A ideia de “América”

capa Todas As Cores da América

Na globalidade, intersetando Literatura, História, Sociologia, Antropologia, entre outras disciplinas, procuro mostrar a dinâmica interétnica, numa nação complexa, por vezes em conflito, e sempre em mudança.

João de Mancelos, Todas As Cores Da América

Vamberto Freitas

Não há momento melhor para se falar de uma ideia de América do que os dias que correm. Um presidente afro-americano termina dois mandatos na Casa Branca, e dá lugar a uma campanha política entre os dois maiores partidos centristas, os que sempre governaram a grande república desde a sua fundação em Setecentos. Nada, no entanto, parece assemelhar-se a um passado ainda recente, no qual a dominação anglo-americana ia cedendo aos restantes grupos que constituem o mosaico étnico da sociedade em questões de direitos cívicos básicos, assim como na defesa das diferenças histórico-culturais entre todos. Presentemente, para além de toda a retórica em tempo de eleições, tudo isso está irreversivelmente cimentado na lei fundamental do país, não há recuo possível para um passado de segregação e discriminação aberta na memória de uma boa parte da população. Só que a lei traça rumos colectivos a seguir mas, como um dia também disse Martin Luther King, Jr., no auge da luta pela libertação e dignificação de todos os que se encontravam nas margens da vida pública, não muda corações, e temos visto ultimamente a exteriorização violenta de rua em que ainda certas atitudes patológicas, que parecem atávicas, manifestam-se de modo mortífero contra os cidadão de cor. Não são poucos os livros que continuam a avisar sobre a continuidade do racismo nas relações humanas norte-americanas. Mais do que estes discursos abertos sobre a cidadania magoada, a América demonstra, sempre demonstrou, outra capacidade política no seu seio. Donald Trump, associado ao Partido Republicano, expressa sem freio nas primárias partidárias em curso o que sabemos ser a vontade de um regresso a épocas do poderio imperial e da dureza social interna por uma parte substancial dos seus seguidores. Bernie Sanders, no outro lado do espectro político, liberta, sem medo nem quaisquer apologias ante os seus adversários, linguagens ainda há pouco quase proscritas na sua sociedade – a auto-designação de “socialista” era impensável para um candidato do Partido Democrático, mesmo sabendo que na sua ala esquerda o senador de Vermont não está totalmente só. Venha o que vier nos próximos meses, a verdade é que a América mantém o dinamismo da mudança por entre os mais vivos debates de memória recente. Vale a pena relembrar a todos que os que fazem frente a Trump, na mesma área ideológica, seja ele ou não eleito para concorrer à presidência da república, são dois filhos de imigrantes cubanos, um deles pertencente à primeira geração nascida nos Estados Unidos ou, como no caso de Ted Cruz, nascido no Canadá de uma mãe americana. É certo que na Europa começa-se a ver algo de semelhante quanto a inclusão de indivíduos vindos de outras comunidades no seu seio, a França e Portugal, felizmente, na vanguarda. Poder-se-á dizer que a estrutura na sociedade americana – ou europeia – está montada de tal maneira que não muda com a cor da pele ou a experiência de vida outrora marginalizada. Muda, sim – só a mudança no discurso público e na postura, digamos, inclusivista destas novas forças no interior das instituições do poder estabelece e reforça novos paradigmas na evolução total dessas sociedades. Quando aqui há meses os estados sulistas retiraram a bandeira da Confederação, cuja história é bem conhecida de todos, foi dado um outro grande sinal de que parte História seria remetida para os arquivos, um acto simbólico de coragem e dignidade nacional.

