Uma outra e esquecida América

capa Lila

Ela tinha dito a si própria que ia ao cinema só para ver como os outros viviam porque estava curiosa. Tinha mais ou menos decidido que ela própria não tinha vivido, ou então isto era o melhor que podia fazer.

Marilynne Robinson, Lila

Vamberto Freitas

Não haverá antídoto literário maior à época em que todos vivemos como Lila, o romance de Marilynne Robinson, que sempre me pareceu ser uma das mais respeitadas e menos mediáticas autoras norte-americanas. É claro que este estatuto, se não estou muito fora da realidade, é invejável a todos os níveis. Professora, desde 1991, no famoso University of Iowa Writer’s Workshop, Robinson tornou-se ao longo dos anos essa figura de referência, tanto pela sua ficção como pelo ensaísmo, também de grande originalidade pelo modo como contradiz o espírito do nosso tempo. Traduzido e publicado recentemente no nosso país, com o mesmo título, Lila proporciona-nos momentos de leitura já pouco comuns numa era em que a literatura se preocupa com todos os temas e tramas, menos com a vida escondida, esquecida, de pequenas comunidades rurais, e algo mais – a religiosidade durante todo um século profano e violento, e que na América teve a sulista Flannery O’Connor como voz distinta e solitária. Por certo que ler este romance, o terceiro volume de uma trilogia que começou com Home e Galied, que recebeu o Pulitzer Prize em 2005, um entre alguns outros prémios de grande prestígio nacional com que tem sido visada a autora tranquila. Quando lia as páginas aqui em foco vi que Robinson acabava de receber ainda o Library of Congress Prize for American Fiction, depois de Lila ter recebido o National Book Critics Circle Award, definitivamente confirmando o seu lugar no cânone da literatura nacional, muito antes, suponho, das academias iniciarem os seus pronunciamentos, que para uma mulher branca e de temática fora do revisionismo pós-moderno não será assim tão nítido e certeiro. Passando os olhos pelas grandes e respeitadas folhas literárias nova-iorquinas e no restante país, no entanto, a ideia é que cada livro desta autora merece atenção aprofundada, e na maior parte dos casos de entusiasmo laudatório. Foi-me totalmente inesperado abrir um dia o The New York Review of Books e ver que publicavam uma extensa conversa entre a autora e Barak Hussein Obama, “President Obama & Marilynne Robinson: A Conversation in Iowa”. Obama havia citado a autora num momento elegíaco, e tinha descoberto um dos seus livros durante a sua campanha presidencial em 2008. Não serão muitos os líderes com o poder e a responsabilidade mundial de um presidente como Barak Obama que solicitam, pedem, a um escritor umas horas de diálogo sobre literatura, e especificamente sobre alguns dos temas trabalhados consistentemente pela autora — os estados de alma colectiva da nossa contemporaneidade, a história turbulenta na criação de uma sociedade, a própria noção de liberdade e democracia. Não sei como se sentiriam outros ao ler esta inusitada conversa, sei que para mim é um sinal de que, para além da cacofonia da nossa actualidade, de todas as inseguranças e medos, é dignificante para nós todos saber que mesmo os mais poderosos reconhecem na arte uma outra redenção, a sustentada reflexão sobre quem somos e porque assim somos. A literatura não terá “missão” mais nobre do que esta, mesmo que o prazer do texto não tenha, nem deva ter, a veleidade ou a preocupação de mudar o mundo. Despertar o pensamento de um leitor só por si justifica abrir um livro, a vida da mente nada menos crucial do que a mais consequente descoberta científica.

Uma das coisas que não tenho muita oportunidade de fazer tanto quanto gostaria – inicia Barak Obama o diálogo com Marilynne Robinson em Iowa, pois foi ele a deslocar-se ao terreno íntimo da autora – é simplesmente ter uma troca de palavras com alguém que me dá prazer, e em quem estou intelectualmente interessado; ouvi-los e conversar com eles sobre as amplas forças culturais que influenciam a nossa democracia e as nossas ideias determina o que sentimos sobre a cidadania e a direcção em que o país deveria seguir”.

O tempo ficcional de Lila são os anos que precedem a Grande Depressão com a queda da bolsa nova-iorquina em 1929, traz os seus personagens e vida até a fins da década de 40. A narradora nunca específica esse tempo, dá-nos os sinais políticos, económicos e culturais, principalmente através dos filmes que vai mencionado já no fim, e que a minha epígrafe menciona como sendo um mundo-outro da protagonista. Lila é retirada, roubada, de uma família rural disfuncional em Iowa, onde toda a acção decorre, sem nome conhecido até a mulher que a salva, também simplesmente chamada de Doll, lhe atribui esse nome, e mais tarde, numa escola, uma professora assume que ela é de origem norueguesa, e confere-lhe o apelido de Dahl. Essas duas vidas juntam-se eventualmente a um grupo de trabalhadores ambulantes, sem poiso nem qualquer recurso financeiro, indo de campo em campo, de casa em casa, oferecendo o seu trabalho braçal, retomando sempre a estrada, esses homens e mulheres que foram apanhados pela queda súbita da economia do país, os ditos tramps vestidos de trapos e de olhar ora inocente ora suspeito. A anti-utopia americana por excelência, um novo mundo tornado velho e angustiado, a fome de uns sustentando o conforto de outros. Todo o ambiente aqui é bíblico, os condenados nunca conscientes nem de Deus nem da revolta possível, é um mundo sem violência ou maldade entre os caídos, a aceitação do destino e da sua sorte tão natural como a neve que os ameaça fora de um tecto, como a inconstância do trabalho de sobrevivência, como os ossos que lhes restam da ave assada na fogueira da noite. Sobressai a consciência da narradora, que de quando em quando cita a Bíblia directamente, ou pela boca de um ou outro personagem mais atento, o Velho Testamento outra referência maior, e noutra parte o Salmo 19 como contextualização absoluta destas vidas desamparadas rumo à morte, e creio servindo como definição do tema predominante de toda esta narrativa: Não há termos, não há palavras, nenhuma voz que deles se ouça. Num momento de ausência e desespero, Lila é deixada nuns degraus de uma pequena cidade provinciana, Gilead, entra num templo protestante, e inicia nesse momento uma duradoura relação com o pastor John Ames, com mais do dobro da sua idade, mas que lhe será a salvação, passando de um estado de ser raiando o de selvagem, de uma marginalidade absoluta, uma menina-mulher sem ninguém, desconhecedora de tudo e todos, menos da sua alma e das tarefas de campo ou caseiras, tudo o que aqui e ali a salvaram da fome. A narradora vai deixando cair subrepticiamente alguns sinais dos anos que Lila viveu só em St. Louis, e depressa adivinhamos que se trata de prostituição e da vida citadina em subterrâneos ainda mais escuros e perigosos do que as cabanas abandonadas em que ela e os seus pernoitavam. Desde há muito que não lia algo de semelhante, a não ser, a um nível linguístico e tema bem mais limitados, um John Steinbeck, por exemplo, mas agora sem o seu sentimentalismo e por entre um sofisticado emaranhado de viragens na narrativa, de inesperadas atitudes por parte de outros protagonistas, a bondade humana lado a lado não com a criminalidade aberta mas sim com a injustiça de quem nasce sem nada, de quem nem se dá conta da injustiça da sua sorte, de uma sociedade que pura e simplesmente os ignora sem o mínimo impulso para um resgate humano solidário. Fora de Deus, não há mais nada nem ninguém.

