As metáforas da nossa condição, ou a história dos vencidos

capa Os Navios da Noite

Apesar de se acharem a salvo, continuam a sentir-se na condição de náufragos do Kaiser, não das águas que nele tinham atravessado.

João de Melo, Os Navios da Noite

Vamberto Freitas

Suponho que tanto o título deste texto como a própria epígrafe parecem enigmáticas, mas o seu sentido tornar-se-á claro quando lá chegarmos em poucas linhas. Estes últimos dois anos foram como que a celebração de mais um “regresso” para João de Melo, após uma ausência de quase uma década em Espanha, onde esteve como Conselheiro Cultural na nossa embaixada: comemorou os vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas com a 25ª edição do romance, e pouco depois segui-se 8ª de O Mundo Não É Deste Reino. Entretanto, publicaria ainda um novo romance, Lugar Caído No Crepúsculo. Há poucos dias, foi-lhe atribuído o Prémio Literário Vergílio Ferreira pela totalidade da sua obra. Estou em crer que a palavra náufrago é a que contém as principais metáforas não só de um romance ou conto do autor, mas de toda a sua obra. Não acredito, no entanto, que um autor escreva sempre o mesmo o livro. Chama a si, isso sim, o desafio de ver, rever e representar a condição humana a partir de perspectivas que lhe parecerão mais claras e abrangentes (universalizadas, se assim o preferirem), e será necessariamente da sua língua e das suas geografias de afectos ou sentido de pertença — questão, esta, também sempre em aberto na sua escrita – de onde parte para esse desafio, ou para exteriorizar nas palavras as suas obsessões. Um artista autêntico só obcecado nos oferecerá algo de significante, memorável, duradouro. Não podemos falar num género único ou numa forma artística que constitua a “grande” literatura do século passado, ou já nos nossos próprios dias. O certo é que a palavra cristalina, a frase depurada, a mistura entre um realismo puro e a poetização das imagens, meras descrições ou tonalidades das linguagens, parecem marcar a maior parte das obras a que regressamos ou que escolhemos para novas leituras. Não faltam entre nós os debulhadores de prosa triturada e ilegível, partindo frequentemente dos mais obscuros referentes culturais e linguísticos. Admiro imensamente quem se deleite com algum suposto experimentalismo literário, esse de imagens e referenciais tão pessoalizados que só o próprio autor entenderá. Prefiro a busca de sentidos que a frase clara poderá emitir nos mais inesperados contextos. Tem sido isso que toda a obra de João de Melo nos transmite – a história de um povo, revista e contada pelos que a sofreram sem a provocar, a humanidade a saque ante as forças a que raramente pertence ou a compreende. Disse-me um dia um crítico, noutro contexto, que boa parte da literatura latino-americana trabalha insistentemente um só tema – a circularidade violenta e sem fuga da vida infernal na sua própria modernidade pós-colonial. João de Melo é português e europeu, mas dá continuidade a essa ideia de que também as nossas vidas privadas estão intimamente subjugadas pela História, quer a do seu próprio país, quer a que agora se desenrola no contexto mais vasto da globalização, na qual o nosso estatuto no mundo não difere muito do de outros povos, perpetuamente em negociações para a mera sobrevivência. São esses Os Navios da Noite de que nos fala neste seu novo livro de contos, cada um deles constituindo uma visão da sorte colectiva de um povo, e ainda mais de como cada uma das suas personagens age e reage na emergência sem fim em que se tornou o quotidiano, agora guiado por máquinas e não pelas estrelas.

Os Navios da Noite contém, no seu centro, a narrativa que ultrapassa a ideia de conto, tanto na diversidade de personagens como na visão plural dos destinos dos que vão em alegres férias a bordo do cruzeiro alemão Kaiser, rumo às Caraíbas. É uma novela que nos coloca no nosso presente europeu de medo e enganos. O navio parte do norte da Europa com várias nacionalidades a bordo, e em Lisboa recebe alguns eufóricos casais portugueses, finalmente a gozar as poupanças da nova pequena burguesia, albergando todas as idades. A primeira paragem é a Madeira, o paraíso sempre descoberto pelos continentais de todas as cores e línguas, a outra “Europa” ainda desconhecida para além dos burocratas e banqueiros ao longe que olham para os mapas, emprestam dinheiro e decidem do grau de felicidade atribuído a cada um dos “seus” recantos. Dos seus habitantes ninguém diz nada – continuam invisíveis. A teatral geografia, essa sim, é admirável e surpreendente. Há mais comida, bebida e sol a bordo da moderníssima fortaleza marítima alemã, cada grupo atendido por um tripulante que fala o seu idioma e percebe das suas manhas. A meio Atlântico, um incêndio na casa das máquinas paralisa o navio nas ondas, ora serenas ora bravas, e acaba a flutuar, parado durante dias, com toda a sua tecnologia inutilizada. Pouco depois, dá-se a mais contundente miséria a bordo, ao longo de dias, com a ameaça da morte a rondar por perto. O Kaiser é finalmente salvo por dois rebocadores insulares que o trazem de volta ao Funchal. Creio ter lido um dia que na nossa era nunca haveria Titanic, pois as comunicações e novas tecnologias não o permitiriam. Too big too fail/Grandes de mais para falharem, dizem em relação a outros e mais importantes pilares das nossas sociedades. Pois. Numa cena inesquecível, o narrador descreve o navio quebrado no oceano, e a bandeira alemã ao vento sinalizando perigo. Cada grupo trata de si, uns recuando ao seu hábito da solidão sem voz, outros em bandos surpresos por tal sorte, a grandeza de salas desfeitas, paredes rachadas e fedorentas de despejos que as inundam, alimentos podres e intragáveis, salsichas alemãs enlatadas como a última refeição a bordo. Seria redundante da minha parte atrever-me a uma qualquer sugestão hermenêutica, dizendo só que uma prosa que a princípio nos parece objectiva ou descritiva depressa se transforma numa sucessão de imagens brutalmente realistas e ironicamente poéticas, deixando ao leitor a responsabilidade de uma interpretação metafórica do que representa, ou do impulso temático que julga topar nesta novela.

