De Carlos Cordeiro e da sua geração*

Carlos Cordeiro

O presente trabalho insere-se no âmbito da História Regional. Nasce de preocupações vivenciais, da natural tendência de busca da própria identidade pessoal e da necessidade de encontrar no passado explicações para determinados aspectos marcantes da conjuntura açoriana dos nossos dias.

Carlos Cordeiro, Insularidade e Continentalidade

Vamberto Freitas

Bem sei que a epigrafe que abre este meu texto é um pouco longa, mas foi-me inevitável pelo que claramente sintetiza da pessoa e do professor universitário que foi Carlos Cordeiro até à sua aposentação recente. Foi extraída do seu livro Insularidade e Continentalidade: Os Açores e as Contradições da Regeneração (1851-1870), escrito ainda alguns anos antes da defesa e subsequente publicação da sua tese de doutoramento em 1999, Nacionalismo, Regionalismo e Autoritarismo nos Açores Durante a I República, contendo já, no conjunto da sua obra, que inclui ainda inúmeros artigos e ensaios publicados nas mais diversas revistas universitárias da especialidade (espero que ele os reúna em livro para que os possamos consultar com maior facilidade) todos os temas e períodos históricos que o ocupariam durante toda a sua carreira na Universidade dos Açores. Para além disso, torna-se evidente, especialmente na coletânea de textos por ele organizada e publicada em 1995 sob o título Na Senda da Identidade Açoriana (Antologia de Textos do Correio dos Açores), livro que comemora o 75º aniversário do diário micaelense e o seu papel na reflexão e dinamização da açorianidade política e cultural desde a sua fundação em 1920, que Cordeiro é um dos primeiros e mais atentos historiadores da nossa vida intelectual do passado e do presente, a literatura e textos culturais em geral constituindo outras fontes privilegiadas da sua atenção e escrita, do seu prazer como leitor e estudioso das nossas questões identitárias, o que o levaria, muito antes de outros colegas seus, a conviver e a participar, como organizador e interveniente directo em congressos e colóquios, entre os quais devo destacar os Encontros de Escritores Açorianos, que ele fundaria juntamente com Daniel de Sá, Urbano Bettencourt e Afonso Quental em 1989-1990, que depois teriam continuidade na Praia da Vitória em 1994, e nas Velas, em São Jorge, em 1998.

Conheci Carlos Cordeiro no primeiro Encontro de Escritores Açorianos, na Maia, quando ele já era docente da Universidade dos Açores há uns bons anos, e nem me passava pela cabeça regressar definitivamente a esta terra. Recordo esses momentos entre o grande grupo de açorianos e seus convidados nacionais e estrangeiros, vindos também de outras ilhas e continentes, que juntavam escritores, professores, jornalistas e outros literatos, com a emoção restrospectiva de quem agora sabe que foi a curva decisiva na sua própria caminhada em busca da realização e felicidade pessoais. Por essa altura, eu já tinha dedicado quase uma década a escrever no suplemento de cultura do Diário de Notícias, a pedido do seu então director Mário Mesquita, os ensaios e as entrevistas que viriam um pouco mais tarde a constituir o livro O Imaginário dos Escritores Açorianos. O Carlos Cordeiro sabia disto, conhecia os nomes e o esforço literário que alguns de nós a residir fora do arquipélago fazíamos para estabelecer as nossas questões literárias como tema legitimado de estudos, especialmente após Onésimo Teotónio Almeida ter fundado na Universidade de Brown em 1978 a primeira cadeira de Literatura Açoriana, e depois de ter organizado um encontro naquela instituição que reuniu também escritores, críticos e outros estudiosos um pouco de toda a parte. Nunca a política ou as nossas posições ideológicas teriam qualquer influência na nossa amizade e colegialidade. Carlos Cordeiro era já então um firme defensor deste campo de estudos e da literatura açoriana, cuja “existência” estava em discussão apesar de todo o espólio científico e criativo de um povo espalhado pelo mundo, e com descendentes que hoje pertencem a diversas tradições culturais e linguísticas, mas assim mesmo, desde os Estados Unidos e Canadá até ao sul do Brasil, perpetuam a nossa memória nas suas obras literárias e académicas, inclusive na língua inglesa. Foi essa visão inclusivista cultivada desde os últimos anos na década de 80, em São Miguel, continuada logo de seguida noutras ilhas, no continente português e na Diáspora, que nos levaria a disseminar e a debater entre nós essas obras e autores, a alargar consideravelmente os nossos arquivos criativos, a açorianidade abrangendo agora tanto as nossas comunidades no seu território histórico como no além-fronteiras, a nossa identidade – ou identidades – reivindicada e reinventada pelos que recuperavam a sua ancestralidade cultural, também imaginariamente e pelo conhecimento de alguns dos nossos textos de todos os géneros ou pelas histórias populares que lhes haviam sido contadas por pais e avós. Carlos Cordeiro trabalhava sistematicamente a nossa herança sócio-política e literária adentro das ilhas, de que o já referido Na Senda da Identidade Açoriana é um exemplo, atento, sempre, uma vez mais, ao que a nossa geração trazia e reafirmava nesse conjunto de comunidades mundiais, que passariam a formar a Décima Ilha, tanto real como mítica, rodeada de mar e terra por todos os lados, “ilhas em terra”, como nos poemas de João Teixeira de Medeiros. A sua obra vai muito além dos seus livros publicados, inclui ainda as suas intervenções em suplementos culturais e literários e em apresentações de livros, a sua escavação do passado sempre feita e vista na contemporaneidade que ele vive e tenta entender, este que é um tempo em que todos os povos se reposicionam não só nos contextos nacionais a que pertencem, mas sobretudo em relação ao resto do mundo, presente, todo ele, logo de fora das nossas portas, a geografia de todos os afectos e de todas as memórias o ponto de partida nas viagens incertas e inseguras, em busca sobretudo do nosso próprio ser, motivados pela nossa ansiedade humanística, pela nossa dignidade civilizacional.

