizada, a história literária e crítica com uma bem definida posição ideológica, reclamando para a Literatura Açoriana um estatuto radicalmente autonómico face à Literatura Portuguesa, e que provocou um vivo debate entre alguns dos nossos intervenientes culturais de então. “Entendo, na verdade,— escreve taxativamente Pedro da Silveira — que literatura açoriana quer dizer, para os Açores, exactamente o equivalente ao que quer dizer, para Portugal, literatura portuguesa, ou, para qualquer outra terra do mundo, a sua literatura: a que foi e está sendo realizada pelos seus naturais ou naturalizados, dando ou não dando dela e seus habitantes um testemunho imediatamente localizável (…) Nenhum outro povo europeu — acrescenta Pedro da Silveira na conclusão do seu polémico texto — tão minúsculo como o Açoriano, excepção feita do Islandês, aliás bem mais antigo e sempre mais livre, deu na poesia (podia acrescentar: e no conto) tão boa nota de si. Que Antero é de facto um grande poeta açoriano, como também o são Roberto de Mesquita ou Vitorino Nemésio, já se sabia. Agora, para quem só isso ou pouco mais alcançava, penso ficará esclarecido que eles não são ilhas isoladas, únicas, no mar da literatura açoriana”.

Por sua vez, Onésimo T. Almeida, a partir da Universidade de Brown, em Providence, reiniciava, digamos que à larga escala, todo o debate que eventualmente envolvia quase todos os intervenientes nas questões culturais açorianas dentro e fora do arquipélago. Para além dos seus volumosos escritos ao longo das décadas de setenta e oitenta, que mais tarde viriam a ser reunidos no já citado livro Açores, Açorianos, Açorianidade, ele fazia sair a colectânea A Questão da Literatura Açoriana (em 1983), reunindo aí algumas das nossas figuras da geração que nos antecedeu nos anos cinquenta e que havia abordado principalmente a temática, estética e historicidade da literatura açoriana (José Enes e Eduíno de Jesus, por exemplo) juntamente com outros já da nossa própria geração, como João de Melo. Um pouco mais tarde, e após um dos primeiros grandes encontros sobre a nossa literatura na América do Norte (pois houve sessões e actuações culturais açorianas na Costa Leste americana, na Califórnia e no Canadá), Onésimo faria sair também o volume dessas comunicações em Da Literatura Açoriana (1986), no qual temos o mais vivo debate de sempre acerca da nossa cultura e história literária, um debate marcado por posições naturalmente divergentes mas que testemunha o profundo interesse que os Açores despertam entre os intelectuais desta nossa época. Creio não exagerar se afirmar aqui e agora que são dois volumes canónicos, inevitáveis (tal como toda a escrita de Onésimo até aos nossos dias, não esquecendo nunca que foi ele quem fundou na sua universidade americana a primeira cadeira de Literatura Açoriana, no ano lectivo de 1977/78), na nossa história literário-cultural, ninguém poderá abordar a questão da arte nos Açores sem os conhecer pormenorizadamente, sem com eles ter reflectido. Quase ao mesmo tempo, J. H. Santos Barros (falecido precocemente em 1983) viria também a provocar nos anos setenta toda uma vivíssima agitação cultural nos Açores, fazendo lembrar o grupo de Pedro da Silveira em Ponta Delgada, nos anos quarenta, e o grupo da Gávea, em Angra, nos finais dos anos cinquenta. Partindo de um posicionamento completamente novo, e de certo modo inesperado, entre nós, ideologicamente de uma perspectiva de esquerda, ainda no seu sentido quase clássico e europeu, Santos Barros intervém vigorosamente por entre toda a balbúrdia de mudança radical que então vivia a sociedade portuguesa. Santos Barros fundou e dirigiu com Urbano Bettencourt, em Lisboa, a revista A Memória de Água-Viva (que se publicou desde Março de 1978 a Outubro de 1980), tendo já aí como centro do debate as questões políticas e culturais açorianas nesse momento, uma vez mais, de transformações profundas em toda a nossa sociedade. A sua defesa da existência de uma Literatura Açoriana conheceria o seu apogeu, porém, no suplemento Contexto (Novembro de 1979 a Julho de 1983), por ele dirigido no semanário Açores, de Ponta Delgada. Toda esta actividade de Santos Barros e dos seus colegas mais próximos significava um desusado movimento das margens (a que desde há muito se haviam habituado os intelectuais açorianos) para o centro da discussão pública e das próprias instituições regionais; era como que a institucionalização do debate em volta da nossa literatura e arte em geral. A maior parte dessas consistentes intervenções de Santos Barros seriam eventualmente reunidas no seu livro O Lavrador de Ilhas-I: “(…) Não tinham razão — escreveria Santos Barros no prefácio a este seu livro, publicado em 1981, pela Secretaria Regional da Educação e Cultura — os que ansiosamente deslocavam a questão da escrita açoriana para o terreno nacional ou/e patriota ou patrioteiro. Como eu, estou certo que a maioria — para não dizer a totalidade — dos escritores açorianos, sempre se sentiu muito bem em chamar àquilo que escrevem literatura açoriana e nunca por nunca, bem pelo contrário, lhes passou pelas cabeças dar à expressão uma conotação extremisticamente diferenciadora, atitude que seria, aliás, reveladora de menoridade mental e anticultural”. É certo que Santos Barros exagera quando afirma que a maioria dos escritores açorianos alinhava — ou alinha, ao menos ideologicamente — pela mesma perspectiva quanto à autonomia da literatura das/nas ilhas, mas com esse seu posicionamento e linguagem elevava e alargava, juntamente com Onésimo T. Almeida, o debate que ainda permanece entre nós.

