A Literatura Açoriana, outra vez

Capa Conto Literário de Temática2

Agora, a clausura é mais psicológica do que física. Contudo, o imaginário literário açoriano continua a desenvolver temas em torno do bloqueio dos sonhos da necessidade de partir, do sentir-se só, das ausências que oprimem, da melancolia e do abandono.

Mónica Serpa Cabral, O Conto Literário de Temática Açoriana

Vamberto Freitas

Foi publicado já no fim do ano que passou, e é definitivamente um dos livros que vai marcar o ano literário, a sua influência será duradoura entre todos os que se interessam pela literatura e cultura açorianas no contexto da nossa modernidade. Como todas as colectâneas deste género, O Conto Literário De Temática Açoriana, seleccionado, organizado e contextualizado histórica e teoricamente num desenvolvido estudo por Mónica Serpa Cabral, pode e deve aspirar a um estatuto de “cânone”, mesmo que provisório e discutível pela presença de uns e ausência de outros, servindo de ponto de partida para outras propostas vindas de estudiosos da mesma área. Que é um contributo imenso para o esclarecimento e divulgação do melhor, ou de uma amostra parcial do melhor, que a partir do fim do século XIX se escreve entre nós, também creio ser questão pacífica. O único antecessor deste volume será a Antologia Panorâmica do Conto Açoriano – Séculos XIX E XX, de João de Melo, publicado em 1978 pela Editorial Vega. O pós-25 de Abril de 1974 trouxe este interesse e, diria, devoção imediata a uma confirmação e renovação do pensamento literário nos Açores, ou às ilhas referente a partir do exterior. Que a nossa geração, situada em vários quadrantes políticos e ideológicos desde então, se virou decididamente para dentro da sua casa natal num gesto de reconhecimento e valorização da sua literatura, era de esperar dado a necessidade de reposicionamento cultural adentro de uma nação e de uma língua agora em liberdade e numa etapa decisiva de globalização, que colocou as questões identitárias na base da nossa sobrevivência como comunidade real e imaginária. Quem somos, e de onde vimos? Por sermos quem somos, para onde vamos? Que a geração seguinte, a já nascida em liberdade e em condições sócio-económicas e culturais bem mais evoluídas, a que já vive um novo mundo radicalmente desconsertado pelas novas tecnologias e residentes na Aldeia Global continua a sentir essa necessidade, assim como, através de obras como esta, prestar homenagem ao acto literário entre nós, confirma que uma Tradição não se quebra, reinventa-se. Trata-se, mais do que uma surpresa, a confirmação de que a “revolução” em curso por toda a parte não desfaz o nosso mais íntimo ser, o sentido de pertença, a diferença no todo, o aconchego da geografia e da história, a literatura como o mais duradouro e fiel repositório da – repita-se a palavra – identidade de um povo. É certo que a literatura das e nas ilhas remonta ao século XVI com as Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, mas foi só com a as primeiras brechas ou visões de liberdade autonómica nos Açores que a nossa literatura teve a génese que nos trouxe até aos dias presentes. É de tudo isto que, directa ou indirectamente, Mónica Serpa Cabral nos fala numa alongada introdução teórica e histórica da obra presente – reafirma e contextualiza a temática geral da nossa ficção, amplia o cânone quando inclui pelo menos uma escritora açor-americana, Katherine Vaz, assim como inclui dois autores não-açorianos, pela temática açórica nalguma da sua escrita contista, António Mega Ferreira e Carlos Alberto Machado, este residente há uns bons anos na Ilha do Pico, e fundador da Companhia das Ilhas, a editora responsável por esta colectânea. Como Katherine Vaz, outros escritores luso-descendentes da América do Norte poderiam já estar presentes nestas páginas, mas a autora do grande romance Saudade fica como figura representativa de toda uma geração no outro lado Atlântico, e que alguns de nós reclamamos para a nossa literatura desde há muito, mesmo que a sua obra seja escrita na língua inglesa, os seus recursos à história e memória ancestral fazem do idioma um mero signo-outro de uma literatura comum. Até nisto, temos sido pioneiros na vida criativa do nosso país, e adentro de geografias dispersas que constituem o vasto mundo da lusofonia.

De facto, em Portugal, – escreve Mónica Serpa Cabral logo nas primeiras páginas, numa secção intitulada ‘Imaginário e Tema’, recorrendo ao trabalho teórico do antropólogo Gilbert Durand – um país pequeno situado à beira-mar, e, em particular nos Açores, ilhas localizadas a meio Atlântico, é inevitável o fascínio exercido pelo horizonte. Assim, os traços apontados por Durand ao povo português, em especial o impulso para a partida, o sonho com o impossível, são perfeitamente detectáveis, quer na História quer na literatura açoriana, particularmente no fenómeno da emigração, em que levas sucessivas de açorianos deixaram a terra-natal à conquista do sonho que a ilha não poderia concretizar… Desta forma, a partida afirma-se como uma fuga, uma forma de insolência e de libertação das garras do destino, mas principalmente como uma procura, estimulada pela esperança universal de melhoria de vida que pulsa em cada homem”.

