Vamberto Freitas — Jornalismo e Cidadania: Uma Ética de Pluralidade e de Diferença

T m Marques

Sou do mar ou sou da terra,

meu trisavô dos Açores?

Só sei que andaste na guerra

Mais o Rei libertador,

E que depois, no Mindelo, um que na praia saltou

Eras tu — e tão imberbe! —,

Ó avô do meu avô!

David Mourão-Ferreira

(“Xácara dos Campos de

Elvas” in Os Quatro Cantos do

Tempo)

***

Por Teresa Martins Marques*

Jornalismo e Cidadania: Dos Açores à Califórnia (Edições Salamandra, 2002, com dedicatória para Urbano Bettencourt) é o mais recente volume de Vamberto Freitas, ensaísta, crítico literário e jornalista cultural de créditos firmados em jornais regionais, nacionais e estrangeiros ao longo das últimas duas décadas. Amplamente reconhecido por prestigiados críticos e confrades, a ele se referiu João de Melo como “um homem atento à sua própria e alheia humanidade, um estudioso inconformado, um teórico subversivo”1. Sobre a sua envergadura de ensaísta se pronunciou também José Manuel Mendes reconhecendo-lhe qualidades de “pesquisa, informação, competência hermenêutica, policromia expositiva, arrojo, alguma intuição que se não trai, a conjugação de diversos saberes, uma sensibilidade e uma argúcia admiráveis”2.

Do seu incansável labor em prol da cultura dá vivo testemunho o conjunto das suas publicações reunidas em livro : Jornal da Emigração: A l(USA)lândia Revisitada (1990), Pátria ao Longe: Jornal da Emigração II (1992), O Imaginário dos Escritores Açorianos (1992), Para Cada Amanhã: Jornal da Emigração III (1993), América: Entre a Realidade e a Ficção: Jornal da Emigração IV (1994), Entre a Palavra e o Chão: Geografias do Afecto e da Memória (1995), Mar Cavado: da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas (1998), A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga (1999).

Deste último volume são coligidos os dois primeiros ensaios de Jornalismo e Cidadania, que é introduzido por um iluminante texto proemial de Mário Mesquita — “Divagações Insulares em Forma de Prefácio” — abrindo com uma epígrafe de Michael Waltzer, a qual nos diz que “a característica comum mais importante da humanidade é o particularismo”(p.7). Não deixa de ser curiosa esta constatação em plena era da globalização, pelo que introduz de polifónico, de diferencial, na consonância de vozes, nem sempre orquestradas com mestria nas ágoras políticas, onde as vidas anónimas dos cidadãos são regidas por batutas cada vez mais sem rosto. Tal particularismo aponta para a identidade cultural própria do arquipélago açoriano expressa em movimentos culturais de que as obras de ficção, de poesia ou de ensaio literário constituem algumas das faces protagonizadas por intelectuais de sedimentado prestígio nas letras, dentro e fora do arquipélago, como Vitorino Nemésio, Natália Correia, José Martins Garcia, entre muitos outros, mas também por alguns mais novos como João de Melo, Onésimo Teotónio Almeida, Adelaide Batista ou Vamberto Freitas. São estes alguns do nomes justamente apontados já em 1993 por José Medeiros Ferreira, salvaguardadas as diferenças que entre si apresentam, as quais não deixam de constituir formas de fecundo particularismo na mundividência insular de “raízes comovidas” não apenas a oeste, mas em outros pontos cardeais da rosa dos ventos, que configuram política e culturalmente o arquipélago, fazendo jus ao título da obra de onde Mário Mesquita extraiu a epígrafe supra citada — Pluralisme et Démocratie — que pode também servir de metáfora apaziguadora a vários títulos, e, nomeadamente, à questão do universalismo e do particularismo da literatura açoriana, dizendo Mário Mesquita que “não parece incompatível admirar, simultaneamente, Antero no seu olímpico portal da universalidade e Nemésio na sua proclamada insularidade”(p.12). (Esta aproximação dos dois autores feita por Mário Mesquita levou-me a seleccionar para epígrafe deste meu texto aqueles versos de David Mourão-Ferreira, trineto de açorianos, e que ainda jovem escolhe Antero para tema da sua primeira conferência e que dedica, como se sabe, pela vida fora a sua atenção crítica à obra de Nemésio).

