Sobre BorderCrossings: leituras transatlânticas III, de Vamberto Freitas.

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Teresa Martins Marques

Começo por agradecer a Vamberto Freitas o convite para vir aos Açores apresentar este seu livro, convite que aceitei com o maior gosto, dado que há muito conheço a qualidade do trabalho do autor. Agradeço também o simpático acolhimento da Livraria Solmar, a quem felicito na pessoa dos seus proprietários, Maria Helena e José Carlos Frias, pelas bodas de prata do seu estabelecimento, que é uma referência nos Açores. Foi esta Livraria o primeiro espaço onde apresentei, em 2000, uma leitura de um conto inserto no volume Entre Pássaro e Anjo de João de Melo. Refiro-me ao conto «Postumografia de Pedro-o-Homem» que ainda no ano passado tive ocasião de levar para um Congresso na prestigiada Sorbonne Nouvelle, dada a actualidade do tema em questão. Veio esse convite no ano 2000 da parte da grande senhora a quem este livro é dedicado. Por isso ele me agradou logo na dedicatória: “Para a Adelaide, a memória de termos sido.” Sabendo-se que Adelaide sofre de um deficit de memória, Vamberto vai oferecer-lhe o que de mais precioso ela já não tem: a memória de ter sido a grande companheira em muitas situações e todas elas relevantes. A memória de uma grande cumplicidade que não se apagará, pois basta que um deles recorde para a fazer existir e persistir.

Ao terminar a leitura deste livro consolidei a ideia de estarmos perante um trabalho de altíssimo nível, assinado por alguém que revela uma cultura muito vasta no que ao cânone ocidental respeita, com particular incidência nos domínios anglo-saxónico e açórico. Vamberto Freitas é hoje um nome muito reconhecido e prestigiado no ensaísmo e na crítica literária não apenas nos Açores, mas também junto das comunidades luso-americanas e luso-brasileiras. No continente o seu nome começou a ser ventilado desde finais dos anos 70, enquanto correspondente e colaborador, na Califórnia, do suplemento literário do Diário de Notícias, sendo hoje reconhecido por prestigiados intelectuais portugueses de que constituem exemplo maior Eugénio Lisboa, Lídia Jorge, Teolinda Gersão, José Carlos de Vasconcelos, Ernesto Rodrigues, para além de muitos outros que embora residindo no continente têm raízes açorianas.A obra que Vamberto vem dando à estampa, desde 1990, compreende já 13 volumes, para além da sua actividade como tradutor de alguma ficção de Katherine Vaz, em 2002, e de poesia de Frank Gaspar, em 2006 e ainda de bom número de estudos críticos e ensaísticos sobre literatura norte-americana e açoriana em diversas publicações nacionais, americanas ou brasileiras incluindo revistas ou jornais cujas páginas literárias ele mesmo dirigiu, actividade muitíssimo meritória em termos culturais. É justamente o caso do Suplemento Açoriano de Cultura (SAC) do Correio dos Açores, que coordenou entre 1995 e 2000, bem como do Suplemento Atlântico de Artes e Letras (SAAL) da revista Saber Açores, entre 2003 e 2006, tendo eu mesma enquanto colaboradora, seguido de perto o seu excelente trabalho nestes órgãos. A página semanal de crítica literária BorderCrossings que actualmente mantém no diário Açoriano Oriental, de Ponta Delgada e a coluna Nas Duas Margens, no semanário Portuguese Times de New Bedford mais não são do que a continuação daquele intenso labor literário que se viu recompensado em 2015 através da justíssima atribuição da Insígnia Autonómica de Reconhecimento por parte da Assembleia Legislativa e do Governo Regional dos Açores. Quem quiser obter uma perspectiva minudente do pensamento crítico deste homem, leia a entrevista que encerra com grande proveito este volume, conduzida por Millicent Borges Accardi. Na verdade Vamberto Freitas é um caso raríssimo no panorama das nossas letras pela sua desenvoltura cultural e ecletismo que lhe permitem conciliar no seu trabalho ensaístico e crítico aspectos que raramente vemos conciliados no ensaísmo que se pratica em Portugal, a saber: a capacidade de fazer leituras minudentes que lhe vem da sua formação americana e da convivência com a escola do new criticism à qual acrescenta a herança de Edmund Wilson, que detestava os new critics e desta simbiose particularíssima resulta o procedimento crítico vambertiano que analisa com lupa, quando é necessário ver de perto, mas que não descura a visão ao largo ou seja os aspectos históricos, geográficos, sociológicos e psicológicos que contextualizam as obras e autores.A crítica literária de Vamberto, muito mais do que judicativa, revela uma função iluminante dos textos, sendo capaz de criar curiosidade e empatia no leitor, fazendo-o desejar ler as obras que nos apresenta. É justamente para isto que deve servir a crítica e a análise dos textos. Vamberto revela-se não apenas crítico, não apenas ensaísta, não apenas historiador cultural e literário, mas também escritor de ideias, fenómeno raro como Einstein fez notar a Paul Valéry. Não sei se conhecem a história que vem contada pela pena de José Rodrigues Miguéis n’O Espelho Poliédrico: Paul Valéry perguntou a Einstein se não trazia sempre consigo, no bolso, um caderninho para anotar as ideias que lhe acudissem. Einstein respondeu-lhe, prazenteiro: Ideias? Mas ter ideias é uma coisa rara! Miguéis conclui: “A fórmula da Relatividade cabe na cabeça de um fósforo e pode pegar fogo ao mundo.” Na realidade ter ideias é raro, raríssimo e frequentemente confundem-se ideias com opiniões, que muitas vezes são mero decalque de opiniões de terceiros. A escrita de Vamberto é clara, coerente e inteligente. Poucos serão hoje os que entre nós conhecem a obra desse grande crítico modernista norte-americano, Edmund Wilson, que exerceu a sua actividade desde os anos 20 até à década de 70, do qual Vamberto é seguramente o maior especialista em Portugal, estudando-o desde os anos 70. Este livro que hoje apresentamos traz-nos páginas notáveis extraídas de um extenso e inédito ensaio também da autoria de Vamberto sobre a obra de Edmund Wilson.É do maior interesse este texto sobre esse homem incómodo que entre 1946 e 1955 se recusou a pagar impostos como forma de protesto contra os gastos militares, movendo a maior campanha na América contra o fisco. Diz-nos Vamberto que “foi nesta altura, irónica e justamente, que o Presidente Kennedy o condecorou com a Medalha Presidencial da Liberdade. O IRS tentaria impedir a condecoração, mas Kennedy responderia que esta contemplava o contributo de Wilson à literatura e cultura do país e não “à boa cidadania”. Wilson era avesso a entrevistas, todavia é um dos críticos e ensaístas do século passado mais biografados no seu país, muito mais ainda do que a maioria dos ficcionistas e poetas da mesma época.