Esta agitação e discursividade intelectual nos Açores (nos anos setenta e oitenta) de Santos Barros e de muitos outros colegas seus vivendo dentro e fora do nosso arquipélago, estava paralelamente a ser desenvolvida por outras figuras que já então eram reconhecidas pelos seus escritos criativos e académicos em volta das mesmas questões da açorianidade e da nossa produção cultural em geral, desde as características temáticas mais marcantes de autores conhecidos, ou de outros a iniciar a sua actividade nas ilhas ou nelas inspirados. José Martins Garcia, com uma vasta obra que inclui poesia, ficção, ensaio e crítica, hoje Professor Catedrático na Universidade dos Açores, publicaria em 1987 o seu importante livro Para Uma Literatura Açoriana: “Este dilema — escreve Martins Garcia — ganha especial acuidade no âmbito da criatividade açoriana, uma vez que, sendo geograficamente as nove ilhas que somos, somos quem somos também enquanto herdeiros duma tradição. Não podemos renegar essa tradição sem nos negarmos a nós mesmos. Sabemos, todavia, que toda a tradição comporta elementos inertes a que se opõe a potencialidade inovadora. A criatividade artística é a realização dessa potencialidade inovadora sem menosprezo pela tradição. Se um corte abrupto com a tradição pode significar crise de identidade, aculturação, ou até irremediável desespero, o culto da tradição pela tradição pode engendrar uma espécie de fobia pelo diferente, pela modernidade. Encontrar o equilíbrio entre tradição e inovação, realizar uma obra que, sendo diferente das obras do passado, nos fale do que fomos, do que somos, do que seremos — eis um caminho que alguns artistas açorianos já descobriram”. Também ligado à Universidade dos Açores, onde prepara o seu doutoramento na área da Literatura Portuguesa, o poeta e ensaísta Urbano Bettencourt, vem desde os anos oitenta intervindo consistentemente no nosso debate cultural e estético, particularmente com os seus dois volumes de ensaios e crítica O Gosto das Palavras, sendo o volume primeiro de 1983 e o segundo tão recente como o ano de 1995. Urbano mantém durante todos esses anos a mesma posição: a territorialidade de uma literatura nunca fará com que esta se feche aos círculos restritos da sua proveniência, nem a sua estrita identificação a limita de outros modos, quer temáticos quer estéticos; um povo tem direito à sua própria voz e história cultural. Não foi por mera coincidência que Urbano esteve sempre ao lado de Santos Barros na direcção de A Memória da Água-Viva, partilhando com ele toda uma visão histórica, estética e ideológica, até, da vida cultural açoriana. Recentemente, Urbano voltou ao tema num ensaio publicado no Suplemento Açoriano de Cultura (do Correio dos Açores), intitulado significativamente “Dos Açores e da sua Literatura: Em Louvor das Periferias”. Após um parágrafo de abertura ao seu ensaio, em que estabelece os parâmetros da sua argumentação (o conhecimento das ilhas e da sua literatura aludindo a Vitorino Nemésio e a Mau Tempo no Canal), Urbano escreve: “Num texto sobre Nemésio, escrevia Fernanda Pratas a propósito do romance Mau Tempo no Canal: depois dele, só não sabe das ilhas quem se quiser distraído.” “Devo dizer — continua ainda Urbano — que não me perturba em demasia a questão, aqui levantada, dos eventuais distraídos, mesmo sabendo que é infinita a capacidade dos homens para a distracção (dentro e fora das ilhas, como se sabe); merece-me muito mais atenção o exacto ponto em que a voz da leitora coincide com a voz do autor, tal como ele se expressava há cinquenta e dois anos, data da publicação de Mau Tempo no Canal : parece-me que fiz realmente um romance das ilhas — a nossa gente, a nossa lava, o nosso mar. Lá vive uma cidadezinha insular com a sua pacatez e o seu ar cosmopolita”. Por sua vez, José Medeiros Ferreira (historiador da Universidade Nova de Lisboa, com vasta obra na historiografia portuguesa contemporânea, e hoje deputado do Partido Socialista à Assembleia da República pelos Açores), coordenou e escreveu o oitavo volume intitulado Portugal em Transe., da História de Portugal, sob a direcção do Professor José Mattoso, no qual inclui uma secção intitulada “Os Regimes autonómicos dos Açores e da Madeira”, onde procedeu à análise do que viria a ser uma redefinida noção de territorialidade açoriana como resultado do 25 de Abril e do que acabava de acontecer com a descolonização dos territórios até então sob a administração portuguesa. Para Medeiros Ferreira foi principalmente a actividade cultural ressurgida em força nessa época que levou a uma renovada e porventura retrabalhada noção de açorianidade: “Movimentam-se intelectuais, suscitam-se patronos. Emerge Vitorino Nemésio como figura tutelar da identidade insular. Mas também surgem intelectuais mais novos, dentro e fora dos arquipélagos, que reclamam uma raiz insular: Natália Correia, José Martins Garcia, Onésimo Teotónio Almeida, Vamberto Freitas. E mais tarde, já na década de 80, florescem nomes na literatura como Cristóvão de Aguiar e João de Melo, que se reclamam do universalismo e aborrecem o localismo, mas cujas raízes comovidas são insulares no precioso vocabulário e numa rememoração da .primeira idade própria de gente feliz com lágrimas”. Ainda há poucos meses, António Machado Pires, Professor Catedrático na Universidade dos Açores e antigo reitor da mesma instituição, especialista também na área da Literatura Portuguesa, e que tem dedicado ao longo dos anos atenção ao fenómeno cultural açoriano, escreveu num outro ensaio seu (“Os Açores Antes do 25 de Abril”) que “A Cultura e Literatura como sua parte integrante reflectem nos Açores dois sentidos ou movimentos a que chamaremos centrífugo e centrípeto, isto é, respectivamente, o desejo de fuga ou evasão, a aspiração a sair do isolamento (lembre-se O Barco e o Sonho, de Manuel Ferreira), o desejo, forte e identitário, de recriação pela escrita do mundo insular matricial em que cada açoriano se revê. Forças dissonantes mas complementares, como o comprazimento e a exaustão, a dor e o prazer, o partir e o ficar, a dupla natureza do ilhéu, que quer compreender o mundo na condição de o mundo o compreender (…)”

