De Fernando Aires e do nosso tempo

Capa Era Uma Vez O tempo

Todos os dias digo para mim: É preciso inventar a vida! Não entrar sem revolta na noite de todos os dias. Digo, e decido ir a pé a espairecer, a fugir às horas sempre iguais que fazem morrer em vida.

Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo

Vamberto Freitas

Abro ao acaso este novo volume que junta os cinco diários publicados e o que Fernando Aires estava a escrever nos dias antes do seu falecimento em 2010, busco uma citação para servir de epígrafe a este texto, e escolho a que aí está. Creio não exagerar se disser que pouquíssimos serão os passos da sua escrita não citáveis. Sabemos que o modernismo literário também combina tudo o que entendemos por poesia, ficção, biografia ou autobiografia, os géneros em convivência num mesmo verso ou frase, a arte desobedecendo ao que eram as suas próprias regras. A grande escrita é só para alguns a que sussurram os “demónios” da criação, como diria Harold Bloom. Em Portugal, ou mesmo na língua portuguesa, será muito difícil encontrar uma obra diarístíca que se aproxime deste açoriano, de aparente tranquilidade e convencionalismo exterior enquanto vivia uma inquietação interior que o fez já a meio da vida encetar este prolongado solilóquio literário dirigido não ao público mas sim aos deuses que lhe deram as visões do paraíso terrestre e lhe impuseram o desafio de uma vida consciente do outro lado da alma. Nenhuma literatura nasce da auto-satisfação, e muito menos da complacência com tudo e todos que nos rodeiam. Nasce da revolta silenciosa em cada grande escritor, nada tendo a ver com o egoísmo dos que se pensam merecedores de favores divinos, nasce da necessidade do auto-entendimento, da necessidade de dizermos a quem estiver ouvir quem somos e por que assim somos. O que sobressai de uma grande obra não será a genialidade da sua estrutura, mas o reconhecimento no reflexo de quem a recebe, de quem através dela se vê como um outro, ou em dimensões até então desconhecidas. Fernando Aires não ignorava os que antes dele haviam criado alguma da melhor e mais duradoura literatura açoriana. Roberto de Mesquita tinha já deixado uma obra de almas cativas nesta que é a geografia de todas as surpresas, desde o mormaço dos dias ao espectáculo do mar galgando a terra, simultaneamente a realidade e metáfora da coragem e do medo, do apego ao rochedo e do olho inquisitivo na proa a balouçar ao longe, a geografia como prisão ou como estrada para o outro lado do mundo e de nós próprios. A prosa de Fernando Aires não resulta da ansiedade da influência dos seus mestres, açorianos ou não. As entradas do seu diário são como que uma confirmação da nossa condição de ilhéus que nunca esqueceram as suas origens continentais – estamos aqui sempre provisoriamente, à espera de outra saída. Enquanto as novas viagens não acontecem, fala-se de como a solidão não nos larga por entre a beleza da terra e do mar, do passeio na cidade cercada, do conforto das caras conhecidas, da desconfiança de multidões arrivistas que sujam o chão e falam em voz alta. Fernando Aires viajava com frequência para a sua Europa amada, mas num curto espaço entre Ponta Delgada e a Caloura é que via e entendia o mundo inteiro. Fernando Aires faz-me também lembrar o grande poeta Nobel caribenho Derek Walcott, quando disse uma vez que “O que poderemos fazer como poetas honestos é simplesmente escrever dentro de um perímetro que na realidade não mede mais de vinte milhas”. O mundo todo está e não está aí, tal como nós estamos e não estamos aqui.