Há contos que aqui me tocaram de modo especial, pelas suas linguagens tanto precisas como emotivas, a comédia colectiva dos nossos dias escondendo sempre a tragédia de cada um apanhado no seu labirinto, no seu desalinhado e decadente casario citadino, ou num destino que nada teria a ver com os sonhos e os pequenos desejos de outras personagens rurais quando a vida lhes sorria. Em “O Regresso de José Maria” o narrador, de nome João da Ega, continua a servir de alter ego e agora de cicerone a Eça de Queirós, que regressa e vê a evolução arquitectónica de Lisboa, não a reconhecendo, olhando só a sua pós-modernidade, comentando sempre as novidades anárquicas das ruas e avenidas, restando-lhe a língua portuguesa, que “continuava a ser a sua morada”, como outrora o fora nas suas andanças literárias e diplomáticas. No outro lado do riso, estão os contos como “A Ideia do Meu Pai”, em que o protagonista o revisita nas suas últimas horas de vida, amparando-o na insistência da dignidade perante toda a decadência, a sua e a dos campos que o rodeavam nos anos da juventude, nos dias dos humildes sonhos para si e para os seus, retrato implacável de velho patriarca camponês num país sem presente nem futuro, de terra abandonada, imagem superior e de todo significante de um país esquecido e escarnecido, em que um homem morre nele e com ele, como morrera outra voz maior da nossa poesia. Muitas destas páginas fazem-nos lembrar a prosa inconfundível do autor açoriano no seu melhor quando é do amor e do ódio que nos fala, da ancestralidade atribulada de pais e mães numa existência que continua, parece, sem redenção possível. Da sua cadeira de moribundo, vê-se não o mar libertador e de aventuras sem fim na nossa história, mas a terra devastada e sem aprumo de um país à deriva, chorado, como no enterro deste outro português, só pelas carpideiras de serviço, e quase morto no coração de outros. Em “Sic Transit Gloria Mundi” dá-se o reencontro de uma mulher que havia estado fora do país nos últimos quinze anos. O narrador vai-lhe falando do inevitável esquecimento de tudo e de todos os que ficaram. A paisagem não será nunca a mesma, as nossas próprias mudanças interiores não nos permitindo voltar às origens que um dia deixámos. “O meu país” – relembra-lhe – “nunca fez muito por aqueles que a ele regressam, e menos ainda fará pelos que partiram e não mais voltaram nem voltarão. Foi acontecendo assim, época após época e de século para século até entrar no inconsciente histórico deste nosso lugar comum de partidas, sem volta possível nem regresso definitivo a casa”. Não se pode, sabemos, voltar a casa, como diria também Thomas Wolfe num dos seus romances.

Os Navios da Noite. Os nossos e os dos outros, a vida contemporânea no seu assustador desconcerto. Ao negrume de todas as narrativas destas páginas, a última, “Pão com Laranjas”, como que equilibra e insiste na celebração contida mas possível da nossa existência, a aceitação do mundo tal como ele é ou está, a rejeição de qualquer pacto faustiano em troco seja do que for, perdendo a alma em troca de felicidades momentâneas. Há dois dias e duas noites – escrevi noutra parte e dediquei a quem, muito perto de mim, me lembra como ninguém da obrigação do sorriso, na luz e na escuridão – vi que ele está quase em frente à tua janela, no mistério do seu abandono. De dia parece o navio fantasma, de nenhures. Na noite vira cidade bela e iluminada, como se fora vista do ar. Brilho e silêncio, vida. A vida toda.

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João de Melo, Os Navios da Noite, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 26 de Fevereiro de 2016.

