DISCURSOS CULTURAIS NOS AÇORES: Por uma estética da territorialidade

Capa A Ilha Em Frente

VAMBERTO FREITAS

Um homem numa rocha e em volta o mar

Vitorino Nemésio

Nos Açores — para falarmos aqui só da nossa contemporaneidade — começa a sistematizar-se teoricamente, nos anos setenta e continuando até aos dias de hoje, a nossa produção cultural ao longo dos séculos, utilizando-se linguagens culturalmente preocupadas acima de tudo com a busca de um entendimento aprofundado da realidade açoriana adentro do país português. É certo que antes e depois dessa década isso vinha a acontecer em textos por vezes avulsos e dispersos, ou em textos muitas vezes de uma informalidade quase emotiva, mas sempre através de linguagens que nunca descuraram uma contextualização, repita-se, nacional e, até, universal. Todavia, este trabalho intelectual de fundo veio após quinhentos anos de separação da restante nação lusíada: separação física pelo mar, “separação” pela falta de conhecimento das ilhas no Continente fora de reduzidos círculos intelectuais e governamentais, “separação” pela realidade económica de um país pobre e sem conceitos de desenvolvimento territorialmente abrangente, em que uma também muito reduzida elite açoriana mantinha tradicionalmente desde há séculos — quer através de negócios quer através da ida para as universidades continentais, particularmente Coimbra — uma mais estreita relação com o todo nacional. No segundo quartel do século passado, Antero de Quental alude vagamente nas suas cartas, agora publicadas, à condição açoriana no contexto nacional, quando, por exemplo, falava da Terceira e das outras ilhas, e do seu iberismo (em termos de cultura, e não, neste caso, de união entre Portugal e Espanha), ou ainda quando mencionava descomprometidamente o movimento ou sentimento separatista que já então se desenhava entre algumas figuras da nossa elite comercial, virada para as possibilidades americanas dos Açores.

Não é um objectivo deste meu ensaio recuar para além da referida década de sessenta, nem sequer deter-me aqui alongadamente, como seria de esperar noutro contexto, sobre as Semana(s) de Estudos em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Horta durante os anos 1961 e 1964, dinamizadas especialmente primeiro por José Enes e depois por Artur Cunha de Oliveira. Bastará relembrar, do mesmo modo, que já nos anos 20, quando o mais conhecido açoriano deste século, Vitorino Nemésio, chega a Coimbra acha por bem logo nos seus primeiros escritos públicos começar a explicar as idiossincrasias das suas ilhas atlânticas, lançando eventualmente (em 1932, na revista Ínsula, de Ponta Delgada) o conceito de açorianidade, numa tentativa teórica de enquadramento não só da nossa literatura como de toda uma postura psíquico-cultural das gentes das ilhas na sua pátria lusitana. O autor de Mau Tempo no Canal, atento “ao olhar de fora” que Raul Brandão traria à literatura portuguesa em As Ilhas Desconhecidas, reconheceu-se nas descrições aí contidas dos condicionalismos geográficos e históricos da sua própria terra “É (…) ao longo desses anos (escreve Onésimo T. Almeida no seu Açores, Açorianos, Açorianidade­) — o segundo quartel do século — que Vitorino Nemésio vai dar corpo à ideia de açorianidade como mundivência e vivência particular do povo açoriano, um modo específico de estar no mundo que se expressa, de entre outros modos, com uma determinada sensibilidade literária. Tendo experimentado ele próprio as diferenças culturais entre os seus Açores e o Continente para onde fora estudar, Nemésio descobriu-se açoriano. Ao encontrar-se com esse livro revelador da experiência contrária tida por Raul Brandão, que na viagem aos Açores fora profundamente tocado pela diferença da paisagem e das gentes, como ele narra em As Ilhas Desconhecidas, Nemésio sentiu-se iluminado pelas intuições e a perspicácia desse grande observador e aprofundou com ele o conhecimento dos seus Açores”.