Não há pregação em Lila, muito pelo contrário – há uma constante interpelação teológica, nenhuma certeza, só o conforto da fé de quem a tem. A humanidade no seu melhor está aqui na relação que Lila vive com o pastor John Ames (viúvo da mulher que morreu com a sua única filha) com quem casa e tem um filho. A vida isolada em Gilead gira em volta dos templos protestantes, longe da história, livre das chamas e turbulência. Estou em crer que este é um romance de regresso não a um mundo de injustiça, não nega a ideologia que faz e tem de fazer tremer qualquer sociedade ante os seus desequilíbrios e desigualdades, mas sim uma reafirmação de valores que prezam a dignidade humana em todas as suas facetas, a uma tolerância perdida ante o outro, regressa ao diálogo entre as várias forças da sociedade contemporânea que, como aliás é mencionado na conversa entre o Presidente e a autora, olham-se mutuamente como inimigos, estão fechadas “sobre si próprias”. Nunca antes tinha visto uma peça de ficção despertar tanta reflexão serena sobre uma sociedade moderna e complexa, como é a América dos nossos dias. A sua confusão política e guerras culturais (que é o mesmo que dizer, de valores sociais e intelectuais) estão bem à vista de todos. Num dos momentos humorísticos deste livro, Lila não sabe explicar a razão dos nomes das coisas e das gentes, encolhe os ombros e diz que é como os “Estados Unidos da América” – tinham de “chamar o país alguma coisa”. Não passe despercebido, é outro modo de insinuar que o suposto “excepcionalismo” americano é outro mito, a universalidade do coração humano e dos seus conflitos não tem nem nacionalidade nem fronteiras. Atravessamos, todos, os desertos das nossas origens, sem sabermos nunca o destino final.

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Marilynne Robinson, Lila, New York, Farrar, Straus And Giroux, 2014. Li o original americano. A tradução da epígrafe e de outros passos é da minha responsabilidade, menos o Salmo 19, aqui citado. Lila foi publicado em Portugal pela Editorial Presença, em 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 29 de Abril de 2016.

As falas do ex-império

capa Esse Cabelo

A procura de uma origem e de uma identidade não reconstitui a minha origem nem descobre a minha identidade. Uma pessoa apenas se encontra a si mesma por acaso.

Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo

Vamberto Freitas

A magnífica narrativa esse cabelo, o livro de estreia da luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida, é uma combinação de biografia, autobiografia, crónica ficcionada, novela, ensaio teórico, tudo. Que penso do livro? Que é um dos mais inteligentes e brilhantes mergulhos linguísticos sobre o tema que é o nosso “ser” e “estar”, ou, melhor, como habitamos o “outro”, o duplo em cada um de nós, para além de raça e etnicidade, numa sociedade contemporânea, marcada, apesar da sua existência multissecular, pela fragmentação da sua própria modernidade, ou pós-modernidade, como diriam outros. Portugal, tendo dirigido um império durante mais de quinhentos anos, não poderia escapar a essa sua outra dupla condição existencial. “Abril é o mais cruel dos meses”? É, e foi para nós ambas as coisas, um misto de crueldade e bondade, quando a verdade da nossa história nos bateu à porta numa madrugada do mês primaveril, quase sem aviso, em que a terra podre morreu para de seguida se colorir de flores. Essa dolorosa renascença trouxe consigo uma poética muito própria – a convivência, agora em liberdade, de muitos dos filhos dessas geografias das nossas magoadas memórias e dos nossos mais humanos afectos. Quando mencionei a leitura deste livro noutra parte, alguém fez-me lembrar, acertadamente, que algo destas páginas poderão ter a ver com as do grande romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche, e sobre o qual eu tinha escrito um destes mini-ensaios aquando da sua publicação no nosso país. É certo que, também aí, o cabelo e penteado afro são insinuadas metáforas da vida e sobrevivência de “outros”, particularmente nas grandes cidades ocidentais metropolitanas. As nossas noções da estética do corpo, digamo-lo assim, tornam-se noutros signos de como nos vemos e nos tratamos uns aos outros, o próprio racismo eventualmente definindo a vítima, em vez de a revoltar. Eu vivi a minha adolescência e anos de faculdade na Califórnia dos anos sessenta e setenta, sei muito muito bem como nasceu o black is beautiful/negro é lindo, e há uma outra autobiografia em destaque nas minhas estantes aqui em casa, cuja capa ostenta a foto de uma mulher linda, com o seu cabelo ao natural, ordenadamente desordenado – Angela Davis: An Autobiography (1974). Isto para dizer que a narrativa de Dajaimilia Pereira de Almeida é tanto sobre cabelo afro como Moby Dick é sobre baleias. Pensando tudo isto ainda de outro modo, poderei dizer que, sim, há aqui uma afinidade qualquer – a natureza mal compreendida torna-se a nossa própria perseguição, a estética virando irracionalmente a condenação tanto do perseguido como do perseguidor. A minha leitura de esse cabelo: A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza a história de Portugal e Angola foi-me mais do que gratificante em termos estritamente literários, não pela originalidade do seu tema, mas por finalmente ser feita em português e escrita por uma autora que vive essa duplicidade de nacionalidades que se reencontram agora e, necessariamente, redefinem a nossa cultura, a nossa cidadania, o nosso país, a nossa maneira de estar no mundo. Quando penso que já sei muito sobre crítica literária, releio duas páginas de Edmund Wilson, e ele coloca-me de imediato no meu devido lugar. Direi o mesmo a uma nova geração de escritores lusos: quando pensarem que já dominam as técnicas fundamentais da narrativa, por favor leiam esta escritora. É bom sabermos quem está ao lado – ou ao alto, como um pássaro observador, numa das imagens aqui reinventada.