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De Carlos Cordeiro e da sua geração*

Carlos Cordeiro

O presente trabalho insere-se no âmbito da História Regional. Nasce de preocupações vivenciais, da natural tendência de busca da própria identidade pessoal e da necessidade de encontrar no passado explicações para determinados aspectos marcantes da conjuntura açoriana dos nossos dias.

Carlos Cordeiro, Insularidade e Continentalidade

Vamberto Freitas

Bem sei que a epigrafe que abre este meu texto é um pouco longa, mas foi-me inevitável pelo que claramente sintetiza da pessoa e do professor universitário que foi Carlos Cordeiro até à sua aposentação recente. Foi extraída do seu livro Insularidade e Continentalidade: Os Açores e as Contradições da Regeneração (1851-1870), escrito ainda alguns anos antes da defesa e subsequente publicação da sua tese de doutoramento em 1999, Nacionalismo, Regionalismo e Autoritarismo nos Açores Durante a I República, contendo já, no conjunto da sua obra, que inclui ainda inúmeros artigos e ensaios publicados nas mais diversas revistas universitárias da especialidade (espero que ele os reúna em livro para que os possamos consultar com maior facilidade) todos os temas e períodos históricos que o ocupariam durante toda a sua carreira na Universidade dos Açores. Para além disso, torna-se evidente, especialmente na coletânea de textos por ele organizada e publicada em 1995 sob o título Na Senda da Identidade Açoriana (Antologia de Textos do Correio dos Açores), livro que comemora o 75º aniversário do diário micaelense e o seu papel na reflexão e dinamização da açorianidade política e cultural desde a sua fundação em 1920, que Cordeiro é um dos primeiros e mais atentos historiadores da nossa vida intelectual do passado e do presente, a literatura e textos culturais em geral constituindo outras fontes privilegiadas da sua atenção e escrita, do seu prazer como leitor e estudioso das nossas questões identitárias, o que o levaria, muito antes de outros colegas seus, a conviver e a participar, como organizador e interveniente directo em congressos e colóquios, entre os quais devo destacar os Encontros de Escritores Açorianos, que ele fundaria juntamente com Daniel de Sá, Urbano Bettencourt e Afonso Quental em 1989-1990, que depois teriam continuidade na Praia da Vitória em 1994, e nas Velas, em São Jorge, em 1998.

Conheci Carlos Cordeiro no primeiro Encontro de Escritores Açorianos, na Maia, quando ele já era docente da Universidade dos Açores há uns bons anos, e nem me passava pela cabeça regressar definitivamente a esta terra. Recordo esses momentos entre o grande grupo de açorianos e seus convidados nacionais e estrangeiros, vindos também de outras ilhas e continentes, que juntavam escritores, professores, jornalistas e outros literatos, com a emoção restrospectiva de quem agora sabe que foi a curva decisiva na sua própria caminhada em busca da realização e felicidade pessoais. Por essa altura, eu já tinha dedicado quase uma década a escrever no suplemento de cultura do Diário de Notícias, a pedido do seu então director Mário Mesquita, os ensaios e as entrevistas que viriam um pouco mais tarde a constituir o livro O Imaginário dos Escritores Açorianos. O Carlos Cordeiro sabia disto, conhecia os nomes e o esforço literário que alguns de nós a residir fora do arquipélago fazíamos para estabelecer as nossas questões literárias como tema legitimado de estudos, especialmente após Onésimo Teotónio Almeida ter fundado na Universidade de Brown em 1978 a primeira cadeira de Literatura Açoriana, e depois de ter organizado um encontro naquela instituição que reuniu também escritores, críticos e outros estudiosos um pouco de toda a parte. Nunca a política ou as nossas posições ideológicas teriam qualquer influência na nossa amizade e colegialidade. Carlos Cordeiro era já então um firme defensor deste campo de estudos e da literatura açoriana, cuja “existência” estava em discussão apesar de todo o espólio científico e criativo de um povo espalhado pelo mundo, e com descendentes que hoje pertencem a diversas tradições culturais e linguísticas, mas assim mesmo, desde os Estados Unidos e Canadá até ao sul do Brasil, perpetuam a nossa memória nas suas obras literárias e académicas, inclusive na língua inglesa. Foi essa visão inclusivista cultivada desde os últimos anos na década de 80, em São Miguel, continuada logo de seguida noutras ilhas, no continente português e na Diáspora, que nos levaria a disseminar e a debater entre nós essas obras e autores, a alargar consideravelmente os nossos arquivos criativos, a açorianidade abrangendo agora tanto as nossas comunidades no seu território histórico como no além-fronteiras, a nossa identidade – ou identidades – reivindicada e reinventada pelos que recuperavam a sua ancestralidade cultural, também imaginariamente e pelo conhecimento de alguns dos nossos textos de todos os géneros ou pelas histórias populares que lhes haviam sido contadas por pais e avós. Carlos Cordeiro trabalhava sistematicamente a nossa herança sócio-política e literária adentro das ilhas, de que o já referido Na Senda da Identidade Açoriana é um exemplo, atento, sempre, uma vez mais, ao que a nossa geração trazia e reafirmava nesse conjunto de comunidades mundiais, que passariam a formar a Décima Ilha, tanto real como mítica, rodeada de mar e terra por todos os lados, “ilhas em terra”, como nos poemas de João Teixeira de Medeiros. A sua obra vai muito além dos seus livros publicados, inclui ainda as suas intervenções em suplementos culturais e literários e em apresentações de livros, a sua escavação do passado sempre feita e vista na contemporaneidade que ele vive e tenta entender, este que é um tempo em que todos os povos se reposicionam não só nos contextos nacionais a que pertencem, mas sobretudo em relação ao resto do mundo, presente, todo ele, logo de fora das nossas portas, a geografia de todos os afectos e de todas as memórias o ponto de partida nas viagens incertas e inseguras, em busca sobretudo do nosso próprio ser, motivados pela nossa ansiedade humanística, pela nossa dignidade civilizacional.