Era finalmente a segunda descoberta “nacional” dos Açores, ironicamente a que despoletaria internamente todo um pensamento, sistematizado e teorizado, repita-se, sobre o que nos havia acontecido histórica e culturalmente durante os séculos que nos separavam da primeira descoberta e povoamento. Foi desse reconhecimento da nossa condição especificamente açoriana que Nemésio apresentaria ao nosso país (no seu ensaio de 1939, no número seis da Revista de Portugal, intitulado “O Poeta e o Isolamento: Roberto de Mesquita”) o primeiro grande poeta da açorianidade,  o poeta florentino de Almas Cativas. Nemésio, com efeito, interliga momentos biográficos do nosso poeta com a temática e estética de Almas Cativas, procedendo a uma extensa análise pouco habitual entre nós: rigor académico e pura emoção na descoberta literária e cultural que faz de Mesquita, como que encontrando a chave para todo o dramatismo histórico dos açorianos, apresentando o autor a todo o seu país como um poeta autenticamente ilhéu, mas cujo interiorismo transporta em si toda a condição humana do seu tempo. “O aspecto cultural da poesia de Roberto de Mesquita — escreve Nemésio — não poderia explicar-se sem esta sondagem rapidamente feita à atmosfera e ao meio ilhéu. Já veremos a que escola poética pertence a mensagem deste homem: um simbolismo em que portuguesmente se encontram Baudelaire com Verlaine, e a que algumas notas da metafísica de Antero e do seu timbre poético cortam o preciosismo — sem falar no sentimento da solidão atlântica, que esse, como já dei a entender, é que faz de Roberto de Mesquita um poeta original duradoiro. O que vamos ver agora é a condição de vida do poeta, aquilo que dá preço e nobreza à sua obra, sem sombra de carreira literária (…) As Almas Cativas significam: coisas e pessoas doridas na penumbra, prisioneiros da ilha geográfica e da ilha que está em todo o homem, que configura todo o homem”.

Dando ainda continuidade a esta questão, José Enes publicaria em 1954 “Açorianidade de Roberto de Mesquita”, no então suplemento O Pensamento, do jornal angrense A União: “(…) No meio do mar imenso que fascina e enclausura e dentro da pequenez das ilhas que satura e insatisfaz, o açoriano, na consciencialização do isolamento, sucumbe a uma forte melancolia, uma espécie de saudades por longes nunca vistos, e cai no devaneio. A amplidão dos horizontes, a violência das tempestades, o terror dos terramotos e a carência de recursos imprimem ao sentimento da solidão a tonalidade do abondono. Aquela melancolia e este abandono, modalizando a motivação subjectiva e a emotividade, aparecem em quase todos mas dum modo especial em Antero, Bernardo Maciel, e em Roberto de Mesquita”.

Pouco depois das referidas Semana(s) de Estudos (em parte ressuscitadas há alguns anos pelo Instituto Açoriano de Cultura, de Angra do Heroísmo, mas já sem a mística e a urgência das dos anos sessenta, no contexto específico do Estado Novo de então) apareceria um rol de escritores e de publicações cultural-literárias que até aos nossos dias abordariam criativamente toda esta questão, abrindo nesse processo sempre inacabado o espaço teórico e ensaístico para se falar nas questões culturais açorianas adentro de conceitos que remontam, precisamente, às posições de Nemésio nesse, para nós, célebre ensaio de 1932. Em 1977, o poeta (também florentino) Pedro da Silveira fazia sair em Lisboa (na Sá da Costa) a sua Antologia de Poesia Açoriana: Do Século XVIII a 1975, tornando-se esta de imediato uma obra referencial e extremamente polémica, não pelos poetas que incluía ou excluía, mas pelo seu vigoroso prefácio, que combina, numa linguagem muito pessoalizada, a história literária e crítica com uma bem definida posição ideológica, reclamando para a Literatura Açoriana um estatuto radicalmente autonómico face à Literatura Portuguesa, e que provocou um vivo debate entre alguns dos nossos intervenientes culturais de então. “Entendo, na verdade,— escreve taxativamente Pedro da Silveira — que literatura açoriana quer dizer, para os Açores, exactamente o equivalente ao que quer dizer, para Portugal, literatura portuguesa, ou, para qualquer outra terra do mundo, a sua literatura: a que foi e está sendo realizada pelos seus naturais ou naturalizados, dando ou não dando dela e seus habitantes um testemunho imediatamente localizável (…) Nenhum outro povo europeu — acrescenta Pedro da Silveira na conclusão do seu polémico texto — tão minúsculo como o Açoriano, excepção feita do Islandês, aliás bem mais antigo e sempre mais livre, deu na poesia (podia acrescentar: e no conto) tão boa nota de si. Que Antero é de facto um grande poeta açoriano, como também o são Roberto de Mesquita ou Vitorino Nemésio, já se sabia. Agora, para quem só isso ou pouco mais alcançava, penso ficará esclarecido que eles não são ilhas isoladas, únicas, no mar da literatura açoriana”.

