BorderCrossings: Leituras Transatlânticas III

V FREITAS BorderCrossings 3

Santos Narciso

BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras! Escrevi isto há cerca de dois anos (Leituras do Atlântico, 10 de Março de 2014), a propósito da leitura que fiz do volume dois do BorderCrossings – Leituras Transatlânticas. E, na altura, acrescentava: “Em Vamberto Freitas parece que tudo é proximidade, mesmo quando não concordamos. É como um bom copo de vinho que remata uma discussão que, dividindo ideias, cimenta a amizade”.

Passaram dois anos e aí está o terceiro volume desta aventura sem fronteiras, com chancela das Letras LAVAdas Edições que me chegou já há dias, com o abraço do Vamberto, que, em generosa dedicatória me chama “Amigo e companheiro de estrada nestas nossas geografias de afectos e memórias”.

Como já referi, algumas vezes, aqui nestas “Leituras do Atlântico”, nunca escrevo sobre um livro sem primeiro o ler e saborear. E há muitos livros, também, que leio e sobre os quais não escrevo. Simplesmente porque, para mim, escrever sobre um livro e sobre o seu autor, ou autora, é a melhor forma de completar a sua leitura, quando se gosta, quando se aprende, ou simplesmente quando nos recreamos.

No caso concreto deste BorderCrossings III, a leitura estava quase feita, embora me tenha fascinado a ordem e arrumação que Vamberto Freitas deu aos temas, dividindo-os em três grandes compartimentos, Literatura e Açorianidade, Em Casa e na Diáspora, Imaginários Americanos, a que junta ainda, em jeito de apêndice, uma entrevista retirada do seu blogue “Nas Duas Margens”. E digo que a leitura estava quase feita porque, desde que conheci Vamberto Freitas, e já lá vão muitos anos, nos tempos do Suplemento Açoriano de Cultura – SAC – que o Correio dos Açores publicou durante um lustro, (1995-2000) habituei-me a lê-lo e seguir os seus escritos, nos jornais, com destaque para o “Terra Nostra” e mais recentemente para o Açoriano Oriental, ou então no seu blogue “Nas Duas Margens”. E tudo isto porque Vamberto Freitas, mais do que meu amigo, é para mim uma referência obrigatória. Como dizia há meses uma Amiga comum, a escritora Lélia Nunes, Vamberto Freitas escreve com domínio absoluto sobre a Literatura Açoriana como a Literatura produzida na Diáspora. Escreve com estilo próprio, mundividências, esbanjando cultura e verdade, dando visibilidade à criação, aproximando geografias de nossos afectos e a transnacionalidade cultural e histórica, de forma persistente.

Pergunto-me, muitas vezes, de onde vem essa força, essa amplitude de conhecimentos e esta vocação para “apóstolo” da literatura açoriana, como escreveu o historiador e investigador, Carlos Melo Bento.

A resposta surge logo na primeiras linhas do Prefácio deste BorderCrossings III e é-nos dada pelo próprio autor quando escreve que ele “segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar”.

Identifico-me plenamente com a Professora Doutora Maria Teresa Martins Marques quando na apresentação do livro, mais uma vez na Livraria Solmar, uma “catedral” dos livros em plena celebração da “prata” da sua existência (parabéns, José Carlos Frias e Helena Frias), dizia que a crítica literária de Vamberto, muito mais do que judicativa, revela uma função iluminante dos textos, sendo capaz de criar curiosidade e empatia no leitor, fazendo-o desejar ler as obras que nos apresenta. É justamente para isto que deve servir a crítica e a análise dos textos. Vamberto revela-se não apenas crítico, não apenas ensaísta, não apenas historiador cultural e literário, mas também escritor de ideias, fenómeno raro como Einstein fez notar a Paul Valéry.

Não encontro palavras que melhor possam expressar o que Vamberto Freitas vem fazendo desde há muitos anos. Os seus livros, e creio que já lá vão 13, são, acima de tudo actos de afecto e de coragem de quem não teme dizer o que pensa, mesmo que se torne polémico ou incompreendido. Ainda agora, e logo no Prefácio, Vamberto diz, sem temores, falando da velha questão da literatura açoriana e de luso-descendentes: as “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nesta suposta legitimação vinda de outros. E acrescenta: No mundo lusófono, os açorianos e seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas (ou do grande continente a oeste), que é a sua primeira pátria, a dádiva maior dos seus antepassados lusitanos. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana, a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

Há neste livro sessenta e seis textos, todos escritos entre 2013 e 2015. E quando acima referi que por eles perpassa um mundo de afectos, não podia esquecer a referência maior, pórtico de amor e saudade: a dedicatória deste BroderCrossings, direitinha para a Adelaide, A memória de termos sido.

Sabendo da doença da companheira de Vamberto, esta memória é o mais belo presente de amor que alguém pode fazer. Este lado humano eleva e enobrece. Aliás, quem segue Vamberto, no seu blogue ou nas redes sociais, sabe bem que esta presença é uma constante de heroísmo perante o qual não há palavras. Só silêncio respeitoso. Lembro-me, e creio que está registado no livro, que quando Vamberto Freitas apresentou a edição comemorativa dos 25 anos do Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo, dedicou o maravilhoso texto à Adelaide, “com uma lágrima de saudade”. Para reter! E é Adelaide que está presente num verdadeiro Poema de Amor: Memória em silêncio (páginas 89-92 do actual volume).

Porque Vamberto é um Homem de Paixões. Recordo-me, politicamente, de estarmos em campos opostos e da força com que defendia as suas ideias contra a anterior coligação governamental e suas políticas, sem que isto beliscasse, nem um por momento, a nossa amizade.

Não cabe no espaço destas Leituras do Atlântico fazer o rol de assuntos, autores, livros e arte que encerra este BorderCrossings: Leituras Transatlânticas III. Isto fica para quem ler o livro. Com uma certeza. Aqui os textos são como as cerejas: em se começando, dificilmente nos desprendemos. E com consequências: revisitar obras já lidas, ou ficar na tentação de adquirir e ler o que ainda não lemos e para o que Vamberto de forma tão brilhante nos abre o apetite.

Finalmente, um apontamento muito pessoal, esperando que me perdoem a pontinha de vaidade: gostei muito que Vamberto tivesse escolhido uma frase minha, publicada neste espaço do Atlântico Expresso, para a contracapa do livro. Porque… BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras!

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Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas III, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2016. Recensão publicada no semanário Atlântico Expresso de 11 de Abril de 2016.

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