Vamberto toma Wilson como figura modelar não apenas na irrequietude e descrença na canonicidade do pensamento, mas também como investigador das mais díspares culturas nomeadamente a do Canadá e a do Haiti (e cito) “que ele via como não só oferecendo outras faces criativas e culturais da grande tradição do Ocidente, que ele tão completamente havia interiorizado, como agora contestava a hegemonia cultural e política sobre alguns desses povos oprimidos, ignorados e marginalizados.” Diz-nos ainda Vamberto que nesta busca dos saberes de esquecidos povos, Wilson vai desde a antiguidade dos Essênios até à contemporaneidade francófona do Canadá, passando ainda largamente pelas comunidades nativo-americanas dos dois extremos do continente, assim como pelos israelitas, e outros povos das Caraíbas. Muito antes do reconhecimento nas universidades americanas, já Wilson lia e apreciava toda a obra de Aimé Césaire, da ilha de Martinique; Wilson leu Césaire a caminho do Haiti, em 1949, quando se preparava para uma série de reportagens sobre a respectiva cultura, as quais viriam a constituir uma das secções do significativamente intitulado Red, Black, Blond and Olive.

Ao descrever a figura de Wilson, Vamberto mira-se no espelho da exemplaridade, resgatndo-o real e simbolicamente das margens esquecidas e ignoradas pelos críticos portugueses, com raras excepções, entre elas Eugénio Lisboa e David Mourão-Ferreira que foi a primeira pessoa que apresentou Wilson a Eugénio Lisboa.

Vamberto vai buscar a Gore Vidal as palavras certas sobre Wilson e sobre The Cold War and the Income Tax: A Protest: “Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não o saibam) o grande defensor cultural da América. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada, significa que é o fim de tudo o que os nossos fundadores esperavam vir a ser um país onde a felicidade seria utilmente procurada.”

Será talvez conveniente conhecer a campanha que Vamberto moveu no facebook contra o governo de Passos Coelho e Paulo Portas para melhor perceber os vasos comunicantes entre a campanha de Wilson e a sua própria campanha. Até mesmo aqui acompanho Vamberto: toda a escrita crítica ou ensaísta está eivada da nossa visão do mundo. Cedo aprendeu que “a grande literatura é sempre um retrato não apenas de um indivíduo e suas circunstâncias – como Ortega y Gasset escreveu -, mas também de toda uma sociedade ou comunidade.”

A relação entre literatura e sociedade é a linha de força deste livro, conforme o seu autor não deixa de apontar logo na introdução ao dizer-nos que este terceiro BorderCrossings “segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar.” Para Vamberto a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos.”Mas esclarece que é de literatura que aqui se trata:” Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é condição humana. “A atenção aos avanços e recuos civilizacionais plasmados nalguma literatura europeia levam Vamberto a escrever sobre a questão islâmica comentando o controverso romance Submissão de Michel Houellebecq e não fugindo às reflexões políticas, culturais e étnicas que ensombram a actualidade considerando o autor “ um dos poucos escritores europeus contemporâneos que tem a coragem de lançar na literatura as mais pertinentes questões que estão, mesmo que não sejam evidentes a muitos de nós, a determinar o rumo de uma Europa que deixou de saber qual é o seu papel no mundo, e, muito mais grave ainda, como manter a sua paz interna ou relançar a justiça económica para todos os seus cidadãos.” A reflexão sobre a Europa leva ainda Vamberto a tecer considerações muito pertinentes sobre o volume A Identidade Cultural Europeia, assinado por Vasco Graça Moura, e publicado em 2014, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Encontramos aqui estudos muito pertinentes de outros escritores e poetas que não têm relação directa com os Açores. É o caso de Eugénio Lisboa e do volume IV de Acta Est Fabula, que compreende as memórias do autor entre 1976-1995 em Joanesburgo, Paris, Estocolmo e Londres. O grande romance da revolução de Abril, Os Memoráveis, de Lídia Jorge merece a Vamberto reflexões muito positivas, num contexto em que este romance se viu descriminado pela crítica portuguesa, mas não pela francesa, e posso garantir que ouvi da boca da autora esse lamento na cerimónia em que se fez excepção atribuindo-lhe o prémio da Fenprof, de cujo júri participei. Uma vez mais Vamberto viu bem o que outros não enxergaram. Assim com o romance Passagens, de Teolinda Gersão, ou O Sonho Português, de Paulo Castilho, ou A Máquina do Mundo, de Paulo José Miranda, ou O Retorno, de Dulce Cardoso, O Tempo é Renda de Isabel Mendes Ferreira, Até para o ano em Jerusalém, de Maria da Conceição Caleiro, ou Passos Perdidos, de Ernesto Rodrigues, ou A Mulher que Venceu Don Juan, da autora destas linhas. De salientar neste livro as finas análises da Obra Poética, de Manuel Alegre – Praça da Canção na sua 4ª edição ou o recente Bairro Ocidental. Lembro que Manuel Alegre acaba de ganhar o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e uma vez mais tenho a honra de ter pertencido a este júri.

Entre os brasileiros que mereceram atenção crítica de Vamberto encontram-se Rubem Fonseca, com a sua Amálgama de prosa e poesia; Chico Buarque, com o romance O Irmão Alemão, que tem por base eventos da vida do autor, nomeadamente esse irmão desconhecido; Daniel Galera, com o romance Barba Ensopada de Sangue, e ainda aqui estamos perante a questão da identidade temática tão do agrado do nosso crítico; uma visita ao Rio Grande do Sul através do romance de Paulo Scott Habitante irreal e o Fim de Fernanda Torres, por sinal o seu início como romancista numa supreendente estreia literária. O leitor ávido de cultura americana e luso-americana encontra ainda neste livro diversas exegeses acerca de autores sobre os quais já correu muita tinta, mas que Vamberto revisita trazendo a sua visão certeira, entre eles Alfred Lewis, Chomsky, Harold Bloom, Charles Reis Felix, Michael Cunningham, Harper Lee, Sinclair Lewis, , Jonathan Franzen, ou a deliciosa visão de Hemingway, pelos olhos de quatro das suas mulheres e pela mão de Naomi Wood.