Leio esta narrativa como tenho lido alguns dos escritores pós-coloniais na língua inglesa. Desde o grande ensaio Orientalismo, do falecido Edward Said, à maior parte da obra de Salman Rushdie, especialmente desde Os Filhos da Meia-Noite e Os Versículos Satânicos, a literatura ocidental teve de ser reinventada, a língua e as linguagens dos outrora dominadores a ser utilizada, quase sempre com brilhantismo e uma criatividade que junta várias tradições e desenvolve um novo discurso ficcional como resposta dos que sofreram durante séculos e em directo as difamações de escritores que, por mais bem intencionados ou esclarecidos, construiram e impuseram as imagens “étnicas” que tínhamos de todos esses povos, perpetuaram todos os preconceitos que ainda hoje levam aos maiores e mais violentos conflitos mundiais. Poderão outros vociferar quanto quiserem no que toca a muito do “politicamente correcto”, mas um dos postulados reafirmados com a pós-modernidade literária deste novos escritores ex-coloniais inclui a sua vontade e capacidade de “responder ao império”, de apresentar outras visões artísticas da sua própria história, repor as imagens e as metáforas da sua própria dignidade durante os tempos em que voz não tinham, a legitimação institucional e intelectual das suas obras era quase proibida, sempre ignorada pelos bem-pensantes da academia. Ainda a meio de século passado ler um escritor afro-americano numa sala-de-aula era pouco comum, e isso mesmo a nível superior. Em Portugal, dava perseguição e cadeia. Os cabo-verdeanos viraram-se para a literatura brasileira por todas as razões históricas e linguísticas, e em Portugal eram poucos os que os conheciam, dentro ou fora das universidades. Comunicavam entre si, e de quando em quando chegavam alguns dos seus livros aos Açores. Ler as novas gerações que se têm evidenciado em países como Angola ou Moçambique não será o mesmo que ler uma escritora como Djaimilia Pereira de Almeida – estamos dentro de uma nova experiência e visão da literatura portuguesa, estamos, muito provavelmente, perante o início da renovação do nosso cânone, no qual a inclusão destas novas vozes vai redefinir toda uma cultura literária, que passa a ser cada vez mais inclusivista, a dialéctica entre o outro e os que nunca partiram do território enriquecendo e ampliando os referenciais geo-humanos que nos fizeram quem somos, ou pensamos ser. Esta literatura poderá demorar, mas vem aí, tal como o fado já mudou de letra, ritmo e som. Podem ranger os dentes os mais inabaláveis puritanos do nosso ambíguo portuguesismo, mas a verdade é que nada disto nos deveria parecer assim tão novo – simplesmente, as nossas letras e outras artes começam a manifestar, legitimamente e com o apoio de prestigiadas editoras, aquilo que sempre fomos, os filhos mestiços nascidos dos longínquos encontros e relacionamento íntimo com os outros. A autora de esse cabelo encerra a sua narrativa sem qualquer preocupação de se auto-definir ou de se apresentar com uma ou outra nacionalidade. Não precisa, sabemos que opta por ser portuguesa com origens em Moçambique e Angola, suponho que tem cidadania dupla, e está em paz, parece, no espaço que é o seu, com a saudade inevitavelmente transcontinental. Chegada a Portugal com dois anos de idade, em 1985, foi criada em Oeiras pelos seus avós portugueses que também haviam regressado de África. Doutorada em Teoria da Literatura, pela Universidade de Lisboa, nada na sua escrita é inocente, cada palavra, cada frase carregada com significados múltiplos, a beleza polissémica de uma escritora agarrando o leitor da primeira à última página. Este não é um livro só de uma estudiosa – é uma narrativa que desafia as próprias formas e géneros a que estamos habituados, um espaço literário entre a memória da vida vivida e a imaginação pura, o lugar “demasiado humano” entre a comédia e a tragédia, que já vêm insinuadas no subtítulo.

Durante muito tempo – escreve a narradora sobre o seu próprio ser, reconhecendo a pessoa que é, e não o que outros ou ela própria julgava que era – pensei que, de acordo com uma noção apropriada de seriedade, seria fraudulento dar a conhecer a Mila. Pensava então que ela seria percebida como uma negra de papel. Apercebo-me agora, porém, de que apenas para mim quem não fui é uma caricatura. Estar em minoria não consiste apenas em tomar de empréstimo a da nossa intimidade; consiste em apagar o que pode existir de singular não na vida que vivemos, mas na que não vivemos”.

Já nas últimas páginas de esse cabelo, a autora inclui duas lendárias fotos norte-americanas – a histórica chegada de Elizabeth Eckford ao Liceu Central de Little Rock, no estado sulista de Arkansas, rodeada de mulheres brancas em ira, relembra-nos a autora, o retrato inequívoco do ódio e da ignorância, a aluna negra caminhando sem medo e na postura mais digna e imaginável naquelas circunstâncias. Noutra foto famosa, Eddie Cantor pintado de negro negríssimo, a caricatura perfeita de como a suposta arte de um tempo desumanizou o outro, todos nós. Esta nova geração de escritores mundiais, para quem o sentido de pertença ou de pátria teria necessariamente de ser redefinido, universalizado, reapropria-se, inventa e reinventa as suas próprias linguagens, inventa e reinventa o seu próprio ser. Não se trata de uma arte literária de intervenção, ou sequer de protesto – mostra-nos as outras cores ou a fealdade das paisagens comuns das nossas vivências. A literatura não necessita de pregação ideológica, só a beleza da palavra e a “verdade” da mundividência de cada escritor – a grande literatura é o mais significativo e duradouro arquivo da nossa humanidade e libertação. Quando somos todos o outro, o nosso chão comum passa a ser o mosaico colorido da convivência, a pátria tão-só a ideia de que a coexistência dos povos é o único enlace que vale a pena defender e representar.

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Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo, Lisboa, Teorema/Leya, 2015.

António Ferro entre os nossos imigrantes na América do Norte

Capa Novo Mundo Mundo Novo

Se todo aquele esforço tivesse florido na paisagem portuguesa, se todo aquele suor tivesse humedecido algumas terras mortas de Portugal…

