Literatura e vida, ou um crítico entre fronteiras

Capa The Nearest Thing To Life

 

Mas a vida sem tropeços é inimaginável; talvez estar entre dois lugares, estar em casa em nenhum deles, é o inevitável estado da perda, quase tão natural como estar em casa num só lugar.

James Wood, The Nearest Thing To Life

Vamberto Freitas

Uma das perguntas que me fazem de vez em quando em referência à minha escrita é sobre o tempo que levo a escrever um destes textos de crítica. Bom, depende de alguns factores estritamente literários, e por vezes de outros que nada têm a ver. Sem paz de espírito não se lê nem se escreve, ou então lê-se e escreve-se a muito custo. A resposta alongada que dou é outra — pode ser duas, três ou quatro horas, só para a primeira versão, e depois vêm as correções, os afinamentos, o polimento. Outras vezes vem mais uma leitura final durante a qual mudamos, tiramos ou acrescentamos mais informação, revemos uma ou outra opinião ou interpretação. A maior e mais decisiva preparação será muito mais difícil de medir ou avaliar – mais de quarenta anos adultos a ler e a reflectir sistematicamente sobre as questões principais da literatura do nosso tempo, assim como a sua história nas duas línguas e culturas a que pertenço, que são a casa do meu ser, parafraseando certo filósofo. Esta “casa a que pertenço” tem muito a ver com a epígrafe que tirei do livro aqui em discussão, The Nearest Thing To Life/O Mais Próximo da Vida, do crítico e romancista James Wood, britânico imigrado nos Estados Unidos desde 1995, onde desde há muito ocupa um destacado espaço no ensaísmo literário daquele país, hoje escritor residente de The New Yorker e Professor Convidado na Harvard University, autor de vários outros livros de ensaios, e um romance com o título de The Book Against God. Os últimos anos têm sido ricos em reflexões sobre o acto crítico em si próprio, as novas realidades editoriais e infiltrações virtuais, que rivalizam com tudo o resto nas solicitações de atenção por parte de quase todos e todas, muito particularmente nas artes, incluindo a literatura, provocam dúvidas, e sobretudo dúvidas se ainda permanece alguém no outro lado, no lado da recepção, se ainda alguém da classe culta se interessa por ler sobre o acto de ler e apreciar a obra alheia. Dois ensaístas críticos do The New York Times, Adam Hirsch e Charles McGrath, regressaram ao tema numa edição recente do respectivo suplemento literário, mas desta vez perguntando se, dado a proliferação de “críticos” literários nas redes sociais e noutros meios de divulgação, como as páginas da Amazon, se são todos “qualificados” para tal, “Is Everyone Qualified to Be a Critic?” Nem um nem outro se manifestou minimamente preocupado com a “concorrência”, digamos assim, maciça e “polissémica”, apenas reafirmando o que fazem e como o fazem, relembrando a todos que “opiniões” poderão estar muito bem informadas, e outras meros palpites instintivos do momento. A crítica séria é um diálogo com os leitores que a aceitam e apreciam sobre como um livro nos toca, e porquê, nos ensina ou nos dá o prazer quase transcendente, espiritual, diria, que só as artes nos proporcionam, como o autor ou autora manipula ou reinventa linguagens, dando-lhes novos significados, fazendo surgir imagens inesperadas, dando musicalidade, tonalidade, ao que na escrita de outros não passaria de ronco lexical e gramatical. A crítica, como nos dois escritores aqui citados, preocupa-se cada menos em ser judicativa, negativa ou panegírica, e fala do que num determinado livro nos faz aderir, apreciar, aprender, partilhar o que estética e tematicamente nos move e, uma vez mais, nos comove.

