As metáforas da nossa condição, ou a história dos vencidos

capa Os Navios da Noite

Apesar de se acharem a salvo, continuam a sentir-se na condição de náufragos do Kaiser, não das águas que nele tinham atravessado.

João de Melo, Os Navios da Noite

Vamberto Freitas

Suponho que tanto o título deste texto como a própria epígrafe parecem enigmáticas, mas o seu sentido tornar-se-á claro quando lá chegarmos em poucas linhas. Estes últimos dois anos foram como que a celebração de mais um “regresso” para João de Melo, após uma ausência de quase uma década em Espanha, onde esteve como Conselheiro Cultural na nossa embaixada: comemorou os vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas com a 25ª edição do romance, e pouco depois segui-se 8ª de O Mundo Não É Deste Reino. Entretanto, publicaria ainda um novo romance, Lugar Caído No Crepúsculo. Há poucos dias, foi-lhe atribuído o Prémio Literário Vergílio Ferreira pela totalidade da sua obra. Estou em crer que a palavra náufrago é a que contém as principais metáforas não só de um romance ou conto do autor, mas de toda a sua obra. Não acredito, no entanto, que um autor escreva sempre o mesmo o livro. Chama a si, isso sim, o desafio de ver, rever e representar a condição humana a partir de perspectivas que lhe parecerão mais claras e abrangentes (universalizadas, se assim o preferirem), e será necessariamente da sua língua e das suas geografias de afectos ou sentido de pertença — questão, esta, também sempre em aberto na sua escrita – de onde parte para esse desafio, ou para exteriorizar nas palavras as suas obsessões. Um artista autêntico só obcecado nos oferecerá algo de significante, memorável, duradouro. Não podemos falar num género único ou numa forma artística que constitua a “grande” literatura do século passado, ou já nos nossos próprios dias. O certo é que a palavra cristalina, a frase depurada, a mistura entre um realismo puro e a poetização das imagens, meras descrições ou tonalidades das linguagens, parecem marcar a maior parte das obras a que regressamos ou que escolhemos para novas leituras. Não faltam entre nós os debulhadores de prosa triturada e ilegível, partindo frequentemente dos mais obscuros referentes culturais e linguísticos. Admiro imensamente quem se deleite com algum suposto experimentalismo literário, esse de imagens e referenciais tão pessoalizados que só o próprio autor entenderá. Prefiro a busca de sentidos que a frase clara poderá emitir nos mais inesperados contextos. Tem sido isso que toda a obra de João de Melo nos transmite – a história de um povo, revista e contada pelos que a sofreram sem a provocar, a humanidade a saque ante as forças a que raramente pertence ou a compreende. Disse-me um dia um crítico, noutro contexto, que boa parte da literatura latino-americana trabalha insistentemente um só tema – a circularidade violenta e sem fuga da vida infernal na sua própria modernidade pós-colonial. João de Melo é português e europeu, mas dá continuidade a essa ideia de que também as nossas vidas privadas estão intimamente subjugadas pela História, quer a do seu próprio país, quer a que agora se desenrola no contexto mais vasto da globalização, na qual o nosso estatuto no mundo não difere muito do de outros povos, perpetuamente em negociações para a mera sobrevivência. São esses Os Navios da Noite de que nos fala neste seu novo livro de contos, cada um deles constituindo uma visão da sorte colectiva de um povo, e ainda mais de como cada uma das suas personagens age e reage na emergência sem fim em que se tornou o quotidiano, agora guiado por máquinas e não pelas estrelas.

Os Navios da Noite contém, no seu centro, a narrativa que ultrapassa a ideia de conto, tanto na diversidade de personagens como na visão plural dos destinos dos que vão em alegres férias a bordo do cruzeiro alemão Kaiser, rumo às Caraíbas. É uma novela que nos coloca no nosso presente europeu de medo e enganos. O navio parte do norte da Europa com várias nacionalidades a bordo, e em Lisboa recebe alguns eufóricos casais portugueses, finalmente a gozar as poupanças da nova pequena burguesia, albergando todas as idades. A primeira paragem é a Madeira, o paraíso sempre descoberto pelos continentais de todas as cores e línguas, a outra “Europa” ainda desconhecida para além dos burocratas e banqueiros ao longe que olham para os mapas, emprestam dinheiro e decidem do grau de felicidade atribuído a cada um dos “seus” recantos. Dos seus habitantes ninguém diz nada – continuam invisíveis. A teatral geografia, essa sim, é admirável e surpreendente. Há mais comida, bebida e sol a bordo da moderníssima fortaleza marítima alemã, cada grupo atendido por um tripulante que fala o seu idioma e percebe das suas manhas. A meio Atlântico, um incêndio na casa das máquinas paralisa o navio nas ondas, ora serenas ora bravas, e acaba a flutuar, parado durante dias, com toda a sua tecnologia inutilizada. Pouco depois, dá-se a mais contundente miséria a bordo, ao longo de dias, com a ameaça da morte a rondar por perto. O Kaiser é finalmente salvo por dois rebocadores insulares que o trazem de volta ao Funchal. Creio ter lido um dia que na nossa era nunca haveria Titanic, pois as comunicações e novas tecnologias não o permitiriam. Too big too fail/Grandes de mais para falharem, dizem em relação a outros e mais importantes pilares das nossas sociedades. Pois. Numa cena inesquecível, o narrador descreve o navio quebrado no oceano, e a bandeira alemã ao vento sinalizando perigo. Cada grupo trata de si, uns recuando ao seu hábito da solidão sem voz, outros em bandos surpresos por tal sorte, a grandeza de salas desfeitas, paredes rachadas e fedorentas de despejos que as inundam, alimentos podres e intragáveis, salsichas alemãs enlatadas como a última refeição a bordo. Seria redundante da minha parte atrever-me a uma qualquer sugestão hermenêutica, dizendo só que uma prosa que a princípio nos parece objectiva ou descritiva depressa se transforma numa sucessão de imagens brutalmente realistas e ironicamente poéticas, deixando ao leitor a responsabilidade de uma interpretação metafórica do que representa, ou do impulso temático que julga topar nesta novela.

