Quando se despenteia a arrogância e outras imposturas

capa Despeteando Parágrafos

Se de alguma coisa necessita o discurso intelectual português (não o filosófico, que ele é quase inexistente) é de um bom purgante, ou um detergente poderoso, com banho geral. E um dentífrico para as palavras.

Onésimo Teotónio Almeida, Despenteando Parágrafos

Vamberto Freitas

Onésimo Teotónio Almeida menciona na introdução a este seu Despenteando Parágrafos que alguns destes textos precedem o famoso ensaio-paródia de Alan Sokal quando este professor de física da MIT fez tremer a academia norte-americana de vergonha ao enviar para publicação à muito respeitada revista Social Text um longo artigo sobre questões do pós-modernismo, eventualmente publicado em 1996 como outra peça teórica e ideológica nos debates então em curso, muito influenciados pelos intelectuais e outros filósofos franceses que, a partir da década de 70, influenciaram todo o debate nas ciências sociais e na literatura. Era uma imitação deliberadamente fraudulenta, mas evidentemente levada a sério, de como nas humanidades outros se apropriavam de terminologia científica para teorizar, na prosa mais triturada e ofuscada, sobre quase todas as respectivas áreas, particularmente na literatura. Sokal falava na necessidade de se libertar a Teoria da Gravidade de amarras ideológicas. Alguns pós-modernistas diziam que tudo debaixo do sol era uma “construção” linguística, ou necessariamente um discurso, um texto, uma vez mais, ideológico, segundo quem o proferia e com que intenção. Um pouco mais tarde, Sokal juntava-se ao seu colega belga Jean Bricmont para publicarem o já famoso Imposturas Intelectuais, no qual nomeavam e citavam outros nomes também conhecidos e reconhecidos na academia, mesmo por ou especialmente por quem não os entendia, não poderia entender a sua prosa pseudo-científica “abordando” várias áreas de investigação e teorização. Uma das novidades desta obra, já referencial pela negativa, é que quando traduzida para uma outra língua os autores faziam questão de pedir aos seus colegas exemplos deste tipo de prosa por figuras académicas desses países. Imposturas Intelectuais foi publicado em Portugal em 1999 pela editora Gradiva, e, sim, traz alguns dos nomes universitários habitualmente citados entre nós. A verdade é que este projecto de Onésimo Teotónio Almeida vem de longe, muito antes de Sokal publicar o referido ensaio, são intervenções em congressos e de outros encontros públicos, alguns deles publicados nas mais diversas revistas da especialidade ou em suplementos literários, e naturalmente debruçam-se sobre muita desta prosa em português, obscura e enviesada na sua lógica ou argumentação por falta de rigor científico ou, simplesmente, de lógica. No entanto, não se lê – pelo menos este leitor não o leu assim – pelo que desmascara em outros, mas sim pelo que nos traz de novidade precisamente no processo de lermos ou pensarmos alguns dos nossos mais conhecidos autores ou pensadores portugueses, desde Eça de Queirós e Miguel Torga a Eduardo Lourenço. Nunca em página alguma deste livro se trivializa ou menospreza seja quem for, mas o autor de Quando os Bobos Uivam continua a insistir num debate sobre todas estas questões, que descambam sempre camilianamente para o insulto pessoal, para a esperteza, pois claro, linguística, que tão caracteristicamente é usada como arma quando não se tem argumentos intelectuais ou científicos, quando se é apanhado nu nas fantasias académicas ou literário-culturais.