Os ensaios em The Nearest Thing To Life, resultaram de lições, conferências e escritos vários do seu autor, todos eles intercalando a sua experiência de vida com a leitura e análise das mais representativas obras da língua inglesa, e particularmente da literatura contemporânea americana e “do mundo”, aquela que nos anos 90 já a revista Time chamava de New World Fiction/Nova Ficção Mundial, com Salman Rushie então no centro. Um dos temas mais acutilantes neste pequeno livro de alma grande é precisamente a partida do seu país natal, a Inglaterra, para a América, e o que isso implicou e implica na sua visão das coisas, no seu estado de espírito constante, no estar e tentar ser a meio dessa ponte, olhando permanentemente os dois extremos, o sentido de pertença para sempre perdido num lugar e nunca encontrado no outro, as raízes que secam ou se transformam, o estranhamento perpétuo na terra nova, mesmo já com filhos lá nascidos e inteiramente integrados, as suas linguagens algo para além de toda a memória dos próprios pais. Wood surpreende-me aqui, afinal foi da Terra-Mãe para a Terra-Filha, só que a língua parece comum mas já significa só retalhos da memória, nem um apito do comboio, que deveria ser o mesmo em toda a parte, o faz sentir o que outrora sentia nos trilhos do outro lado do mar. Por certo que a experiência de um escritor nosso nos EUA pouco teria a ver com a de um britânico transplantado e aparentemente integrado, mas Wood fez-me lembrar de imediato o poema de Jorge de Sena, “Noções de Linguística”, em que ele ouve os seus filhos noutra língua, e lamenta a história que o “distancia” de tudo e todos, a consciência magoada de ser estranho em terra estranha. Quase me apetece dizer aos meus amigos e colegas no outro lado do Atlântico, leiam este livro, pois não somos só nós a viver todas as deslealdades e afastamentos. O equilíbrio transfronteiriço é uma luta perpétua, muito para além da língua e de toda a cultura ou de todos os costumes, a força das raízes desmente os supostos cosmopolitas, quase sempre auto-inventados nas classes mais abastadas, mas com necessidade de intelectualizar a sua (in)existência.

Edward Said — escreve James Wood sobre o falecido grande escritor e ensaísta literário palestiniano, que viveu boa parte da sua vida nos EUA, e foi Professor Catedrático de Literatura na Columbia University – diz que não é surpresa nenhuma que os exilados são frequentemente romancistas, jogadores de xadrez, intelectuais. ‘O novo mundo dos exilados, muito logicamente, não é natural, e a sua irrealidade assemelha-se à ficção’. Ele recorda-nos que Georg Lukács considerava o romance como o grande género do que Lukács chama ‘desenraizamento [homelessness] transcendental’. Eu certamente que não sou um exilado, mas por vezes é-me difícil afastar a ‘irrealidade/unreality’ de que fala Said. Vejo os meus filhos a crescerem como americanos da mesma maneira como sobre isso eu poderia ler, ou inventar, personagens fictícias. Eles não são fictícios, claro está, mas o seu americanismo pode de quando em quando parecer-me irreal”.

A prosa se James Wood tem a qualidade do intelectual público absolutamente dedicado à vocação de leitor omnívoro em busca de prazer, mas sobretudo de sentido para as vidas que são as nossas, o olhar atento ao espelhado reflexo complexo e complicado em que se pode tornar a melhor literatura. São, estes, ensaios cheios de referências aos seus antecessores em vários continentes e línguas, com especial ênfase para romancistas e poetas que também deram conta das suas leituras, e como, desde Baudelaire e Walter Benjamin a Joseph Brodsky e Zadie Smith, contrapondo estes e outros nomes internacionais a certa crítica, relembrando ainda que desde a Nova Crítica americana dos anos 40 e 50 toda a teoria da literatura procurou em vão, e por vezes com efeitos nefastos para a literatura em geral, “obter um estatuto pseudo-científico”. Ler um ensaísta e crítico como James Wood está longe de ser apenas um encontro com outras obras, ele eleva a sua escrita a uma arte singular, fornecendo-nos todo o prazer dos grandes textos. Intitula, uma vez mais, o último capítulo do seu livro “Secular Homelessness/Desenraizamento Secular”, em que dá conta e contextualiza os escritores internacionais pós-coloniais, vindos um pouco de toda a parte e hoje residentes nas mais importantes metrópoles do Ocidente. Dá voz, sem necessariamente partilhar a mesma opinião, aos que acusam muitos destes escritores e escritoras de terem esquecido as suas origens, e escreverem agora para o grande público, a política e o historicismo acusador cada vez mais ausente da sua prosa. A verdade é que são estes autores da ficção mundial que continuam a transfigurar o novo mundo em que todos nos situamos, o desenraizamento deixando de ser a condenação histórica e exclusiva dos que deixaram e deixam o seu território pátrio, para nos engolir a todos. O estranhamento de que nos fala Wood nas suas páginas, e por ele sentido ante os seus filhos na América de hoje, é talvez aquele que todos nós sentimos nas nossas próprias sociedades, em mutação constante e, para muitos, psicologicamente, espiritualmente, violenta. Parafraseando e subvertendo Fernando Pessoa – não sou daqui como já não sou de parte nenhuma. É a esta temática, precisamente, que boa parte da literatura contemporânea se encarrega de dar forma e sublimação. No inevitável aconchego entre o crítico e a obra, James Wood rejeita o ensaísmo que se mantém no “exterior” do texto, pleno de citações, tornado mero exercício pretensiosamente explicativo. Ele penetra o texto alheio, num olhar sereno de dentro para fora.

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James Wood, The Nearest Thing To Life, London, Jonathan Cape/Penguin Random House UK, 2015. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 08 de Janeiro de 2016.

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