António Ferro, Novo Mundo Mundo Novo

Vamberto Freitas

Tenho lido este singular livro (que o jornal Público distribuiu há poucas semanas numa feliz edição facsimile) Novo Mundo Mundo Novo, de António Ferro, um dos modernistas portugueses que nas primeiras décadas do século passado haveria de se tornar amigo e depois colaborador de Fernando Pessoa e Mário Sá Carneiro, entre outros nas artes plásticas e cultura futurista em geral. Foi facilitador e primeiro director, aos dezanove anos de idade, da revista Orpheu, que tendo durado apenas dois números em vida do poeta da “Ode Triunfal” marcou indelevelmente boa parte da nossa melhor literatura de então, e a muita que viria depois. É certo que, como me fez lembrar um outro estudioso destas questões, quando António Ferro faz a sua decisiva viagem aos EUA em 1927 boa parte desse primeiro impulso modernista já tinha passado, e em poucos anos Ferro tornar-se-ia um grande colaborador de António Oliveira Salazar, recém-chegado ao Poder e que precisava de um reconhecido nome na sua secção de propaganda intelectual defensora do regime, encontrando no jornalista António Ferro a figura ideal, esse que em 1934, como responsável pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI) entregou um prémio nacional a Fernando Pessoa pelo seu Mensagem. Se hoje sabemos das injustiças e quase sempre improváveis escolhas desses júris, pelo menos o que dizem ter sido uma espécie de falcatrua perpetrada no caso de Pessoa foi mais do que justificada. Não devo gastar muitas palavras aqui com uma nota biográfica de Ferro, mas lembremos que essa sua visita à América já tinha sido precedida por uma longa história jornalística e intelectual nos maiores jornais da nossa capital, o homem que outros afirmam ter sido ainda o construtor ambíguo da imagem de Salazar e do seu regime, haveria ainda de entrevistar Benito Mussolini e Hitler, em directo, e em 1940 foi um dos dinamizadores e organizadores da grande Exposição do Mundo Português, em Lisboa. António Ferro, pois, teve sempre os seus admiradores e igual número de detractores, mas pouco disso me interessa, particularmente neste texto, para além de situar minimamente o homem e a obra que tem a ver com uma inusitada visão das nossas comunidades lusas nos Estados Unidos, as da Costa Lesta em menor grau, e as da Califórnia, também maioritariamente de origem açoriana, observadas bem mais prolongada e atentamente. Se digo “inusitada visão” não será tanto pelas opiniões que o eminente jornalista e depois representante de um governo autoritário manifestaria nas reportagens do Diário de Notícias, jornal para o qual escrevia nessa época, mas sim por ter sido ele o primeiro grande intelectual modernista e continental propositadamente a visitar essas nossas “colónias” (como então eram chamadas) e dar conta do que viu e ouviu em primeira mão. Lembremos que estamos aqui a dois anos da Grande Depressão na maior e mais antiga democracia do mundo, e a poucos anos da ditadura que governaria Portugal durante quase cinco décadas. O que parece ter levado Ferro a atravessar o Atlântico para conhecer os nossos conterrâneos nas fábricas e na pesca de New Bedford, e, uma vez mais, principalmente nos vastos campos agrícolas da Califórnia, é que se torna aqui a questão fulcral – testemunhar como os portugueses no outro lado do Atlântico foram e são capazes de virar o mundo ao contrário, enquanto em Portugal nem a terra revolvem nem o mar exploram.

António Ferro inicia a sua viagem a 27 de Março quando embarca em Cherburgo no gigantesco cruzeiro Leviathan rumo a Nova Iorque, onde permanece uns dias de cabeça levantada para os arranha-céus, visitando quase todos os seus bairros, inclusive Harlem e os seus clubes nocturnos de jazz e copos proibidos pela Lei Seca. Descreve tudo minuciosamente, um modernista luso à solta no antro da arte e da sedução, manifestando por entre a sua admiração o racismo anti-negro, mesmo que por palavras muito mais amenas do que seria habitual naquela época e precisamente naquele lugar, mas pelo menos lembrando que para além da música (“Rapsódia Negra”, intitula ele esse eufórico capítulo) que ele interiorizava, também havia poetas e escritores negros na capital literária do país-mosaico, e assiste à chegada triunfal de um Lindbergh após a sua viagem pioneira de avião até Paris, esse mesmo que se tornaria em pouco um defensor acérrimo de Hitler. O seu espanto e curiosidade ante tanta diversidade simultaneamente rude e sofisticada não resistem à comparação insistente com a velha Europa, especialmente com a sua Lisboa amada já em turbilhão político, mas não necessariamente artístico, um Sá Carneiro ido para sempre, um Fernando Pessoa provavelmente calado e quieto entre o Martinho da Arcada e a Brasileira do Chiado. Para um admirador do futurismo de Marinetti, Nova Iorque oferecia-lhe essa imaginação feita visão e realidade. Ferro atravessou toda a América de comboio, com a respectiva paragem em Washington, onde se encontra com o nosso embaixador, para quem as nossas comunidades eram mais uma ideia do que uma realidade merecedora de maior atenção, e a quem Ferro declara abertamente que a razão primeira da sua viagem a este país é ir ver como vivem os seus compatriotas na longínqua geografia do Pacífico. Pelo meio, aprecia um pouco de tudo, e não se esquece de mencionar – coisa rara entre outros escritores portugueses que anos mais tarde também visitariam a América, assumindo que não valeria a pena falar da sua literatura – nomes que na altura já eram muito prestigiados, como Sherwood Anderson, Eugene O’Neill, Carl Van Vechten, e especialmente John Dos Passos, Ferro fazendo questão de lembrar enfaticamente a sua ancestralidade portuguesa. A verdade é que Novo Mundo Mundo Novo é uma distinta narrativa portuguesa da América, que não só antecede muitas outras como se demarca dos preconceitos habituais de outros autores nossos. Ferro tem olho desperto para tudo e todos, está atento aos pormenores de aparências e comportamentos, desde a atitude do criado de mesa num restaurante à mulher que sai do escritório após um dia de trabalho, no seu andar nas ruas citadinas ou no seu dançar numa noite de festa aberta ou farra clandestina. Um dos seus capítulos bem mais humorados e cómicos, num olhar de pouca certeza sociológica, é precisamente sobre as raparigas americanas e os cuidados que um marialva português deverá ter em qualquer tentação de conquista momentânea, se não quiser pagar um alto preço, como um casamento obrigatório, ou pior. Se sobressaem sempre o que ele pensa serem as suas “verdades” sobre a América, por certo que o riso do leitor justifica a viragem de cada uma destas páginas sem igual entre nós.

É na sua passagem pela Califórnia, desde San Diego ao extremo norte do estado, que António Ferro se detém nos detalhes mais simbólicos, se manifesta no seu êxtase. O distinto e respeitado jornalista é inevitavelmente recebido pelo cônsul português em San Francisco, e especialmente pelos então líderes comunitários, uns com formação académica, outros ricos proprietários das grandes “leitarias” e fazendas agrícolas, convivendo em suas casas, partilhando as suas refeições, espreitando esse outro modo de vida. Ferro fala dos açorianos como quem com eles partilhou desde sempre a história nacional, realça o seu patriotismo e saudades da pobre terra deixada para trás. Alguns dos passos mais reveladores destes capítulos do seu livro abordam as mulheres imigrantes, e o que já lhe parecia ser uma certa igualdade de porte e responsabilidades, totalmente alheias na terra-pátria. Vezes sem fim, o modernista lisboeta inequivocamente de ideologia direitista, que em breve passaria para os corredores do poder na nossa capital, queixa-se da ausência deste sentido de vida no velho continente, e especula sobre o que seria Portugal se estas capacidades de cultivar a terra, colher as riquezas do mar, e manejar as máquinas tivessem acontecido no solo natal. Por vezes parece que ele visitou as nossas comunidades com o propósito escondido de atirar à cara da classe governante portuguesa um outro modo de entender e dirigir os afazeres da nação, de compensar o trabalho constante e competente de uma esmagada classe trabalhadora. Ferro relembra ainda que a maioria destes imigrantes que triunfaram na América nunca sequer viram o seu próprio país continental, mas mantêm um arraigado, inquestionável patriotismo

É preciso conhecer – escreve ele sobre um desses compatriotas de sucesso americano, numa época em que os não anglo-saxónicos eram vistos com desprezo e racismo aberto – os Estados Unidos, o seu egoísmo patriótico, a desconfiança com que olham os imigrantes que triunfam, para compreender o que significa esta verdade, esta linda verdade: John de Matos, bom cidadão americano, nasceu em Portugal, como todos sabem, como diz a toda a gente….”