Há contos que aqui me tocaram de modo especial, pelas suas linguagens tanto precisas como emotivas, a comédia colectiva dos nossos dias escondendo sempre a tragédia de cada um apanhado no seu labirinto, no seu desalinhado e decadente casario citadino, ou num destino que nada teria a ver com os sonhos e os pequenos desejos de outras personagens rurais quando a vida lhes sorria. Em “O Regresso de José Maria” o narrador, de nome João da Ega, continua a servir de alter ego e agora de cicerone a Eça de Queirós, que regressa e vê a evolução arquitectónica de Lisboa, não a reconhecendo, olhando só a sua pós-modernidade, comentando sempre as novidades anárquicas das ruas e avenidas, restando-lhe a língua portuguesa, que “continuava a ser a sua morada”, como outrora o fora nas suas andanças literárias e diplomáticas. No outro lado do riso, estão os contos como “A Ideia do Meu Pai”, em que o protagonista o revisita nas suas últimas horas de vida, amparando-o na insistência da dignidade perante toda a decadência, a sua e a dos campos que o rodeavam nos anos da juventude, nos dias dos humildes sonhos para si e para os seus, retrato implacável de velho patriarca camponês num país sem presente nem futuro, de terra abandonada, imagem superior e de todo significante de um país esquecido e escarnecido, em que um homem morre nele e com ele, como morrera outra voz maior da nossa poesia. Muitas destas páginas fazem-nos lembrar a prosa inconfundível do autor açoriano no seu melhor quando é do amor e do ódio que nos fala, da ancestralidade atribulada de pais e mães numa existência que continua, parece, sem redenção possível. Da sua cadeira de moribundo, vê-se não o mar libertador e de aventuras sem fim na nossa história, mas a terra devastada e sem aprumo de um país à deriva, chorado, como no enterro deste outro português, só pelas carpideiras de serviço, e quase morto no coração de outros. Em “Sic Transit Gloria Mundi” dá-se o reencontro de uma mulher que havia estado fora do país nos últimos quinze anos. O narrador vai-lhe falando do inevitável esquecimento de tudo e de todos os que ficaram. A paisagem não será nunca a mesma, as nossas próprias mudanças interiores não nos permitindo voltar às origens que um dia deixámos. “O meu país” – relembra-lhe – “nunca fez muito por aqueles que a ele regressam, e menos ainda fará pelos que partiram e não mais voltaram nem voltarão. Foi acontecendo assim, época após época e de século para século até entrar no inconsciente histórico deste nosso lugar comum de partidas, sem volta possível nem regresso definitivo a casa”. Não se pode, sabemos, voltar a casa, como diria também Thomas Wolfe num dos seus romances.

Os Navios da Noite. Os nossos e os dos outros, a vida contemporânea no seu assustador desconcerto. Ao negrume de todas as narrativas destas páginas, a última, “Pão com Laranjas”, como que equilibra e insiste na celebração contida mas possível da nossa existência, a aceitação do mundo tal como ele é ou está, a rejeição de qualquer pacto faustiano em troco seja do que for, perdendo a alma em troca de felicidades momentâneas. Há dois dias e duas noites – escrevi noutra parte e dediquei a quem, muito perto de mim, me lembra como ninguém da obrigação do sorriso, na luz e na escuridão – vi que ele está quase em frente à tua janela, no mistério do seu abandono. De dia parece o navio fantasma, de nenhures. Na noite vira cidade bela e iluminada, como se fora vista do ar. Brilho e silêncio, vida. A vida toda.

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João de Melo, Os Navios da Noite, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 26 de Fevereiro de 2016.

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