Afigura-se-me interessante a sintonia entre o paratexto de Mário Mesquita e o pensamento cultural de Vamberto Freitas expresso em múltiplos lugares da obra e desde logo no jogo de espelhos das respectivas epígrafes: ao particularismo enunciado por Mário Mesquita corresponde no primeiro ensaio de Vamberto — “Discursos Culturais nos Açores” — a oportuníssima citação de Nemésio: “Um homem numa rocha e em volta o mar” que é, em si mesma, metonímia do espaço-físico da Ilha e sinédoque do espaço-gente do Arquipélago, isto é, uma extremamente bem conseguida particularização-generalizante, que reproduz em mîse-en-abîme a questão da identidade da literatura açoriana, particular e englobantemente nacional e universal, segundo se lê no incipit deste primeiro ensaio: “(…) busca de um entendimento aprofundado da realidade açoriana adentro do país português”(p.23). Nada é, pois, deixado ao acaso nestes textos cuja clareza, precisão, fluidez e elegância de linguagem constituem outras tantas estratégias de sedução do leitor para a linha temática que ocupa recorrentemente a escrita de Vamberto Freitas: “Tive sempre dois temas como área de abordagem, preocupação inevitável da minha dupla condição de açoriano agora residente no arquipélago, mas sempre ligado à experiência imigrante açoriana nos Estados Unidos: discursos culturais e a memória do tempo entre os que ficaram e a manutenção da cultura ancestral entre os que partiram”(p.18). Todavia, aqueles dois temas significam muito mais do que o autor modestamente deixa supor. Aqueles dois temas constituem boa parte do thesaurus literário e cultural, são afinal o fio condutor de que se tecem as obras-primas, ou as obras raras de qualquer literatura. Por esses dois temas fica Vamberto condenado a pesquisar os escaninhos da memória individual e colectiva, as problemáticas da evasão e do regresso, da comunhão e da solidão do homem. Por esses dois temas fica ainda Vamberto condenado à condição de ter de ser um pensador imerso e emerso da circunstância do seu tempo e simultaneamente da cadeia de significações literárias — memória cultural intergeracional. Aqueles dois temas trazem consigo a marca indelével do cidadão e do pensador construído a pulso, letra à letra nas páginas dos jornais e dos seus nove livros, ainda outra metáfora das nove ilhas ou das nove musas, que, simbolicamente, protegem todo o criador literário, independentemente do género em que a sua obra se configure.

Montaigne — o génio criador do género ensaio — sustentou que a deambulação característica do seu percurso vivencial teria sido afinal o húmus da sua criação. A deambulação do autor de Jornalismo e Cidadania: Dos Açores à Califórnia, peregrino da vida, carregando às costas ainda adolescentes a memória-evasão da sua Ilha Terceira natal para as paragens da Califórnia, será o húmus que fará germinar o jornalista cultural, de quem Mário Mesquita, então director do prestigiado jornal, apresenta o seguinte retrato retrospecto: “Onde o Diário de Notícias julgava ter encontrado um correspondente que lhe assegurasse o contacto informativo com os portugueses da Costa Leste, o que já seria excelente (e mais não lhe era pedido…), descobriu, afinal, um jornalista cultural, capaz de se aventurar na área da crítica de livros (de ficção e de não ficção), portugueses, açorianos, luso-americanos ou mesmo americanos”(p.15). É, pois, um retrato muito elogioso este que nos chega traçado pela mão de Mário Mesquita, e também pela outra mão de Onésimo T. Almeida que em boa hora o recomendou.

São ainda as deambulações do regresso ao solo “dos que ficaram” em São Miguel — a outra ilha, não rival da Terceira, mas salutarmente concorrente cultural, e ambas matematicamente condenadas a encontrarem-se, porque as linhas concorrentes quando prolongadas sempre se encontram num ponto. Será este ponto — lugar geométrico e geográfico de afectos, da alma cultural das ilhas, que, prolongado, ainda virá a ser traço de união a ligar Vamberto ao solo do continente, ao sol e ao mar, água da memória onde Vamberto recentemente aportou reinventando nestas saudáveis deambulações “o-espírito-dos-vários-lugares” que determina nova radicação, que o mesmo é dizer, nova forma de ver de perto, de conhecer outras gentes, de criar novos laços, de vivenciar o outro lado da Pátria, de se enriquecer culturalmente.