Last but not least, aqui se rende homenagem aos autores açorianos: Onésimo com Minima Azorica: O Meu Mundo É Deste Reino, piscando o olho ao romance de João de Melo, aqui também contemplado com uma recensão a propósito da sua oitava edição e como não podia deixar de ser, a comemoração dos 25 anos de Gente Feliz Com Lágrimas, o seu emblemático título, não esquecendo o último Lugar Caído No Crepúsculo. Ainda aqui concordo com Vamberto: a temática açórica é de longe a mais conseguida na obra deste autor. Grande romance de língua portuguesa é o de Álamo Oliveira, Marta de Jesus: A Verdadeira onde nos surge Jesus como guerrilheiro anti-Poder, o que Vamberto muito bem assinalou. Como sátira à vida académica, Rapariga Celta Sentada num Javali, de Artur Veríssimo é um romance que todos devem ler e ao qual Vamberto presta merecido tributo, tal como à prosa de humor incessante, do autor de Porta Azul para Macau, João Pedro Porto, um jovem recém admitido na Associação Portuguesa de Escritores.

Vários outros poetas ou prosadores merecem atenção crítica de Vamberto, entre eles Machado Pires, Mário Mesquita, José Medeiros Ferreira, Aníbal Pires, Carla Lima, Leonor Sampaio da Silva, Daniel Gonçalves, Fernanda Mendes, Joel Neto e sobretudo Emanuel Félix, de quem analisa a Obra Completa, Volumes I, II e III com coordenação e revisão de Vasco Pereira da Costa, trabalho que Vamberto ressalva com grande ênfase: “Juntar o trabalho completo e público de uma vida envolve muito mais do que o conhecimento aprofundado e capacidade de avaliação de uma obra tão consequente como esta – exige, em igual medida, uma noção de ética que nem sempre é lembrada em trabalhos como este.” Estas considerações aplicam-se igualmente a Vamberto Freitas e por isso lhe agradeço a inestimável missão literária e cívica a que se tem devotado, fazendo votos de que estes excelentes trabalhos venham a conhecer uma ampla divulgação como merecem pela espantosa abrangência de conteúdos, de análises e de sínteses, constituindo uma arte de saber ver, saber escrever, saber pensar.

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Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas III, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2016.

*Texto lido na apresentação do livro na Livraria Leya/SolMar, a 18 de Março de 2016

O longo eco de um intelectual nova-iorquino

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Os Intelectuais de Nova Iorque foram o primeiro grupo de escritores judeus que saiu do meio imigrante sem se auto-definir levando em conta o relacionamento, nostálgico ou hostil, com as suas memórias do judaísmo.

Irving Howe, A Voice Still Heard

Vamberto Freitas

Será assim como disse o eminente crítico e ensaísta Irving Howe (1920-1993), e que cito aqui em epígrafe, que ele e os seus amigos e colegas nova-iorquinos iniciariam as suas carreiras tentando então demarcar-se do histórico legado europeu dos seus pais e avós, mas depressa seriam, e permaneceriam até hoje, identificados por todos como escritores “judeu-americanos”. No caso de Howe, esse regresso à sua casa ancestral acabaria em grande já a meados da vida, quando nos anos 70 publica o seu substancial volume intitulado precisamente The World Of Our Fathers, uma narrativa de grande fôlego que combina a história da grande emigração judia oriunda maioritariamente do Europa de Leste para os Estados Unidos no fim do século XIX, e intensificando-se nas primeiras duas décadas seguintes, com a cultura que traziam consigo e depois adaptada às novas circunstâncias, particularmente nos bairros pobres de Nova Iorque na época do capitalismo absolutamente selvagem. Howe enfatiza aí o contrário dos estereótipos habituais que rodeiam ainda hoje o seu grupo – eram, como todos os grupos nacionais que arribavam ao Novo Mundo, pobres e com uma educação formal mínima, vitimas tanto do anti-semitismo europeu como das forças económicas que dominavam as suas várias sociedades. Esse livro de Howe é por muitos considerado o seu magnum opus, mas a sua obra ensaística estritamente literária e política é igualmente, sabemos em restrospectiva, de uma grandeza que poderá ter sido igualada por outros, mas abriu largas brechas na nossa visão e entendimento da literatura americana em geral, inclusive a sulista, com William Faullkner ao centro. As suas abordagens combinam também essa dualidade do seu ser, formação e, diria, intencionalidade ideológica – o estudo e análise profunda da literatura realista e modernista europeia com as obras canónicas dos seus conterrâneos norte-americanos assim como os primeiros lançamentos de escritores judeu-americanos, hoje imediatamente conhecidos e reconhecidos como vozes da melhor literatura em toda a parte – Saul Bellow, Norman Mailer, Philip Roth e Bernard Malamud, para não falarmos neste momento de alguns dos quase esquecidos, como Joseph Roth e Delmore Schwartz. Relembremos ainda que em 1978 Isaac Bashevis Singer, imigrado da Polónia em Nova Iorque, receberia o Prémio Nobel. Singer tem uma outra distinção entre todos os que receberiam tamanho reconhecimento internacional – escreveu sempre em Iídiche, mesmo após longos anos na sua nova pátria. Era depois traduzido para o Inglês, e publicava os seus contos e outros textos num jornal judeu-americano. A influência destes escritores e intelectuais chegou a ser tão ampla que despertou invejas de vária natureza, levando Gore Vidal a dada altura, na sua língua afiada e muitas vezes sem tento, a acusá-los de constituírem uma Quinta Coluna, creio que tanto na política interna do país como na sua cultura literária. Foram estes ensaístas que mais me aproximaram da minha própria experiência de vida americana, muito antes dos escritores luso-descendentes que haveriam de surgir entre nós em décadas posteriores. Eram eles que, para mim, representavam a insistência da pertença naquela sociedade, vindos de lares e ruas que sofriam ainda maior discriminação do que muitas outras minorias étnicas, eram eles que através do seu compromisso com a vida intelectual haveriam de cultivar e expandir os seus jardins com um brilhantismo e racionalidade pouco comum em qualquer parte, e mesmo durante os “tempos” – a maior parte deles começaria a sua carreira nos anos 30-40 – que outra escritora judia, que também acabaria os seus dias naquelas partes, Hannah Arendt, chamaria de “escuros”.

