João de Melo e o Imaginário Açoriano

Com Emanuel Félix e João de Melo NY 24 de Abril 1993

Com Emanuel Félix e João de Melo, em Nova Iorque, quando éramos bem mais novos, e mais ou menos pelo tempo desta entrevista

Entrevista de Vamberto Freitas

João de Melo, nascido em 1949, na freguesia da Achadinha, em S. Miguel, meio ambiente rural depois de transfigurado e chamado Nossa Senhora do Rozário da Achadinha, servindo assim de fundo principal a O Meu Mundo Não É Deste Reino, a alguns dos contos em Entre Pássaro e Anjo e a Gente Feliz Com Lágrimas, vive no Continente desde os 11 anos de idade e tem já um substancial número de títulos publicados. Antes, ou por entre esta escrita acima mencionada, havia ele conseguido o seu lugar proeminente na literatura portuguesa contemporânea, com outros livros, nomeadamente Autópsia de um Mar de Ruínas e os Anos de Guerra, o primeiro um romance sobre a sua experiência em África como combatente do exército português, e o segundo uma antologia de diversos géneros sobre o mesmo período e realidade histórica.

Apesar desta “dispersão”, é como romancista que se reconhece de imediato o seu nome. Os seus dois grandes romances de temática “açoriana” inspiram-se nos anos da sua infância, vão até ao presente, e a partir desse seu pequeno mundo ilhéu, somos levados a vários países e continentes seguindo a sorte das suas personagens, cada uma delas um símbolo vivo e inesquecível de todos quanto no país português foram sobrevivendo ou tombando na sua caminhada vivencial durante a maior parte deste século.

Acompanhar João de Melo nesse seu período ficcional – ora trágico ora cómico, ora de lágrimas ora de alegrias e risos – é ficar para sempre com um outro imaginário completo do povo e da nação que fomos e somos.

“…Nos Açores do presente”, diz ele no decorrer da entrevista que aqui se segue,” persistem muitos dos dados que em parte explicam os mistérios, os equívocos e a espiritualidade de todos os portugueses”.

João de Melo já disse também noutra parte que neste momento está virado, na sua escrita, após a publicação recente de Gente Feliz Com Lágrimas, para outras realidades nacionais. Poderá assim ser, mas o seu lugar na literatura portuguesa contemporânea foi já assegurado com os livros aqui referidos.

São algumas das suas personagens, situações e atitudes, que aparecem e reaparecem particularmente no seu imaginário açoriano, que aqui abordamos. Deste outro testemunho do autor que nos fica, vamo-nos tornando conscientes, também, do “permanente desafio” que encara toda uma nova – passe a expressão hoje um tanto caduca – geração literária em Portugal.

Esta conversa com João de Melo foi iniciada antes da saída do seu último romance. Por razões de espaço, e Gente Feliz Com Lágrimas muito tem sido recenseado e merece ainda tratamento aprofundado, concentrando-nos desta vez quase só em O Meu Mundo Não É Deste Reino.

-Até que ponto O Meu Mundo Não É Deste Reino é um romance autobiográfico?

João de Melo – Começando pelo princípio: não me move nenhuma espécie de preconceito contra a concorrência da autobiografia para o imaginário dos escritores. Sei que a questão não é, nunca foi, pacífica entre nós. Para mim, a autobiografia pode ser a peça móvel de um xadrez sem regras: aquela que estabelece um compromisso de fundo entre a vida do escritor e os mundos que se lhe sobrepõem. Mas não é esse o caso de O Meu Mundo Não É Deste Reino, onde não há nenhum processo declarado de mediação. O narrador é tão equidistante daquele “mundo” quase primordial, quanto o será das personagens e das suas vicissitudes concretas. Evidentemente, persiste no livro uma grande margem de subjectividade, um saber fingido que se confunde com a invenção pura. De resto, o romance pretende ter uma amplitude temporal de cerca de 500 anos, mas que mal atinge os primórdios da minha infância. Já se emigrava em força quando eu era um menino açoriano. Mas, no livro, José-Maria e Maria-Água entram no processo mítico dos futuros barcos que hão-de passar por ali. Acabam por regressar ao ponto de partida. Lembra-se de João-Lázaro? É uma personagem eterna, com o seu quê de bíblico e de revolucionário: entra em metamorfose, morre, ressuscita (transfigurado e sublime) para anunciar um novo tempo, aquilo a que ele chama “o progresso dos países”. Ora, a minha contingência humana está à vista…

– O passado açoriano é-lhe uma herança cultural e psíquica pesada. O seu romance foi um acto de catarse? Aceita a realidade do passado como riqueza pessoal, ou desejaria um dia ser um escritor em que a sua origem fosse irreconhecível?