O Conto Literário de Temática Açoriana abre com Nunes da Rosa e Rodrigo Guerra do grupo faialense que no fim do século XIX e durante as primeiras décadas do século passado desenvolveram e fundaram mesmo o conto também como género açoriano, vindo até à actualidade com escritores como Joel Neto, Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo e Nuno Costa Santos, duas gerações em convivência e escrevendo lado a lado, e fazendo sobressair pela primeira vez na nossa literatura toda a ruralidade e condição sócio-económica que então dominava nas ilhas, a opressão e miséria da maioria levando, sempre, a esse desejo de “fuga” de que nos fala o passo aqui citado, dando deste modo continuidade a todas as vozes que historicamente se pronunciaram sobre a nossa escrita. Estão incluídas mais três mulheres que cultivaram em maior ou menor grau o género, todas elas mais do que merecedoras de permanecerem como autoras referenciais – Natália Correia, Maria de Fátima Borges e Madalena Férin. Estranhamente, optou-se pela ausência de Leonor Sampaio da Silva e o seu Mau Tempo e Má Sorte: contos poucos exemplares, que venceu o Prémio Humanidades Daniel de Sá em 2014, e que é mencionado no já referido estudo, mas sem nenhum dos seus contos nas restantes páginas. Os contos desta autora não só dialogam com toda a tradição literária açoriana, como desconstroem, através da sátira e paródia, muito do imaginário e temática da nossa literatura. Bem sei que nestes projectos existem tanto limites de espaço como critérios de natureza vária que podem – e devem – ser definidos por quem escolhe e organiza, ficando aqui apenas uma observação, que me parece justa e pertinente. A verdade é que considero este livro como o início de uma definição muito bem fundamentada do que poderá vir a ser a afirmação parcial – no que diz respeito à nossa ficção – do cânone que mais cedo ou mais tarde será aceite entre nós, mantendo-se naturalmente aberto às gerações seguintes. Fica ainda claro que muitos dos nossos escritores açorianos aqui presentes – Vitorino Nemésio, Dias de Melo, Cristóvão de Aguiar, José Martins Garcia, Onésimo Teotónio Almeida, e Joel Neto, em primeiro plano – acabariam por desfrutar de uma projecção nacional pouco comum entre a maioria dos nossos autores, não necessariamente, estes, por falta de qualidade, mas sim por estarem ou terem estado longe da máquina editorial e publicitária do continente, o inevitável centro que faz e desfaz quem quer, ou pura e simplesmente ignora quem está longe da vista. Por outro lado, não deixo de relembrar que isto de centro e margens na vida cultural é comum em quase todos os países, sem que esse facto retire a legitimação das várias literaturas adentro de qualquer espaço cultural ou linguístico, a arte o principal ponto de referência identitário de um povo nas suas circunstâncias geográficas e históricas. A questão do “reconhecimento” a níveis mais amplos poderá ou não acontecer ao longo dos tempos, só que literatura açoriana já penetrou em várias e prestigiadas academias estrangeiras, desde os Estados Unidos e Brasil à Inglaterra, e até mesmo, ironia das ironias, no continente português. A verdade é que, cada vez mais, a classe culta poderá não conhecer a fundo a nossa literatura, mas sabe da sua existência, e quando a ela se refere fá-lo com respeito e admiração, pelo menos entre um pequeno rol de escritores e estudiosos. Ainda há pouco tempo uma das maiores editoras nacionais solicitou a um dos nossos escritores uma grande antologia da poesia açoriana.

Mónica Serpa Cabral é uma das mais distintas estudiosas na área da literatura açoriana. É licenciada pela Universidade dos Açores em Estudos Português e Inglês, tendo depois feito o seu mestrado e doutoramento na Universidade de Aveiro, especializando-se na obra narrativa de João de Melo e no conto açoriano. No seu regresso à Universidade dos Açores, fez um pós-doutoramento entre 2012 e 2015, que envolveu a organização deste O Conto Literário de Temática Açoriana. Estamos, sem dúvida alguma, perante um dos maiores contributos à apreciação e divulgação da ficção açoriana produzida durante mais de um século.

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O Conto Literário de Temática Açoriana, Organização, Estudo e Notas de Mónica Serpa Cabral, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 22 de Janeiro de 2016.

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11 thoughts on “A Literatura Açoriana, outra vez

  1. Ana Freitas Janeiro 22, 2016 / 6:01 pm

    Gosto sempre de o ler.

    • Ana Cabral Janeiro 24, 2016 / 11:51 pm

      Muito bom, Obrigada !

  2. Ana Cabral Janeiro 24, 2016 / 11:32 pm

    Muito bom. Muito obrigada!

  3. Ana Cabral Janeiro 24, 2016 / 11:56 pm

    Muito Bom. Obrigada !

  4. Joāo Gago da Câmara Janeiro 25, 2016 / 2:38 am

    Muito bom. Obrigado.

  5. Luís Henriques Janeiro 28, 2016 / 11:55 pm

    Gostei recordar este texto que tinha já lido anteriormente. Gostei particularmente do termo “açor-americano” (tinha-me passado despercebido na primeira leitura) que me soa completamente adequado a este contexto. É cunho seu? (azorian-american?) Pergunto isto porque é um termo que vem responder a uma lacuna num trabalho que ando a realizar. Não sobre literatura, mas com uma relação semelhante entre as ilhas e o continente americano.
    cumprimentos,

  6. Vamberto Freitas Janeiro 29, 2016 / 5:43 pm

    Caro Luís,
    Não, o termo “açor-americano” não é meu. Tem sido utilizado por alguns outros escritores na nossa Diáspora.

    • Luís Henriques Janeiro 29, 2016 / 6:32 pm

      Obrigado pelo esclarecimento. Seja de quem for, soa-me muito bem. Está correcta a tradução como “azorian-american”?

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