Por sua vez, Onésimo T. Almeida, a partir da Universidade de Brown, em Providence, reiniciava, digamos que à larga escala, todo o debate que eventualmente envolvia quase todos os intervenientes nas questões culturais açorianas dentro e fora do arquipélago. Para além dos seus volumosos escritos ao longo das décadas de setenta e oitenta, que mais tarde viriam a ser reunidos no já citado livro Açores, Açorianos, Açorianidade, ele fazia sair a colectânea A Questão da Literatura Açoriana (em 1983), reunindo aí algumas das nossas figuras da geração que nos antecedeu nos anos cinquenta e que havia abordado principalmente a temática, estética e historicidade da literatura açoriana (José Enes e Eduíno de Jesus, por exemplo) juntamente com outros já da nossa própria geração, como João de Melo. Um pouco mais tarde, e após um dos primeiros grandes encontros sobre a nossa literatura na América do Norte (pois houve sessões e actuações culturais açorianas na Costa Leste americana, na Califórnia e no Canadá), Onésimo faria sair também o volume dessas comunicações em Da Literatura Açoriana (1986), no qual temos o mais vivo debate de sempre acerca da nossa cultura e história literária, um debate marcado por posições naturalmente divergentes mas que testemunha o profundo interesse que os Açores despertam entre os intelectuais desta nossa época. Creio não exagerar se afirmar aqui e agora que são dois volumes canónicos, inevitáveis (tal como toda a escrita de Onésimo até aos nossos dias, não esquecendo nunca que foi ele quem fundou na sua universidade americana a primeira cadeira de Literatura Açoriana, no ano lectivo de 1977/78), na nossa história literário-cultural, ninguém poderá abordar a questão da arte nos Açores sem os conhecer pormenorizadamente, sem com eles ter reflectido. Quase ao mesmo tempo, J. H. Santos Barros (falecido precocemente em 1983) viria também a provocar nos anos setenta toda uma vivíssima agitação cultural nos Açores, fazendo lembrar o grupo de Pedro da Silveira em Ponta Delgada, nos anos quarenta, e o grupo da Gávea, em Angra, nos finais dos anos cinquenta. Partindo de um posicionamento completamente novo, e de certo modo inesperado, entre nós, ideologicamente de uma perspectiva de esquerda, ainda no seu sentido quase clássico e europeu, Santos Barros intervém vigorosamente por entre toda a balbúrdia de mudança radical que então vivia a sociedade portuguesa. Santos Barros fundou e dirigiu com Urbano Bettencourt, em Lisboa, a revista A Memória de Água-Viva (que se publicou desde Março de 1978 a Outubro de 1980), tendo já aí como centro do debate as questões políticas e culturais açorianas nesse momento, uma vez mais, de transformações profundas em toda a nossa sociedade. A sua defesa da existência de uma Literatura Açoriana conheceria o seu apogeu, porém, no suplemento Contexto (Novembro de 1979 a Julho de 1983), por ele dirigido no semanário Açores, de Ponta Delgada. Toda esta actividade de Santos Barros e dos seus colegas mais próximos significava um desusado movimento das margens (a que desde há muito se haviam habituado os intelectuais açorianos) para o centro da discussão pública e das próprias instituições regionais; era como que a institucionalização do debate em volta da nossa literatura e arte em geral. A maior parte dessas consistentes intervenções de Santos Barros seriam eventualmente reunidas no seu livro O Lavrador de Ilhas-I: “(…) Não tinham razão — escreveria Santos Barros no prefácio a este seu livro, publicado em 1981, pela Secretaria Regional da Educação e Cultura — os que ansiosamente deslocavam a questão da escrita açoriana para o terreno nacional ou/e patriota ou patrioteiro. Como eu, estou certo que a maioria — para não dizer a totalidade — dos escritores açorianos, sempre se sentiu muito bem em chamar àquilo que escrevem literatura açoriana e nunca por nunca, bem pelo contrário, lhes passou pelas cabeças dar à expressão uma conotação extremisticamente diferenciadora, atitude que seria, aliás, reveladora de menoridade mental e anticultural”. É certo que Santos Barros exagera quando afirma que a maioria dos escritores açorianos alinhava — ou alinha, ao menos ideologicamente — pela mesma perspectiva quanto à autonomia da literatura das/nas ilhas, mas com esse seu posicionamento e linguagem elevava e alargava, juntamente com Onésimo T. Almeida, o debate que ainda permanece entre nós.

