O longo eco de um intelectual nova-iorquino

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Os Intelectuais de Nova Iorque foram o primeiro grupo de escritores judeus que saiu do meio imigrante sem se auto-definir levando em conta o relacionamento, nostálgico ou hostil, com as suas memórias do judaísmo.

Irving Howe, A Voice Still Heard

Vamberto Freitas

Será assim como disse o eminente crítico e ensaísta Irving Howe (1920-1993), e que cito aqui em epígrafe, que ele e os seus amigos e colegas nova-iorquinos iniciariam as suas carreiras tentando então demarcar-se do histórico legado europeu dos seus pais e avós, mas depressa seriam, e permaneceriam até hoje, identificados por todos como escritores “judeu-americanos”. No caso de Howe, esse regresso à sua casa ancestral acabaria em grande já a meados da vida, quando nos anos 70 publica o seu substancial volume intitulado precisamente The World Of Our Fathers, uma narrativa de grande fôlego que combina a história da grande emigração judia oriunda maioritariamente do Europa de Leste para os Estados Unidos no fim do século XIX, e intensificando-se nas primeiras duas décadas seguintes, com a cultura que traziam consigo e depois adaptada às novas circunstâncias, particularmente nos bairros pobres de Nova Iorque na época do capitalismo absolutamente selvagem. Howe enfatiza aí o contrário dos estereótipos habituais que rodeiam ainda hoje o seu grupo – eram, como todos os grupos nacionais que arribavam ao Novo Mundo, pobres e com uma educação formal mínima, vitimas tanto do anti-semitismo europeu como das forças económicas que dominavam as suas várias sociedades. Esse livro de Howe é por muitos considerado o seu magnum opus, mas a sua obra ensaística estritamente literária e política é igualmente, sabemos em restrospectiva, de uma grandeza que poderá ter sido igualada por outros, mas abriu largas brechas na nossa visão e entendimento da literatura americana em geral, inclusive a sulista, com William Faullkner ao centro. As suas abordagens combinam também essa dualidade do seu ser, formação e, diria, intencionalidade ideológica – o estudo e análise profunda da literatura realista e modernista europeia com as obras canónicas dos seus conterrâneos norte-americanos assim como os primeiros lançamentos de escritores judeu-americanos, hoje imediatamente conhecidos e reconhecidos como vozes da melhor literatura em toda a parte – Saul Bellow, Norman Mailer, Philip Roth e Bernard Malamud, para não falarmos neste momento de alguns dos quase esquecidos, como Joseph Roth e Delmore Schwartz. Relembremos ainda que em 1978 Isaac Bashevis Singer, imigrado da Polónia em Nova Iorque, receberia o Prémio Nobel. Singer tem uma outra distinção entre todos os que receberiam tamanho reconhecimento internacional – escreveu sempre em Iídiche, mesmo após longos anos na sua nova pátria. Era depois traduzido para o Inglês, e publicava os seus contos e outros textos num jornal judeu-americano. A influência destes escritores e intelectuais chegou a ser tão ampla que despertou invejas de vária natureza, levando Gore Vidal a dada altura, na sua língua afiada e muitas vezes sem tento, a acusá-los de constituírem uma Quinta Coluna, creio que tanto na política interna do país como na sua cultura literária. Foram estes ensaístas que mais me aproximaram da minha própria experiência de vida americana, muito antes dos escritores luso-descendentes que haveriam de surgir entre nós em décadas posteriores. Eram eles que, para mim, representavam a insistência da pertença naquela sociedade, vindos de lares e ruas que sofriam ainda maior discriminação do que muitas outras minorias étnicas, eram eles que através do seu compromisso com a vida intelectual haveriam de cultivar e expandir os seus jardins com um brilhantismo e racionalidade pouco comum em qualquer parte, e mesmo durante os “tempos” – a maior parte deles começaria a sua carreira nos anos 30-40 – que outra escritora judia, que também acabaria os seus dias naquelas partes, Hannah Arendt, chamaria de “escuros”.