O meu intróito vem a propósito da recente publicação entre nós de Todas As Cores Da América: A Literatura Multicultural, de João de Mancelos, actualmente Professor de Guionismo e de Teoria da Narrativa Cinematográfica na Universidade da Beira Interior. Doutorado em Literatura Norte-Americana, o autor faz parte de um pequeno um grupo de estudiosos a nível superior que no nosso país se tem dedicado a diversas literaturas ditas étnicas norte-americanas, esse rol de grandes escritores que passaram das margens institucionais universitárias para um estatuto já quase canónico nas melhores antologias literárias de língua inglesa. A verdade é que tudo isto foi iniciado primeiro dentro da própria América a partir das grandes mudanças sócio-culturais dos anos 60, como resultado da dinâmica societal libertadora a que me referi anteriormente. Se a grande e hoje universalizada literatura afro-americana existiu desde sempre, e muito antes da sua legitimação académica e crítica entre a classe culta, a maior parte dos outros grupos eram totalmente desconhecidos, quando não deliberadamente ignorados. Aliás, o primeiro grande prémio nacional atribuído a uma destas obras data de 1988, quando a indiana-americana Bharati Mukherjee venceu o National Book Critics Award pelo seu poderoso livro de ficções várias, The Middleman and Other Stories, um dos contos aí contido, “The Management of Grief”, sendo analisado pormenorizadamente por João de Mancelos. No caso da literatura luso-descendente nos EUA – que João de Mancelos, como veremos mais adiante, inclui neste seu livro – foi George Monteiro e alguns outros na Universidade de Brown que primeiro apresentaram algumas das obras mais significativas, e lançaram entre os seus colegas em toda a parte, através de edições, reedições e noutras publicações de vária natureza, a proposta de novas leituras, e sobretudo um legítimo estatuto literário como parte indelével da nossa presença e herança cultural devida a gerações vindouras. Katherine Vaz, como autora representativa de todo um rol já bastante extenso de escritores luso-americanos de várias gerações, está presente neste novo estudo com o conto “My Hunt For King Sebastião”, de fundo inteiramente açor-americano, e entre obras essenciais dos mais diversos autores nativo-americanos, afro-americanos, sino-americanos, indiano-americanos e hispânicos, particularmente os chicanos ou mexicano-americanos. Se na América estas literaturas têm merecido desde sempre, repita-se, toda a nossa atenção (o ensaísta Diniz Borges tem formação superior nesta mesma área das novas literaturas), em Portugal será de referir, entre outros, ainda Teresa Alves e Teresa Cid, da Universidade de Lisboa, Ana Paula Coutinho, da Universidade do Porto, e Reinaldo Francisco Silva, da Universidade de Aveiro, tendo este publicado já há algum tempo os esclarecedores Representations Of The Portuguese In American Literature e Portuguese American Literature. Quanto a outros que se destacam em estudos destas literatura, Isabel Caldeira defendeu em 1993, na Universidade de Coimbra, a tese de doutoramento sobre a obra da Nobel Toni Morrison (A Cicatriz da Palavra: História, Mito e Literatura na Ficção de Toni Morrison), a mais conhecida e reconhecida voz da escrita afro-americana, que tem como antecessores nomes tão conhecidos e apreciados, canónicos, como Jean Toomer, Zora Neale Hurston, Richard Wright, Langston Hughes, Ralph Ellison e James Baldwin. É esta a diferença, para o leitor português desconhecedor da complexidade da literatura norte-americana na sua rica diversidade, nascida de experiências e histórias sem par em qualquer outro país, que distingue Todas As Cores Da América, e isto para além de concordarmos ou não com um ou outro ponto de vista seu. João de Mancelos analisou algumas das vozes mais representativas desta realidade multicultural, colocando-as num contexto temático, ou de como cada escritor espelhou na sua arte a sociedade americana contemporânea e os chamamentos que cada um deles faz à sua ancestralidade e à história dos seus no processo da sua reinvenção e de uma geografia humana unida fortemente pelas diferenças das suas identidades culturais, que convergem na ideia de uma América real e imaginada, essa pátria das nações em busca constante da sua liberdade e do seu bem-estar material.

O cânone literário – relembra aqui João de Mancelos, fundamentando-se ainda noutros estudiosos e teóricos destas literaturas étnicas e pós-coloniais – sempre foi condicionado pelos grupos sócio-políticos no poder., que enalteceram autores e obras pactuantes, muitas vezes através de prémios literários e da inclusão nos programas académicos. Pelo contrário, textos que questionavam os valores dominantes foram sistematicamente ignorados ou excluídos do panteão das letras. Neste espírito, numerosas obras escritas por autores pertencentes às margens – mulheres, homossexuais, lésbicas, escritores de etnias minoritárias – foram negligenciados”.

Quase todos estes escritores nunca foram traduzidos no nosso país, e espero que as minhas suspeitas sobre complexos muito portugueses, esses que nos levam a aderir só ao que já foi legitimado por grandes instituições ou pela crítica mais citada nesses mesmos países, no exterior em geral, não seja uma das razões. Devo recordar aqui algumas suspeitas entre certos comentadores nossos quando Toni Morrison venceu o Nobel, em 1993. Falavam eles de uma suposta submissão ao “politicamente correcto”, e de outras ofensas literárias lusas no mundo actual. Pelo menos três livros de Katherine Vaz (Saudade, Mariana, Fado & Outras Histórias) foram publicados cá, assim como o luso-canadiano Anthony De Sa (Terra Nova). Bharati Mukherjee disse uma vez a Katherine, essa sua amiga e autora luso-americana, que de entre as muitas línguas em que já está traduzida, falta estranhamente a portuguesa, e creio que o disse com desgosto. Uma escritora nascida em Bombaim, e depois imigrada no Canadá e nos Estados Unidos, tem muito mais em comum connosco do que pensarão alguns – para além da grandeza da sua escrita.

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João de Mancelos, Todas As Cores Da América: A Literatura Multicultural, Lisboa, Edições Colibri, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 04 de Março de 2016.

 

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