Por certo que a elite portuguesa de então pouco sabia dos EUA, e muito menos se interessava pela sorte do seu povo imigrado. A audácia literária e intelectual de António Ferro fica ainda mais comprovada com estas suas linguagens de surpresa e apreço. Novo Mundo Mundo Novo deverá ocupar um lugar de destaque nas nossas estantes, parte que é de todo um cânone literário que versa a história de termos sido, de sermos o povo luso e nemesiano – que se planta num viveiro, diria ele, para ser replantado noutro. Ainda hoje.

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António Ferro, Novo Mundo Mundo Novo, Lisboa, Editora Portugal-Brasil, 1930. Edição distribuída recentemente pelo jornal Público. Eduardo Mayone Dias escreveu há uns anos sobre este mesmo livro num ensaio intitulado “António Ferro E O Seu Novo Mundo”, que pode ser lido nas páginas digitais da Fundação António Quadros.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 15 de Abril de 2016.

BorderCrossings: Leituras Transatlânticas III

V FREITAS BorderCrossings 3

Santos Narciso

BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras! Escrevi isto há cerca de dois anos (Leituras do Atlântico, 10 de Março de 2014), a propósito da leitura que fiz do volume dois do BorderCrossings – Leituras Transatlânticas. E, na altura, acrescentava: “Em Vamberto Freitas parece que tudo é proximidade, mesmo quando não concordamos. É como um bom copo de vinho que remata uma discussão que, dividindo ideias, cimenta a amizade”.

Passaram dois anos e aí está o terceiro volume desta aventura sem fronteiras, com chancela das Letras LAVAdas Edições que me chegou já há dias, com o abraço do Vamberto, que, em generosa dedicatória me chama “Amigo e companheiro de estrada nestas nossas geografias de afectos e memórias”.

Como já referi, algumas vezes, aqui nestas “Leituras do Atlântico”, nunca escrevo sobre um livro sem primeiro o ler e saborear. E há muitos livros, também, que leio e sobre os quais não escrevo. Simplesmente porque, para mim, escrever sobre um livro e sobre o seu autor, ou autora, é a melhor forma de completar a sua leitura, quando se gosta, quando se aprende, ou simplesmente quando nos recreamos.

No caso concreto deste BorderCrossings III, a leitura estava quase feita, embora me tenha fascinado a ordem e arrumação que Vamberto Freitas deu aos temas, dividindo-os em três grandes compartimentos, Literatura e Açorianidade, Em Casa e na Diáspora, Imaginários Americanos, a que junta ainda, em jeito de apêndice, uma entrevista retirada do seu blogue “Nas Duas Margens”. E digo que a leitura estava quase feita porque, desde que conheci Vamberto Freitas, e já lá vão muitos anos, nos tempos do Suplemento Açoriano de Cultura – SAC – que o Correio dos Açores publicou durante um lustro, (1995-2000) habituei-me a lê-lo e seguir os seus escritos, nos jornais, com destaque para o “Terra Nostra” e mais recentemente para o Açoriano Oriental, ou então no seu blogue “Nas Duas Margens”. E tudo isto porque Vamberto Freitas, mais do que meu amigo, é para mim uma referência obrigatória. Como dizia há meses uma Amiga comum, a escritora Lélia Nunes, Vamberto Freitas escreve com domínio absoluto sobre a Literatura Açoriana como a Literatura produzida na Diáspora. Escreve com estilo próprio, mundividências, esbanjando cultura e verdade, dando visibilidade à criação, aproximando geografias de nossos afectos e a transnacionalidade cultural e histórica, de forma persistente.

Pergunto-me, muitas vezes, de onde vem essa força, essa amplitude de conhecimentos e esta vocação para “apóstolo” da literatura açoriana, como escreveu o historiador e investigador, Carlos Melo Bento.

A resposta surge logo na primeiras linhas do Prefácio deste BorderCrossings III e é-nos dada pelo próprio autor quando escreve que ele “segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar”.

Identifico-me plenamente com a Professora Doutora Maria Teresa Martins Marques quando na apresentação do livro, mais uma vez na Livraria Solmar, uma “catedral” dos livros em plena celebração da “prata” da sua existência (parabéns, José Carlos Frias e Helena Frias), dizia que a crítica literária de Vamberto, muito mais do que judicativa, revela uma função iluminante dos textos, sendo capaz de criar curiosidade e empatia no leitor, fazendo-o desejar ler as obras que nos apresenta. É justamente para isto que deve servir a crítica e a análise dos textos. Vamberto revela-se não apenas crítico, não apenas ensaísta, não apenas historiador cultural e literário, mas também escritor de ideias, fenómeno raro como Einstein fez notar a Paul Valéry.

Não encontro palavras que melhor possam expressar o que Vamberto Freitas vem fazendo desde há muitos anos. Os seus livros, e creio que já lá vão 13, são, acima de tudo actos de afecto e de coragem de quem não teme dizer o que pensa, mesmo que se torne polémico ou incompreendido. Ainda agora, e logo no Prefácio, Vamberto diz, sem temores, falando da velha questão da literatura açoriana e de luso-descendentes: as “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nesta suposta legitimação vinda de outros. E acrescenta: No mundo lusófono, os açorianos e seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas (ou do grande continente a oeste), que é a sua primeira pátria, a dádiva maior dos seus antepassados lusitanos. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana, a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

Há neste livro sessenta e seis textos, todos escritos entre 2013 e 2015. E quando acima referi que por eles perpassa um mundo de afectos, não podia esquecer a referência maior, pórtico de amor e saudade: a dedicatória deste BroderCrossings, direitinha para a Adelaide, A memória de termos sido.