Em 1993, antes das eleições autárquicas de então, o suplemento cultural Vento Norte, dirigido pelo poeta Álamo Oliveira no Diário Insular, de Angra do Heroísmo, convidou os seus leitores e colaboradores a escreverem sobre o que pensavam ser as melhores políticas culturais a adoptar, nessa ocasião, pelos nossos municípios. As respostas vieram quase todas de intelectuais e/ou agentes culturais nas ilhas, alguns com muitos anos de experiência neste campo. O poeta angrense, Emanuel Félix (autor de uma vasta obra ensaística e poética, da qual se destaca A Viagem Possível), num texto intitulado “Os Beneficiários da Desertificação”, debruçou-se sobre a situação corrente nas nossas ilhas, e procedeu à contextualização mais alargada de toda a questão: “Creio não só necessário mas sobretudo útil à finalidade desta intervenção, aproveitar, antes de mais, este espaço, para reflectir com os possíveis leitores sobre conceitos de cultura (…) Não, evidentemente, sobre isso a que poderemos chamar culturaprestígio, bric-à-brac, ideias feitas, datas e nomes muitas vezes para esquecer ou para lembrar apenas quando for rigorosamente necessário. Mas, particularmente, sobre um conceito de cultura que tem muito simplesmente a ver com aquilo que somos e com o modo de o ser, com o sentido que temos da beleza e da justiça, com o modo por que exprimimos os nossos sentimentos de alegria ou de tristeza, com o que comemos, com o que vestimos, com o cuidado que dispensamos ao nosso jardim ou à própria casa em que habitamos. Uma perspectiva de cultura que tem a ver, também, com a paisagem que nos cerca, com os lugares que amamos e que escolhemos para viver. Uma ideia, portanto, de democracia cultural, que todos sabemos não significar o mesmo que democratização da cultura. Porque democratizar a cultura será, quando muito, pôr à disposição de todos, sem excepção, os meios de acesso aos denominados níveis superiores de conhecimento. O que é, sem dúvida, necessário. O que é urgente. Como são urgentes as exposições, os concertos, os livros, os jornais, a rádio, os audiovisuais. Mas a democracia cultural pressupõe um outro conceito: o de que todos somos portadores de cultura, fazedores de cultura; cultura que é, também, segundo o mesmo princípio, qualidade de vida, factor de liberdade individual, motor de desenvolvimento colectivo”. Neste colóquio do Vento Norte intervieram ainda nomes conhecidos pela sua intervenção cultural nos Açores como Daniel de Sá, Victor Rui Dores e Adelaide Batista. Escrevendo ainda quando tinha sob a sua responsabilidade a presidência do Instituto de Acção Social nos Açores, Adelaide (autora de, entre outros títulos, João de Melo e a Literatura Açoriana) via também a questão cultural no âmbito da integração total do homem ilhéu no seu pequeno meio insular: “Que se faça da cultura uma produção desencadeadora de interacção entre o passado e o presente; entre o homem e o seu meio. Para isso nada melhor do que o social, através de políticas integradas às quais não poderão estar alheias: a escola, a formação e o emprego, a acção social, a saúde, o turismo, a habitação, a agricultura e pescas, com vista à promoção das nossas gentes, que, dignificadas na sua forma de estar na vida, estarão com efeito mais aptas a participar, ou seja, a fazer cultura, e consequentemente, paulatinamente, a consumir (permita-se a expressão) cultura; a interiorizá-la de forma agora consciente, a partilhar por isso desse espaço que nos une a todos e nos fortalece a cada um, aí onde o alimento do homem garante a força do espírito que preserva os povos e lhes dá continuidade”.

Não vou aqui enumerar ou mencionar todas as variantes do nosso debate, essencialmente interno nas ilhas, nem sequer todos os nomes pertinentes ao longo destes últimos anos. Simplesmente — na minha argumentação de que os discursos culturais nos Açores são a soma de inúmeros trabalhos pensados e elaborados ao longo destas últimas décadas, e que ninguém poderá ignorar em qualquer debate público, nem muito menos formular políticas culturais para as ilhas sem conhecer toda esta rica historicidade cultural, este espírito do lugar tão marcante na literatura mundial da nossa época, como o comprovam, eis só um nome como exemplo, as obras de Salman Rushdie e de tantos colegas seus — estou a evocar este ou aquele nome e a citar apropriadamente este ou aquele passo. Não faço aqui, obviamente, história cultural, antes pretendo, repito, propor que o posicionamento — e, logo, a sua discursividade cultural — dos Açores adentro do restante país e mesmo em relação ao mundo vem sendo desde há muito definido e redefinido, e tudo fundamentado em pressupostos teóricos que jamais poderão ser, por quaisquer razões, colocados de lado — sejam essas razões políticas ou meramente resultantes de opções estéticas que não correspondem ao que se tem escrito, representado, ou cantado nos Açores. É certo que, como já aqui foi dito, estas questões estão por natureza própria sempre abertas ao debate e a revisitações, mas existe entre nós, e profundamente cimentada, o que outros, e agora também a nossa cultura, denominam a Tradição literária, que remonta ao primeiro e grande escritor açoriano, Gaspar Frutuoso, pois creio ser um erro histórico a minha geração não ter ainda reclamado inteiramente as Saudades da Terra como texto açoriano autenticamente fundador da nossa literatura, em que a historiografia será tão-só uma das componentes dessa multifacetada obra, na qual não faltam, como se sabe, prosa, da mais poética até hoje escrita entre nós, e ficção em forma de novela. Cada geração, retomando o pensamento de José Martins Garcia enunciado aqui numa citação anterior, poderá ou não rever essa Tradição, ou, como se diz no mundo anglo-americano, reinterpretá-la ou mesmo reinventá-la. O que não poderão nunca — as gerações que nos seguirão, se a cultura ainda lhes disser alguma coisa no bravo mundo que parece avizinhar-se — será ignorá-la ou proceder como se nada, em quinhentos anos, houvesse acontecido.