Creio ser ainda de inteira justiça dizer que Carlos Cordeiro é um distinto representante de toda uma geração de historiadores formados na Universidade dos Açores, ou dos que chegados cá do exterior mais tarde viriam a dedicar-se à nossa historiografia. Falar de literatura sem esse contexto essencial, esse clarão (a imagem é de Walter Benjamin) de saberes e investigações, que ilumina todas as outras áreas das humanidades, seria não só uma impossibilidade como seria uma irrelevância meramente especulativa, sem qualquer enraizamento na experiência societal que nos trouxe até à nossa época. Se a literatura é também um retrato das sociedades em que está inserida ou lhe serve de fundo geográfico e humano, com toda a subjectividade que os olhares e a absorção dos leitores lhe lançam e assimilam, não pode nunca dispensar a narrativa histórica que está na sua génese, a narrativa feita de pedaços de descobertas, de nomes e de feitos que permaneciam escondidos ou esquecidos e que passam, quando vêm à luz do dia, a estimular e a dar forma artística às representações de todo um povo. Do mesmo modo, Carlos Cordeiro nunca deixou de ler e de reflectir, uma vez mais, sobre a literatura açoriana, pois é nela, no seu acto estético e temático, nas suas visões para além do que ficam como supostas “verdades” segundo os poderes públicos de cada época e das classes sociais que os dominam numa dada etapa histórica, onde mora a alma de um personagem apanhado na teia do tempo e dos acontecimentos, onde se rediz ou se recria a mítica colectiva desse mesmo povo. Na era da hiper-especialização, nada disto será o mais comum na academia, em qualquer parte, o que geralmente significa um recorrente diálogo entre pares, essencial ao desenvolvimento de outros trabalhos, mas limitado nas suas consequências, que deveriam ser muito mais generalizadas, impedido que fica de informar o que outrora se chamava, sem preconceitos, a classe culta, a cidadania esclarecida, a que permite a governação limpa e a dinâmica enriquecedora numa comunidade. A escrita de Carlos Cordeiro, parafraseando outro escritor que falava um dia de questões similares, tem a saga dos factos como argumento, mas nunca se refugia numa terminologia hermética, muito menos ostenta, como se fora numa enciclopédia, o saber desconexo entre supostas teorias e a pratica do texto legível, cujas significações não se perdem na ofuscação, deliberada ou para esconder a insegurança do autor, da frase, digamos, tortuosa. A sua escrita é a narrativa inteligente e clara dos factos, a construção de ideias e propostas que para sempre farão parte do mosaico que é a nossa História dupla – a do país no seu todo e a regional, a ambiguidade da nacionalidade, da portugalidade e da açorianidade repartidas por continentes e ilhas. A obra e o homem merecem esta homenagem, este agradecimento dos colegas e dos amigos – em nome, ainda, da sociedade que é a sua, do seu sentido de pertença a algo maior de qualquer um de nós, da crença no futuro que a obra de um historiador como ele nos permite, ao apresentar-nos em traços largos as origens, remotas ou mais recentes, do nosso ser em e como comunidade.

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*Texto escrito para o livro de homenagem ao Professor Doutor Carlos Alberto da Costa Cordeiro, após a sua aposentação recente da Universidade dos Açores, e que será apresentado brevemente.

