As letras da nossa Diáspora

Capa Portuguese Writers

Que há um lugar nas tradições literárias do Novo Mundo para as letras dos imigrantes de língua portuguesa e dos seus descendentes luso-americanos e canadianos torna-se a mensagem mais importante que antologias como esta enviam para o mundo.

George Monteiro, Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada

Vamberto Freitas

É certo que me é já difícil escrever sobre estas questões da nossa literatura diaspórica sem repetições de vários géneros. Que seja assim. A repetição de palavras e frases faz parte da própria poesia, ou da insistência poética numa imagem, metáfora, ideia ou sentimento decisivos. Afinal, esta repetição textual de que falo poderá ser notada só entre um pequeno grupo de leitores aqui e um pouco por toda a parte onde se lê e se aprecia a escrita de uma nação lusa peregrina. Mais do que isso, também sabem esses mesmos leitores, para além do prazer estético de um texto literário, será aí que se encontra o registo permanente de como um povo que viveu e vive consciente da sua própria história, e a nossa sempre se confundiu com a de outros nas mais dispersas geografias e tradições. Escrevo precisamente no Dia Internacional do Obrigado 2016. Primeiro ri-me com esta ideia, depois aceitei-a de bom espírito. Obrigado, pois, ao professor e escritor Luís Gonçalves, da Princenton University, e ao poeta Carlo Matos, da City Colleges of Chicago, por mais esta antologia da literatura luso-americana e canadiana, Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada. Portugal poderá esquecer, com alguma frequência – menos quando precisa de remessas emigrantes, ainda necessárias ao equilíbrio das nossas finanças – que fora do continente europeu e das ilhas atlânticas a Nação está presente e cada vez mais actuante nos quatro cantos do mundo, e que grandes cantos são eles no outro lado do Atlântico, quando incluem os Estados Unidos, o Canada e o Brasil. Levamos séculos de preconceitos irónicos quando pensamos na nossa própria peregrinação – falamos de um povo aventureiro que deu mundos ao mundo, depois tratamo-lo como um movimento de desgraçados incapazes sobreviver na terra-pátria, os de língua despedaçada tornados outros aquém e além mar perante uma elite provinciana, quase sempre muito mal informada sobre tudo o que acontece no outro lado da sua casa e rua. Notícia infinitamente repetida: os portugueses no mundo primeiro morreram a trabalhar no duro, para agora nos darem uma das mais dinâmicas diásporas de luso-descendentes, provando que a sua grandeza em nada é menor à de outros povos. Desde meados do século passado, quando estas gerações seguintes começaram a penetrar nas instituições do ensino superior, o outro lado da moeda ficou bem à vista de todos – indivíduos em todas as áreas da actividade humana evidenciaram a sua capacidade de integração, na indústria, na política, nas artes, com as suas obras literárias no centro dessas manifestações. Todos eles herdaram de nós uma grande tradição literária, mas foi a custo próprio. Das cozinhas dos seus avós, quer na urbanidade da costa leste americana ou nos campos da Califórnia, receberam o amor e a miticidade das origens ancestrais. Portugal, todo ele no continente e nas ilhas, viraria um lugar distante, desconhecido, mas desejado. Creio que os escritores e poetas na presente antologia (alguns são da primeira geração de imigrantes) conhecem o nosso país de perto, outros já participaram em grandes eventos culturais e literários entre nós. Se nada disto pode ser contabilizado nos valores e bolsas que hoje dominam as nossas sociedades, a verdade é que a sua escrita constituirá a essa imensurável riqueza – a identidade de todo um povo, a essencial auto- estima dos que perpetuarão não só o nosso nome como afirmarão sem equívocos a dignidade das suas pátrias de nascença e da ancestralidade.