Sabendo da doença da companheira de Vamberto, esta memória é o mais belo presente de amor que alguém pode fazer. Este lado humano eleva e enobrece. Aliás, quem segue Vamberto, no seu blogue ou nas redes sociais, sabe bem que esta presença é uma constante de heroísmo perante o qual não há palavras. Só silêncio respeitoso. Lembro-me, e creio que está registado no livro, que quando Vamberto Freitas apresentou a edição comemorativa dos 25 anos do Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo, dedicou o maravilhoso texto à Adelaide, “com uma lágrima de saudade”. Para reter! E é Adelaide que está presente num verdadeiro Poema de Amor: Memória em silêncio (páginas 89-92 do actual volume).

Porque Vamberto é um Homem de Paixões. Recordo-me, politicamente, de estarmos em campos opostos e da força com que defendia as suas ideias contra a anterior coligação governamental e suas políticas, sem que isto beliscasse, nem um por momento, a nossa amizade.

Não cabe no espaço destas Leituras do Atlântico fazer o rol de assuntos, autores, livros e arte que encerra este BorderCrossings: Leituras Transatlânticas III. Isto fica para quem ler o livro. Com uma certeza. Aqui os textos são como as cerejas: em se começando, dificilmente nos desprendemos. E com consequências: revisitar obras já lidas, ou ficar na tentação de adquirir e ler o que ainda não lemos e para o que Vamberto de forma tão brilhante nos abre o apetite.

Finalmente, um apontamento muito pessoal, esperando que me perdoem a pontinha de vaidade: gostei muito que Vamberto tivesse escolhido uma frase minha, publicada neste espaço do Atlântico Expresso, para a contracapa do livro. Porque… BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras!

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Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas III, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2016. Recensão publicada no semanário Atlântico Expresso de 11 de Abril de 2016.

As linguagens da pós-modernidade e identidades

capa Do fundo do poço

Eu acho que é mais fácil saber onde estou do que saber quem sou. E se isso for igual com todo o mundo? E se todos estivermos vagando pelas ruas sem saber o nosso próprio nome?

Joca Reiners Terron, Do fundo do poço se vê a lua

Vamberto Freitas

Releio algumas das páginas sublinhadas e anotadas do meu exemplar deste grande romance Do fundo do poço se vê a lua, do brasileiro Joca Reiners Terron, e espanto-me uma vez mais com as suas linguagens poderosas, claras, indo como velozes setas ao centro do alvo, a metáfora assim tornada cristalina, também pelo seu constante recurso aos referenciais históricos, culturais e artísticos das mais recentes décadas num mundo ora em mutação violenta ora lambendo as feridas que a pós-modernidade nos trouxe – a extrema fragmentação societal em confronto com a persistente memória não do que fomos, mas do que pensamos deveríamos ter sido, ou de todos os ensinamentos, sagrados ou profanos, que nos tentaram impor. Se falo aqui em “nós” enquanto tento analisar uma peça de ficção contemporânea é porque não entendo a convivência com a arte literária sem estes momentos de aconchego, ou então olhando esse espelho que me devolve a imagem que não gostaria de ver, ou ainda que me lembra que do outro lado estará uma outra humanidade que nunca vivi ou que nunca me foi o labirinto pessoal. Se a literatura brasileira nos é conhecida primeiro pelo drama histórico da ruralidade do país imenso, do sangue identitário derramado na sua geografia sulista, da violência económica e logo política de um Nordeste com fome e sede, sobretudo de justiça, ou ainda as geografias outrora fontes da fabulosa riqueza ao centro e cuja decadência brutal seria tornada imemorial por uma obra prima como Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, a literatura citadina a partir de meados dos anos 60 é igualmente a de um poder temático de ampla abrangência na nossa língua, transfigurando o indivíduo e a sociedade nas suas buscas incessantes por uma identidade que se redefina contra a própria história, que liberte os seus personagens principais da sua própria ancestralidade, o ser humano aqui como em toda a parte à procura da felicidade, ou pelo menos de uma existência harmoniosa com o seu mais profundo ser. O romance de Joca Reiners Terron está tão bem alicerçado nas suas ricas linguagens trágico-cómicas que o leitor depressa esquece o seu tema, passando a rever-se nos mais improváveis personagens que alguma vez povoaram a literatura na nossa língua. Será como um quadro do expressionismo nova-iorquino de Jackson Pollock – o brilho das suas cores e a perfeição das suas formas improvisadas e caóticas bastam para prender o nosso olhar e mover a nossa imaginação. O que encontraremos depois, por mais inesperado que nos seja, clarifica e confirma o que da arte esperamos, a comunhão da beleza e da verdade na representação de quem somos ou pensamos ser. Que este é ainda um romance que tem no seu centro temático a transsexualidade do seu protagonista, o desencontro que parece irreparável de irmãos gémeos vindos de uma família decepada pela morte e pela solidão numa metrópole como São Paulo, em nada nos afastará de um jogo de espelhos que quanto mais distorcidos nos parecem mais verdadeiros se tornam em tudo o que se refere à luta de um ser humano pela sua dignidade e simples sobrevivência no labirinto a que os deuses o condenaram. Esqueçam alguma classificação crítica deste romance como sendo pulp fiction – não é este o primeiro autor ou artista brasileiro que ultrapassa de longe os seus supostos mestres norte-americanos. Esqueçam ainda que a ficção que nos parece vinda do antigo desespero burguês alimentado pelo narcisismo do protagonista não vai além disso. Como num Raymond Carver, a sociedade não se vê, mas está lá, dominante, desonesta, opressora.

Há imagens e metáforas recorrentes em Do fundo do poço se vê a lua – “labirinto de espelhos”, mar, baleia, tudo o que universalmente nos pode aterrorizar, biblicamente engolir na escuridão, mas também o confronto que nos liberta. Esta é a história de Wilson e Williams, dois irmãos paulistas que são criados e educados pelo pai e um amigo íntimo da casa, ambos actores menores num pequeno teatro, eventualmente destruído por uma tempestade de chuva e fogo. Wilson cedo descobre que o seu corpo não condiz com a sua biologia interior, instintos e desejos o contrário do irmão macho e violento. A sua existência isolada no carinho de um apartamento sem uma mãe que faleceu e outrora foi perseguida pela Ditadura militar leva-os a confundir o mundo em sua volta com a irrealidade da arte, com cinema hollywoodesco e a teatralização mais ou menos erudita e constante do pai. No décimo oitavo aniversário dos gémeos, a natureza do mundo e do seu ser coloca-os nos caminhos do destino. Wilson, após uma operação de mudança de sexo mais ou menos clandestina, vai até ao Egipto em busca do mundo que foi o berço da sua obsessão – Cleópatra tal como teria sido encarnada por Elizabeth Taylor e o seu par Marco António, na pessoa de Richard Burton. Está definida, a todos os níveis, a confusão entre realidade e ficção, um mundo de actores que confundem a tragédia histórica com o seu próprio desterro, seja na terra natal ou num palco tão distante e estranho como a cidade do Cairo nos anos 80, simplesmente uma outra capital muito antiga a braços com as mudanças radicais da nossa época, um mundo ainda menos reconhecível do que aquele do cinema. “Sem passado nem futuro, – diz o narrador a dada altura – a mim não restava nada a não ser aproveitar o dia”. Aliás, toda a existência de Wilson se confunde com a de um mundo de fantasia, com o que a sua imaginação lhe cria e recria. Do fundo do poço se vê a lua é pura meta-literatura – a dinâmica de um acto de criação pretendendo ser a narrativa plausível que de facto é, mergulhando em todo um mundo de cultura e história, levando o seu leitor a absorvê-la como mais uma representação artística em que o realismo e simbolismo das suas palavras se conjugam perfeitamente para nos devolver outro espelho do nosso próprio ser, nós e o outro um só, ou então a aceitação apaziguadora das nossas diferenças, a ficção como esse labirinto de espelhos em que todos nos revemos, ou melhor entendemos o que não somos.