As origens americanas da vida e obra de Dias de Melo*

Capa Velas de Lona

Vinda sem história. Só a presença de meu Pai, agora apaziguada, dentro de mim…

Dias de Melo, Das Velas de Lona às Asas de Alumínio

Vamberto Freitas

I

Conheci Dias de Melo pessoalmente a meados dos anos 80 do século passado na cidade de San Diego, no extremo sul da Califórnia, onde residia e reside uma comunidade portuguesa oriunda dos Açores, tradicionalmente dedicada, até então, à grande pesca. Tempos houve em que havia aqui muito dinheiro – e nas comunidades portuguesas da América o riquismo é um mundo à parte. Nunca tendo penetrado os “nativos” círculos sociais e políticos do país, a ostentação toma interessantes formas, espectáculo exclusivo para os de casa. Os intelectuais eram e são sempre bem recebidos simplesmente porque têm “nome”, e nada mais delicioso na sociedade americana do que o nivelamento que o dinheiro consegue. Se vindes ao meu mundo, eu sou rei, e como sou rei, as vossas ideias não me incomodam. Era assim que eu entendia as recepções culturais e literárias de vária natureza fora dos meios académicos e entre os nossos imigrantes e alguns luso-descendentes – bem poucos naquela época. Não sei o que pensava Dias de Melo quando dele me aproximei e estendi a mão. Olhou para mim vagarosamente, amigo comum havia-lhe dito que eu seria o seu cicerone durante umas horas, e deu-me um abraço. Ele nunca tinha vindo aos Estados Unidos, e eu estava lá desde 1964. Por um instante, tal o seu à vontade, senti que eu nunca tinha deixado os Açores, ou então ele tinha sido sempre um imigrante como eu na Califórnia. À nossa volta passava o reboliço de outra festa comunitária, muito colorida – neste caso específico, e sem par na América, uma celebração do Divino Espírito Santo, agora rodeado de moças trajadas com vistosas capas, a rainha e as suas aias, acompanhadas por bandas regimentais, por políticos e por outras personalidades cívicas. Dias de Melo presenciou tudo isto naquele dia, mas nunca nada me disse sobre o que vira e ouvira..

A certa altura perguntei-lhe o que mais gostaria de ver na Califórnia. Respondeu-me que gostar, gostar, era ir ao cemitério daquela cidade e ver a campa de um querido amigo seu dos tempos da ilha e da baleação – e depois atravessar a terra de John Steinbeck e das suas personagens. Resolvi logo ali ler todos os seus livros. O juízo que eu viria a fazer da sua obra, muitos outros antes de mim já o tinham feito, e não só nos Açores – conotada com o neo-realismo português, a sua sobrevivência a muito mais do que isso se deve: é um original repositório de linguagem, história, vivência quotidiana e total modo de ser das gentes açorianas, particularmente da sua ilha do Pico. De tudo isso e de algo mais me falou numa longa entrevista que eu incluiria na primeira edição (1992) de O Imaginário dos Escritores Açorianos. Creio que o que fica parcialmente aqui é de facto um registo sincero acerca da sua educação, das suas, como um dia disse Máximo Gorki, “universidades”, de como outro escritor ilhéu se foi fazendo e sobrevivendo num meio e entre gente que lhe fizeram enfrentar periodicamente situações que lhe foram caras. Eis aqui, pois, algumas observações sobre a nossa imigração norte-americana, num determinado momento histórico, de um escritor açoriano maior. Teríamos as nossas diferenças durante os seus últimos anos de vida, mas recordo com saudade os serões com outros amigos na minha casa do Pópulo, ou a ocasional visita que lhe fazia na sua em São Gonçalo, aqui em Ponta Delgada. O que Dias de Melo deixa no seu Das Velas de Lona às Asas de Alumínio, o seu livro sobre esta sua passagem pela América, representa do melhor que sobre este país se tem escrito na nossa língua.

II

A sua visita à América em 1988 foi, tal como você viria a escrever, emocionante. Acho isso uma reacção muito interessante para um europeu de “esquerda”. Quase todos os europeus de semelhante opção política tendem a olhar os EUA com certa reserva, quando não desdém. Quer falar dessa sua experiência? Com que ideia ficou deste país?

Dias de Melo – Confirmo: sou um homem de esquerda e como tal, sem aspas nem reticências, me assumo. O que você não sabe, com certeza, é que me firmei definitivamente na minha opção de esquerda quando, já homem, meu pai me falou das grandes lutas operárias desencadeadas pelos sindicatos – as uniões, como na América lhes chamam – precisamente na Califórnia. Lutas por reivindicações várias, entre elas, duas principais: o dia, não me recordo se já das oito se ainda das dez horas de trabalho, e os salários. Em tais lutas, tomou ele parte bastante responsável. Chegou a ser chefe de piquete de greve. E conviveu com revolucionários estrangeiros de grande prestígio, entre eles Trotsky. A dada altura, por razões de família, foi necessário vir um dos irmãos que se encontravam na Califórnia, além do meu pai, ao Pico. Sendo o mais velho e o que primeiro fora para aí, para a Califórnia, veio o meu pai. Não com intenção de ficar. Mas… o casamento… minha mãe que se não queria apartar da ilha…