JM – De catarse, isso sim. É mais dificilmente dissociável das expectativas e emoções que o romancista põe nas criações que “vive”. E quanto à minha geografia social, assumo-a, obviamente, como matriz e como opção original. A minha intenção consiste em transpor, a partir de uma ilha, um universo simbólico que se aproxime de um mundo real deste país. Não me sinto limitado, sou mesmo um observador privilegiado. Nos Açores do presente persistem muitos dos dados que em parte explicam os mistérios, os equívocos e a espiritualidade de todos os portugueses. A literatura do após-25 de Abril inscreve nas suas preocupações uma procura quase mítica da nossa identidade cultural. Diria, por isso, que O Meu Mundo só por artifício pode ser baptizado de “romance geográfico” ou “açoriano”. A minha ideia foi propor nele uma nova mitologia literária, segundo a qual a “ilha” pode ser a alegoria possível de um país. Por isso a Achadinha passa a chamar-se “Rozário”, no masculino e em grafia desactualizada, para que mais depressa se aproxime da sinonímia de Portugal. Um país rural e urbano, insular e continental, sem dúvida, no interior do qual coexistem as mais diversas tensões culturais e vivências.

O Meu Mundo Não É Deste Reino, apesar dos inesquecíveis pesadelos e tristezas que nas suas páginas se sucedem, é um romance muito optimista. Concorda?

JM – Inteiramente. Lembra-se da metáfora dos pássaros, no final do livro? Ali, como noutros livros meus, sou português por gosto, não por fatalidade. Mas o país que somos não pode estar todo no nosso tempo. É tão medieval ou terceiro-mundista, por exemplo, quando o pode ser já de macrocéfalo, existencial ou de vanguarda. A nossa evolução histórica processa-se muito em espiral, desde a paróquia provinciana até ao fascínio das catedrais, em sentido figurado. É esse o trajecto de O Meu Mundo, conforme creio: pelo optimismo do tempo que levará ao futuro.

– A esperança, no entanto, como motivo na literatura portuguesa actual, parece estar dissipada quase por completo. É este apenas um fenómeno literário, o reagir de intelectuais perante o seu mundo, ou vê que a população em geral assim sente e vive na sua terra?

JM – A literatura é o país dos pobres. Enquanto a realidade for insuportável, deve competir ao imaginário dos livros conceber essa porta de saída para o ideal social. Por isso não posso concordar com a sua constatação. Tenho visto muitos motivos de esperança na moderna ficção portuguesa. É mesmo o que dela mais quero reter. Podemos não festejar as grandes vitórias da felicidade, mas parece-me que não está enjeitada a crença nessa possibilidade. Se é certo que a liberdade trouxe responsabilidades acrescidas aos escritores, é no mínimo óbvio que ela comportou de imediato conquistas inestimáveis. Nunca mais ninguém foi preso por delito de opinião; a Censura foi suprimida, assim como as polícias políticas. O que mais depressa se libertou dentro de nós foi a expressão de um novo imaginário. Não há temas-tabus nem o receio de ver os livros apreendidos e os seus autores presos. E no plano estritamente literário, há outra constatação a fazer: as duas ou três gerações de escritores que estão no activo não sentem necessidade de se combaterem entre si. Por vezes, coincidem mesmo numa única dinâmica de escrita. Que eu saiba, isso é único e era inédito na história literária portuguesa.

– Vejo em O Meu Mundo Não É Deste Reino influências diversas da literatura moderna e pós-moderna – Faulkner e Márquez, por exemplo. Lê muito os seus contemporâneos?

Que mais lê actualmente?

JM – Conheço muito mal a obra de Faulkner. A minha tribo literária anda dispersa, algo desarrumada, e é muito heterogénea. Houve escritores importantes na minha formação: Dostoivski, Kafka, Camus, Beckett e alguns portugueses – Eça, Nuno Bragança, Urbano Tavares Rodrigues. Depois chegaram os latino-americanos. Não somente Garcia Márquez, ao contrário do que se diz, mas também Cortázar, Roa Bastos, Carpentier e mesmo Borges. Leio imenso, de resto. E julgo-me razoavelmente documentado quanto à escrita portuguesa actual. Aqui, na minha opinião, oscilamos entre o óptimo e os “piccoli equivoci senza importanza”, como diria o Tabucchi. De momento, sinto-me pouco permeável a esses estímulos. A minha geração só tem uma alternativa: ou vive na periferia dos modelos estrangeiros, ou então cria o seu próprio modelo de literatura.

– Os representantes da Igreja são também os protagonistas de O Meu Mundo Não É Deste Reino. Aparecem aí como uns imbecis de indescritível vileza. Não acha que o papel da Igreja nos Açores foi e é muito mais complicado?

JM – Já o é no romance, suponho. E não creio que nos meus outros livros haja uma visão sectária da Igreja. Limito-me a denunciar a inteligência perversa de certos padres, que não resistem a assumir o estatuto dos poderosos e dos exploradores. Insurjo-me contra os ocultos poderes eclesiásticos, na proporção dos seus compromissos com a ociosidade, o espírito de seita, o preconceito ideológico e a fluidez moral. Sou sobretudo um crítico das hierarquias, como sabe. Os mesmos bispos que abençoaram as naus das descobertas e conquistas aparecem depois a benzer os barcos que partiam para a guerra colonial (que era uma guerra “santa”, na palavra do cardeal Cerejeira!). E os papas da Inquisição, seriam por ventura os mesmos que hoje excomungam os teóricos da “teologia da libertação” – com o absurdo de estarem a renegar a Igreja dos pobres e a politizá-la diferentemente, de país para país. Por outro lado, foi sempre um propósito muito meu questionar as patriarcais figuras da sociedade portuguesa.