Na época em que vivia com os travestis – diz Wilson finalmente ao que vem e tenta explicar a sua existência já no Cairo, agora dançarina de ventre estrangeira nos mais sujos e perigosos subterrâneos humanos, a vida por um fio – eu não podia compreender o apego que desenvolvera em relação àquele recorte amarelado de jornal no meio das páginas da biografia de Liz Taylor que havia sido encontrada comigo. Eu era capaz de lê-lo todos os dias, mesmo sem reconhecer os nomes citados ou adivinhá-los por trás das iniciais. Seguindo aquelas linhas, imaginava que obteria respostas sobre quem eu poderia ter sido. Por contraditório que possa parecer, aquelas notícias de um passado morto me enchiam de esperança”.

Uma das qualidades memoráveis deste romance é a profundeza com que o narrador nos define e insinua a vida interior de cada personagem significante, desde São Paulo ao Cairo, o que em língua inglesa se denomina bringing out character. Não são elas que estão ao serviço de ideias, algo mais comum do que seria desejável na nossa própria literatura, mas sim as ideias que delas sobressaem e seguram a atenção concentrada do leitor, para além da trama aqui urdida à maneira de uma outra espécie de policial ou romance de acção. Cada movimento gera uma uma consequência, cada escolha um fim. De resto, e como já referi anteriormente, tanto uma sociedade como a outra, a brasileira e a egípcia, vão sendo igualmente caracterizadas em meias palavras, descrições, lembranças do passado. Na capital financeira e cultural do Brasil vamos adivinhando a azáfama de rua e bastidores por uma palavra ou outra dos personagens mais distintos. No outro continente, numa sociedade entre o islamismo e a vontade da liberdade percorremos as ruas antigas e decadentes, as luzes a brilhar em paredes quase a ruir enquanto os seus habitantes olham os estrangeiros ora com desconfiança ora indiferentemente. Nunca vemos uma sociedade inteiramente fundamentalista ou inteiramente à vontade com o outro no seu meio. A humanidade a saque, sempre, por entre a hipocrisia da modernidade ocidental ou magoada ainda pela memória da grandeza milenária dos faraós e da Esfinge aos seus portões. Não há sexo explícito aqui, nem violência gratuita à moda da ficção parodiante americana. A sensualidade insinuada fica pelas meias palavras, pelos chamamentos a outras manifestações artísticas recordadas mais pela fama e beleza das actrizes do que pelas suas representações em contextos diferentes, na vida vivida ou na vida ficcionada pelos tablóides da cada época. A leitura de Do fundo do poço se vê a lua, todo ele escrito nessa linguagem tão escorreita como carregada de simbolismo e significados múltiplos, progride como que num dos muitos filmes aqui mencionados, ou numa das peças em palco descritas ou recontadas por Wilson. Eis aqui o duplo em cada um de nós, numa batalha psicológica nada menos ameaçadora do que a negação da nossa própria natureza ou vontade imaginária.

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Joca Reiners Terron, Do fundo do poço se vê a lua, Lisboa, Teorema/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 08 de Abril de 2016.

Manuel Alegre: vida e literatura

capa Uma outra memória

Podemos talvez perguntar-nos que sentido tem hoje a poesia neste tempo dominado pela ignorância, pela ganância, pela estupidez e pelo império do dinheiro? Poderá o poema continuar a rimar com a vida?

Manuel Alegre, Uma outra memória

Vamberto Freitas

A atribuição de mais dois prémios nacionais a Manuel Alegre, Prémio de Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), e Prémio Consagração de Carreira 2016, da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), não será mera coincidência, mas sim o reconhecimento inevitável a um grande poeta e escritor da nossa modernidade, vivida em liberdade e em ditadura, e que ele, como poucos entre nós, tem honrado a tradição do intelectual público e político. O próprio autor responde no seu mais recente livro de prosa, Uma outra memória: A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos, a esta e a outras perguntas semelhantes, como a que vai aqui em epígrafe, num tempo em que a literatura parece cada vez mais “irrelevante”, e a política vivendo dias de descrédito geral, tanto no nosso país como no restante mundo ocidental. “Perguntam-me muitas vezes – escreve num texto intitulado precisamente ‘O poema e a vida’ – como é possível conciliar a poesia e a política. Eu próprio vivi e sofri esse dilema. Mas um dia percebi que já o tinha resolvido num poema publicado em Praça da Canção (o meu primeiro livro) e que se intitulava ‘Como se faz um poema’”. Toda a grande poesia, sabemos, transmite o mais íntimo ou o mais significante saber do seu autor, a sua génese encontra-se por dentro de uma vida vivida e examinada, por assim dizer. Os leitores de Manuel Alegre conhecem muito bem a sua biografia de poeta contestatário, de resistente activo e exilado, e de deputado da República após a reconquista da liberdade na segunda metade do século passado. Parti vestido de soldado. Eu vi Lisboa/cheia de lágrimas./E um avião ficou/por muito tempo voando entre lágrimas e nuvens…, declara num poema citado por ele próprio. Este outro reconhecimento da sua obra pelos seus pares e o livro que acaba de publicar vêm no momento certíssimo para falarmos do autor, por certo, mas acima de tudo porque o momento da nossa vida nacional e internacional é um amedrontado ponto de interrogação, pelas mil e umas razões que qualquer cidadão minimamente informado saberá e sente. Marx dizia muito acertadamente que a História primeiro acontece como tragédia, depois repete-se como farsa. A resposta a esse ponto de interrogação nas nossas vidas colectivas, para quem sabe do passado, do nosso e dos outros, não será de medo, mas sim de luta, preferivelmente de luta civilizada, democrática, respeitadora da dignidade de cada ser humano e das suas posições ideológicas, assumindo que esses adversários não advogam qualquer violência ou atentado à integridade física e moral de outros. Será aqui que a resposta à farsa da nossa actualidade não poderá ser muito diferente da de um passado ainda na nossa memória – a força da palavra, em todas as suas formas e géneros contra aqueles que nada têm a dizer para além de que simplesmente temos de nos “ajustar” a certas “realidades”, ou, mais cínico e impiedoso ainda, numa total ausência de orgulho pátrio, auto-estima, ou simplesmente como ave de rapina – quem tem dinheiro é que manda. É este, de novo, o país e o mundo em que vive Manuel Alegre, e nós todos. É esta, de novo, a realidade em que se movem os escritores, que terão de fazer as suas escolhas no uso do verbo, na transfiguração do que mais lhes move e comove.