A Voice Still Heard: Selected Essays of Irving Howe foi organizado pela sua filha, Nina Howe, e prefaciado por Morris Dickstein, um respeitado professor universitário especializado na literatura norte-americana. Os ensaios aqui incluídos eram bem conhecidos pelos leitores mais atentos à vida literária do país, mas esta nova compilação significa algo mais: as gerações presentes não deixaram morrer ou esquecer as vozes que ainda são e merecem ser ouvidas. Irving Howe, para além da sua constante colaboração em periódicos político-literários, como os famosos e históricos Partisan Review e Commentary, fundou em 1954 e dirigiu até ao fim da sua vida a revista Dissent/Dissidência, cujas páginas interligavam e ainda hoje interligam a política e cultura, o socialismo democrático cimentando as suas opções editoriais, a ideologia, no entanto, não interferindo com qualquer obra literária cuja grandeza merecesse a devida análise, contextualização e disseminação entre as classes cultas do país. Ironicamente, Irving Howe, que acabaria integrado – como muitos dos seus colegas das letras – em faculdades de línguas e literaturas, viveu os seus últimos anos numa postura abertamente antagónica à então chamada contra-cultura, que marginalizava e por vezes denegria os Intelectuais de Nova Iorque pelas suas posições então consideradas pactuantes com as classes dominantes. Howe, hoje considerado uma das consciências éticas e estéticas do grupo e mesmo de toda uma geração, nunca cederia na sua devoção à literatura séria, à política da liberdade e fraternidade. Visito as páginas digitais da Dissent enquanto escrevo estas linhas, e topo um artigo analítico sobre Bernie Sanders, um dos candidatos presidenciais nas Primárias 2016 do Partido Democrático. A ironia da nossa vivência traz, pelo menos desta vez, o lado luminoso de uma luta que parecia perdida ainda há poucos anos – não necessariamente levando o socialismo democrático ao Poder nos EUA, mas, sim, finalmente legitimando as batalhas intelectuais que Irving Howe travou sem freios durante uma vida inteira. De salientar que muitos dos Intelectuais de Nova Iorque passariam para o outro lado da barricada –- Irving Kristol sendo a sua face mais conhecida e comentada – na década de 70, nos anos de Richard Nixon e Ronald Reagan tornar-se-iam os grandes ideólogos entre os chamados neo-conservadores. Que diria agora o grande ensaísta, que em vida teve tantos admiradores como detractores, e quantos apoiantes mais novos de Sanders saberão que antes do corajoso político em campo houve um Irving Howe, como houve uns poucos outros escritores persistentes, convincentes, para quem a América era a pátria da liberdade e de todas as possibilidades? Um dos instantes que mais recordo com orgulho foi quando um dia entrei na sala de professores da secundária californiana onde leccionei durante catorze anos com um livro da Irving Howe na mão, e um colega que estava lá temporariamente me olhou e disse em voz baixa, so you also read him, he’s one of us/ também o lês, ele é um dos nossos. Nunca lhe perguntei se se referia ao seu judaísmo, ou ao critico literário. Pela minha parte, como português, não haveria nada a rejeitar em qualquer dos casos.

A presente colectânea de textos cobre um período de tempo que vai dos anos 50 até ao falecimento do autor. Foi uma época em que a América viveu o auge a Guerra Fria e debateu-se com a natureza de uma sociedade e um estado social que se consolidou por entre os mais acesos debates políticos. Um dos pontos de referência ou de partida para estes intelectuais foi a questão do Estalinismo, que fracturou permanentemente a convivência entre todo um rol de escritores que se tinham posicionado desde a Grande Depressão ao lado dos mais vulneráveis na sociedade em constante mutação. O certo é que foram pouquíssimos os que, como Irving Howe, mantiveram a sua crença numa sociedade mais igualitária, mesmo mantendo-se distante dos movimentos de rua que visavam essas transformações, sempre tidas como “radicais” pelo sistema vigente. Howe atravessou essas décadas mantendo intacta a sua credibilidade, quer como crítico literário e cultural, quer como comentador social e político, na sua própria revista e noutras publicações mais ou menos vanguardistas.

As coisas – escreveu ele em 1979 num ensaio comemorativo e intitulado ‘Vinte e Cinco Anos de Dissent” – pioraram. Isto foi devido ao desespero engendrado entre os mais novos pela guerra do Vietname., que eles viam correctamente como um escândalo político e moral; talvez também por uma noção romântica de ‘revolução’, que nasceu da sua aproximação inocente a líderes como Castro e Mao. Mas a meados dos anos 60 tinha-se iniciado um decisivo abandono dos sentimentos fraternais, rumo a um mal-digerido dogma, desde um bem intencionado mas desestruturado espírito de uma ‘democracia participatória’ à rigidez vanguardista de pequenos grupos, de um espírito da não-violência a um fascínio para-leninista com a violência…”

A solidez de pensamento e da escrita fundamentada no saber clássico, na reflexão contínua sobre o seu tempo e lugar, poderá ser ignorada por uma ou outra geração, mas passará irremediavelmente a ser parte viva do nosso património literário e intelectual. Uma Voz Ainda Ouvida é tanto uma homenagem a um grande homem de letras norte-americano como é mais um sinal de que, frequentemente, será a própria sociedade a confirmar a verdade dessas palavras – belas e carregadas de significado duradouro.

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Irving Howe, A Voice Still Heard: Selected Essays of Irving Howe (Edited by Nina Howe, Forwarded by Morris Dickson), New Haven and London, 2014. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 18 de Março de 2016.

A Ida e Volta de Vamberto Freitas

Eduardo Mayone Dias

Eduardo Mayone Dias

Conheci Vamberto Freitas há uns bons trinta anos. Era ele então estudante universitário e ensaiava os seus primeiros e tímidos passos pelo jornalismo e pela rádio. Às vezes tinha hesitações sobre certo termo ou expressão e telefonava-me com um pedido de esclarecimento. Hoje dá magníficas lições de bem escrever.