– Creio que o único e verdadeiro acto de amor, para além da vida de João Guilherme com a mulher até certa etapa do seu percurso, ocorre entre um dos filhos desse protagonista e uma bonita prostituta local. As relações humanas estão completamente despedaçadas no romance…

JM – Aí, discordo, João-Maria e os dois filhos são o triângulo de um trapézio amoroso muito mais vasto, no romance. Aquele povo, que se fecha por detrás das suas portas, fica de ouvido à escuta e não recusa a sua solidariedade a um homem que se levanta contra os que estão destruindo a sua felicidade. Todas as mulheres desse livro são luminosas, realizam prodígios na vida dos seus homens. A coragem delas será porventura mais quotidiana e menos excepcional do que a desses homens. Poderia isso inibir-me de perscrutar o mundo miúdo das mulherzinhas, se elas são rigorosamente o contrário das outras? Já imaginou a coragem que é precisa para dar à luz, e ser isso tão grandioso quanto natural?

– O mar em O Meu Mundo Não É Deste Reino torna-se um símbolo ao mesmo tempo de vida e morte, de esperança e de aterrorização, é “um mar branco”. Será que o povo açoriano é o único povo ilhéu que olha para o mar só como possível via de fuga e para a terra como único e desejável sustento?

JM – A simbologia do mar – que a personagem do curandeiro define como sendo “branco” – faz parte de uma concepção de inocência. Para uns, ele é apenas um imenso deserto de água; para outros, o paradigma amniótico da Ilha. No geral, não é um elemento inimigo. Não significa violência ou morte: talvez o estigma de um destino que está por cumprir-se. Na minha infância (e decerto na sua), o mar exercia sobre nós múltiplos fascínios: passavam grandes barcos em direcção à América e a Lisboa, por ele se realizava o desejo de uma segunda condição humana. O J. H. Santos Barros assinalou isso, com grande lucidez, numa crítica que escreveu sobre o livro. Hoje, o mar está desdramatizado: não passam por ele, como nesse tempo, as ligações com o exterior. É com algum assombro que as personagens de O Meu Mundo ouvem João-Lázaro falar de aviões, do telégrafo e de outros prodígios. Não há nada de profético nesse expediente: na minha instrução primária, obrigaram-me a decorar os nomes das vias férreas, dos rios, das serras e dos castelos de Portugal – coisas de todo inexistentes na minha ilha. De tal forma que, quando cheguei a Lisboa, e como agora digo em Gente Feliz Com Lágrimas, desembarquei no país dos compêndios de História e Geografia, não no meu. Talvez fique agora mais clara essa analogia com o imaginário do romance, não concorda?

– A maior parte dos açorianos, assim como milhões de continentais, estão fora do país. Já alguma vez pensou também em emigrar? Que o faz querer ficar?

JM – Tive a sorte de viver um destino diferente do dos meus oito irmãos. Vim estudar para o seminário porque já então me não seduziam por aí além o estrume das vacas e o trabalho da terra. Se assim não tivesse acontecido, seria hoje, tal como eles, um homem canadiano num país de estrangeiros e trabalharia decerto na construção civil, lá para os lados do Pacífico ou no estado de Massachussets. Digo-o, aliás, neste último livro: “serei português com a moral e com o espírito, com o sangue até de quem traz em si um verso, um cheiro a mar, um fruto da sua terra”.

– A literatura de guerra, a referente à experiência portuguesa em África, foi sempre uma outra grande preocupação sua. Para além do seu romance Autópsia de um Mar de Ruínas e dos contos de Histórias da Resistência, você organizou e contribuiu para a colectânea Os Anos da Guerra, atreve-se a fazer aqui um breve balanço qualitativo do que até à data se escreveu sobre o assunto em Portugal? Espera ainda mais dessa geração que viveu a experiência africana?

JM – A guerra que nós vivemos em África não é a do tabu e do silêncio. Pode porém não ser obsessiva, ou estar já superada. Talvez perdure como experiência e como lição. Foi o nosso Vietname de 13 anos, repartido por três frentes. Nunca percebi o estranho preconceito “literário” que esse tema vem sugerindo a certos espíritos. Escreveram-se grandes livros sobre essa nossa vicissitude colectiva, com a diversíssima perspectiva de cada autor, claro está, mas também sobre o propósito de sondar, compreender e interpretar o país do logro e do equívoco – e sobretudo o drama que foi, para a minha geração, ter herdado sozinha o crepúsculo de um colonialismo sem Império (na rigorosa expressão de Eduardo Lourenço). A guerra trouxe para a Literatura Portuguesa grandes escritores, como é sabido. Os melhores deles incorrem na melhor tradição da escrita da História – desta vez anti-épica, desmontando a Epopeia e repondo valores humanistas que descobrem afinal um país periférico que sempre naufragou entre a mitomania imperial e o seu espaço geográfico, europeu.

– O que é hoje ser-se “escritor açoriano” em Portugal?