Esta agitação e discursividade intelectual nos Açores (nos anos setenta e oitenta) de Santos Barros e de muitos outros colegas seus vivendo dentro e fora do nosso arquipélago, estava paralelamente a ser desenvolvida por outras figuras que já então eram reconhecidas pelos seus escritos criativos e académicos em volta das mesmas questões da açorianidade e da nossa produção cultural em geral, desde as características temáticas mais marcantes de autores conhecidos, ou de outros a iniciar a sua actividade nas ilhas ou nelas inspirados. José Martins Garcia, com uma vasta obra que inclui poesia, ficção, ensaio e crítica, hoje Professor Catedrático na Universidade dos Açores, publicaria em 1987 o seu importante livro Para Uma Literatura Açoriana: “Este dilema — escreve Martins Garcia — ganha especial acuidade no âmbito da criatividade açoriana, uma vez que, sendo geograficamente as nove ilhas que somos, somos quem somos também enquanto herdeiros duma tradição. Não podemos renegar essa tradição sem nos negarmos a nós mesmos. Sabemos, todavia, que toda a tradição comporta elementos inertes a que se opõe a potencialidade inovadora. A criatividade artística é a realização dessa potencialidade inovadora sem menosprezo pela tradição. Se um corte abrupto com a tradição pode significar crise de identidade, aculturação, ou até irremediável desespero, o culto da tradição pela tradição pode engendrar uma espécie de fobia pelo diferente, pela modernidade. Encontrar o equilíbrio entre tradição e inovação, realizar uma obra que, sendo diferente das obras do passado, nos fale do que fomos, do que somos, do que seremos — eis um caminho que alguns artistas açorianos já descobriram”. Também ligado à Universidade dos Açores, onde prepara o seu doutoramento na área da Literatura Portuguesa, o poeta e ensaísta Urbano Bettencourt, vem desde os anos oitenta intervindo consistentemente no nosso debate cultural e estético, particularmente com os seus dois volumes de ensaios e crítica O Gosto das Palavras, sendo o volume primeiro de 1983 e o segundo tão recente como o ano de 1995. Urbano mantém durante todos esses anos a mesma posição: a territorialidade de uma literatura nunca fará com que esta se feche aos círculos restritos da sua proveniência, nem a sua estrita identificação a limita de outros modos, quer temáticos quer estéticos; um povo tem direito à sua própria voz e história cultural. Não foi por mera coincidência que Urbano esteve sempre ao lado de Santos Barros na direcção de A Memória da Água-Viva, partilhando com ele toda uma visão histórica, estética e ideológica, até, da vida cultural açoriana. Recentemente, Urbano voltou ao tema num ensaio publicado no Suplemento Açoriano de Cultura (do Correio dos Açores), intitulado significativamente “Dos Açores e da sua Literatura: Em Louvor das Periferias”. Após um parágrafo de abertura ao seu ensaio, em que estabelece os parâmetros da sua argumentação (o conhecimento das ilhas e da sua literatura aludindo a Vitorino Nemésio e a Mau Tempo no Canal), Urbano escreve: “Num texto sobre Nemésio, escrevia Fernanda Pratas a propósito do romance Mau Tempo no Canal: depois dele, só não sabe das ilhas quem se quiser distraído.” “Devo dizer — continua ainda Urbano — que não me perturba em demasia a questão, aqui levantada, dos eventuais distraídos, mesmo sabendo que é infinita a capacidade dos homens para a distracção (dentro e fora das ilhas, como se sabe); merece-me muito mais atenção o exacto ponto em que a voz da leitora coincide com a voz do autor, tal como ele se expressava há cinquenta e dois anos, data da publicação de Mau Tempo no Canal : parece-me que fiz realmente um romance das ilhas — a nossa gente, a nossa lava, o nosso mar. Lá vive uma cidadezinha insular com a sua pacatez e o seu ar cosmopolita”. Por sua vez, José Medeiros Ferreira (historiador da Universidade Nova de Lisboa, com vasta obra na historiografia portuguesa contemporânea, e hoje deputado do Partido Socialista à Assembleia da República pelos Açores), coordenou e escreveu o oitavo volume intitulado Portugal em Transe., da História de Portugal, sob a direcção do Professor José Mattoso, no qual inclui uma secção intitulada “Os Regimes autonómicos dos Açores e da Madeira”, onde procedeu à análise do que viria a ser uma redefinida noção de territorialidade açoriana como resultado do 25 de Abril e do que acabava de acontecer com a descolonização dos territórios até então sob a administração portuguesa. Para Medeiros Ferreira foi principalmente a actividade cultural ressurgida em força nessa época que levou a uma renovada e porventura retrabalhada noção de açorianidade: “Movimentam-se intelectuais, suscitam-se patronos. Emerge Vitorino Nemésio como figura tutelar da identidade insular. Mas também surgem intelectuais mais novos, dentro e fora dos arquipélagos, que reclamam uma raiz insular: Natália Correia, José Martins Garcia, Onésimo Teotónio Almeida, Vamberto Freitas. E mais tarde, já na década de 80, florescem nomes na literatura como Cristóvão de Aguiar e João de Melo, que se reclamam do universalismo e aborrecem o localismo, mas cujas raízes comovidas são insulares no precioso vocabulário e numa rememoração da .primeira idade própria de gente feliz com lágrimas”. Ainda há poucos meses, António Machado Pires, Professor Catedrático na Universidade dos Açores e antigo reitor da mesma instituição, especialista também na área da Literatura Portuguesa, e que tem dedicado ao longo dos anos atenção ao fenómeno cultural açoriano, escreveu num outro ensaio seu (“Os Açores Antes do 25 de Abril”) que “A Cultura e Literatura como sua parte integrante reflectem nos Açores dois sentidos ou movimentos a que chamaremos centrífugo e centrípeto, isto é, respectivamente, o desejo de fuga ou evasão, a aspiração a sair do isolamento (lembre-se O Barco e o Sonho, de Manuel Ferreira), o desejo, forte e identitário, de recriação pela escrita do mundo insular matricial em que cada açoriano se revê. Forças dissonantes mas complementares, como o comprazimento e a exaustão, a dor e o prazer, o partir e o ficar, a dupla natureza do ilhéu, que quer compreender o mundo na condição de o mundo o compreender (…)”