Creio ser ainda de inteira justiça dizer que Carlos Cordeiro é um distinto representante de toda uma geração de historiadores formados na Universidade dos Açores, ou dos que chegados cá do exterior mais tarde viriam a dedicar-se à nossa historiografia. Falar de literatura sem esse contexto essencial, esse clarão (a imagem é de Walter Benjamin) de saberes e investigações, que ilumina todas as outras áreas das humanidades, seria não só uma impossibilidade como seria uma irrelevância meramente especulativa, sem qualquer enraizamento na experiência societal que nos trouxe até à nossa época. Se a literatura é também um retrato das sociedades em que está inserida ou lhe serve de fundo geográfico e humano, com toda a subjectividade que os olhares e a absorção dos leitores lhe lançam e assimilam, não pode nunca dispensar a narrativa histórica que está na sua génese, a narrativa feita de pedaços de descobertas, de nomes e de feitos que permaneciam escondidos ou esquecidos e que passam, quando vêm à luz do dia, a estimular e a dar forma artística às representações de todo um povo. Do mesmo modo, Carlos Cordeiro nunca deixou de ler e de reflectir, uma vez mais, sobre a literatura açoriana, pois é nela, no seu acto estético e temático, nas suas visões para além do que ficam como supostas “verdades” segundo os poderes públicos de cada época e das classes sociais que os dominam numa dada etapa histórica, onde mora a alma de um personagem apanhado na teia do tempo e dos acontecimentos, onde se rediz ou se recria a mítica colectiva desse mesmo povo. Na era da hiper-especialização, nada disto será o mais comum na academia, em qualquer parte, o que geralmente significa um recorrente diálogo entre pares, essencial ao desenvolvimento de outros trabalhos, mas limitado nas suas consequências, que deveriam ser muito mais generalizadas, impedido que fica de informar o que outrora se chamava, sem preconceitos, a classe culta, a cidadania esclarecida, a que permite a governação limpa e a dinâmica enriquecedora numa comunidade. A escrita de Carlos Cordeiro, parafraseando outro escritor que falava um dia de questões similares, tem a saga dos factos como argumento, mas nunca se refugia numa terminologia hermética, muito menos ostenta, como se fora numa enciclopédia, o saber desconexo entre supostas teorias e a pratica do texto legível, cujas significações não se perdem na ofuscação, deliberada ou para esconder a insegurança do autor, da frase, digamos, tortuosa. A sua escrita é a narrativa inteligente e clara dos factos, a construção de ideias e propostas que para sempre farão parte do mosaico que é a nossa História dupla – a do país no seu todo e a regional, a ambiguidade da nacionalidade, da portugalidade e da açorianidade repartidas por continentes e ilhas. A obra e o homem merecem esta homenagem, este agradecimento dos colegas e dos amigos – em nome, ainda, da sociedade que é a sua, do seu sentido de pertença a algo maior de qualquer um de nós, da crença no futuro que a obra de um historiador como ele nos permite, ao apresentar-nos em traços largos as origens, remotas ou mais recentes, do nosso ser em e como comunidade.

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*Texto escrito para o livro de homenagem ao Professor Doutor Carlos Alberto da Costa Cordeiro, após a sua aposentação recente da Universidade dos Açores, e que será apresentado brevemente.
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