Era Uma Vez O Tempo tem início a 18 de Dezembro de 1982 e encerra com a data de Maio de 2010. São quase trinta anos de uma vida singular, os dias de um intelectual e escritor no seu labirinto interior e entre a família, amigos e sociedade. Nas pequenas e grandes coisas está ou não todo o sentido de uma vida – um neto ao colo e olho na estante despertando memórias e a presença de vidas-outras, a notícia da infindável catástrofe de toda a natureza no além-fronteiras ou a mudança de um visual qualquer na sua cidade são as referências que definem a condição existencialista do seu tempo e do seu lugar, a ilha sendo um mero recorte exemplificativo do restante planeta. Fernando Aires foi formado em Coimbra, e depois viajou durante toda a sua vida para outras geografias dos seus afectos e fascínio, mas não era um falso cidadão do mundo – os seus preconceitos e emoções fortes fazem parte da sua prosa, e por isso o lemos despertos, por assim dizer, sabemos de imediato que é confiável na sua arte de bem e mal-dizer, que as palavras não são poupadas nem por falsos pudores nem por ofenderem quem as lê, pois os limites da sua expressão obedecem tão-só ao bom gosto e à civilidade de um mestre. A América, tão parte da história açoriana quase desde o início da nossa chegada a estas ilhas, é uma ausência gritante, é uma criação europeia que ele achava desagradável a todos os níveis. Eu ria e aprendia com as nossas conversas, era precisamente essa sua disponibilidade para dizer o que eu nunca tinha pensado ou considerado sobre uma das minhas mais íntimas geografias que me aproximava ainda mais da sua escrita e pessoa. Há várias entradas no seu diário sobre serões na minha casa com outros amigos e colegas, alguns dos melhores momentos que me foram dado viver aqui nos Açores. Um dia entrou na minha sala, olhou naquele seu jeito sereno as minhas estantes alinhadas com centenas de primeiras edições da literatura americana moderna, e disse simplesmente: até as lombadas destes livros incomodam a minha noção de estética, as cores sempre espampanantes daqueles tipos. Dizia-me estas coisas, e ríamos os dois. Dentro daquelas capas, sabia eu, residiam alguns dos seus escritores de eleição. Quando finalmente visitou os Estados Unidos, e teve o seu grande amigo e admirador Onésimo Teotónio Almeida como anfitrião e cicerone, pouco teve a dizer no seu regresso, aos amigos ou ao seu diário. Creio que foi um dos últimos verdadeiros europeus açorianos, o velho continente a sua referência total nas artes e modo de vida, Portugal no seu todo a pátria amada, o seu escritor Eça de Queirós. O diário ergue-se como uma espécie de testamento poético sobre a fatalidade de se ser açoriano, sobre a sorte de se ser português em tempos de grandes e radicais mudanças tanto no país como no restante continente, a natureza da ilha, ora serena ora avassaladora, a literatura, a música, as artes plásticas os seus redutos de tranquilidade, a sua suprema redenção. Riu comigo num museu de Madrid quando lhe disse que não entendia absolutamente nada numa tela de Miró. Que para mim era Edward Hopper e as suas mulheres e paisagens solitárias. Dessa representação da América, estou em crer, ele gostava.

Chove e venta – escreveu na ou da sua casa da Galera, rodeado ao alto de campo, pomares e mar, onde passava os dias de sol com a família e as visitas de amigos – desalmadamente. Já cheira ao fim de verão. As pessoas começam a ir embora. Já não apetece estar aqui. Isto sem sol, sem pássaros que cantem, sem vozes de gente, é triste. Lembro-me de Jean-Paul Sartre que disse: ‘O inferno são os outros’. Os outros com os seus conflitos, o seus ódios, as suas quezílias. Os outros com as suas incompreensões, as suas emboscadas e traições. E, todavia, sem os outros não sabemos viver. Sem os outros, a vida fica triste. Não sabemos o que fazer com a vida. Temos de ter alguém perto da gente, um amigo com quem partilhar os dias – o Outro a quem nos confessamos, com quem discutimos e ‘brigamos’ e medimos os nossos préstimos. Precisamos do Outro, o de fora. O que vive para além da porta da nossa casa. Sozinhos, reduzidos apenas aos familiares, ficamos no anonimato. Não chegamos a ‘existir’”.

Este é apenas um passo entre tantos outros, agora num só volume de setecentas e setenta quatro páginas. Este é o Diário que finalmente começa a receber a devida atenção de outros, que não só os leitores açorianos. Fora do círculo de amigos e admiradores ao pé de casa, Fernando Aires vem merecendo no continente desde algum tempo a esta parte a atenção de outros leitores e vozes prestigiadas, como a de Teresa Martins Marques e Eugénio Lisboa, que assina o prefácio deste volume. A nível académico e noutros meios intelectuais Onésimo Teotónio Almeida tem feito mais do que ninguém para a sua divulgação, assim como José Leon Machado, da Universidade do Minho, que assina o posfácio destas páginas, ambos elevando-o já a um nível merecedor de estudo e enquadramento na melhor literatura do género no nosso país. Era Uma Vez O Tempo torna-se ainda maior quando comparado a certas obras semelhantes, e que até hoje parecem dominar todas as referências de quem mais não conhece, como a de Vergílio Ferreira, Miguel Torga, e um ou dois livros de Eduardo Prado Coelho, para falar só do tempo presente. Se o prestígio literário em Portugal sempre teve uma geografia delimitada entre Lisboa e Coimbra, que pelo menos a nossa capacidade de apreciação literária comece a alargar-se um pouco mais, comece a desmascarar, ou a tapar, muita da nossa ignorância e arrogância entre os que na realidade pouco mundo conhecem, mas muito dominam. Este e outros escritores açorianos são mais conhecidos, lidos e apreciados no estrangeiro do que a duas horas de avião dentro do território supostamente pátrio. O reconhecimento é algo sempre desejado por qualquer ser ou grupo humano. A legitimação, felizmente, acontece por outros meios, formal ou informalmente. Esse estatuto Fernando Aires já o conquistou.

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Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo/Diário, (Coordenação de Maria João Ruivo Sousa Franco. Prefácio de Eugénio Lisboa e Posfácio de José Leon Machado), Guimarães, Opera Omnia, Colecção Rio Atlântico, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 15 de Janeiro de 2016.

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