Em 1993, antes das eleições autárquicas de então, o suplemento cultural Vento Norte, dirigido pelo poeta Álamo Oliveira no Diário Insular, de Angra do Heroísmo, convidou os seus leitores e colaboradores a escreverem sobre o que pensavam ser as melhores políticas culturais a adoptar, nessa ocasião, pelos nossos municípios. As respostas vieram quase todas de intelectuais e/ou agentes culturais nas ilhas, alguns com muitos anos de experiência neste campo. O poeta angrense, Emanuel Félix (autor de uma vasta obra ensaística e poética, da qual se destaca A Viagem Possível), num texto intitulado “Os Beneficiários da Desertificação”, debruçou-se sobre a situação corrente nas nossas ilhas, e procedeu à contextualização mais alargada de toda a questão: “Creio não só necessário mas sobretudo útil à finalidade desta intervenção, aproveitar, antes de mais, este espaço, para reflectir com os possíveis leitores sobre conceitos de cultura (…) Não, evidentemente, sobre isso a que poderemos chamar culturaprestígio, bric-à-brac, ideias feitas, datas e nomes muitas vezes para esquecer ou para lembrar apenas quando for rigorosamente necessário. Mas, particularmente, sobre um conceito de cultura que tem muito simplesmente a ver com aquilo que somos e com o modo de o ser, com o sentido que temos da beleza e da justiça, com o modo por que exprimimos os nossos sentimentos de alegria ou de tristeza, com o que comemos, com o que vestimos, com o cuidado que dispensamos ao nosso jardim ou à própria casa em que habitamos. Uma perspectiva de cultura que tem a ver, também, com a paisagem que nos cerca, com os lugares que amamos e que escolhemos para viver. Uma ideia, portanto, de democracia cultural, que todos sabemos não significar o mesmo que democratização da cultura. Porque democratizar a cultura será, quando muito, pôr à disposição de todos, sem excepção, os meios de acesso aos denominados níveis superiores de conhecimento. O que é, sem dúvida, necessário. O que é urgente. Como são urgentes as exposições, os concertos, os livros, os jornais, a rádio, os audiovisuais. Mas a democracia cultural pressupõe um outro conceito: o de que todos somos portadores de cultura, fazedores de cultura; cultura que é, também, segundo o mesmo princípio, qualidade de vida, factor de liberdade individual, motor de desenvolvimento colectivo”. Neste colóquio do Vento Norte intervieram ainda nomes conhecidos pela sua intervenção cultural nos Açores como Daniel de Sá, Victor Rui Dores e Adelaide Batista. Escrevendo ainda quando tinha sob a sua responsabilidade a presidência do Instituto de Acção Social nos Açores, Adelaide (autora de, entre outros títulos, João de Melo e a Literatura Açoriana) via também a questão cultural no âmbito da integração total do homem ilhéu no seu pequeno meio insular: “Que se faça da cultura uma produção desencadeadora de interacção entre o passado e o presente; entre o homem e o seu meio. Para isso nada melhor do que o social, através de políticas integradas às quais não poderão estar alheias: a escola, a formação e o emprego, a acção social, a saúde, o turismo, a habitação, a agricultura e pescas, com vista à promoção das nossas gentes, que, dignificadas na sua forma de estar na vida, estarão com efeito mais aptas a participar, ou seja, a fazer cultura, e consequentemente, paulatinamente, a consumir (permita-se a expressão) cultura; a interiorizá-la de forma agora consciente, a partilhar por isso desse espaço que nos une a todos e nos fortalece a cada um, aí onde o alimento do homem garante a força do espírito que preserva os povos e lhes dá continuidade”.