JM – Um desafio que permanentemente me confronta com o complexo anti-ilhas dos meios culturais lisboetas. Mas é um desafio para vencer, não duvide. Uma proposta que começa lentamente a ser ganha. Os escritores portugueses, na sua imensa maioria, vieram sempre da província. A população das nossas cidades, de resto, é uma espécie imigrante cujo imaginário não é essencialmente citadino. Por isso, e por convicção própria, não serei nunca um solitário. Lisboa tem-me dado o que nunca os Açores deram aos escritores. Não tem sido fácil. Essa justiça é-me devida. Mas não me lamento. Até porque tenho notícias de que os meus livros começam a chegar às ilhas.

– Finalmente, qual é o seu livro preferido entre todos que até hoje já escreveu?

JM – Gosto de todos eles, se bem que por motivos diferentes. Mesmo daqueles que já rejeitei e que cumprem apenas a função da ternura pela minha juventude. Penso que tenho vindo a “crescer” de livro para livro, só isso, e que não me aflige muito o problema da repetição pela escrita. Augusto Abelaira disse um dia que o melhor dos nossos livros terá de ser sempre o próximo, mesmo que nunca venhamos a ser capazes de o escrever. Concordo e estou por aí. De agora em diante se verá.

 

João de Melo e o Imaginário Açoriano

II

O objectivo principal, aqui, é apresentar ao eventual leitor, o mais completamente possível, o imaginário de um país na obra deste autor. Concentramo-nos nos seus dois romances – e que me perdoe o autor – “açorianos”, O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. É claro que, ao dirigir-lhe as perguntas, a opção de para aí levar a conversa foi inteiramente minha. Acredito que, felizmente para todos, chegámos já a este entendimento também quanto à Literatura Portuguesa – qualquer região, qualquer canto do nosso país poderá ser (e os Açores desde há muito que o são) ficcionado sem complexos, servir de fundo a livros que definitivamente a todos “pertencem” e a todos igualmente dizem respeito, que são apenas outro repositório, outro ângulo, outro retrato de situações e personagens da nossa comum condição humana.

João de Melo, como aliás o comprova a recepção crítica, e não só, de todos os seus livros até à data, é um escritor nacional que acontece, devido às circunstâncias da sua origem geográfica, escolher os Açores, e em Gente Feliz Com Lágrimas, o Continente assim como o Canadá, como ponto de partida para, uma vez mais, transfigurar o que ele entende ser a condição humana tal como é vivida pelo seu povo.

Com ele, temos percorrido séculos da nossa existência nacional. Este seu último romance transporta-nos para a actualidade, crendo ele que “… atravessa geografias, círculos familiares, tempos, sociedades, errâncias… tomara eu que nele se mirassem as famílias portuguesas que vieram da aldeia para a cidade, os que emigraram para a Europa e para a América, até como para o Brasil, ou que em tudo isso houvesse a noção de um país errante, mutável em busca da sua identidade.”

– Thomas Wolfe dizia que pouco lhe incomodava magoar indivíduos, da sua família ou não, que porventura se reconhecessem, ou pensavam que se reconheciam, negativamente, nos seus romances declaradamente autobiográficos. A criação artística tudo justificava. Demais a mais, as pessoas um dia desaparecem, mas os romances ficam. Sentiu-se alguma vez, ao escrever Gente Feliz Com Lágrimas, com dúvidas acerca da transfiguração de muitas das suas personagens e a possibilidade de alguém se reconhecer abertamente em alguma delas?

João de Melo – É suposto que Rui Zinho nunca tenha existido, como sabe. Mas a geografia e a memória de Gente Feliz Com Lágrimas passam-lhe pelo sangue e pelos nervos, antes de se converterem em escrita de ficção. Daí a minha ideia de que o romance não possa nem deva ser rotulado equivocamente – nem autobiográfico nem açoriano. Essa geografia interior, atravessando o espírito e o senso crítico de Zinho, é como um grifo ou um baixo-relevo e pretende envolver e projectar para o exterior da personagem um tempo e um espaço que coincidam com um país e com a sua história recente. Estão lá a Ditadura, a guerra, a infância, a morte desse país de sombras que atravessou a fronteira da noite e se encontra hoje na claridade diurna da sua liberdade política e cultural. Rui Zinho não existe sequer no “Livro Primeiro” de Gente Feliz, enquanto “ouve” Nuno, Amélia e Luís nessa confissão da infância comum. Não existe também a outro nível, quando Marta desfolha o discurso do cinismo acerca dum casamento que veio da paixão e da aprendizagem do amor até ao divórcio. De resto, Marta é uma mulher múltipla. Cumpre, neste livro, a função da mulher primordial, ao mesmo tempo única e numerosa. Tem o seu quê de quotidiano e divino em coexistência na mesma pessoa, na linha das sublimações femininas que compareceram já em anteriores ficções minhas.