Escrevi ainda há pouco que está em processo nas ilhas, ao que parece a mim e a outros, toda uma redefinição da respectiva política cultural. Deste processo, se conhecer e respeitar o trabalho das últimas décadas, só nos poderá vir bem. As culturas dinâmicas procedem constantemente a um questionamento interno, à sua historicidade, à sua contextualização perante o exterior, e — mesmo numa comunidade homogénea como é a açoriana — ao seu relacionamento com diferentes grupos dessa mesma sociedade. Essas mesmas comunidades fazem e devem fazer, por imperativos histórico-políticos, “a viagem para dentro”. É natural que assim seja nos Açores neste momento, pois aconteceu a primeira grande mudança política após vinte anos de governação pela mesma força partidária. Foi o primeiro render da guarda regional açoriana após a instauração da democracia no nosso país. Só que o debate cultural numa sociedade moderna, aberta, tem de envolver todas as forças vivas dessa sociedade. A democratização da cultura não poderá nunca servir de pretexto para o nivelamento por baixo, mas sim para envolver todas as associações, todos os cidadãos independentes, mas interessados na nossa vida cultural, toda a classe culta e/ou consciente da vida criativa, a todos os níveis, da sua comunidade, seja de nascença seja de adopção.

Era, pois, de todo previsto que o debate cultural acontecesse nos Açores, pelas razões inescapáveis que referi acima, mas também porque no nosso país são ainda as instituições públicas que detêm o poder de mobilizar e, em grande parte, subsidiar projectos individuais ou associativos, e assim estabelecer, ipso facto, os rumos e as políticas culturais na sua globalidade. Dada a nossa pequenez territorial e numérica, dada a quase total ausência de mercados e de uma fatia substancial da população virada para o mundo da cultura, tudo, desde o folclore e teatro à publicação de livros, depende das atitudes, digamos assim, de quem nos governa, e, consequentemente, de subsídios, directos ou indirectos, por parte das diversas instituições governamentais, desde as autarquias ao próprio Governo Regional. O nosso espaço cultural está por enquanto aberto a todas as possibilidades que essa intervenção implica — e aberto está do mesmo modo a possíveis equívocos, e, o que seria desastroso para a vida criativa nos Açores, a revanchismos ideológicos. Seja como for, no entanto, não esqueçamos o outro lado de toda a questão: uma cultura existirá sempre, com ou sem intervenções governamentais. Os escritores escreverão com ou sem subsídios, as ideologias afirmam-se com ou sem a vontade dos poderes públicos. Tal como em muitas outras sociedades ocidentais, foi sempre assim nos Açores, e continuará a sê-lo.

O que aqui fica, espero, é uma perspectiva sobre o que tem dito — em termos históricos, analíticos e ideológicos — toda uma geração de intervenientes nas questões culturais açorianas. Uma perspectiva, permitam-me repetir, que engloba necessariamente uma multiplicidade de abordagens, posicionamentos ideológicos e noções estéticas, principalmente no que se refere à literatura, esse imenso repositório criativo da vida de um povo. É certo que numa sociedade moderna existem — e devem existir — discursos culturais que não convergem necessariamente em todas as análises da nossa vida cultural. Mas creio que ignorar o fio condutor de pensamento que ao longo deste último século tem servido de ponto de partida e de balização, digamos assim, para as diversas abordagens desta mesma realidade açoriana será intervir — intelectualmente, ou ideologicamente — num vácuo total, num desenraizamento (só pretensamente cosmopolita, quando se invocam posicionamentos desse tipo) e, logo, de todo inconsequente, no imediatismo do momento presente, e muito mais certamente a longo prazo. Uma cultura sem memória, sem fundamento histórico, é uma contradição insustentável; é, lembrando as palavras de Emanuel Félix aqui já citadas, uma cultura-de-prestígio, uma cultura bric-à-brac, que desaparecerá tão rapidamente como os seus provisórios agentes. Os arquivos de uma comunidade, entretanto, permanecerão — e com eles a Tradição, perpetuada, renovada, de quando em quando, conforme a vontade de cada geração ou artista individual, desafiada e, até, subvertida. Não queiramos ser, utilizando aqui a expressão de Harold Bloom, A Geração (açoriana) do Ressentimento.

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*Publicado no meu livro A Ilha Em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, Lisboa, Edições Salamandra, 1999.

De Fernando Aires e do nosso tempo

Capa Era Uma Vez O tempo

Todos os dias digo para mim: É preciso inventar a vida! Não entrar sem revolta na noite de todos os dias. Digo, e decido ir a pé a espairecer, a fugir às horas sempre iguais que fazem morrer em vida.

Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo

Vamberto Freitas

Abro ao acaso este novo volume que junta os cinco diários publicados e o que Fernando Aires estava a escrever nos dias antes do seu falecimento em 2010, busco uma citação para servir de epígrafe a este texto, e escolho a que aí está. Creio não exagerar se disser que pouquíssimos serão os passos da sua escrita não citáveis. Sabemos que o modernismo literário também combina tudo o que entendemos por poesia, ficção, biografia ou autobiografia, os géneros em convivência num mesmo verso ou frase, a arte desobedecendo ao que eram as suas próprias regras. A grande escrita é só para alguns a que sussurram os “demónios” da criação, como diria Harold Bloom. Em Portugal, ou mesmo na língua portuguesa, será muito difícil encontrar uma obra diarístíca que se aproxime deste açoriano, de aparente tranquilidade e convencionalismo exterior enquanto vivia uma inquietação interior que o fez já a meio da vida encetar este prolongado solilóquio literário dirigido não ao público mas sim aos deuses que lhe deram as visões do paraíso terrestre e lhe impuseram o desafio de uma vida consciente do outro lado da alma. Nenhuma literatura nasce da auto-satisfação, e muito menos da complacência com tudo e todos que nos rodeiam. Nasce da revolta silenciosa em cada grande escritor, nada tendo a ver com o egoísmo dos que se pensam merecedores de favores divinos, nasce da necessidade do auto-entendimento, da necessidade de dizermos a quem estiver ouvir quem somos e por que assim somos. O que sobressai de uma grande obra não será a genialidade da sua estrutura, mas o reconhecimento no reflexo de quem a recebe, de quem através dela se vê como um outro, ou em dimensões até então desconhecidas. Fernando Aires não ignorava os que antes dele haviam criado alguma da melhor e mais duradoura literatura açoriana. Roberto de Mesquita tinha já deixado uma obra de almas cativas nesta que é a geografia de todas as surpresas, desde o mormaço dos dias ao espectáculo do mar galgando a terra, simultaneamente a realidade e metáfora da coragem e do medo, do apego ao rochedo e do olho inquisitivo na proa a balouçar ao longe, a geografia como prisão ou como estrada para o outro lado do mundo e de nós próprios. A prosa de Fernando Aires não resulta da ansiedade da influência dos seus mestres, açorianos ou não. As entradas do seu diário são como que uma confirmação da nossa condição de ilhéus que nunca esqueceram as suas origens continentais – estamos aqui sempre provisoriamente, à espera de outra saída. Enquanto as novas viagens não acontecem, fala-se de como a solidão não nos larga por entre a beleza da terra e do mar, do passeio na cidade cercada, do conforto das caras conhecidas, da desconfiança de multidões arrivistas que sujam o chão e falam em voz alta. Fernando Aires viajava com frequência para a sua Europa amada, mas num curto espaço entre Ponta Delgada e a Caloura é que via e entendia o mundo inteiro. Fernando Aires faz-me também lembrar o grande poeta Nobel caribenho Derek Walcott, quando disse uma vez que “O que poderemos fazer como poetas honestos é simplesmente escrever dentro de um perímetro que na realidade não mede mais de vinte milhas”. O mundo todo está e não está aí, tal como nós estamos e não estamos aqui.