Não vou aqui enumerar ou mencionar todas as variantes do nosso debate, essencialmente interno nas ilhas, nem sequer todos os nomes pertinentes ao longo destes últimos anos. Simplesmente — na minha argumentação de que os discursos culturais nos Açores são a soma de inúmeros trabalhos pensados e elaborados ao longo destas últimas décadas, e que ninguém poderá ignorar em qualquer debate público, nem muito menos formular políticas culturais para as ilhas sem conhecer toda esta rica historicidade cultural, este espírito do lugar tão marcante na literatura mundial da nossa época, como o comprovam, eis só um nome como exemplo, as obras de Salman Rushdie e de tantos colegas seus — estou a evocar este ou aquele nome e a citar apropriadamente este ou aquele passo. Não faço aqui, obviamente, história cultural, antes pretendo, repito, propor que o posicionamento — e, logo, a sua discursividade cultural — dos Açores adentro do restante país e mesmo em relação ao mundo vem sendo desde há muito definido e redefinido, e tudo fundamentado em pressupostos teóricos que jamais poderão ser, por quaisquer razões, colocados de lado — sejam essas razões políticas ou meramente resultantes de opções estéticas que não correspondem ao que se tem escrito, representado, ou cantado nos Açores. É certo que, como já aqui foi dito, estas questões estão por natureza própria sempre abertas ao debate e a revisitações, mas existe entre nós, e profundamente cimentada, o que outros, e agora também a nossa cultura, denominam a Tradição literária, que remonta ao primeiro e grande escritor açoriano, Gaspar Frutuoso, pois creio ser um erro histórico a minha geração não ter ainda reclamado inteiramente as Saudades da Terra como texto açoriano autenticamente fundador da nossa literatura, em que a historiografia será tão-só uma das componentes dessa multifacetada obra, na qual não faltam, como se sabe, prosa, da mais poética até hoje escrita entre nós, e ficção em forma de novela. Cada geração, retomando o pensamento de José Martins Garcia enunciado aqui numa citação anterior, poderá ou não rever essa Tradição, ou, como se diz no mundo anglo-americano, reinterpretá-la ou mesmo reinventá-la. O que não poderão nunca — as gerações que nos seguirão, se a cultura ainda lhes disser alguma coisa no bravo mundo que parece avizinhar-se — será ignorá-la ou proceder como se nada, em quinhentos anos, houvesse acontecido.

