As origens americanas da vida e obra de Dias de Melo*

Capa Velas de Lona

Vinda sem história. Só a presença de meu Pai, agora apaziguada, dentro de mim…

Dias de Melo, Das Velas de Lona às Asas de Alumínio

Vamberto Freitas

I

Conheci Dias de Melo pessoalmente a meados dos anos 80 do século passado na cidade de San Diego, no extremo sul da Califórnia, onde residia e reside uma comunidade portuguesa oriunda dos Açores, tradicionalmente dedicada, até então, à grande pesca. Tempos houve em que havia aqui muito dinheiro – e nas comunidades portuguesas da América o riquismo é um mundo à parte. Nunca tendo penetrado os “nativos” círculos sociais e políticos do país, a ostentação toma interessantes formas, espectáculo exclusivo para os de casa. Os intelectuais eram e são sempre bem recebidos simplesmente porque têm “nome”, e nada mais delicioso na sociedade americana do que o nivelamento que o dinheiro consegue. Se vindes ao meu mundo, eu sou rei, e como sou rei, as vossas ideias não me incomodam. Era assim que eu entendia as recepções culturais e literárias de vária natureza fora dos meios académicos e entre os nossos imigrantes e alguns luso-descendentes – bem poucos naquela época. Não sei o que pensava Dias de Melo quando dele me aproximei e estendi a mão. Olhou para mim vagarosamente, amigo comum havia-lhe dito que eu seria o seu cicerone durante umas horas, e deu-me um abraço. Ele nunca tinha vindo aos Estados Unidos, e eu estava lá desde 1964. Por um instante, tal o seu à vontade, senti que eu nunca tinha deixado os Açores, ou então ele tinha sido sempre um imigrante como eu na Califórnia. À nossa volta passava o reboliço de outra festa comunitária, muito colorida – neste caso específico, e sem par na América, uma celebração do Divino Espírito Santo, agora rodeado de moças trajadas com vistosas capas, a rainha e as suas aias, acompanhadas por bandas regimentais, por políticos e por outras personalidades cívicas. Dias de Melo presenciou tudo isto naquele dia, mas nunca nada me disse sobre o que vira e ouvira..

A certa altura perguntei-lhe o que mais gostaria de ver na Califórnia. Respondeu-me que gostar, gostar, era ir ao cemitério daquela cidade e ver a campa de um querido amigo seu dos tempos da ilha e da baleação – e depois atravessar a terra de John Steinbeck e das suas personagens. Resolvi logo ali ler todos os seus livros. O juízo que eu viria a fazer da sua obra, muitos outros antes de mim já o tinham feito, e não só nos Açores – conotada com o neo-realismo português, a sua sobrevivência a muito mais do que isso se deve: é um original repositório de linguagem, história, vivência quotidiana e total modo de ser das gentes açorianas, particularmente da sua ilha do Pico. De tudo isso e de algo mais me falou numa longa entrevista que eu incluiria na primeira edição (1992) de O Imaginário dos Escritores Açorianos. Creio que o que fica parcialmente aqui é de facto um registo sincero acerca da sua educação, das suas, como um dia disse Máximo Gorki, “universidades”, de como outro escritor ilhéu se foi fazendo e sobrevivendo num meio e entre gente que lhe fizeram enfrentar periodicamente situações que lhe foram caras. Eis aqui, pois, algumas observações sobre a nossa imigração norte-americana, num determinado momento histórico, de um escritor açoriano maior. Teríamos as nossas diferenças durante os seus últimos anos de vida, mas recordo com saudade os serões com outros amigos na minha casa do Pópulo, ou a ocasional visita que lhe fazia na sua em São Gonçalo, aqui em Ponta Delgada. O que Dias de Melo deixa no seu Das Velas de Lona às Asas de Alumínio, o seu livro sobre esta sua passagem pela América, representa do melhor que sobre este país se tem escrito na nossa língua.

II

A sua visita à América em 1988 foi, tal como você viria a escrever, emocionante. Acho isso uma reacção muito interessante para um europeu de “esquerda”. Quase todos os europeus de semelhante opção política tendem a olhar os EUA com certa reserva, quando não desdém. Quer falar dessa sua experiência? Com que ideia ficou deste país?

Dias de Melo – Confirmo: sou um homem de esquerda e como tal, sem aspas nem reticências, me assumo. O que você não sabe, com certeza, é que me firmei definitivamente na minha opção de esquerda quando, já homem, meu pai me falou das grandes lutas operárias desencadeadas pelos sindicatos – as uniões, como na América lhes chamam – precisamente na Califórnia. Lutas por reivindicações várias, entre elas, duas principais: o dia, não me recordo se já das oito se ainda das dez horas de trabalho, e os salários. Em tais lutas, tomou ele parte bastante responsável. Chegou a ser chefe de piquete de greve. E conviveu com revolucionários estrangeiros de grande prestígio, entre eles Trotsky. A dada altura, por razões de família, foi necessário vir um dos irmãos que se encontravam na Califórnia, além do meu pai, ao Pico. Sendo o mais velho e o que primeiro fora para aí, para a Califórnia, veio o meu pai. Não com intenção de ficar. Mas… o casamento… minha mãe que se não queria apartar da ilha…