A Voice Still Heard: Selected Essays of Irving Howe foi organizado pela sua filha, Nina Howe, e prefaciado por Morris Dickstein, um respeitado professor universitário especializado na literatura norte-americana. Os ensaios aqui incluídos eram bem conhecidos pelos leitores mais atentos à vida literária do país, mas esta nova compilação significa algo mais: as gerações presentes não deixaram morrer ou esquecer as vozes que ainda são e merecem ser ouvidas. Irving Howe, para além da sua constante colaboração em periódicos político-literários, como os famosos e históricos Partisan Review e Commentary, fundou em 1954 e dirigiu até ao fim da sua vida a revista Dissent/Dissidência, cujas páginas interligavam e ainda hoje interligam a política e cultura, o socialismo democrático cimentando as suas opções editoriais, a ideologia, no entanto, não interferindo com qualquer obra literária cuja grandeza merecesse a devida análise, contextualização e disseminação entre as classes cultas do país. Ironicamente, Irving Howe, que acabaria integrado – como muitos dos seus colegas das letras – em faculdades de línguas e literaturas, viveu os seus últimos anos numa postura abertamente antagónica à então chamada contra-cultura, que marginalizava e por vezes denegria os Intelectuais de Nova Iorque pelas suas posições então consideradas pactuantes com as classes dominantes. Howe, hoje considerado uma das consciências éticas e estéticas do grupo e mesmo de toda uma geração, nunca cederia na sua devoção à literatura séria, à política da liberdade e fraternidade. Visito as páginas digitais da Dissent enquanto escrevo estas linhas, e topo um artigo analítico sobre Bernie Sanders, um dos candidatos presidenciais nas Primárias 2016 do Partido Democrático. A ironia da nossa vivência traz, pelo menos desta vez, o lado luminoso de uma luta que parecia perdida ainda há poucos anos – não necessariamente levando o socialismo democrático ao Poder nos EUA, mas, sim, finalmente legitimando as batalhas intelectuais que Irving Howe travou sem freios durante uma vida inteira. De salientar que muitos dos Intelectuais de Nova Iorque passariam para o outro lado da barricada –- Irving Kristol sendo a sua face mais conhecida e comentada – na década de 70, nos anos de Richard Nixon e Ronald Reagan tornar-se-iam os grandes ideólogos entre os chamados neo-conservadores. Que diria agora o grande ensaísta, que em vida teve tantos admiradores como detractores, e quantos apoiantes mais novos de Sanders saberão que antes do corajoso político em campo houve um Irving Howe, como houve uns poucos outros escritores persistentes, convincentes, para quem a América era a pátria da liberdade e de todas as possibilidades? Um dos instantes que mais recordo com orgulho foi quando um dia entrei na sala de professores da secundária californiana onde leccionei durante catorze anos com um livro da Irving Howe na mão, e um colega que estava lá temporariamente me olhou e disse em voz baixa, so you also read him, he’s one of us/ também o lês, ele é um dos nossos. Nunca lhe perguntei se se referia ao seu judaísmo, ou ao critico literário. Pela minha parte, como português, não haveria nada a rejeitar em qualquer dos casos.

A presente colectânea de textos cobre um período de tempo que vai dos anos 50 até ao falecimento do autor. Foi uma época em que a América viveu o auge a Guerra Fria e debateu-se com a natureza de uma sociedade e um estado social que se consolidou por entre os mais acesos debates políticos. Um dos pontos de referência ou de partida para estes intelectuais foi a questão do Estalinismo, que fracturou permanentemente a convivência entre todo um rol de escritores que se tinham posicionado desde a Grande Depressão ao lado dos mais vulneráveis na sociedade em constante mutação. O certo é que foram pouquíssimos os que, como Irving Howe, mantiveram a sua crença numa sociedade mais igualitária, mesmo mantendo-se distante dos movimentos de rua que visavam essas transformações, sempre tidas como “radicais” pelo sistema vigente. Howe atravessou essas décadas mantendo intacta a sua credibilidade, quer como crítico literário e cultural, quer como comentador social e político, na sua própria revista e noutras publicações mais ou menos vanguardistas.

As coisas – escreveu ele em 1979 num ensaio comemorativo e intitulado ‘Vinte e Cinco Anos de Dissent” – pioraram. Isto foi devido ao desespero engendrado entre os mais novos pela guerra do Vietname., que eles viam correctamente como um escândalo político e moral; talvez também por uma noção romântica de ‘revolução’, que nasceu da sua aproximação inocente a líderes como Castro e Mao. Mas a meados dos anos 60 tinha-se iniciado um decisivo abandono dos sentimentos fraternais, rumo a um mal-digerido dogma, desde um bem intencionado mas desestruturado espírito de uma ‘democracia participatória’ à rigidez vanguardista de pequenos grupos, de um espírito da não-violência a um fascínio para-leninista com a violência…”

A solidez de pensamento e da escrita fundamentada no saber clássico, na reflexão contínua sobre o seu tempo e lugar, poderá ser ignorada por uma ou outra geração, mas passará irremediavelmente a ser parte viva do nosso património literário e intelectual. Uma Voz Ainda Ouvida é tanto uma homenagem a um grande homem de letras norte-americano como é mais um sinal de que, frequentemente, será a própria sociedade a confirmar a verdade dessas palavras – belas e carregadas de significado duradouro.

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Irving Howe, A Voice Still Heard: Selected Essays of Irving Howe (Edited by Nina Howe, Forwarded by Morris Dickson), New Haven and London, 2014. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 18 de Março de 2016.

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