Pois bem, um dos desafios de Gente Feliz com Lágrimas passa exactamente por aí: envolver o leitor numa rede de ficções quase desconcertantes. Há aí um processo heteronímico, uma espécie de jogo de iluminação que torna as personagens simultaneamente reais e transfiguradas. Ou seja, chega a ser um divertimento. Pessoalmente, não me reconheço por inteiro nisso. A minha infância foi duas vezes mais terrível do que aquela que lá vem narrada. Nuno Botelho será por ventura quem entra e quem sai mais vezes do imenso bastidor da minha vida e da minha pessoa, não o recuso. Mas não esteve na guerra e eu sim; é menos visceralmente anti-seminarista e não manifesta uma relação tão dramática com o lado religioso da sua formação ética e profissional. Poderia dizer que Nuno me escapa na espiral, sem dar aquele salto para a frente que foi o acto mais positivo da minha vida. Depois ele é em mim uma personagem do futuro; há nele algo de decisivo que ainda me não aconteceu. Por isso, tem 46 anos de idade (mais sete ou oito do que eu, na altura em que foi inventado), falhou um casamento e um amor que era eterno e acaba por resignar-se a um “Regresso Invisível” aos Açores, como se esse fosse o único remédio dos seus males. Em parte, perdeu o pé à vida (não apenas ao casamento e ao seu amor por Marta). E contudo é esse Nuno lúcido que denuncia, logo no capítulo segundo do livro, o país “necrófilo”. Sente-o por si, no momento em que hesita em descrever a figura paterna como “um cão de pai”.

É elementar dizer o seguinte, ainda: Gente Feliz atravessa geografias, círculos familiares, tempos sociedades, errâncias – mas acima de tudo pretende ser o romance dum país. Diversas pessoas me disseram já que aquela é a infância delas – nas Beiras, no Douro, no Alentejo, em Trás-os-Montes. Que a vida lisboeta de Nuno não pode ser pessoalizada apenas nele. Ao ouvir isso, senti finalmente que o romance começava a cumprir algumas das suas conjunturas. Penso, finalmente, que Gente Feliz Com Lágrimas chama a si uma condição dupla, pouco assumida na literatura portuguesa: coexistem, nas suas páginas, dois países distintos – o rural e o citadino. Por isso, é um romance de travessia (do campo para a cidade, com o regresso no fim ou talvez não: as páginas finais, em “A Felicidade Sábia”, recorrem à narrativa moral e à fábula da escrita…). Se alguém da minha família nele se reconhecer, tanto melhor. Mas tomara eu que se mirassem as famílias portuguesas que vieram das aldeias para a cidade, os que emigraram para a Europa e para a América, até mesmo para o Brasil, ou que em tudo isto houvesse a noção dum país errante, mutável e em busca da sua identidade.

– Se bem que se trate de dois romances que não necessitam um do outro e cada um dos seus mundos está completo perante qualquer leitor, foi-me difícil ler uma só página de Gente Feliz sem pensar em O Meu Mundo Não É Deste Reino. Foi como que ouvir uma história de gente diferente, mas colocada no mesmo palco, numa paisagem de imediato reconhecida. Por outro lado, logo nas primeiras páginas deste seu último romance, diz-se que Nuno, uma das suas vozes principais e à volta de quem o narrador une toda a história, anda desde há muito num ajuste de contas com tudo e com todos. Trata-se aqui da descarga catártica determinante e final?

JM – Em certa medida, é um livro que estava prometido a mim mesmo, para a minha libertação interior. Claro que a sua força motriz é a da catarse, mas a ideia da sua escrita nunca perdeu de vista a necessidade de fazer dele um objecto de criação e de literatura. Toda a minha ficção se inscreve no movimento de um pêndulo. Esse pêndulo oscila entre a mentira e a verdade da minha pessoa civil. Nada é realidade transcrita, e nada aparece escrito depois como ficção pura. Mas você talvez não devesse insistir muito nesse paralelismo apenas hipotético, entre O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. Leu Entre Pássaro e Anjo? Aí, há uma novela que fecha um ciclo de O Meu Mundo. Chama-se A Divina Miséria e é dos textos de que mais gosto. E leu Autópsia de um Mar de Ruínas? Nesse romance de guerra, quem circula é um tal furriel enfermeiro, quase um inominado, que é bem um alter-ego meu, daquilo que eu próprio vivi em Angola. Aí tem uma obra de catarse, por um lado, e de testemunho e aprendizagem ideológica, por outro. Está escrita. Por esse motivo, a experiência da guerra é imputada a outrem em Gente Feliz, e não foi minha intenção voltar a incorrer no tema. E, no entanto, foi-me indispensável dizer que a geração dessa “gente feliz com lágrimas” conheceu também o destino da guerra colonial, para só depois mudar o seu próprio e o destino do seu país.

– Uma das muitas ironias deste seu romance é a personagem Rui Zinho, o desdobramento de Nuno, o escritor, que aparece de quando em quando, alude aos seus outros livros sobre tudo isto, mas nunca se liga com muita emoção ao que vai decorrendo; na mente do leitor é uma personagem supérflua e esquecível. Quer isto dizer que o escritor, que é um Rui Zinho, merece o castigo e a frieza com que vive os seus dias? Que aqueles que ele descreve, e não os seus livros, é que são merecedores da nossa atenção?

JM – Esse Rui Zinho, o duplo de Nuno, é o seu lado maldito, a sua perversão interior. Separam-se como ramos do mesmo tronco e são, em certa medida, o verso e o reverso do mesmo rosto, mas não duma só pessoa. Ambicionam realizar a felicidade, penso eu, mas por caminhos incomunicáveis. Rui Zinho deixa-se seduzir pelo sucesso. Incorre na chamada “tentação literária” das vaidadezinhas e da auto-promoção pela cultura. É por essa corrida solitária, sôfrega e pouco escrupulosa que Marta se considera traída. Para Nuno, sobretudo pela sua inocência humana, sobra-lhe ainda um tempo de paixão. À semelhança de Álvaro de Campos, Marta poderia dizer que ama ainda não o tempo em que conheceu e casou com Nuno, mas quem ele era nesse tempo, antes de se dissolver no egoísmo e na cruzada da Literatura.