Era Uma Vez O Tempo tem início a 18 de Dezembro de 1982 e encerra com a data de Maio de 2010. São quase trinta anos de uma vida singular, os dias de um intelectual e escritor no seu labirinto interior e entre a família, amigos e sociedade. Nas pequenas e grandes coisas está ou não todo o sentido de uma vida – um neto ao colo e olho na estante despertando memórias e a presença de vidas-outras, a notícia da infindável catástrofe de toda a natureza no além-fronteiras ou a mudança de um visual qualquer na sua cidade são as referências que definem a condição existencialista do seu tempo e do seu lugar, a ilha sendo um mero recorte exemplificativo do restante planeta. Fernando Aires foi formado em Coimbra, e depois viajou durante toda a sua vida para outras geografias dos seus afectos e fascínio, mas não era um falso cidadão do mundo – os seus preconceitos e emoções fortes fazem parte da sua prosa, e por isso o lemos despertos, por assim dizer, sabemos de imediato que é confiável na sua arte de bem e mal-dizer, que as palavras não são poupadas nem por falsos pudores nem por ofenderem quem as lê, pois os limites da sua expressão obedecem tão-só ao bom gosto e à civilidade de um mestre. A América, tão parte da história açoriana quase desde o início da nossa chegada a estas ilhas, é uma ausência gritante, é uma criação europeia que ele achava desagradável a todos os níveis. Eu ria e aprendia com as nossas conversas, era precisamente essa sua disponibilidade para dizer o que eu nunca tinha pensado ou considerado sobre uma das minhas mais íntimas geografias que me aproximava ainda mais da sua escrita e pessoa. Há várias entradas no seu diário sobre serões na minha casa com outros amigos e colegas, alguns dos melhores momentos que me foram dado viver aqui nos Açores. Um dia entrou na minha sala, olhou naquele seu jeito sereno as minhas estantes alinhadas com centenas de primeiras edições da literatura americana moderna, e disse simplesmente: até as lombadas destes livros incomodam a minha noção de estética, as cores sempre espampanantes daqueles tipos. Dizia-me estas coisas, e ríamos os dois. Dentro daquelas capas, sabia eu, residiam alguns dos seus escritores de eleição. Quando finalmente visitou os Estados Unidos, e teve o seu grande amigo e admirador Onésimo Teotónio Almeida como anfitrião e cicerone, pouco teve a dizer no seu regresso, aos amigos ou ao seu diário. Creio que foi um dos últimos verdadeiros europeus açorianos, o velho continente a sua referência total nas artes e modo de vida, Portugal no seu todo a pátria amada, o seu escritor Eça de Queirós. O diário ergue-se como uma espécie de testamento poético sobre a fatalidade de se ser açoriano, sobre a sorte de se ser português em tempos de grandes e radicais mudanças tanto no país como no restante continente, a natureza da ilha, ora serena ora avassaladora, a literatura, a música, as artes plásticas os seus redutos de tranquilidade, a sua suprema redenção. Riu comigo num museu de Madrid quando lhe disse que não entendia absolutamente nada numa tela de Miró. Que para mim era Edward Hopper e as suas mulheres e paisagens solitárias. Dessa representação da América, estou em crer, ele gostava.

Chove e venta – escreveu na ou da sua casa da Galera, rodeado ao alto de campo, pomares e mar, onde passava os dias de sol com a família e as visitas de amigos – desalmadamente. Já cheira ao fim de verão. As pessoas começam a ir embora. Já não apetece estar aqui. Isto sem sol, sem pássaros que cantem, sem vozes de gente, é triste. Lembro-me de Jean-Paul Sartre que disse: ‘O inferno são os outros’. Os outros com os seus conflitos, o seus ódios, as suas quezílias. Os outros com as suas incompreensões, as suas emboscadas e traições. E, todavia, sem os outros não sabemos viver. Sem os outros, a vida fica triste. Não sabemos o que fazer com a vida. Temos de ter alguém perto da gente, um amigo com quem partilhar os dias – o Outro a quem nos confessamos, com quem discutimos e ‘brigamos’ e medimos os nossos préstimos. Precisamos do Outro, o de fora. O que vive para além da porta da nossa casa. Sozinhos, reduzidos apenas aos familiares, ficamos no anonimato. Não chegamos a ‘existir’”.