George Monteiro, que ainda há bem pouco tempo antologiou, com Alice R. Clemente, a poesia luso-americana, definindo assim parte substancial do cânone em desenvolvimento da mesma literatura, afirma no prefácio a este volume que se trata de uma colectânea que vem em seguimento de outras – quanto a prosa e poesia nas duas línguas – e cujas contribuições foram solicitadas aos escritores e poetas nestas páginas. Monteiro juntamente com a falecida Professora Nancy T. Baden e Onésimo Teotónio Almeida foram os pioneiros neste acto de levar as literaturas imigrante e luso-descendente na América do Norte à legitimação institucional através dos seus próprios estudos e publicações sob chancelas universitárias, principalmente a já histórica Gávea-Brown/A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies. Os dois organizadores de Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada pertencem a essa nova geração de estudiosos e autores, desfrutando dessa vantagem fundamental à continuidade desta escrita, conhecem melhor do que ninguém os seus próprios colegas espalhados pelos dois países naquele continente, muitos dos quais ainda desconhecidos do público leitor, e até de quem, como eu, dedica boa parte da sua vida ao seu estudo. Entre nomes com o seu lugar assegurado em qualquer lista de leitura, tanto em português como em inglês: Katherine Vaz, George Monteiro, Anthony Barcellos, Lara Gularte, Millicent Borges Accardi, Nancy Vieira Couto, Rose Silva King, Sam Pereira, Darrell Kastin, Diniz Borges e Frank X. Gaspar; encontramos outros que começam agora a divulgar por vários meios os seus escritos entre nós, em géneros que incluem a poesia, ficção, biografia e autobiografia, desta vez dos dois lados da fronteira: Amy Sayre Baptista, Alyse Knorr, Richard Simas, Diana Ramos Firestone, Brian Sousa, Ian E. Watts, Jennifer Jean, Joe Amaral, Linette Escobar, Marina Carreira, Sarah Chaves, Emanuel Melo, Paula Neves, Jozhe e Catarina Costa Laranjeira; deixo aqui outros nomes que, também nas duas línguas, já são conhecidos nos dois lados do Atlântico, em maior ou menor grau, como António Ladeira, Eduardo Bettencourt Pinto, Esmeralda Cabral, João S. Martins, Augusto Mark Vaz, Paulo da Costa, Miguel Moniz e Manuel Carvalho. Não se faça uma ideia aqui de qualquer hierarquização de nomes ou obras, trata-se tão-só da minha própria reacção e leituras destes últimos anos. Suponho que alguns destes autores ainda não foram publicados em forma de livro, os seus trabalhos estando, como já disse, dispersos pelas mais variadas publicações. Foi-me gratificante encontrar alguns deles pela primeira vez, e de quem espero, esperamos, muito mais no futuro – esqueçam qualquer noção judicativa por enquanto, o que li, li com agrado e surpresa.

Acontece que a publicação deste volume coincidiu com a saída nos Açores de O Conto Literário de Temática Açoriana, seleccionado e acompanhado de um longo estudo por Mónica Serpa Cabral. É uma outra colectânea da nossa ficção desse género desde o século XIX até aos nossos dias, e que vem do mesmo modo confirmar alguns autores canónicos e apresentar ainda outros. Desde há anos a esta parte que reclamo um lugar no nosso corpus literário para os escritores e poetas da Diáspora, indiferentemente da língua em que escrevam, desde que o seu referencial temático e certas linguagens pertençam à nossa Tradição, recriando imagens e metáforas representativas do nosso passado ancestral e histórico. Acontece isso pela primeira vez no trabalho de Mónica Serpa, com a inclusão de um conto de Katherine Vaz (“A Minha Busca De El-Rei D. Sebastião/My Hunt For King Sebastião”, do seu livro Fado & Other Stories). Nem todos os leitores em ambos os lados do mar concordarão com esta nova proposta, mas também ninguém poderá negar que na era da globalização as comunidades redefinem a sua identidade, ou identidades, as geografias dos seus afectos misturam-se irremediavelmente, as línguas em que se expressam parte de um mesmo património cultural e literário. As literaturas imigrantes, em toda a parte, assemelham-se muito, ou poderão mesmo ser consideradas no que também passou a designar-se por literaturas “pós-coloniais”. Se a História de uns e outros não coincide em traços específicos, encontra-se em temáticas coincidentes – a voz do outro a surgir ou a renascer das margens societais, a resposta ao poder e às linguagens das classes dominantes nesses mesmos espaços nacionais, a resposta à própria literatura canónica outrora definida e imposta por um sistema literário institucionalizado e legitimado sem nunca levar em conta essas vozes esquecidas e marginalizadas, como há anos foi reafirmado em The Empire Writes Back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin. À antiga palavra difamatória de portugee, nalgumas páginas de autores famosos e obras referenciais nessas culturas, contrapõe-se agora e decididamente a palavra portuguese. Se algum escritor luso-descendente se apropriar de tal terminologia será em tom de ironia, retirando toda a sua carga racista ou chauvinista. É também isto que a literatura luso-descendente emergente fará – criar um novo arquivo criativo da nossa gente em toda a parte, proporcionar um sofisticado espelho artístico de quem fomos e somos nas terras que eram só dos outros. A osmose natural entre estas literaturas permite, para além de todo o prazer e sinal civilizacional que é a arte em qualquer parte, um mais completo entendimento da nossa História, vem cimentar a identidade de um povo, que é sempre mais complexa e diversificada do que antigos estudos e discursos tentavam fazer passar.

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Writers Of The Portuguese Diaspora In The United States And Canada, Seleccionado e Organizado por Luís Gonçalves & Carlo Matos, Charleston, SC, Boavista Press, 2015. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 29 de Janeiro 2016.

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