– Vejo neste livro uma alegoria ao desfazamento e eventual reconstrução de um outro Portugal. Para mim, um dos momentos de maior tristeza foi o regresso de Nuno/Rui Zinho à sua casa natal após 25 anos de ausência. É que acompanhamos a morte, o desenraizamento e a quase incrível solidão de toda esta gente, sabemos que este seu mundo vai continuar, como e com quem é que não. Impressionou-me bastante quando Nuno, ao ver que estranhos haviam profanado aquele templo na sua infância, corre raivosamente com as crianças que o espreitam do lado de fora. Estarei muito além das suas intenções quanto a temas e efeitos que desejou exercer sobre os leitores?

JM – Observa muito bem esse desenraizamento de Nuno/Rui Zinho. A possível correspondência desse episódio com a minha própria vida reside no afecto e na amargura que em mim se prolonga a partir da morte dos meus pais. A casa onde cresci, na Achadinha, foi vendida a estranhos, num intricado processo de partilhas que se vai produzindo fora do meu controlo. Vou frequentemente aos Açores, mas deixei de passar pela Achadinha: sei que me ia ser muito doloroso passar na rua, olhar para dentro daquela casa e mirar as sombras de quem fui e de tudo o que ali se viveu. Prefiro ficar por Ponta Delgada, arriscar uma ida à Maia, se tanto. Esta espécie de exorcismo interior converte-se, no livro, no último calvário de Nuno/Rui Zinho: aí tem a prova em como eu não sou nem um nem outro…

– Outra questão referente a Rui Zinho. Quando ele alude aos seus “leitores estúpidos” quererá dizer: Que buscam nestes meus livros, então ainda não notaram que as vossas vidas são a mesma comédia e tragédia que aqui procuram?

JM – Repare que esta acusação parte de Marta, não de Rui Zinho. Ela talvez queira denunciar esse canto de sereia, que é a escrita dos livros e a ocultação de Nuno. Na opção dela, os leitores são “estúpidos” porque não distinguem entre a verdade e a hipocrisia da feitiçaria criativa do seu homem. Pensa pior: que o escritor é, ele próprio, um produto da imaginação. Porque há o outro: aquele individuo distraído dela, do seu ciúme e da sua humanidade. O que Marta não suporta, no casamento com Nuno, é a ambivalência do ser, a sua ambiguidade.

– Durante todo este percurso de Gente Feliz Com Lágrimas tive este sentimento duplo: repulsa e saudade pelo mundo perdido que me ia sendo contado e dissecado. Creio que um dos temas principais deste romance é que, apesar de tudo, é-nos impossível libertar-nos do passado por completo…Será que os miúdos que espreitam Nuno dentro de casa da sua infância estão, sem o saber, a espreitar também o seu próprio futuro passado, ou pertencem já a um Portugal novo e com outros destinos?

JM – Parece-me haver, efectivamente, nessa “gente feliz com lágrimas” as marcas, aquisições e a sabedoria que permitem classificar este livro como um romance de “geração”. As pessoas da minha idade viveram intensamente a vicissitude do fim do século. Herdaram, de alguma forma, um país que não lhes pertencia. A Ditadura vinha de trás. O absurdo da “potência colonial”, também. A ideia tradicional de família, pátria, educação e poder, tudo isso exigiu de nós uma enorme força de contestação. Nuno Botelho reivindica para si o tempo de Lisboa, e fá-lo com a Censura, a política, as prisões de Caxias e do Aljube, o poder do nepotismo, a impunidade. Sobretudo, assistiu-lhe o logro de ter de fazer uma guerra colonial de cuja moral cedo se desobrigou a consciência mais esclarecida dessa geração. Se afinal não nos competira a nós nenhum ideal de colonizadores, porque razão nos devia ser exigido defender as Colónias da pátria? Suponho, por isso, que o romance comporta também esse não de raiz moral à guerra e à Ditadura salazarista e marcelista. A nossa ideia do destino encontrou-se em parte em Maio de 68, os Beatles, os hippies, o romantismo de Guevara na Bolívia, o levantamento estudantil e popular na Checoslováquia – como ideal de recusa aos bombardeiros B-52 do Vietname, por um lado, e a política do napalm e do adeus, até ao meu regresso em Portugal e em África. De modo que Nuno não vê conciliação possível entre as memórias dessa casa da infância e a curiosidade doentia daquela gente que o espreita no Rozário, vendo nele uma espécie de antepassado ou linóleo dum país estranho e distante dos Açores.