Antes de meu pai, na Califórnia trabalhara meu avô paterno. Na Califórnia ficaram e estão sepultados meus tios. E vivem meus primos-irmãos, filhos deles e cidadãos americanos, meus primos segundos, filhos de primos-irmãos de meu pai, igualmente cidadãos americanos, e outros primos-irmãos, duas primas-irmãs de um irmão de minha mãe, emigrado pelos anos 20, são também cidadãs americanas, e primas-irmãs emigradas já nos meus dias. Percorrer aproximadamente a mesma rota que eles percorreram e comparar – eles nos veleiros baleeiros, meses por sobre o mar, se não anos, mais tarde, metidos, como escravos, no porão de qualquer vapor, semanas por aí abaixo até ao desembarque na costa leste americana, depois a travessia do continente, nos carros de fogo sem nenhum conforto, do atlântico ao Pacífico (de mais de trás não conheci ninguém, mas seria muito pior) – eu, hoje, cortando o céu comodamente refastelado na cadeira de um avião, quatro horas da Terceira a Boston, seis horas de Providence a San José… Chega para ser em mim forte emoção e marcante experiência que prossegue quando, desembarcando, vou pelas estradas da Califórnia com a sensação nítida de que conheço, de que é como se fosse minha, que já longamente vivi naquela terra…

A América tem o seu direito – mas também tem o seu avesso. Como tudo neste mundo. Nela persiste a discriminação entre os homens. Não só a que se estabelece entre as diversas classes sociais, entre pobres e ricos, mas, pior, a que prevalece entre as diversas etnias e raças. Os nossos imigrantes são discriminados pelos americanos e a si próprios se discriminam arrumando-se, geralmente, em áreas onde não residem, ou residem poucos, americanos. Algumas dessas áreas (vi uma) são bastante pobres: pouco diferem, se alguma coisa diferem, dos bairros de lata que temos por cá. Habitam-nas imigrantes idosos, reformados, ou jovens acabados de chegar aguardando oportunidade para ali se safarem. Todavia, mesmo discriminados pelos americanos, ao lado deles se colocam para discriminarem os africano-americanos descendentes dos escravos libertados pela Guerra da Sucessão. A exploração do homem pelo homem é um facto – mesmo entre os nossos imigrantes. Um conheci, para a idade de meu pai, grande “rancheiro”, que, lastimando-se das exigências dos trabalhadores de hoje, atentos às horas e não dispensando o over time sempre que a tarefa ultrapassa as oito horas, tem este desabafo: “Ainda se um home agarra um desses rapazes que chegam sem papéis… mas também assim que se põem legais, e há sempre tolos que os ajudam…”

Mas, tirando os que se encolhem naqueles bairros pobres, muitos alcançam, na Califórnia, um nível de vida, de conforto, com o qual, na ilha, ou no continente, na província, jamais poderiam sonhar. Com tal nível estão na Califórnia. Metem-se no carro, vão para o trabalho, saem do trabalho, entram no mini-mercado português, onde se vende mais caro que no super-mercado americano, mas tem a taberna disfarçada por detrás da porta ao fundo do balcão, empinam um copo, dois dedos de conversa com o parceiro, passam pelo banco quando lá têm que passar, e metem-se em casa. E em casa, das portas para dentro, vivem na Ilha. Na freguesia. Na aldeia do continente. A falar, a jogar às cartas, a virar copos, com os amigos, junto à pipa, na adega armada na cave. O que vai lá fora, mesmo os problemas de trabalho, não os interessa, não é com eles. Isto os imigrantes idos com certa idade. Os que partiram jovens, aí entre os 13 e os 20 anos, ainda balançam, pé lá, pé cá. Os outros, os que daqui partiram muito crianças ou nasceram já na América, regra geral não querem saber disto. Negam-se a falar português. Até se envergonham de serem portugueses. São “O(s) Adriano(s) da estória de Onésimo Teotónio Almeida, em (Sapa)teia Americana, por vezes a descambarem para o vício da droga e a prática do crime.

Da América propriamente dita. Despojem-se os europeus do preconceito megalómano de que a Europa ainda é tudo e a América ainda não deu mais que os primeiros passos nas vias da Cultura. As boas universidades americanas, andei por algumas, são autênticos mundos de organização modelar onde, com o que de melhor e mais moderno existe, se trabalha, com empenho e seriedade exemplares – e com o gosto que nos dá o trabalho feito em liberdade – pela conquista do Futuro. E descomplexadamente: tão descomplexadamente que nenhum concelho pedagógico e científico hesita, com carunchosas vaidades nacionalistas, em ir buscar, onde quer que ele se encontre, o mestre que lhes pode prestar bons serviços.

*Tirado de uma longa entrevista do meu O Imaginário dos Escritores Açorianos (1992 e 2013). Para uma maior compreensão da experiência americana de Dias de Melo sugiro a leitura (ou releitura) de Das Velas de Lona às Asas de Alumínio, Lisboa, Edições Salamandra, 1990. Publicado no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 12 de Fevereiro de 2016.