O Vamberto nasceu nas Fontinhas, na Ilha Terceira. Fez por lá a escola primária, entrou no liceu, desfilou pela Rua da Sé de camisa verde e S maiúsculo na fivela do cinto, talvez de braço estendido e cantando “Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados sim…” Bem, era no tempo em que todos nós, os da geração dele e os da minha, éramos levados, levados sim. Mais que tudo pelo S maiúsculo. Aos catorze anos acabaram essas verdejantes festividades. Então o Vamberto seguiu o destino de todos nós, esta quarta parte da população portuguesa que resolveu deitar a mala ao ombro e limpar os pés à saída do aeroporto ou da Estação de Santa Apolónia. Não foi só o pó que ficou lá. Foi também o sentir. Mas uma vida nova ia começar. E cheia de novidades e sobressaltos. O Vamberto tinha assistido na sua freguesia ao aparecimento da luz eléctrica e à chegada do primeiro tractor. Mas ao desembarcar em Nova Iorque nunca havia visto uma escada rolante, o que o deixou receoso de a enfrentar. Nisso eu, bastante mais velho mas habitante de Lisboa, levei-lhe a palma. Ainda recordo aquela maravilha dos anos trinta que era a escada rolante que permitia acesso ao terraço do Cinema Capitólio, no Parque Mayer. Mas depois disso nunca vi mais nenhuma lá pelas Lísbias até à inauguração do Metro. Não sei como o Vamberto deu o salto transcontinental de Nova Iorque a Tulare, a risonha cidadezinha meio portuguesa incrustada no Vale de San Joaquín. Talvez tivesse vindo de comboio, na longa viagem que também fizeram desde Ellis Island os nossos emigrantes de há quase cem anos. Com uma “águia” no bolso que em breve se esgotaria em desconhecidas comidas, compradas apontando para elas e mostrando uma mão-cheia de moedas.

Na Califórnia, diz Vamberto, aprendeu Inglês e Democracia. E, caso não muito comum para os da sua geração, naqueles fins da década de 60, entrou para a Universidade, obteve uma licenciatura em Estudos Latino-Americanos, o campo que mais o acercava ao Português. Um amigo proporcionou-lhe em 1974 um lugar de professor na escola secundária de Cerritos, cidade paredes meias com Artesia, esta grandemente povoada por gente dos Altares. Deu História e Inglês, assim como Português a alunos luso-americanos.

Lança-se também a escrever. Por esses anos tinha surgido em San José, ali no “Canto da 33”, pelas mãos do dinâmico, quase heróico João Brum, The Portuguese Tribune, uma surpreendente lufada de ar fresco no muito convencional jornalismo californiano em língua portuguesa. Vamberto entusiasma-se com esta iniciativa, começa a colaborar. Mas publica também artigo após artigo no Portuguese Times, na Gávea/Brown, no Açoriano Oriental, no mais antigo e prestigioso periódico lisboeta, o Diário de Notícias.   Neles, em penetrantes análises, debruça-se sobre uma variada temática em que sobressai a vida emigrante portuguesa, a sua literatura. São trabalhos de fundo que levam a outros horizontes incisivos instantâneos da nossa diaspórica vivência.

A década de 90 traz para Vamberto uma decisiva viragem emocional. Em Lisboa, num simpósio que bem recordo, conhece Adelaide Batista, cria com ela uma muito significativa comunhão espiritual que leva a que lhe dedique a sua vida. Adelaide representa o “meu sonho reencontrado, meu poema açoriano em movimento”. É então, em 1991, que rompe fisicamente com a Califórnia e se radica em São Miguel. Da janela do seu acolhedor apartamento em São Roque vê passar os navios mas não pode  determinar bem se vão para a América ou se de lá vêm. Haviam sido 27 anos de ligação à California, que não seria fácil esquecer. O regresso ao arquipélago natal tem contudo algo de culturalmente uterino. Após um breve e frustrante período na RTP Açores, volta ao ensino. Como Leitor de Inglês na Universidade dos Açores regressa a um bom convívio com os mais jovens. Também  Ponta Delgada lhe oferece um contacto directo com gente da cultura, com a impressionante emergência de uma sólida literatura açoriana. Continua a escrever, no Açoriano Oriental, no Diário de Notícias, na Vértice. Retoma com mais vigor uma faceta em que na Califórnia já se havia embrenhado, uma lúcida interpretação da América de hoje na sua caleidoscópica panorâmica. É a América de Perto e de Longe, título de um capítulo de um dos seus livros.  E lança no Correio dos Açores o “Suplemento Açoriano de Cultura”, do  qual, em cinco anos, se publicam 116 números. Por outro lado, este açórico reencontro leva-o a olhar à sua volta. Surgem então agudos ensaios sobre toda uma galeria de destacadas figuras das letras insulares, João de Melo, Martins Garcia, Cristóvão de Aguiar, Álamo Oliveira, Fernando Aires, Vasco Pereira da Costa, Almeida Pavão, Dias de Melo, Daniel de Sá ou Santos Barros. E nesta galeria não esqueçamos um açoriano expatriado mas nunca muito longe, Onésimo Almeida. A filosofia essencial destes escritos explicita-a Vamberto em palavras de 2001: “O que Vale Realmente a Pena? Viver. Amar a vida, amar os que nos amam.” É realmente uma obra de amor a que Vamberto Freitas até agora tem realizado e continuará decerto a realizar. Muito acertadamente reuniu toda esta colaboração dispersa por vários quadrantes numa dezena de volumes, na sua quase totalidade lançados após o seu retorno às ilhas de bruma. O título de um deles, Pátria ao Longe, sintetiza bem a sua dividida presença pelas duas ilhas pátrias e pela outra, a Décima, a Açorfórnia, se assim lhe podemos chamar. O livro é de 1992, portanto após a volta aos ambientes de antanho. Poderia pois ter-lhe chamado Pátrias ao Longe, não é, Vamberto?