– As relações e a memória de pais/filhos são aqui descritas com uma radicalidade raramente encontrada na Literatura Portuguesa. Por exemplo, a descrição minuciosa da sedução física da mãe do Nuno pelo pai, que aliás, num dos casos, sobressai como um dos momentos de maior ternura e humanidade do romance. De resto, a violência e maus sentimentos, as raivas e os ressentimentos são predominantes…

JM – Acredito que o sentimento dominante do romance passa muito por essa estratégia de ruptura radical. A separação processa-se sobre eixos, mecanismos duplos, confrontos éticos que opõem o amor ao ódio. A violência, a ternura, a indiferença à paixão ideológica. Mas subsiste um outro dado no romance, pelo qual se alimenta toda a denúncia das relações familiares. Os filhos de Luísa e Emanoel Botelho, uns mais do que outros, ressentem-se ou denotam essencialmente o problema dum édipo ainda não superado, ou mal resolvido, no amor dos pais. Sedu-los a aparência duma harmonia, dum secretismo íntimo. Contudo, a maldição desse casamento reside no facto de ele se esgotar na procriação. A Mãe estava sempre grávida e era uma mulher sempre dividida entre a paixão pelo homem e a sua condição de fêmea materna, cuja utilidade prescrevia no fim da amamentação dos bebés. Por isso o pai não vai além duma prepotência sexual, agravada pelo facto de ele só ver nos filhos crescidos um capital investido. E esse é o logro visível e material da paternidade. Uma das personagens diz mesmo que o centro do mundo esteve sempre na cama dos pais. Outra dirá que o quarto deles é o altar da casa. Nuno/Rui Zinho, no regresso, experimenta ainda, perante a profanação da casa, a estranha sensação de que o útero materno persiste ainda naquele templo. Todos se movem mais ou menos por dentro desses domínios, onde os sentimentos são primordiais e absolutos. Ninguém quer ou quis ser um pai ou uma mãe à imagem e semelhança dos pais dos Açores. No Canadá, Nuno vai surpreender nos irmãos o resultado desse estigma.

– A “Outra Versão de Marta” que, ao mesmo tempo, desmistifica e humaniza a existência de Nuno/Rui Zinho, o escritor, para além de tudo o mais, parece querer dizer isto: uma vivência de memórias raivosas, de ambições e obsessões, a mulher é ou tenta ser a âncora, a estabilidade de tudo e de todos, a mãe-mítica que nunca se perde ou deixa de viver… Também em Gente Feliz Com Lágrimas vê a Mulher, e não só em Marta, como bóia de salvação…

JM – Muito bem observado. Marta é, na vida e no pensamento de Nuno/Rui Zinho, a possibilidade dessa mulher primordial, luminosa, eterna. O platonismo foi aí uma atitude consciente do romancista. Porquê? Porque sim, e pronto. Como disse, esse é um dos fascínios mais duradouros da minha escrita. Vem-me de convicção própria, por saber que a mulher é a maior razão de existir. Porque ela, para além de nos dar a vida, pode salvar-nos e dar-nos a ilusão de projectar o tempo no infinito. E porque já Paul Éluard o dissera duma forma absolutamente admirável: “la femme est l’avenir de l’homme”. Sei, de resto, que a minha escrita tem merecido algum eco num público feminino. Não quer isto dizer que me assista uma especial virtude quanto a esse discurso no feminino. Custou-me imenso “encontrar” a voz e o íntimo de Maria Amélia e de Marta, por exemplo. Foi mesmo aí que a escrita de Gente Feliz Com Lágrimas correu repetidamente o risco de encalhar. Aliás, foi um romance penoso, mesmo exasperante, que por pouco não me levou a desistir da Literatura.

– A solidão sofrida por todas as personagens em Gente Feliz é arrepiante; o desamparo, palavra que aparece no próprio romance, é total e absoluto. Apesar de tudo, ou talvez mesmo por isso, vejo gente ali muito forte, como a Amélia, por exemplo…

JM – A Vida de Amélia é, de longe, a mais sofrida e a mais heróica. Venceu tudo: a temeridade de deixar a casa e a vida da família, o embarque para Lisboa, as trevas marítimas daquela viagem tenebrosa no cargueiro, o convento, a doença, a expulsão, os amores mal sucedidos, o casamento medíocre. Isso não obsta a que ela seja porventura a personagem mais realizada e mais feliz no Canadá. Ou porque triunfou dos estigmas tradicionais da condição do emigrante, ou porque o Canadá realiza plenamente nela a ideia material e civilizacional de pátria e de “país dos sonhos perfeitos”. Amélia é a perfeita consciência de que a felicidade tem de facto o preço das muitas lágrimas que chorou – e por isso traduz um bem que ela não quer perder. O que há de admirável nela e não só é essa superior integração canadiana, mas sobremaneira o modo como superou os traumas e os estigmas do ser português, ao nível da educação, do sofrimento e do desgaste. Além disso, Amélia é uma “retornada” de África – e até isso ela converteu num acto de cultura vivencial. Sobra-me a ideia de que Portugal talvez seja um país de morte, e que o Canadá represente a ressurreição do ideal português em diáspora.

– Creio que você tem um especial carinho pela personagem Luís Miguel: camponês de gema, sincero nos seus dizeres e afazeres, corajoso e leal, sempre cheio de humor, em suma as qualidades humanas que neste bravo mundo, tal como sobressai no próprio romance, parecem ausentes. Estarei errado se disser que Nuno reconhece que perdeu muitas dessas qualidades e inveja comovidamente o irmão daquelas páginas?