Quando se despenteia a arrogância e outras imposturas

capa Despeteando Parágrafos

Se de alguma coisa necessita o discurso intelectual português (não o filosófico, que ele é quase inexistente) é de um bom purgante, ou um detergente poderoso, com banho geral. E um dentífrico para as palavras.

Onésimo Teotónio Almeida, Despenteando Parágrafos

Vamberto Freitas

Onésimo Teotónio Almeida menciona na introdução a este seu Despenteando Parágrafos que alguns destes textos precedem o famoso ensaio-paródia de Alan Sokal quando este professor de física da MIT fez tremer a academia norte-americana de vergonha ao enviar para publicação à muito respeitada revista Social Text um longo artigo sobre questões do pós-modernismo, eventualmente publicado em 1996 como outra peça teórica e ideológica nos debates então em curso, muito influenciados pelos intelectuais e outros filósofos franceses que, a partir da década de 70, influenciaram todo o debate nas ciências sociais e na literatura. Era uma imitação deliberadamente fraudulenta, mas evidentemente levada a sério, de como nas humanidades outros se apropriavam de terminologia científica para teorizar, na prosa mais triturada e ofuscada, sobre quase todas as respectivas áreas, particularmente na literatura. Sokal falava na necessidade de se libertar a Teoria da Gravidade de amarras ideológicas. Alguns pós-modernistas diziam que tudo debaixo do sol era uma “construção” linguística, ou necessariamente um discurso, um texto, uma vez mais, ideológico, segundo quem o proferia e com que intenção. Um pouco mais tarde, Sokal juntava-se ao seu colega belga Jean Bricmont para publicarem o já famoso Imposturas Intelectuais, no qual nomeavam e citavam outros nomes também conhecidos e reconhecidos na academia, mesmo por ou especialmente por quem não os entendia, não poderia entender a sua prosa pseudo-científica “abordando” várias áreas de investigação e teorização. Uma das novidades desta obra, já referencial pela negativa, é que quando traduzida para uma outra língua os autores faziam questão de pedir aos seus colegas exemplos deste tipo de prosa por figuras académicas desses países. Imposturas Intelectuais foi publicado em Portugal em 1999 pela editora Gradiva, e, sim, traz alguns dos nomes universitários habitualmente citados entre nós. A verdade é que este projecto de Onésimo Teotónio Almeida vem de longe, muito antes de Sokal publicar o referido ensaio, são intervenções em congressos e de outros encontros públicos, alguns deles publicados nas mais diversas revistas da especialidade ou em suplementos literários, e naturalmente debruçam-se sobre muita desta prosa em português, obscura e enviesada na sua lógica ou argumentação por falta de rigor científico ou, simplesmente, de lógica. No entanto, não se lê – pelo menos este leitor não o leu assim – pelo que desmascara em outros, mas sim pelo que nos traz de novidade precisamente no processo de lermos ou pensarmos alguns dos nossos mais conhecidos autores ou pensadores portugueses, desde Eça de Queirós e Miguel Torga a Eduardo Lourenço. Nunca em página alguma deste livro se trivializa ou menospreza seja quem for, mas o autor de Quando os Bobos Uivam continua a insistir num debate sobre todas estas questões, que descambam sempre camilianamente para o insulto pessoal, para a esperteza, pois claro, linguística, que tão caracteristicamente é usada como arma quando não se tem argumentos intelectuais ou científicos, quando se é apanhado nu nas fantasias académicas ou literário-culturais.