Uma outra memória faz essa abordagem em textos necessariamente mistos e publicados em ocasiões diferentes, abrangendo a poesia do autor, e muito particularmente prestando homenagem às mais diversas figuras da nossa literatura, em certos casos das literaturas africanas lusófonas, e muito particularmente os camaradas políticos que partilharam com Manuel Alegre os anos de grandes combates de rua, e depois na Assembleia da República, uns já falecidos, outros ainda entre nós. Em qualquer dos casos, a literatura nunca está inteiramente desligada dos chamamentos cívicos que o autor enfrentou ao longo de toda a sua vida. A poética da sua existência, desde os marcantes lugares da nascença, da passagem por Coimbra, onde o “canto e as armas” começaram a aliar-se na luta pela dignidade da nação, a sua passagem por Angola, e logo de seguida a sua longa estadia na Argélia até ao regresso definitivo à pátria constituem o que poderiam ser os capítulos dominantes de uma biografia sua, e que um dia deverá ser escrita por quem o seguiu e segue com admiração, e consciente de que Manuel Alegre integra-se numa antiga tradição portuguesa e europeia do escritor e intelectual interventivo, e cuja voz literária está para sempre associada ao tema que sempre foi o seu – a poesia escrita e cantada, nascida do mais profundo do seu ser e experiência de vida, como hino da nação, como hino à liberdade, participativa ou não, do cidadão e dos seus inalienáveis direitos cívicos e humanos, a literatura como arquivo criativo e vivo de toda uma época histórica, a memória de um poeta e da grande comunidade transcontinental e arquipelágica unida pela língua e capacidade de erguer civilizações durante longos séculos, tentado ultrapassar todos os obstáculos e desentendimentos para hoje conversarmos em sotaques diferentes mas em linguagens comuns quanto a um futuro-outro para todos. Se a poesia de uma nação é a sua mais duradoura manifestação civilizacional, como tem sido desde Homero até aos nossos dias, a biografia ou autobiografia de quem a escreve poderá permanecer desconhecida entre alguns, mas os leitores que a conhecem nos seus contornos decisivos, creio, enriquecem o seu entendimento do texto, enquadrando-o nas circunstâncias históricas da sua génese, na desconstrução de cada metáfora, na interpretação de cada imagem. Não creio haver outro poeta da nossa modernidade que tenha participado e estado tão atento a todas as nossas artes, em diálogo permanente com os seus pares, num dialogismo ainda entre obras de variadas formas, a palavra sempre como instrumento da estética, do pensamento, do canto, do discurso público. Epopeia e anti-epopeia nacional, a demanda incessante da verdade do passado e da liberdade para que o futuro seja a vontade de homens e mulheres livres, o reconhecimento do outro como parte indissociável da proximidade de alma e cidadania universalizada. Interessam-me estas qualidades do escritor e do cidadão. As polémicas e azedumes naturais à actividade política não me são indiferentes, muito menos a defesa ideológica de uma sociedade aberta e de direitos e igualdade fraternal para todos. Política e literatura? Sim. Saber dissecar um texto literário sem aplicar essa mesma sensibilidade e capacidade intelectual às questões que determinam o lugar da arte numa comunidade é de uma ingenuidade que só certas academias desculpam, sem nunca topar a insustentável contradição. As conclusões a que chegam uns e outros num destes campos de afazeres humanos poderão ser diferentes, opostos, mas sem liberdade a arte ficará condenada a meras parábolas, e os seus autores à cadeia ou ao exílio, a leitura feita às escondidas. Foi isto que nos aconteceu durante quase 50 anos, e foi contra isto que Manuel Alegre e a sua obra lutaram, assumindo conscientemente os valores existenciais que determinaram a sua sorte de vida.

A sua escrita, – escreve em ‘Algumas coisas que devo a Luandino Vieira’, numa alusão directa ao que ao que diz dever ao grande escritor angolano – que só mais tarde viria a ler. Uma escrita que renovou a literatura angolana, abalou o regime fascista e colonialista e mostrou que um livro pode ter mais força que todas as polícias, todas as censuras e todas as armas. Um livro chamado Luuanda, que afirmava a identidade e a liberdade angolana e estava escrito numa renovada, reinventada e enriquecida língua portuguesa”.

Os textos de Uma outra memória destacam todo um rol de nomes que já fazem parte da nossa memória colectiva, todos eles associados a tempos e gerações diferentes, os nossos cantores e poetas da rebeldia lusa mais conhecidos, outros artistas, como a Amália, que reafirmaram o nosso modo de ser e estar pela sua voz e pela beleza da poesia de Camões, de David Mourão-Ferreira, de Alexandre O’Neill, ou do próprio Manuel Alegre, e ainda o lamento de um povo na aceitação ou rejeição do seu destino. Estão aqui também breves retratos de políticos, ou outros políticos-escritores, como Álvaro Cunhal, Sottomayor Cardia, e Mário Soares, assim como os romancistas António Lobo Antunes e Urbano Tavares Rodrigues. Manuel Alegre regressa nestas páginas, inevitavelmente, à questão da Europa e o nosso relacionamento actual com a realidade e o sonho que ensombram e iluminam o velho continente. Dei por mim a ler o livro em sequência, de nome em nome e de tema em tema, tornado-o uma narrativa que interliga figuras, obras, ideias políticas e apreciações literárias. O que fica é outro mosaico das mundividências de um poeta consequente no nosso tempo português, autor de uma vastíssima obra, proeminentemente exemplificada pela poesia de A Praça da Canção, O Canto e as Armas, Senhora das Tempestades, e os romances Jornada de África e Alma.

O político Manuel Alegre está, parece, aposentado. O poeta e o escritor, nunca. É esse o seu chamamento primeiro. A sua obra faz parte única e indelével do cânone literário e cultural da nação e da língua portuguesa.

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Manuel Alegre, Uma outra memória: A escrita, Portugal, e os camaradas dos sonhos, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 1 de Abril de 2016.