Este é apenas um passo entre tantos outros, agora num só volume de setecentas e setenta quatro páginas. Este é o Diário que finalmente começa a receber a devida atenção de outros, que não só os leitores açorianos. Fora do círculo de amigos e admiradores ao pé de casa, Fernando Aires vem merecendo no continente desde algum tempo a esta parte a atenção de outros leitores e vozes prestigiadas, como a de Teresa Martins Marques e Eugénio Lisboa, que assina o prefácio deste volume. A nível académico e noutros meios intelectuais Onésimo Teotónio Almeida tem feito mais do que ninguém para a sua divulgação, assim como José Leon Machado, da Universidade do Minho, que assina o posfácio destas páginas, ambos elevando-o já a um nível merecedor de estudo e enquadramento na melhor literatura do género no nosso país. Era Uma Vez O Tempo torna-se ainda maior quando comparado a certas obras semelhantes, e que até hoje parecem dominar todas as referências de quem mais não conhece, como a de Vergílio Ferreira, Miguel Torga, e um ou dois livros de Eduardo Prado Coelho, para falar só do tempo presente. Se o prestígio literário em Portugal sempre teve uma geografia delimitada entre Lisboa e Coimbra, que pelo menos a nossa capacidade de apreciação literária comece a alargar-se um pouco mais, comece a desmascarar, ou a tapar, muita da nossa ignorância e arrogância entre os que na realidade pouco mundo conhecem, mas muito dominam. Este e outros escritores açorianos são mais conhecidos, lidos e apreciados no estrangeiro do que a duas horas de avião dentro do território supostamente pátrio. O reconhecimento é algo sempre desejado por qualquer ser ou grupo humano. A legitimação, felizmente, acontece por outros meios, formal ou informalmente. Esse estatuto Fernando Aires já o conquistou.

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Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo/Diário, (Coordenação de Maria João Ruivo Sousa Franco. Prefácio de Eugénio Lisboa e Posfácio de José Leon Machado), Guimarães, Opera Omnia, Colecção Rio Atlântico, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 15 de Janeiro de 2016.

Poem by George Monteiro

GMonteiro

George Monteiro

Saints, Yes, But Others, Too*

Twice this guy went into “exile” and twice he made himself at home.

In the interval he learned and practiced a trade, one that he could take

back with him when he returned. Dutifully to himself writ large, he

plies his trade, keeping always up-to-date. As the priest said of little

Al at his funeral, “He’s in heaven. I checked the records and his dues

are up-to-to-date.” If so, there’s a place in heaven for this critic too.

Oct. 14, 2015

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Santos, sim, mas outros também

Duas vezes este tipo se “exilou” e duas vezes se sentiu em casa.

No intervalo aprendeu e praticou o seu mister, um que poderia levar

consigo no regresso. Obediente a seus grandes propósitos,

insiste no seu ofício, estando sempre ao corrente. Tal como disse o padre do pequeno

Al no seu funeral, “Ele está no céu. Consultei os arquivos e ele tem a quota

em dia.” Se assim é, deve haver um lugar no céu também para este crítico.

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Tradução de Vamberto Freitas

*A ser publicado também no número de Fevereiro do “Açoriano Oriental Artes & Letras”.

The virtuoso Vamberto Freitas

Manuel Leal2 (1)

By Manuel Leal

Vamberto Freitas is recognized today one of the best literary critics of the Portuguese language world anywhere. Some experts have even pointed at him as uniquely holding the highest altitude in this context. This singularity expresses style, knowledge, and logical communication as one would find a painter incorporating form, stroke and color.

It is a field in which literature intercepts implicit psychology much as a conversant attempts to read through the style and phrases that project the thinking of an interlocutor whilst assimilating it with his own in the analysis or silent inquiry that all of us conduct in social interaction.

No man is truly an island. No one really constitutes a true representation of the unlikely theory of the Great Man in the making of big bangs spawned out of a vacuum. Socrates and Freud, or even Einstein were privileged creatures in a process in which human behavior retraces group phenomena in our cosmological order that physicists are finding and psychologists ought to think about. Lightening, both as meteorological event and in a metaphoric construction at the synapses of one’s neurological association stations, is produced only when specific conditions exist. Those icons of our capacity to generate consciousness arrived at a confluence of concepts in the academic environment at the right moment with the preferred intellectual and motivational makeup.

In quantic entanglement, which has been experimentally achieved last December in a lab at Harvard University, specific particles of matter trapped in a two cage compartment, each resembling a four chamber partially connected as half doors open to rooms, loose their properties to become a new whole much like the individual in a group.

Apart, separate and distinct in our Universe, particles of the same species always became twin copies of each other with the same identity and atomic weight. The change that occurred following the interaction of atoms, mystified the investigators who witnessed the metamorphose. In this context, differences between the parts, when the full entities are indistinguishable, only happens “if there is entanglement within each system”.

No matter where in the universe one finds a particle, it has the same properties everywhere because they mimic in isolation each other across the cosmological expense where elements are the same. This quantum “miracle” of symmetry in the chaos recognized by Einstein is what tells astrophysicists that other worlds like ours populate the galaxies throughout the trail left by the initial explosion of Creation. The categorization of behavioral phenomena in psychology may be seen in the same context of elimination of the ubiquitous noise through which the novelist as well as the historian weave a plot that simulates our existential bedlam projected in the Babel of our tongues.

Writers and thinkers may seem at times to be feral children in the development of their skills, but in reality they are chains in the continuous linkage of mind and humanity. All human activity, in the pursuit of the arts, as it has been with science and the very existence of our species, needs to be viewed in the context of the experiential zeitgeist. However, ideas and ah-ahs in a Gestalt sense are products much more than the sum of its parts.

As Vamberto ponders through his own membership in an emotional fringe of the ongoing melting pot of intellectual evolution, he combines with solid and authoritative and inspiring mastery of the subject matter, and in the associations of his world view, the saga of those who ventured anxiety and assimilation in the transmutation of adaptation which predisposes both the writer and the reader to be a collective entity in the memory as well as in the formation of one’s discovery of being human.