JM – Luís é, até certo ponto, o inverso de Amélia. O seu heroísmo parece irreal, quase perverso. Assume-se como um emigrante derrotado, sem sorte nem expediente – ao contrário também de Jorge e de Linda, por exemplo – mas também o humor, o culto pelo lado lúdico das coisas. Personagem controversa, aliás, sendo um homem duma força física quase descomunal, é incapaz de qualquer violência. A guerra da Guiné levou-lhe todas as energias de revolta. A morte do pai ecoa dentro dele como um apaziguamento, uma trégua forçada. A contradição reside nessa dicotomia ou fractura interior que leva Luís a submeter-se à tirania da mulher com quem casou. Isto é, ele cresceu apenas por fora. O seu íntimo é de o de um menino, e o instinto vagueia entre o humano e o animal. Evidentemente, a bebida é um escape óbvio para essa fraqueza que chega a roçar a cobardia. Teve a cabeça a prémio na Guiné, foi um criminoso de guerra, mas ao contrário de Nuno, que é um sisudo e um introspectivo, não consegue pôr-se mal com a vida. A mim, interessou-me fazer com que Gente Feliz incorresse também no estatuto do “romance psicológico”. Só tinha duas possibilidades: escrever um livro sobre a vida-vidinha, ou transfigurar em termos duma análise eufórica e significativa de ser e do não-ser. Mas tive que criar as minhas próprias defesas. Sabia que a psicologia, no romance, é terreno resvaladiço, arbitrário, e que não podia incorrer na chateza dos painéis comportamentais. Quis falar de pessoas com muito mundo dentro de si, não daquela gente-gentezinha que por vezes está no oposto da condição humana.

– As duas mortes principais em Gente Feliz Com Lágrimas resultam de um cancro. Mas creio também que percebi que a sua visão da vida “nova” que levam os irmãos de Nuno no Canadá é, para ele, outra espécie de corrosão interior, outra forma de morte. Como vê as consequências dessa emigração?

JM – Os “meus” emigrantes começam por ser sobreviventes dum Portugal infinitamente pequeno. Têm pela frente o problema da sua integração nas sociedades estranhas. Oscilam entre a “ilha eterna” que levam dentro de si e o estigma de se interrogarem por dentro quanto a essa identidade portuguesa que vem atormentando alguma da actual literatura portuguesa. A minha sondagem da emigração foi dupla: saber como suportavam eles o impacto do destino e como se confrontavam com o desafio de educar os filhos. E as crianças desses emigrantes começam a fazer uma opção entre os pais (ou o modelo social e pedagógico deles) e a sua própria diferença educacional. Não é um problema menor. É porventura mesmo o elemento da ruptura interior, que vai ter como protagonistas os filhos e os emigrantes da segunda geração. Ouço dizer que Jorge de Sena sentiu isso com alguma amargura, não sei. Vi desenhar-se esse cenário na vida dos meus irmãos emigrados. Os filhos resistem à Língua Portuguesa, à mentalidade dos pais e ao seu próprio modo de vida, isto é, acabam por confundir tudo na mesma ideia. Penso, por conseguinte, que a opção dos emigrantes terá de ser definitiva: serem canadianos no Canadá e americanos nos Estado Unidos. Aliás, o futuro e o destino deles já não estão nos Açores nem no Continente, e sim nesse reenraizamento progressivo e irreversível. De outra forma, não se acabarão tão cedo os seus dramas de integração. Mas compete ao poder político português não se deixar resignar a isso, como se tratasse duma fatalidade. Chocou-me imenso ver o abandono a que foram votados esses nossos compatriotas, a provar que nunca existiu entre nós uma política cultural de emigração.

– Quando falámos a última vez, antes da publicação de Gente Feliz Com Lágrimas, você falava de um “desafio permanente” para o escritor açoriano em Portugal, o ter de vencer ou sobrepor-se a atitudes continentais anti-ilhas. O sucesso crítico deste seu último romance, no entanto, convence-me que grande parte desse desafio foi já ganho, não?

JM – Persistem os complexos anti-ilhas, não tenha dúvida. É-me extremamente difícil convencer as pessoas deste lado do mar de que, falando nos Açores, estou no barco dum país que não pode ser parcializado nem reduzido a uma geografia insular. Tento provar que não sou um escritor regionalista. Falo numa só gente, dum país de séculos e dum tempo que é, simultaneamente, interior e exterior, dos outros e de todos nós. Não vou desistir. A aposta consiste em gostar infinitamente dos Açores. Em levar muita gente a gostar dessas ilhas que já não podem ser as “Desconhecidas” de Raul Brandão. Mais: não vou resignar-me a uns Açores “nemesianos”. É preciso que as pessoas saibam: a literatura dos Açores não nasceu nem morreu com Vitorino Nemésio. Ele é muito mais avô do que um pai dos escritores açorianos…

___

*Entrevistas publicadas originalmente no suplemento Cultura do Diário de Notícias (Lisboa) no fim dos anos 80, e depois incluídas no meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, na 1ª edição das Edições Salamandra (Lisboa, 1992), e depois na 2ª edição, da editora Letras Lavadas (Ponta Delgada, 2013).

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