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In Portuguese Times, 23.10.2003

Meteorologia açoriana e o continente como desterro

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É a minha vez de me expor, de contar histórias, de as cruzar comigo, o meu modo de ser, as minhas contradições e alterações de humor. De escrever um livro que um neto um dia encontrará e com o qual poderá tentar dialogar.

Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas

Vamberto Freitas

De todos os livros que Nuno Costa Santos vem publicando ao longo da sua carreira, os contos de dez regressos, publicado em 2003 pela extinta Salamandra Edições, então sob a direcção do seu fundador Bruno da Ponte, permanece o seu livro mais conhecido e, na altura, mais comentado por um apreciável rol de críticos. Retiro-o da nossa estante aqui em casa em preparação para as linhas que se seguem, e deparo-me com algumas das suas páginas sublinhadas a lápis e comentado nas margens. Foi a leitura da Adelaide Freitas, autora do Sorriso Por Dentro Da Noite, que seria publicado um ano depois. Releio alguns passos, duplamente fascinado – pela prosa contundente e ágil de um escritor então ainda tão jovem, e nada menos surpreso pelas palavras da minha grande companheira de vida. De entre os montes de livros nas nossas duas secretárias, ela não deixava nunca passar em branco nenhum livro de um autor açoriano, quer esse autor se visse como tal, quer ele se entendesse como sendo pertencente a geografias muito mais vastas e a cânones supostamente muito mais conhecidos e prestigiados, ou até como um candidato “nacional” ao Nobel. “Viagem em livro de aprendizagem”, “memória”, “e a memória sempre”, escreve ela progredindo na leitura; “note-se a subtileza a todos os níveis”, aponta outro o passo em questão. “Não era igual aos outros”, escreve numa das margens sobre um personagem ou protagonista, ou simplesmente reforça as suas palavras narrativas. Por fim, e entre outros comentários seus, viro para a última página, e encontro enfaticamente sublinhadas as derradeiras palavras do livro: “Só sinto pena de estarmos a consumir a nossa intimidade numa cidade que desconhece os nossos nomes e o silêncio da nossa baía”. A minha regra de nunca ler mais ninguém sobre um livro que eu próprio tenciono comentar foi-se desta vez, e ainda bem. Uma geração de escritores a ler a seguinte, com bondade e inevitavelmente com mente teorizadora, pois foi a nossa a primeira geração nos Açores com formação literária superior. Ouço, nesta tarde tranquila aqui no Pópulo, as vozes serenas de um autor que regressa em força à nossa convivência, e ouço com saudades a voz acutilante desta sua outra leitora, talvez um dos últimas livros que teve entre mãos antes de ser silenciada pela doença. Não vou tentar adivinhar o que a Adelaide diria agora deste novo romance de Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, mas tenho a certeza absoluta que não discordaria, pelo menos em parte, da minha apreciação. A palavra regresso é uma das mais constantes da prosa de Nuno Costa Santos, tal como já o eram em obras suas anteriores. A verdade é que o autor pertence a uma geração que nasceu e cresceu com a “revolução” da sociedade portuguesa a partir de 1974, e cedo começou a dar conta de si como novas vozes literárias, alguns deles atingindo hoje o estatuto ambíguo da maturidade, sabendo que o seu lugar nas nossas estantes ou se consolida agora, ou então passam eles a ser meras curiosidades de uma época, escritores de ocasião e por quinze minutos famosos. Creio que este romance é algo mais do que isso, do que um inevitável regresso à terra de nascença e de todos os afectos. É um retrato extremamente bem conseguido da vida açoriana nos tempos da maior agonia da nossa modernidade, e da insistente memória de que todos necessitamos contra a perdição no Nada, que as partidas também significam. O regresso a casa, na vida e na arte, não é um capricho, é o mais antigo mandamento desde a literatura dos gregos, é o princípio e o fim da poesia, a memória de termos sido como testemunho de quem somos ou de como nos entendemos entre todos os outros.

Céu Nublado com Boas Abertas coloca-nos no tempo presente quando, num apartamento lisboeta, cheio de memórias e que fora dos seus avós maternos, o protagonista-narrador descobre um romance inédito, Exílio na Montanha, do seu avô açoriano, João Pereira da Costa, (nascido nos Fenais da Luz, em S. Miguel), que foi como doente de tuberculose, contraída como militar nas Furnas, para os sanatórios do Caramulo nas décadas 30-40, e alguns anos depois como administrador bancário, transferido dos serviços da ilha para a capital. Narrado na primeira pessoa, a estrutura do romance é de uma audácia formal pouco habitual na literatura portuguesa, combinando biografia, autobiografia, historicismo, e um inusitado dialogismo bakhtiniano (o carnavalesco, diria o teórico russo, faz parte da tragédia de estarmos vivos) entre a obra presente e a que inesperadamente a desperta após a sua descoberta nas estantes agora só visitadas por um neto, esse que as lê e leva a cabo um outro pedido escondido do avô – quem encontrasse o seu romance fosse à ilha recolher outras histórias, como que numa actualização do que ficara dito por um escritor da geração desaparecida. Eis aqui a síntese possível de um romance que viaja entre os anos dessa geração, e a dos nossos dias, a sociedade açoriana lembrada numa época já então de um isolamento relativo e os dias presentes de um narrador-escritor regressado, uma vez mais, às origens e enfrentando a ambiguidade da sua própria identidade e razão de vida, apanhado logo de início numa teia policial que lhe vai permitir dissecar outras misérias que assolam a vida moderna nas ilhas, desce aos seus subterrâneos enquanto todos em volta fingem normalidade. A ilha, agora, é tão-só a metonímia das grandes sociedades em qualquer parte, só que o narrador não dispensa mais os cantos onde nasceu e aprendeu a amar ou a espreitar o resto mundo. Não vou repetir a temática do regresso (as frases soltas da Adelaide citadas anteriormente claramente dizem algo sobre isto) que faz da nossa escrita um corpus literário de grande autenticidade, quase sem igual no mundo da lusofonia, e aqui está um dos nossos mais eloquentes e bem conseguidos, creio que duradouros, exemplos em Céu Nublado com Boas Abertas, a própria meteorologia açoriana uma personagem dominante na nossa maneira de ver e obcecadamente adivinhar o mundo e os seus instáveis humores. A ideia de crime como ponto de partida para as mais recentes grandes narrativas referenciadas no arquipélago parece ser uma constante. Na obra presente leio as andanças de pequenos fora-da-lei repatriados e nativos ligados ao mundo da droga e da prostituição numa ilha atlântica como um contraponto bem mais ameno ao crime oficializado que era o da sociedade em geral na narrativa de Exílio na Montanha, a arbitrariedade entre a vida e a morte de todos um absoluto do seu quotidiano. Para além do sofrimento em o Céu Nublado com Boas Abertas, está o amor dessas mesmas gerações idas, tendo como antonímia o vazio existencialista da actualidade, um mundo de tudo e uma vida de nada. É delicioso passear-nos com o narrador deste romance por pequenas zonas e bairros micaelenses, reviver com ele o sentido das coisas quando a doce solidão e inocência pré-adulta são a memória a que mais nos agarramos. Céu Nublado com Boas Abertas é tudo, no entanto, menos um romance “inocente”, é de uma beleza extraordinária na dissecação e sugestão dos dias que se foram e dos dias que são os nossos.