Entre texto e abundantes notas de rodapé, Despenteando Parágrafos, para além de questões e escrita de natureza académica, é uma riquíssima fonte de nomes e obras da nossa literatura clássica e contemporânea, em que o foco está todo dirigido para análises literárias e para o ensaísmo – Jacinto do Prado Coelho, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, ou ainda Natália Correia a falar das suas redescobertas pessoais durante uma viajem à América. Aliás, algumas das páginas mais interessantes para um leitor açoriano serão as que revisitam a prosa diarística de Miguel Torga, quando ele escreve constantemente sobre o determinismo geográfico no pensamento e no modo de estar de nós todos, para tempos depois, e creio que após a sua visita aos Açores, falar também do cerco psíquico a Vitorino Nemésio na sua escrita. Para Torga o território acidentado de Trás-os-Montes levava ao universalismo de um ibérico ao imaginar sempre o que estava para lá da montanha, enquanto o nosso mar era visto como um cerco prisional, e não de igual modo a passadeira da liberdade que vemos em nossa frente todos os dias. Onésimo Teotónio Almeida tanto desconstrói a prosa da ofuscação e confusão de saberes, como desmantela a falta de rigor lógico nas pontificações de nomes e obras tidas como canónicas na nossa academia e entre a classe culta em geral. Uma das queixas mais frequentes do autor é que, anos após as mais afincadas tentativas, em Portugal não há diálogo intelectual ou cientifico algum, só afirmações sempre e supostamente incontestáveis, seguidas de insultos e amuos após qualquer contraponto público. Para quem se formou e pertence ao corpo docente, como Professor Catedrático, de uma das melhores universidades do mundo, a Brown University, umas das instituições mais antigas e simultaneamente mais abertas à inovação de pensamento e investigação, suponho que tem sido preciso muita paciência e tolerância perante o pedantismo e insolência portuguesas. A verdade é que o autor deste Despenteando Parágrafos não desiste nunca, ora em pessoa nos variadíssimos encontros em que participa constantemente em Portugal e no estrangeiro, ora por escritos na nossa imprensa ou periódicos da especialidade. Reafirma aqui, sem que isso seja necessário, que, ao contrário de muitos outros, nunca chega de fora carregado de livros e nomes para debitar publicamente, numa demonstração comum entre nós de como conhecemos, mesmo só por alto, o que se escreve e diz noutras línguas e noutras geografias científicas e criativas. A prosa neste livro faz-me lembrar de imediato outro grande ensaísta que viveu, leccionou e escreveu nos EUA – Jorge de Sena. Num dos ensaios mais afirmativos deste livro, Onésimo Teotónio Almeida revisita em “O ensaio teórico à Jorge de Sena”, a prosa torrencial, erudita, que tudo contextualizava, revia e propunha, a prosa que tanta ira causava em Portugal, e que ainda hoje, não fora alguns nomes como o autor da obra presente, Eugénio Lisboa, Francisco Cota Fagundes, Frederick G. Williams, Harvey Sharrer, e Jorge Fazenda Lourenço, que vem organizando a obra completa de Jorge de Sena em colaboração com a sua viúva, Mécia de Sena, e praticamente mais ninguém o citaria na república lusa das letras. Pensando na sorte de outros grandes nomes da nossa literatura e pensamento, afinal e num segundo olhar, a obra de Jorge de Sena está muitíssimo bem servida, a sua contínua, mesmo que restrita presença, um memorial ao melhor que a Modernidade no nosso país nos legou.

Outros tópicos aqui incluem certa confusão sobre o que é ou não é a “lusofonia” e a consequente problemática do nosso relacionamento com o mundo de língua portuguesa em toda a parte, assim como o estado dos estudos humanísticos presentemente em Portugal após as mudanças institucionais requeridas por Bolonha. De nome em nome e ainda mais de obra em obra, o autor vai inter-relaccionando os vários capítulos deste volume, resultando numa abordagem unificada no que concerne as gritantes desatenções ou as ditas “imposturas intelectuais” – a citação classificativa aqui é minha, não do autor – que afundam, ou no mínimo deturpam, os estudos literários e culturais um pouco por toda a parte e a vários níveis institucionais ou públicos. Não será preciso relembrar, em pormenor, que uma das mais graves consequências do que aconteceu com a teorização da literatura, particularmente a partir dos anos 60-70, foi a quase total descredibilização do estudo e da leitura a nível universitário. Só que noutros países, como nos EUA, o reequilíbrio já aconteceu, e os departamentos de línguas e literaturas voltaram à sua missão de transmitir a tradição literária e cultural nacional e ocidental, concomitantemente com a influente tradição crítica dirigida ao grande público leitor, que felizmente ainda existe em todas as sociedades. Por outro lado, enquanto uns falam, e com toda razão, da essencialidade das línguas estrangeiras num mundo globalizado, Onésimo pede o regresso do ensino do Português a nível superior, por todas as razões acima mencionadas.

Não se trata de procurar resolver o problema da falta de alunos nas Faculdades e Departamentos de Letras, mas sim de resolver a deficiência grave de formação humanística num país que sempre se autodefiniu como filiado na tradição humanista. Um país que, no afã de se modernizar, está a atirar fora o bebé com a água do banho. Mesmo em termos pragmáticos, a inovação faz sentido porque, se estamos a tentar imitar as sociedades mais desenvolvidas, deveríamos observar atentamente as suas melhores universidades, e notar como as Humanidades são parte integrante, fundamental e irremovível de uma educação universitária moderna, havendo que integrá-las transversalmente em todos os currículos”.

Eis aí Despenteando Parágrafos. Falta só dizer que Onésimo Teotónio Almeida pratica, sempre praticou, o que prega – a prosa clara, leve, cheia de informação e fundamentada num arsenal intelectual pouco comum entre nós – e, sim, o humor ante a estupidez, o respeito ante os seus interlocutores.

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Onésimo Teotónio Almeida, Despenteando Parágrafos, Lisboa, Quetzal Editores, 2015. Publicado hoje no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 05 de Fevereiro de 2016, e originalmente destinado à RUAL/Revista da Universidade de Aveiro -Letras