Escrevi ainda há pouco que está em processo nas ilhas, ao que parece a mim e a outros, toda uma redefinição da respectiva política cultural. Deste processo, se conhecer e respeitar o trabalho das últimas décadas, só nos poderá vir bem. As culturas dinâmicas procedem constantemente a um questionamento interno, à sua historicidade, à sua contextualização perante o exterior, e — mesmo numa comunidade homogénea como é a açoriana — ao seu relacionamento com diferentes grupos dessa mesma sociedade. Essas mesmas comunidades fazem e devem fazer, por imperativos histórico-políticos, “a viagem para dentro”. É natural que assim seja nos Açores neste momento, pois aconteceu a primeira grande mudança política após vinte anos de governação pela mesma força partidária. Foi o primeiro render da guarda regional açoriana após a instauração da democracia no nosso país. Só que o debate cultural numa sociedade moderna, aberta, tem de envolver todas as forças vivas dessa sociedade. A democratização da cultura não poderá nunca servir de pretexto para o nivelamento por baixo, mas sim para envolver todas as associações, todos os cidadãos independentes, mas interessados na nossa vida cultural, toda a classe culta e/ou consciente da vida criativa, a todos os níveis, da sua comunidade, seja de nascença seja de adopção.

Era, pois, de todo previsto que o debate cultural acontecesse nos Açores, pelas razões inescapáveis que referi acima, mas também porque no nosso país são ainda as instituições públicas que detêm o poder de mobilizar e, em grande parte, subsidiar projectos individuais ou associativos, e assim estabelecer, ipso facto, os rumos e as políticas culturais na sua globalidade. Dada a nossa pequenez territorial e numérica, dada a quase total ausência de mercados e de uma fatia substancial da população virada para o mundo da cultura, tudo, desde o folclore e teatro à publicação de livros, depende das atitudes, digamos assim, de quem nos governa, e, consequentemente, de subsídios, directos ou indirectos, por parte das diversas instituições governamentais, desde as autarquias ao próprio Governo Regional. O nosso espaço cultural está por enquanto aberto a todas as possibilidades que essa intervenção implica — e aberto está do mesmo modo a possíveis equívocos, e, o que seria desastroso para a vida criativa nos Açores, a revanchismos ideológicos. Seja como for, no entanto, não esqueçamos o outro lado de toda a questão: uma cultura existirá sempre, com ou sem intervenções governamentais. Os escritores escreverão com ou sem subsídios, as ideologias afirmam-se com ou sem a vontade dos poderes públicos. Tal como em muitas outras sociedades ocidentais, foi sempre assim nos Açores, e continuará a sê-lo.

O que aqui fica, espero, é uma perspectiva sobre o que tem dito — em termos históricos, analíticos e ideológicos — toda uma geração de intervenientes nas questões culturais açorianas. Uma perspectiva, permitam-me repetir, que engloba necessariamente uma multiplicidade de abordagens, posicionamentos ideológicos e noções estéticas, principalmente no que se refere à literatura, esse imenso repositório criativo da vida de um povo. É certo que numa sociedade moderna existem — e devem existir — discursos culturais que não convergem necessariamente em todas as análises da nossa vida cultural. Mas creio que ignorar o fio condutor de pensamento que ao longo deste último século tem servido de ponto de partida e de balização, digamos assim, para as diversas abordagens desta mesma realidade açoriana será intervir — intelectualmente, ou ideologicamente — num vácuo total, num desenraizamento (só pretensamente cosmopolita, quando se invocam posicionamentos desse tipo) e, logo, de todo inconsequente, no imediatismo do momento presente, e muito mais certamente a longo prazo. Uma cultura sem memória, sem fundamento histórico, é uma contradição insustentável; é, lembrando as palavras de Emanuel Félix aqui já citadas, uma cultura-de-prestígio, uma cultura bric-à-brac, que desaparecerá tão rapidamente como os seus provisórios agentes. Os arquivos de uma comunidade, entretanto, permanecerão — e com eles a Tradição, perpetuada, renovada, de quando em quando, conforme a vontade de cada geração ou artista individual, desafiada e, até, subvertida. Não queiramos ser, utilizando aqui a expressão de Harold Bloom, A Geração (açoriana) do Ressentimento.

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*Publicado no meu livro A Ilha Em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, Lisboa, Edições Salamandra, 1999.

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