Céu Nublado com Boas Abertas dirige ainda as suas vozes polifónicas a outros diálogos com a cultura popular (música e cinema) e erudita do mundo, não me surpreendendo nada saber que na estante que provoca toda esta outra narrativa está a Montanha Mágica, de Thomas Mann, que havia colocado o seu Hans Castorp noutro sanatório europeu, também nas vésperas de uma grande guerra no continente, e enquanto o seu vulnerável personagem tenta perceber o seu tempo e a sua vida em circunstâncias colectivas semelhantes. Nuno Costa Santos presta aqui uma outra homenagem a determinados escritores açorianos, mencionando títulos de obras ou citando-os directamente nestas suas páginas. A consciência de “arquipélago” – ironicamente não assim tão comum entre nós como se pensará – está também demarcada não tanto pela presença destes seus autores como pela origem de certas personagens do romance. Uma geração faz a cortesia a outra, a nossa tradição literária perpetuada, renovada, contextualizada nos vários tempos das nossas vidas, mesmo enquanto corta com ela numa espécie de contra-narrativa. Na originalidade e eficácia destas páginas, ao comover e a levar o leitor a repensar a sua própria história e a dos seus, a dos Açores e do restante país, nunca esquecendo outras e bem mais distantes geografias das nossas ligações ao mundo, recorda-nos como poucos de como a literatura açoriana se tornou uma das vivas componentes da literatura portuguesa no seu todo. Se as antologias canónicas ainda não deram por isso, poderiam começar por este romance. Que é mais um publicado numa grande editora nacional, também deveria significar qualquer coisa, nunca lhe retirando a especificidade dos seus referentes e contextualização geral. Não vale a pena insinuar aqui comparações, ou dar mais espaço a outros. Basta dizer que nos últimos tempos o acto literário originário ou, directa ou indirectamente, virado para as ilhas, é nada menos do que brilhante – para quem quiser e souber apreciá-lo, em todas as suas implicações.

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Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, Lisboa, Quetzal, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 11 de Março de 2016.

A ideia de “América”

capa Todas As Cores da América

Na globalidade, intersetando Literatura, História, Sociologia, Antropologia, entre outras disciplinas, procuro mostrar a dinâmica interétnica, numa nação complexa, por vezes em conflito, e sempre em mudança.

João de Mancelos, Todas As Cores Da América

Vamberto Freitas

Não há momento melhor para se falar de uma ideia de América do que os dias que correm. Um presidente afro-americano termina dois mandatos na Casa Branca, e dá lugar a uma campanha política entre os dois maiores partidos centristas, os que sempre governaram a grande república desde a sua fundação em Setecentos. Nada, no entanto, parece assemelhar-se a um passado ainda recente, no qual a dominação anglo-americana ia cedendo aos restantes grupos que constituem o mosaico étnico da sociedade em questões de direitos cívicos básicos, assim como na defesa das diferenças histórico-culturais entre todos. Presentemente, para além de toda a retórica em tempo de eleições, tudo isso está irreversivelmente cimentado na lei fundamental do país, não há recuo possível para um passado de segregação e discriminação aberta na memória de uma boa parte da população. Só que a lei traça rumos colectivos a seguir mas, como um dia também disse Martin Luther King, Jr., no auge da luta pela libertação e dignificação de todos os que se encontravam nas margens da vida pública, não muda corações, e temos visto ultimamente a exteriorização violenta de rua em que ainda certas atitudes patológicas, que parecem atávicas, manifestam-se de modo mortífero contra os cidadão de cor. Não são poucos os livros que continuam a avisar sobre a continuidade do racismo nas relações humanas norte-americanas. Mais do que estes discursos abertos sobre a cidadania magoada, a América demonstra, sempre demonstrou, outra capacidade política no seu seio. Donald Trump, associado ao Partido Republicano, expressa sem freio nas primárias partidárias em curso o que sabemos ser a vontade de um regresso a épocas do poderio imperial e da dureza social interna por uma parte substancial dos seus seguidores. Bernie Sanders, no outro lado do espectro político, liberta, sem medo nem quaisquer apologias ante os seus adversários, linguagens ainda há pouco quase proscritas na sua sociedade – a auto-designação de “socialista” era impensável para um candidato do Partido Democrático, mesmo sabendo que na sua ala esquerda o senador de Vermont não está totalmente só. Venha o que vier nos próximos meses, a verdade é que a América mantém o dinamismo da mudança por entre os mais vivos debates de memória recente. Vale a pena relembrar a todos que os que fazem frente a Trump, na mesma área ideológica, seja ele ou não eleito para concorrer à presidência da república, são dois filhos de imigrantes cubanos, um deles pertencente à primeira geração nascida nos Estados Unidos ou, como no caso de Ted Cruz, nascido no Canadá de uma mãe americana. É certo que na Europa começa-se a ver algo de semelhante quanto a inclusão de indivíduos vindos de outras comunidades no seu seio, a França e Portugal, felizmente, na vanguarda. Poder-se-á dizer que a estrutura na sociedade americana – ou europeia – está montada de tal maneira que não muda com a cor da pele ou a experiência de vida outrora marginalizada. Muda, sim – só a mudança no discurso público e na postura, digamos, inclusivista destas novas forças no interior das instituições do poder estabelece e reforça novos paradigmas na evolução total dessas sociedades. Quando aqui há meses os estados sulistas retiraram a bandeira da Confederação, cuja história é bem conhecida de todos, foi dado um outro grande sinal de que parte História seria remetida para os arquivos, um acto simbólico de coragem e dignidade nacional.

