Manuel Alegre: vida e literatura

capa Uma outra memória

Podemos talvez perguntar-nos que sentido tem hoje a poesia neste tempo dominado pela ignorância, pela ganância, pela estupidez e pelo império do dinheiro? Poderá o poema continuar a rimar com a vida?

Manuel Alegre, Uma outra memória

Vamberto Freitas

A atribuição de mais dois prémios nacionais a Manuel Alegre, Prémio de Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), e Prémio Consagração de Carreira 2016, da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), não será mera coincidência, mas sim o reconhecimento inevitável a um grande poeta e escritor da nossa modernidade, vivida em liberdade e em ditadura, e que ele, como poucos entre nós, tem honrado a tradição do intelectual público e político. O próprio autor responde no seu mais recente livro de prosa, Uma outra memória: A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos, a esta e a outras perguntas semelhantes, como a que vai aqui em epígrafe, num tempo em que a literatura parece cada vez mais “irrelevante”, e a política vivendo dias de descrédito geral, tanto no nosso país como no restante mundo ocidental. “Perguntam-me muitas vezes – escreve num texto intitulado precisamente ‘O poema e a vida’ – como é possível conciliar a poesia e a política. Eu próprio vivi e sofri esse dilema. Mas um dia percebi que já o tinha resolvido num poema publicado em Praça da Canção (o meu primeiro livro) e que se intitulava ‘Como se faz um poema’”. Toda a grande poesia, sabemos, transmite o mais íntimo ou o mais significante saber do seu autor, a sua génese encontra-se por dentro de uma vida vivida e examinada, por assim dizer. Os leitores de Manuel Alegre conhecem muito bem a sua biografia de poeta contestatário, de resistente activo e exilado, e de deputado da República após a reconquista da liberdade na segunda metade do século passado. Parti vestido de soldado. Eu vi Lisboa/cheia de lágrimas./E um avião ficou/por muito tempo voando entre lágrimas e nuvens…, declara num poema citado por ele próprio. Este outro reconhecimento da sua obra pelos seus pares e o livro que acaba de publicar vêm no momento certíssimo para falarmos do autor, por certo, mas acima de tudo porque o momento da nossa vida nacional e internacional é um amedrontado ponto de interrogação, pelas mil e umas razões que qualquer cidadão minimamente informado saberá e sente. Marx dizia muito acertadamente que a História primeiro acontece como tragédia, depois repete-se como farsa. A resposta a esse ponto de interrogação nas nossas vidas colectivas, para quem sabe do passado, do nosso e dos outros, não será de medo, mas sim de luta, preferivelmente de luta civilizada, democrática, respeitadora da dignidade de cada ser humano e das suas posições ideológicas, assumindo que esses adversários não advogam qualquer violência ou atentado à integridade física e moral de outros. Será aqui que a resposta à farsa da nossa actualidade não poderá ser muito diferente da de um passado ainda na nossa memória – a força da palavra, em todas as suas formas e géneros contra aqueles que nada têm a dizer para além de que simplesmente temos de nos “ajustar” a certas “realidades”, ou, mais cínico e impiedoso ainda, numa total ausência de orgulho pátrio, auto-estima, ou simplesmente como ave de rapina – quem tem dinheiro é que manda. É este, de novo, o país e o mundo em que vive Manuel Alegre, e nós todos. É esta, de novo, a realidade em que se movem os escritores, que terão de fazer as suas escolhas no uso do verbo, na transfiguração do que mais lhes move e comove.