The subjective ability to dissect a writer’s projection of feeling and intent is at the core of the understanding of fiction as well as communicating in the narrative, or even poetry. Rather than the “hysterical realism” that seems to have engulfed the business of the novel as a publishing modality as James Wood once complained, Vamberto’s essays and short exploratory reviews often stay linked to the experience which is common to many in our diaspora. He is always back and forth, crossing the borders of his insight into belonging to the two margins of the Atlantic. He has been able as a prolific thinker to entangle the experience of two different and much dissimilar intellectual realities and traditions of thought to become, not one or the other, but a singular unifying bridge for others, presumably his students, to follow and expand. An agent of cultural diffusion, his work in the realm of the different worlds or dimensions of the reality in question is much akin, within the framework of my pendant vision of a continuum of processes from physics to psychology, to the behavior of energy in entropy, which he works with sensibility and an extraordinary sense of connection.

Vamberto graduated from the California State University, Fullerton, and taught in the United States before recrossing his emigrant’s route to teach in the University of the Azores, which had been recently organized. Equally at ease with English and Portuguese, his first language, he writes a weekly column on literature for Açoriano Oriental, a leading Ponta Delgada newspaper.

It is to the credit of this publication’s editorial leadership that a subject matter perhaps beyond the interest of the average reader is brought to the attention of an academic minority in a popular forum. Furthermore, the reasonable length of his essays reveals the newspaper’s knack for quality over quantity. Thus Vamberto does not seem to be arrested or restricted by the requirement of writing with his mind tied to metric limitations of volume or line count. The creative freedom of his talent finds the space and reinforcement to take off in flights of creativity.

In this week’s column, writing about James Wood’s The Nearest Thing to Life (Brandeis, 2015) Vamberto confronts his own presence in two worlds geographically and culturally apart where his children have grown and develop in a linguistic and cultural dimension differentiated from his own. It is the drama of those of us who write and think with roots in both the United States and the Azores, or any other intellectual tradition as in the experience of James Wood, eternally unable to pull from one or the other affectively charged poles of this dichotomy that became inherent to one, our singular complex and intellectually hybrid identity.

I wish his column had been written in English as well, for I would make it available to my adult, American educated children. I once wrote a paper while still in graduate school about the same theme, in which I cried with words about their inability to read the involved prose of my Portuguese writings.

It was a paper on the psychology of individual identity in an acculturative situation, which conditions the vocabulary and the affective tone and content of the cognition of people who, for all the implications about the hemispheric specialization of our brains, not only express themselves in words with dissimilar grammatical and metaphorical characteristics, but also think bicamerally. Each cerebral subsystem of function and mediation of processes in the other, has almost segregated patterns of arranging the elements and the meaning of reality across the corpus collossum.

My professor, of whom I became later a colleague, penned then on the top of the first page: “I weep with you”.

It is how I feel after reading Vamberto’s excellent text.

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Literatura e vida, ou um crítico entre fronteiras

Capa The Nearest Thing To Life

 

Mas a vida sem tropeços é inimaginável; talvez estar entre dois lugares, estar em casa em nenhum deles, é o inevitável estado da perda, quase tão natural como estar em casa num só lugar.

James Wood, The Nearest Thing To Life

Vamberto Freitas

Uma das perguntas que me fazem de vez em quando em referência à minha escrita é sobre o tempo que levo a escrever um destes textos de crítica. Bom, depende de alguns factores estritamente literários, e por vezes de outros que nada têm a ver. Sem paz de espírito não se lê nem se escreve, ou então lê-se e escreve-se a muito custo. A resposta alongada que dou é outra — pode ser duas, três ou quatro horas, só para a primeira versão, e depois vêm as correções, os afinamentos, o polimento. Outras vezes vem mais uma leitura final durante a qual mudamos, tiramos ou acrescentamos mais informação, revemos uma ou outra opinião ou interpretação. A maior e mais decisiva preparação será muito mais difícil de medir ou avaliar – mais de quarenta anos adultos a ler e a reflectir sistematicamente sobre as questões principais da literatura do nosso tempo, assim como a sua história nas duas línguas e culturas a que pertenço, que são a casa do meu ser, parafraseando certo filósofo. Esta “casa a que pertenço” tem muito a ver com a epígrafe que tirei do livro aqui em discussão, The Nearest Thing To Life/O Mais Próximo da Vida, do crítico e romancista James Wood, britânico imigrado nos Estados Unidos desde 1995, onde desde há muito ocupa um destacado espaço no ensaísmo literário daquele país, hoje escritor residente de The New Yorker e Professor Convidado na Harvard University, autor de vários outros livros de ensaios, e um romance com o título de The Book Against God. Os últimos anos têm sido ricos em reflexões sobre o acto crítico em si próprio, as novas realidades editoriais e infiltrações virtuais, que rivalizam com tudo o resto nas solicitações de atenção por parte de quase todos e todas, muito particularmente nas artes, incluindo a literatura, provocam dúvidas, e sobretudo dúvidas se ainda permanece alguém no outro lado, no lado da recepção, se ainda alguém da classe culta se interessa por ler sobre o acto de ler e apreciar a obra alheia. Dois ensaístas críticos do The New York Times, Adam Hirsch e Charles McGrath, regressaram ao tema numa edição recente do respectivo suplemento literário, mas desta vez perguntando se, dado a proliferação de “críticos” literários nas redes sociais e noutros meios de divulgação, como as páginas da Amazon, se são todos “qualificados” para tal, “Is Everyone Qualified to Be a Critic?” Nem um nem outro se manifestou minimamente preocupado com a “concorrência”, digamos assim, maciça e “polissémica”, apenas reafirmando o que fazem e como o fazem, relembrando a todos que “opiniões” poderão estar muito bem informadas, e outras meros palpites instintivos do momento. A crítica séria é um diálogo com os leitores que a aceitam e apreciam sobre como um livro nos toca, e porquê, nos ensina ou nos dá o prazer quase transcendente, espiritual, diria, que só as artes nos proporcionam, como o autor ou autora manipula ou reinventa linguagens, dando-lhes novos significados, fazendo surgir imagens inesperadas, dando musicalidade, tonalidade, ao que na escrita de outros não passaria de ronco lexical e gramatical. A crítica, como nos dois escritores aqui citados, preocupa-se cada menos em ser judicativa, negativa ou panegírica, e fala do que num determinado livro nos faz aderir, apreciar, aprender, partilhar o que estética e tematicamente nos move e, uma vez mais, nos comove.