O meu intróito vem a propósito da recente publicação entre nós de Todas As Cores Da América: A Literatura Multicultural, de João de Mancelos, actualmente Professor de Guionismo e de Teoria da Narrativa Cinematográfica na Universidade da Beira Interior. Doutorado em Literatura Norte-Americana, o autor faz parte de um pequeno um grupo de estudiosos a nível superior que no nosso país se tem dedicado a diversas literaturas ditas étnicas norte-americanas, esse rol de grandes escritores que passaram das margens institucionais universitárias para um estatuto já quase canónico nas melhores antologias literárias de língua inglesa. A verdade é que tudo isto foi iniciado primeiro dentro da própria América a partir das grandes mudanças sócio-culturais dos anos 60, como resultado da dinâmica societal libertadora a que me referi anteriormente. Se a grande e hoje universalizada literatura afro-americana existiu desde sempre, e muito antes da sua legitimação académica e crítica entre a classe culta, a maior parte dos outros grupos eram totalmente desconhecidos, quando não deliberadamente ignorados. Aliás, o primeiro grande prémio nacional atribuído a uma destas obras data de 1988, quando a indiana-americana Bharati Mukherjee venceu o National Book Critics Award pelo seu poderoso livro de ficções várias, The Middleman and Other Stories, um dos contos aí contido, “The Management of Grief”, sendo analisado pormenorizadamente por João de Mancelos. No caso da literatura luso-descendente nos EUA – que João de Mancelos, como veremos mais adiante, inclui neste seu livro – foi George Monteiro e alguns outros na Universidade de Brown que primeiro apresentaram algumas das obras mais significativas, e lançaram entre os seus colegas em toda a parte, através de edições, reedições e noutras publicações de vária natureza, a proposta de novas leituras, e sobretudo um legítimo estatuto literário como parte indelével da nossa presença e herança cultural devida a gerações vindouras. Katherine Vaz, como autora representativa de todo um rol já bastante extenso de escritores luso-americanos de várias gerações, está presente neste novo estudo com o conto “My Hunt For King Sebastião”, de fundo inteiramente açor-americano, e entre obras essenciais dos mais diversos autores nativo-americanos, afro-americanos, sino-americanos, indiano-americanos e hispânicos, particularmente os chicanos ou mexicano-americanos. Se na América estas literaturas têm merecido desde sempre, repita-se, toda a nossa atenção (o ensaísta Diniz Borges tem formação superior nesta mesma área das novas literaturas), em Portugal será de referir, entre outros, ainda Teresa Alves e Teresa Cid, da Universidade de Lisboa, Ana Paula Coutinho, da Universidade do Porto, e Reinaldo Francisco Silva, da Universidade de Aveiro, tendo este publicado já há algum tempo os esclarecedores Representations Of The Portuguese In American Literature e Portuguese American Literature. Quanto a outros que se destacam em estudos destas literatura, Isabel Caldeira defendeu em 1993, na Universidade de Coimbra, a tese de doutoramento sobre a obra da Nobel Toni Morrison (A Cicatriz da Palavra: História, Mito e Literatura na Ficção de Toni Morrison), a mais conhecida e reconhecida voz da escrita afro-americana, que tem como antecessores nomes tão conhecidos e apreciados, canónicos, como Jean Toomer, Zora Neale Hurston, Richard Wright, Langston Hughes, Ralph Ellison e James Baldwin. É esta a diferença, para o leitor português desconhecedor da complexidade da literatura norte-americana na sua rica diversidade, nascida de experiências e histórias sem par em qualquer outro país, que distingue Todas As Cores Da América, e isto para além de concordarmos ou não com um ou outro ponto de vista seu. João de Mancelos analisou algumas das vozes mais representativas desta realidade multicultural, colocando-as num contexto temático, ou de como cada escritor espelhou na sua arte a sociedade americana contemporânea e os chamamentos que cada um deles faz à sua ancestralidade e à história dos seus no processo da sua reinvenção e de uma geografia humana unida fortemente pelas diferenças das suas identidades culturais, que convergem na ideia de uma América real e imaginada, essa pátria das nações em busca constante da sua liberdade e do seu bem-estar material.

O cânone literário – relembra aqui João de Mancelos, fundamentando-se ainda noutros estudiosos e teóricos destas literaturas étnicas e pós-coloniais – sempre foi condicionado pelos grupos sócio-políticos no poder., que enalteceram autores e obras pactuantes, muitas vezes através de prémios literários e da inclusão nos programas académicos. Pelo contrário, textos que questionavam os valores dominantes foram sistematicamente ignorados ou excluídos do panteão das letras. Neste espírito, numerosas obras escritas por autores pertencentes às margens – mulheres, homossexuais, lésbicas, escritores de etnias minoritárias – foram negligenciados”.

Quase todos estes escritores nunca foram traduzidos no nosso país, e espero que as minhas suspeitas sobre complexos muito portugueses, esses que nos levam a aderir só ao que já foi legitimado por grandes instituições ou pela crítica mais citada nesses mesmos países, no exterior em geral, não seja uma das razões. Devo recordar aqui algumas suspeitas entre certos comentadores nossos quando Toni Morrison venceu o Nobel, em 1993. Falavam eles de uma suposta submissão ao “politicamente correcto”, e de outras ofensas literárias lusas no mundo actual. Pelo menos três livros de Katherine Vaz (Saudade, Mariana, Fado & Outras Histórias) foram publicados cá, assim como o luso-canadiano Anthony De Sa (Terra Nova). Bharati Mukherjee disse uma vez a Katherine, essa sua amiga e autora luso-americana, que de entre as muitas línguas em que já está traduzida, falta estranhamente a portuguesa, e creio que o disse com desgosto. Uma escritora nascida em Bombaim, e depois imigrada no Canadá e nos Estados Unidos, tem muito mais em comum connosco do que pensarão alguns – para além da grandeza da sua escrita.

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João de Mancelos, Todas As Cores Da América: A Literatura Multicultural, Lisboa, Edições Colibri, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 04 de Março de 2016.