À escrita de Vamberto Freitas patenteada neste volume bipartido — (Primeira Parte: Nos Açores; Segunda Parte: na Diáspora) — correspondem as duas tipologias ensaísticas enunciadas por Sílvio Lima no Ensaio Sobre a Essência do Ensaio : a impessoalista à maneira de Bacon e a pessoalista à maneira de Montaigne. Constituem particular exemplo da primeira os “Discursos Culturais nos Açores” e “Jornalismo e Cidadania nos Açores”. Integram-se na segunda muito especialmente os textos “Carta a João Brum” (excelente actualização da tradição latina da epístola, nomeadamente de Cícero e de Séneca), bem como a comovente “Breve Conversa com o Correio dos Açores”. Mas, o que se me afigura particularmente relevante no conjunto ensaístico que este livro apresenta é a notável coerência do pensamento do seu autor, independentemente do tom discursivo adoptado. É todo um programa de vida que se lê em filigrana nestes textos, programa esse que poderá ser definido como uma defesa intransigente de uma ética da pluralidade e da diferença, que se traduz na consciência muito nítida da interdependência cultural, com uma cada vez maior diluição de fronteiras nacionais, mas também numa imperiosa necessidade de afirmação e preservação da identidade específica dos valores próprios da comunidade ancestral, reconhecendo muito lucidamente o autor que “na cultura haverá sempre uma convivência entre a tradição e a audácia intelectual, no sentido de se abalar, ao mesmo tempo que se dá continuidade às assunções ou cosmovisões mais vincadas do grupo”(p.46). Esta defesa da Tradição não é de forma alguma estática e acrítica, mas antes geradora de radicação dos elementos das novas gerações: “uma Tradição perpetuada, renovada de quando em quando, conforme a vontade de cada geração ou artista individual, desafiada e até subvertida”(p.42). Uma Tradição que se constitui como um dos baluartes da acção cultural em que Vamberto Freitas de há muito se empenha, pois que inteligentemente reconhece que “uma cultura sem memória, sem fundamento histórico é uma contradição insustentável”(p.42).

O jornalismo, e dentro deste o extraordinário papel dos Suplementos Culturais, é justamente posto em relevo por Vamberto Freitas (e ao fazê-lo o autor sabe do que fala já que dirigiu com brilhantismo durante cinco anos — 1995-2000 — o Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores) : “Os nossos suplementos culturais foram as nossas mais autênticas universidades”(p.53). Esta afirmação de Vamberto Freitas recorda-me, aliás, uma outra similar de Fidelino de Figueiredo, inserta em O Medo da História (1957): “O jornalista é o professor da actualidade, ensina a vê-la, a julgá-la, a extrair dela um comportamento”. Na defesa do jornalismo como factor de democratização política e cultural Vamberto situa-se na linha dos grandes vultos do pensamento cívico do século XX, na senda de um António Sérgio, de um Raúl Proença, de um Jaime Cortesão, de um Raúl Brandão, todos eles mestres espirituais de José Rodrigues Miguéis. Nunca será de mais recordar aos intelectuais fechados nas torres de marfim das revistas especializadas que o défice cultural galopante que caracteriza este país (e utilizo palavras recentes de Vasco Graça Moura) necessita de ser urgentemente travado e para isso é imperioso o empenho de todos os que pensam e que escrevem em todos os lugares onde a sua voz possa ser ouvida. Outro tanto nos dizem as clarividentes palavras de Vamberto Freitas onde ecoa uma nota de Jorge de Sena: “Os agentes culturais antidemocráticos, em qualquer parte, dependem da ignorância dos cidadãos, do reino da estupidez e do obscurantismo generalizado”(p.72).

Na luta contra o obscurantismo ainda no séc. XIX (e outros exemplos poderiam ser colhidos anteriormente) prestigiados escritores como Garret, Castilho, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz, Antero, Ramalho, Oliveira Martins, Rebelo da Silva, Latino Coelho, Guilherme de Azevedo não desdenharam fazer ouvir as suas vozes em registo cívico nas tribunas de opinião dos jornais, como formadores e reformadores de mentalidades. Desse papel transformador dá boa conta Luiz António de Assis Brasil referindo-se ao autor deste livro: “Há pessoas que vivem, bem ou mal o seu tempo; outras há, entretanto que o transformam. A esta última categoria pertence Vamberto Freitas (…). Não se eximindo de dar a sua visão pessoal dos fenómenos, Vamberto marca a presença de um intelectual disposto a viver o seu tempo (…) mas disposto a transformá-lo .”3