Uma outra memória faz essa abordagem em textos necessariamente mistos e publicados em ocasiões diferentes, abrangendo a poesia do autor, e muito particularmente prestando homenagem às mais diversas figuras da nossa literatura, em certos casos das literaturas africanas lusófonas, e muito particularmente os camaradas políticos que partilharam com Manuel Alegre os anos de grandes combates de rua, e depois na Assembleia da República, uns já falecidos, outros ainda entre nós. Em qualquer dos casos, a literatura nunca está inteiramente desligada dos chamamentos cívicos que o autor enfrentou ao longo de toda a sua vida. A poética da sua existência, desde os marcantes lugares da nascença, da passagem por Coimbra, onde o “canto e as armas” começaram a aliar-se na luta pela dignidade da nação, a sua passagem por Angola, e logo de seguida a sua longa estadia na Argélia até ao regresso definitivo à pátria constituem o que poderiam ser os capítulos dominantes de uma biografia sua, e que um dia deverá ser escrita por quem o seguiu e segue com admiração, e consciente de que Manuel Alegre integra-se numa antiga tradição portuguesa e europeia do escritor e intelectual interventivo, e cuja voz literária está para sempre associada ao tema que sempre foi o seu – a poesia escrita e cantada, nascida do mais profundo do seu ser e experiência de vida, como hino da nação, como hino à liberdade, participativa ou não, do cidadão e dos seus inalienáveis direitos cívicos e humanos, a literatura como arquivo criativo e vivo de toda uma época histórica, a memória de um poeta e da grande comunidade transcontinental e arquipelágica unida pela língua e capacidade de erguer civilizações durante longos séculos, tentado ultrapassar todos os obstáculos e desentendimentos para hoje conversarmos em sotaques diferentes mas em linguagens comuns quanto a um futuro-outro para todos. Se a poesia de uma nação é a sua mais duradoura manifestação civilizacional, como tem sido desde Homero até aos nossos dias, a biografia ou autobiografia de quem a escreve poderá permanecer desconhecida entre alguns, mas os leitores que a conhecem nos seus contornos decisivos, creio, enriquecem o seu entendimento do texto, enquadrando-o nas circunstâncias históricas da sua génese, na desconstrução de cada metáfora, na interpretação de cada imagem. Não creio haver outro poeta da nossa modernidade que tenha participado e estado tão atento a todas as nossas artes, em diálogo permanente com os seus pares, num dialogismo ainda entre obras de variadas formas, a palavra sempre como instrumento da estética, do pensamento, do canto, do discurso público. Epopeia e anti-epopeia nacional, a demanda incessante da verdade do passado e da liberdade para que o futuro seja a vontade de homens e mulheres livres, o reconhecimento do outro como parte indissociável da proximidade de alma e cidadania universalizada. Interessam-me estas qualidades do escritor e do cidadão. As polémicas e azedumes naturais à actividade política não me são indiferentes, muito menos a defesa ideológica de uma sociedade aberta e de direitos e igualdade fraternal para todos. Política e literatura? Sim. Saber dissecar um texto literário sem aplicar essa mesma sensibilidade e capacidade intelectual às questões que determinam o lugar da arte numa comunidade é de uma ingenuidade que só certas academias desculpam, sem nunca topar a insustentável contradição. As conclusões a que chegam uns e outros num destes campos de afazeres humanos poderão ser diferentes, opostos, mas sem liberdade a arte ficará condenada a meras parábolas, e os seus autores à cadeia ou ao exílio, a leitura feita às escondidas. Foi isto que nos aconteceu durante quase 50 anos, e foi contra isto que Manuel Alegre e a sua obra lutaram, assumindo conscientemente os valores existenciais que determinaram a sua sorte de vida.

A sua escrita, – escreve em ‘Algumas coisas que devo a Luandino Vieira’, numa alusão directa ao que ao que diz dever ao grande escritor angolano – que só mais tarde viria a ler. Uma escrita que renovou a literatura angolana, abalou o regime fascista e colonialista e mostrou que um livro pode ter mais força que todas as polícias, todas as censuras e todas as armas. Um livro chamado Luuanda, que afirmava a identidade e a liberdade angolana e estava escrito numa renovada, reinventada e enriquecida língua portuguesa”.

Os textos de Uma outra memória destacam todo um rol de nomes que já fazem parte da nossa memória colectiva, todos eles associados a tempos e gerações diferentes, os nossos cantores e poetas da rebeldia lusa mais conhecidos, outros artistas, como a Amália, que reafirmaram o nosso modo de ser e estar pela sua voz e pela beleza da poesia de Camões, de David Mourão-Ferreira, de Alexandre O’Neill, ou do próprio Manuel Alegre, e ainda o lamento de um povo na aceitação ou rejeição do seu destino. Estão aqui também breves retratos de políticos, ou outros políticos-escritores, como Álvaro Cunhal, Sottomayor Cardia, e Mário Soares, assim como os romancistas António Lobo Antunes e Urbano Tavares Rodrigues. Manuel Alegre regressa nestas páginas, inevitavelmente, à questão da Europa e o nosso relacionamento actual com a realidade e o sonho que ensombram e iluminam o velho continente. Dei por mim a ler o livro em sequência, de nome em nome e de tema em tema, tornado-o uma narrativa que interliga figuras, obras, ideias políticas e apreciações literárias. O que fica é outro mosaico das mundividências de um poeta consequente no nosso tempo português, autor de uma vastíssima obra, proeminentemente exemplificada pela poesia de A Praça da Canção, O Canto e as Armas, Senhora das Tempestades, e os romances Jornada de África e Alma.

O político Manuel Alegre está, parece, aposentado. O poeta e o escritor, nunca. É esse o seu chamamento primeiro. A sua obra faz parte única e indelével do cânone literário e cultural da nação e da língua portuguesa.

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Manuel Alegre, Uma outra memória: A escrita, Portugal, e os camaradas dos sonhos, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 1 de Abril de 2016.

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