A Ida e Volta de Vamberto Freitas

Eduardo Mayone Dias

Eduardo Mayone Dias

Conheci Vamberto Freitas há uns bons trinta anos. Era ele então estudante universitário e ensaiava os seus primeiros e tímidos passos pelo jornalismo e pela rádio. Às vezes tinha hesitações sobre certo termo ou expressão e telefonava-me com um pedido de esclarecimento. Hoje dá magníficas lições de bem escrever.

O Vamberto nasceu nas Fontinhas, na Ilha Terceira. Fez por lá a escola primária, entrou no liceu, desfilou pela Rua da Sé de camisa verde e S maiúsculo na fivela do cinto, talvez de braço estendido e cantando “Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados sim…” Bem, era no tempo em que todos nós, os da geração dele e os da minha, éramos levados, levados sim. Mais que tudo pelo S maiúsculo. Aos catorze anos acabaram essas verdejantes festividades. Então o Vamberto seguiu o destino de todos nós, esta quarta parte da população portuguesa que resolveu deitar a mala ao ombro e limpar os pés à saída do aeroporto ou da Estação de Santa Apolónia. Não foi só o pó que ficou lá. Foi também o sentir. Mas uma vida nova ia começar. E cheia de novidades e sobressaltos. O Vamberto tinha assistido na sua freguesia ao aparecimento da luz eléctrica e à chegada do primeiro tractor. Mas ao desembarcar em Nova Iorque nunca havia visto uma escada rolante, o que o deixou receoso de a enfrentar. Nisso eu, bastante mais velho mas habitante de Lisboa, levei-lhe a palma. Ainda recordo aquela maravilha dos anos trinta que era a escada rolante que permitia acesso ao terraço do Cinema Capitólio, no Parque Mayer. Mas depois disso nunca vi mais nenhuma lá pelas Lísbias até à inauguração do Metro. Não sei como o Vamberto deu o salto transcontinental de Nova Iorque a Tulare, a risonha cidadezinha meio portuguesa incrustada no Vale de San Joaquín. Talvez tivesse vindo de comboio, na longa viagem que também fizeram desde Ellis Island os nossos emigrantes de há quase cem anos. Com uma “águia” no bolso que em breve se esgotaria em desconhecidas comidas, compradas apontando para elas e mostrando uma mão-cheia de moedas.

Na Califórnia, diz Vamberto, aprendeu Inglês e Democracia. E, caso não muito comum para os da sua geração, naqueles fins da década de 60, entrou para a Universidade, obteve uma licenciatura em Estudos Latino-Americanos, o campo que mais o acercava ao Português. Um amigo proporcionou-lhe em 1974 um lugar de professor na escola secundária de Cerritos, cidade paredes meias com Artesia, esta grandemente povoada por gente dos Altares. Deu História e Inglês, assim como Português a alunos luso-americanos.

Lança-se também a escrever. Por esses anos tinha surgido em San José, ali no “Canto da 33”, pelas mãos do dinâmico, quase heróico João Brum, The Portuguese Tribune, uma surpreendente lufada de ar fresco no muito convencional jornalismo californiano em língua portuguesa. Vamberto entusiasma-se com esta iniciativa, começa a colaborar. Mas publica também artigo após artigo no Portuguese Times, na Gávea/Brown, no Açoriano Oriental, no mais antigo e prestigioso periódico lisboeta, o Diário de Notícias.   Neles, em penetrantes análises, debruça-se sobre uma variada temática em que sobressai a vida emigrante portuguesa, a sua literatura. São trabalhos de fundo que levam a outros horizontes incisivos instantâneos da nossa diaspórica vivência.

A década de 90 traz para Vamberto uma decisiva viragem emocional. Em Lisboa, num simpósio que bem recordo, conhece Adelaide Batista, cria com ela uma muito significativa comunhão espiritual que leva a que lhe dedique a sua vida. Adelaide representa o “meu sonho reencontrado, meu poema açoriano em movimento”. É então, em 1991, que rompe fisicamente com a Califórnia e se radica em São Miguel. Da janela do seu acolhedor apartamento em São Roque vê passar os navios mas não pode  determinar bem se vão para a América ou se de lá vêm. Haviam sido 27 anos de ligação à California, que não seria fácil esquecer. O regresso ao arquipélago natal tem contudo algo de culturalmente uterino. Após um breve e frustrante período na RTP Açores, volta ao ensino. Como Leitor de Inglês na Universidade dos Açores regressa a um bom convívio com os mais jovens. Também  Ponta Delgada lhe oferece um contacto directo com gente da cultura, com a impressionante emergência de uma sólida literatura açoriana. Continua a escrever, no Açoriano Oriental, no Diário de Notícias, na Vértice. Retoma com mais vigor uma faceta em que na Califórnia já se havia embrenhado, uma lúcida interpretação da América de hoje na sua caleidoscópica panorâmica. É a América de Perto e de Longe, título de um capítulo de um dos seus livros.  E lança no Correio dos Açores o “Suplemento Açoriano de Cultura”, do  qual, em cinco anos, se publicam 116 números. Por outro lado, este açórico reencontro leva-o a olhar à sua volta. Surgem então agudos ensaios sobre toda uma galeria de destacadas figuras das letras insulares, João de Melo, Martins Garcia, Cristóvão de Aguiar, Álamo Oliveira, Fernando Aires, Vasco Pereira da Costa, Almeida Pavão, Dias de Melo, Daniel de Sá ou Santos Barros. E nesta galeria não esqueçamos um açoriano expatriado mas nunca muito longe, Onésimo Almeida. A filosofia essencial destes escritos explicita-a Vamberto em palavras de 2001: “O que Vale Realmente a Pena? Viver. Amar a vida, amar os que nos amam.” É realmente uma obra de amor a que Vamberto Freitas até agora tem realizado e continuará decerto a realizar. Muito acertadamente reuniu toda esta colaboração dispersa por vários quadrantes numa dezena de volumes, na sua quase totalidade lançados após o seu retorno às ilhas de bruma. O título de um deles, Pátria ao Longe, sintetiza bem a sua dividida presença pelas duas ilhas pátrias e pela outra, a Décima, a Açorfórnia, se assim lhe podemos chamar. O livro é de 1992, portanto após a volta aos ambientes de antanho. Poderia pois ter-lhe chamado Pátrias ao Longe, não é, Vamberto?

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In Portuguese Times, 23.10.2003

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