Os ensaios em The Nearest Thing To Life, resultaram de lições, conferências e escritos vários do seu autor, todos eles intercalando a sua experiência de vida com a leitura e análise das mais representativas obras da língua inglesa, e particularmente da literatura contemporânea americana e “do mundo”, aquela que nos anos 90 já a revista Time chamava de New World Fiction/Nova Ficção Mundial, com Salman Rushie então no centro. Um dos temas mais acutilantes neste pequeno livro de alma grande é precisamente a partida do seu país natal, a Inglaterra, para a América, e o que isso implicou e implica na sua visão das coisas, no seu estado de espírito constante, no estar e tentar ser a meio dessa ponte, olhando permanentemente os dois extremos, o sentido de pertença para sempre perdido num lugar e nunca encontrado no outro, as raízes que secam ou se transformam, o estranhamento perpétuo na terra nova, mesmo já com filhos lá nascidos e inteiramente integrados, as suas linguagens algo para além de toda a memória dos próprios pais. Wood surpreende-me aqui, afinal foi da Terra-Mãe para a Terra-Filha, só que a língua parece comum mas já significa só retalhos da memória, nem um apito do comboio, que deveria ser o mesmo em toda a parte, o faz sentir o que outrora sentia nos trilhos do outro lado do mar. Por certo que a experiência de um escritor nosso nos EUA pouco teria a ver com a de um britânico transplantado e aparentemente integrado, mas Wood fez-me lembrar de imediato o poema de Jorge de Sena, “Noções de Linguística”, em que ele ouve os seus filhos noutra língua, e lamenta a história que o “distancia” de tudo e todos, a consciência magoada de ser estranho em terra estranha. Quase me apetece dizer aos meus amigos e colegas no outro lado do Atlântico, leiam este livro, pois não somos só nós a viver todas as deslealdades e afastamentos. O equilíbrio transfronteiriço é uma luta perpétua, muito para além da língua e de toda a cultura ou de todos os costumes, a força das raízes desmente os supostos cosmopolitas, quase sempre auto-inventados nas classes mais abastadas, mas com necessidade de intelectualizar a sua (in)existência.

Edward Said — escreve James Wood sobre o falecido grande escritor e ensaísta literário palestiniano, que viveu boa parte da sua vida nos EUA, e foi Professor Catedrático de Literatura na Columbia University – diz que não é surpresa nenhuma que os exilados são frequentemente romancistas, jogadores de xadrez, intelectuais. ‘O novo mundo dos exilados, muito logicamente, não é natural, e a sua irrealidade assemelha-se à ficção’. Ele recorda-nos que Georg Lukács considerava o romance como o grande género do que Lukács chama ‘desenraizamento [homelessness] transcendental’. Eu certamente que não sou um exilado, mas por vezes é-me difícil afastar a ‘irrealidade/unreality’ de que fala Said. Vejo os meus filhos a crescerem como americanos da mesma maneira como sobre isso eu poderia ler, ou inventar, personagens fictícias. Eles não são fictícios, claro está, mas o seu americanismo pode de quando em quando parecer-me irreal”.

A prosa se James Wood tem a qualidade do intelectual público absolutamente dedicado à vocação de leitor omnívoro em busca de prazer, mas sobretudo de sentido para as vidas que são as nossas, o olhar atento ao espelhado reflexo complexo e complicado em que se pode tornar a melhor literatura. São, estes, ensaios cheios de referências aos seus antecessores em vários continentes e línguas, com especial ênfase para romancistas e poetas que também deram conta das suas leituras, e como, desde Baudelaire e Walter Benjamin a Joseph Brodsky e Zadie Smith, contrapondo estes e outros nomes internacionais a certa crítica, relembrando ainda que desde a Nova Crítica americana dos anos 40 e 50 toda a teoria da literatura procurou em vão, e por vezes com efeitos nefastos para a literatura em geral, “obter um estatuto pseudo-científico”. Ler um ensaísta e crítico como James Wood está longe de ser apenas um encontro com outras obras, ele eleva a sua escrita a uma arte singular, fornecendo-nos todo o prazer dos grandes textos. Intitula, uma vez mais, o último capítulo do seu livro “Secular Homelessness/Desenraizamento Secular”, em que dá conta e contextualiza os escritores internacionais pós-coloniais, vindos um pouco de toda a parte e hoje residentes nas mais importantes metrópoles do Ocidente. Dá voz, sem necessariamente partilhar a mesma opinião, aos que acusam muitos destes escritores e escritoras de terem esquecido as suas origens, e escreverem agora para o grande público, a política e o historicismo acusador cada vez mais ausente da sua prosa. A verdade é que são estes autores da ficção mundial que continuam a transfigurar o novo mundo em que todos nos situamos, o desenraizamento deixando de ser a condenação histórica e exclusiva dos que deixaram e deixam o seu território pátrio, para nos engolir a todos. O estranhamento de que nos fala Wood nas suas páginas, e por ele sentido ante os seus filhos na América de hoje, é talvez aquele que todos nós sentimos nas nossas próprias sociedades, em mutação constante e, para muitos, psicologicamente, espiritualmente, violenta. Parafraseando e subvertendo Fernando Pessoa – não sou daqui como já não sou de parte nenhuma. É a esta temática, precisamente, que boa parte da literatura contemporânea se encarrega de dar forma e sublimação. No inevitável aconchego entre o crítico e a obra, James Wood rejeita o ensaísmo que se mantém no “exterior” do texto, pleno de citações, tornado mero exercício pretensiosamente explicativo. Ele penetra o texto alheio, num olhar sereno de dentro para fora.

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James Wood, The Nearest Thing To Life, London, Jonathan Cape/Penguin Random House UK, 2015. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 08 de Janeiro de 2016.