Entre texto e abundantes notas de rodapé, Despenteando Parágrafos, para além de questões e escrita de natureza académica, é uma riquíssima fonte de nomes e obras da nossa literatura clássica e contemporânea, em que o foco está todo dirigido para análises literárias e para o ensaísmo – Jacinto do Prado Coelho, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, ou ainda Natália Correia a falar das suas redescobertas pessoais durante uma viajem à América. Aliás, algumas das páginas mais interessantes para um leitor açoriano serão as que revisitam a prosa diarística de Miguel Torga, quando ele escreve constantemente sobre o determinismo geográfico no pensamento e no modo de estar de nós todos, para tempos depois, e creio que após a sua visita aos Açores, falar também do cerco psíquico a Vitorino Nemésio na sua escrita. Para Torga o território acidentado de Trás-os-Montes levava ao universalismo de um ibérico ao imaginar sempre o que estava para lá da montanha, enquanto o nosso mar era visto como um cerco prisional, e não de igual modo a passadeira da liberdade que vemos em nossa frente todos os dias. Onésimo Teotónio Almeida tanto desconstrói a prosa da ofuscação e confusão de saberes, como desmantela a falta de rigor lógico nas pontificações de nomes e obras tidas como canónicas na nossa academia e entre a classe culta em geral. Uma das queixas mais frequentes do autor é que, anos após as mais afincadas tentativas, em Portugal não há diálogo intelectual ou cientifico algum, só afirmações sempre e supostamente incontestáveis, seguidas de insultos e amuos após qualquer contraponto público. Para quem se formou e pertence ao corpo docente, como Professor Catedrático, de uma das melhores universidades do mundo, a Brown University, umas das instituições mais antigas e simultaneamente mais abertas à inovação de pensamento e investigação, suponho que tem sido preciso muita paciência e tolerância perante o pedantismo e insolência portuguesas. A verdade é que o autor deste Despenteando Parágrafos não desiste nunca, ora em pessoa nos variadíssimos encontros em que participa constantemente em Portugal e no estrangeiro, ora por escritos na nossa imprensa ou periódicos da especialidade. Reafirma aqui, sem que isso seja necessário, que, ao contrário de muitos outros, nunca chega de fora carregado de livros e nomes para debitar publicamente, numa demonstração comum entre nós de como conhecemos, mesmo só por alto, o que se escreve e diz noutras línguas e noutras geografias científicas e criativas. A prosa neste livro faz-me lembrar de imediato outro grande ensaísta que viveu, leccionou e escreveu nos EUA – Jorge de Sena. Num dos ensaios mais afirmativos deste livro, Onésimo Teotónio Almeida revisita em “O ensaio teórico à Jorge de Sena”, a prosa torrencial, erudita, que tudo contextualizava, revia e propunha, a prosa que tanta ira causava em Portugal, e que ainda hoje, não fora alguns nomes como o autor da obra presente, Eugénio Lisboa, Francisco Cota Fagundes, Frederick G. Williams, Harvey Sharrer, e Jorge Fazenda Lourenço, que vem organizando a obra completa de Jorge de Sena em colaboração com a sua viúva, Mécia de Sena, e praticamente mais ninguém o citaria na república lusa das letras. Pensando na sorte de outros grandes nomes da nossa literatura e pensamento, afinal e num segundo olhar, a obra de Jorge de Sena está muitíssimo bem servida, a sua contínua, mesmo que restrita presença, um memorial ao melhor que a Modernidade no nosso país nos legou.

Outros tópicos aqui incluem certa confusão sobre o que é ou não é a “lusofonia” e a consequente problemática do nosso relacionamento com o mundo de língua portuguesa em toda a parte, assim como o estado dos estudos humanísticos presentemente em Portugal após as mudanças institucionais requeridas por Bolonha. De nome em nome e ainda mais de obra em obra, o autor vai inter-relaccionando os vários capítulos deste volume, resultando numa abordagem unificada no que concerne as gritantes desatenções ou as ditas “imposturas intelectuais” – a citação classificativa aqui é minha, não do autor – que afundam, ou no mínimo deturpam, os estudos literários e culturais um pouco por toda a parte e a vários níveis institucionais ou públicos. Não será preciso relembrar, em pormenor, que uma das mais graves consequências do que aconteceu com a teorização da literatura, particularmente a partir dos anos 60-70, foi a quase total descredibilização do estudo e da leitura a nível universitário. Só que noutros países, como nos EUA, o reequilíbrio já aconteceu, e os departamentos de línguas e literaturas voltaram à sua missão de transmitir a tradição literária e cultural nacional e ocidental, concomitantemente com a influente tradição crítica dirigida ao grande público leitor, que felizmente ainda existe em todas as sociedades. Por outro lado, enquanto uns falam, e com toda razão, da essencialidade das línguas estrangeiras num mundo globalizado, Onésimo pede o regresso do ensino do Português a nível superior, por todas as razões acima mencionadas.

Não se trata de procurar resolver o problema da falta de alunos nas Faculdades e Departamentos de Letras, mas sim de resolver a deficiência grave de formação humanística num país que sempre se autodefiniu como filiado na tradição humanista. Um país que, no afã de se modernizar, está a atirar fora o bebé com a água do banho. Mesmo em termos pragmáticos, a inovação faz sentido porque, se estamos a tentar imitar as sociedades mais desenvolvidas, deveríamos observar atentamente as suas melhores universidades, e notar como as Humanidades são parte integrante, fundamental e irremovível de uma educação universitária moderna, havendo que integrá-las transversalmente em todos os currículos”.

Eis aí Despenteando Parágrafos. Falta só dizer que Onésimo Teotónio Almeida pratica, sempre praticou, o que prega – a prosa clara, leve, cheia de informação e fundamentada num arsenal intelectual pouco comum entre nós – e, sim, o humor ante a estupidez, o respeito ante os seus interlocutores.

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Onésimo Teotónio Almeida, Despenteando Parágrafos, Lisboa, Quetzal Editores, 2015. Publicado hoje no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 05 de Fevereiro de 2016, e originalmente destinado à RUAL/Revista da Universidade de Aveiro -Letras

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