Antes de meu pai, na Califórnia trabalhara meu avô paterno. Na Califórnia ficaram e estão sepultados meus tios. E vivem meus primos-irmãos, filhos deles e cidadãos americanos, meus primos segundos, filhos de primos-irmãos de meu pai, igualmente cidadãos americanos, e outros primos-irmãos, duas primas-irmãs de um irmão de minha mãe, emigrado pelos anos 20, são também cidadãs americanas, e primas-irmãs emigradas já nos meus dias. Percorrer aproximadamente a mesma rota que eles percorreram e comparar – eles nos veleiros baleeiros, meses por sobre o mar, se não anos, mais tarde, metidos, como escravos, no porão de qualquer vapor, semanas por aí abaixo até ao desembarque na costa leste americana, depois a travessia do continente, nos carros de fogo sem nenhum conforto, do atlântico ao Pacífico (de mais de trás não conheci ninguém, mas seria muito pior) – eu, hoje, cortando o céu comodamente refastelado na cadeira de um avião, quatro horas da Terceira a Boston, seis horas de Providence a San José… Chega para ser em mim forte emoção e marcante experiência que prossegue quando, desembarcando, vou pelas estradas da Califórnia com a sensação nítida de que conheço, de que é como se fosse minha, que já longamente vivi naquela terra…

A América tem o seu direito – mas também tem o seu avesso. Como tudo neste mundo. Nela persiste a discriminação entre os homens. Não só a que se estabelece entre as diversas classes sociais, entre pobres e ricos, mas, pior, a que prevalece entre as diversas etnias e raças. Os nossos imigrantes são discriminados pelos americanos e a si próprios se discriminam arrumando-se, geralmente, em áreas onde não residem, ou residem poucos, americanos. Algumas dessas áreas (vi uma) são bastante pobres: pouco diferem, se alguma coisa diferem, dos bairros de lata que temos por cá. Habitam-nas imigrantes idosos, reformados, ou jovens acabados de chegar aguardando oportunidade para ali se safarem. Todavia, mesmo discriminados pelos americanos, ao lado deles se colocam para discriminarem os africano-americanos descendentes dos escravos libertados pela Guerra da Sucessão. A exploração do homem pelo homem é um facto – mesmo entre os nossos imigrantes. Um conheci, para a idade de meu pai, grande “rancheiro”, que, lastimando-se das exigências dos trabalhadores de hoje, atentos às horas e não dispensando o over time sempre que a tarefa ultrapassa as oito horas, tem este desabafo: “Ainda se um home agarra um desses rapazes que chegam sem papéis… mas também assim que se põem legais, e há sempre tolos que os ajudam…”

Mas, tirando os que se encolhem naqueles bairros pobres, muitos alcançam, na Califórnia, um nível de vida, de conforto, com o qual, na ilha, ou no continente, na província, jamais poderiam sonhar. Com tal nível estão na Califórnia. Metem-se no carro, vão para o trabalho, saem do trabalho, entram no mini-mercado português, onde se vende mais caro que no super-mercado americano, mas tem a taberna disfarçada por detrás da porta ao fundo do balcão, empinam um copo, dois dedos de conversa com o parceiro, passam pelo banco quando lá têm que passar, e metem-se em casa. E em casa, das portas para dentro, vivem na Ilha. Na freguesia. Na aldeia do continente. A falar, a jogar às cartas, a virar copos, com os amigos, junto à pipa, na adega armada na cave. O que vai lá fora, mesmo os problemas de trabalho, não os interessa, não é com eles. Isto os imigrantes idos com certa idade. Os que partiram jovens, aí entre os 13 e os 20 anos, ainda balançam, pé lá, pé cá. Os outros, os que daqui partiram muito crianças ou nasceram já na América, regra geral não querem saber disto. Negam-se a falar português. Até se envergonham de serem portugueses. São “O(s) Adriano(s) da estória de Onésimo Teotónio Almeida, em (Sapa)teia Americana, por vezes a descambarem para o vício da droga e a prática do crime.

Da América propriamente dita. Despojem-se os europeus do preconceito megalómano de que a Europa ainda é tudo e a América ainda não deu mais que os primeiros passos nas vias da Cultura. As boas universidades americanas, andei por algumas, são autênticos mundos de organização modelar onde, com o que de melhor e mais moderno existe, se trabalha, com empenho e seriedade exemplares – e com o gosto que nos dá o trabalho feito em liberdade – pela conquista do Futuro. E descomplexadamente: tão descomplexadamente que nenhum concelho pedagógico e científico hesita, com carunchosas vaidades nacionalistas, em ir buscar, onde quer que ele se encontre, o mestre que lhes pode prestar bons serviços.

*Tirado de uma longa entrevista do meu O Imaginário dos Escritores Açorianos (1992 e 2013). Para uma maior compreensão da experiência americana de Dias de Melo sugiro a leitura (ou releitura) de Das Velas de Lona às Asas de Alumínio, Lisboa, Edições Salamandra, 1990. Publicado no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 12 de Fevereiro de 2016.

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