A escrita ensaística e cívica de Vamberto Freitas, de que o presente volume constitui um dos mais interessantes exemplos, mostra, com efeito, o seu autor conforme o descreveu George Monteiro tendo como pano de fundo O Imaginário dos Escritores Açorianos: “Directo, numa jogada que consegue a um tempo ser agressiva e apaziguadora, Vamberto Freitas põe as cartas na mesa (…) cheio de paixão e de convicção das autênticas reivindicações da literatura açoriana nas manifestações concretas dos seus textos”4. Tal como apontou também Diniz Borges relativamente aos ensaios de Mar Cavado, é ainda o compromisso do crítico/escritor perante a sociedade e a literatura que este livro revela5. Será, pois, um homem plural — soma do pedagogo, do crítico e do jornalista cultural — que se revela sobremaneira nas páginas de Jornalismo e Cidadania o qual, conforme Carlos Cordeiro apontou, “se empenha nessa incessante procura do autoconhecimento açoriano (…) e da cidadania nas sociedades democráticas”,6 sendo ainda (em palavras de Carlos Cordeiro que inteiramente subscrevo) “um importante interventor no debate cultural açoriano, avesso, como humanista, a todo o tipo de centralismo destruidor da personalidade e da dignidade das comunidades e, por consequência, acérrimo defensor da originalidade da cultura açoriana, ou seja, da identidade cultural do povo açoriano”7. Sobressai ainda mais, se é possível, neste livro o espírito de missão que tanto enobrece Vamberto Freitas e faz dele um cidadão exemplar: “escrever ou fazer jornalismo é, creio, obedecer a um forte chamamento interior, a uma profunda necessidade de comungar com os outros toda a tradição intelectual que é a nossa, e de que uma sociedade aberta (…) não prescinde” (p.71).

Não será, pois, de estranhar que Vamberto Freitas deposite tanta esperança no papel das segundas gerações quer ao nível da investigação ensaística (de que constitui exemplo o trabalho de Miguel Moniz justamente posto em relevo neste livro), quer ao nível da criação literária protagonizada, entre outros, por poetas e ficcionistas como Frank X. Gaspar, Katherine Vaz, ou Erika de Vasconcelos. Estes autores motivam-lhe aliás um curiosíssimo credo cultural: “Creio firmemente que a leitura destes escritores terá influência no modo como nos percebemos a nós próprios, principalmente entre as novas gerações que nas universidades já vão lendo e criticamente analisando o ser-se açoriano ou descendente de açorianos na América do Norte”(p.81). Quer a literatura, quer o jornalismo funcionarão como a necessária voz das comunidades, posto que “uma comunidade sem voz é uma comunidade oprimida, feita objecto e instrumento dos outros, perdendo assim a sua capacidade (e vontade, quando o oprimido se curva perante o ‘destino’) de ser sujeito e protagonista do seu próprio drama e destino”(p.89). A luta contra a desmemória (interessante neologismo vambertiano) constitui uma das frentes de batalha, pois o que importa é não perecer no vácuo do próprio vazio das comunidades, numa errância colectiva sem destino ou sonho (p.91).

Observe-se ainda neste livro a harmoniosa conjugação entre pensamento e imagem visível na belíssima capa de Álamo de Oliveira onde vemos um barco de papel de jornal navegando sobre ondas alterosas. (Curiosamente o barquito aguenta-se direito o que é, em si mesmo, esperançoso prenúncio sobre o futuro deste papel de/do jornal…). Como oportunamente escreveu Eugène Delacroix no seu Diário, o melhor triunfo do escritor é fazer pensar os que podem pensar. Na ligação entre o pensamento e a acção, na defesa de uma ética de pluralidade e de diferença, uma das lições cívicas que veementemente destaco neste notável livro de Vamberto Freitas será a profunda necessidade de vivenciar e de transmitir aos outros a Obrigação da Esperança.

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*Investigadora literária.

(Dirige a organização do Espólio de David Mourão-Ferreira).

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1 Cf. Contracapa de Mar Cavado – Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas, Lisboa, Edições Salamandra,1998.

2 Idem, ibidem.

3 Cf. “Vamberto Freitas e o Sistema Literário Açoriano” in Vértice, nº88, (Lisboa), Janeiro-Fevereiro de 1999.

4 Cf. “Imaginário Açoriano” in Jornal de Letras, nº 550 (Lisboa), 19 de Janeiro de 1993.

5 Cf. ”Navegando na Literatura dos Açores” in Diário Insular (Angra do Heroísmo), 14 de Junho de 1998.

6 Cf. “A Ilha em Frente” in Jornal de Letras, nº753 (Lisboa), 11 de Agosto de 1997.

7 Idem, ibidem.

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