António Ferro entre os nossos imigrantes na América do Norte

Capa Novo Mundo Mundo Novo

Se todo aquele esforço tivesse florido na paisagem portuguesa, se todo aquele suor tivesse humedecido algumas terras mortas de Portugal…

António Ferro, Novo Mundo Mundo Novo

Vamberto Freitas

Tenho lido este singular livro (que o jornal Público distribuiu há poucas semanas numa feliz edição facsimile) Novo Mundo Mundo Novo, de António Ferro, um dos modernistas portugueses que nas primeiras décadas do século passado haveria de se tornar amigo e depois colaborador de Fernando Pessoa e Mário Sá Carneiro, entre outros nas artes plásticas e cultura futurista em geral. Foi facilitador e primeiro director, aos dezanove anos de idade, da revista Orpheu, que tendo durado apenas dois números em vida do poeta da “Ode Triunfal” marcou indelevelmente boa parte da nossa melhor literatura de então, e a muita que viria depois. É certo que, como me fez lembrar um outro estudioso destas questões, quando António Ferro faz a sua decisiva viagem aos EUA em 1927 boa parte desse primeiro impulso modernista já tinha passado, e em poucos anos Ferro tornar-se-ia um grande colaborador de António Oliveira Salazar, recém-chegado ao Poder e que precisava de um reconhecido nome na sua secção de propaganda intelectual defensora do regime, encontrando no jornalista António Ferro a figura ideal, esse que em 1934, como responsável pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI) entregou um prémio nacional a Fernando Pessoa pelo seu Mensagem. Se hoje sabemos das injustiças e quase sempre improváveis escolhas desses júris, pelo menos o que dizem ter sido uma espécie de falcatrua perpetrada no caso de Pessoa foi mais do que justificada. Não devo gastar muitas palavras aqui com uma nota biográfica de Ferro, mas lembremos que essa sua visita à América já tinha sido precedida por uma longa história jornalística e intelectual nos maiores jornais da nossa capital, o homem que outros afirmam ter sido ainda o construtor ambíguo da imagem de Salazar e do seu regime, haveria ainda de entrevistar Benito Mussolini e Hitler, em directo, e em 1940 foi um dos dinamizadores e organizadores da grande Exposição do Mundo Português, em Lisboa. António Ferro, pois, teve sempre os seus admiradores e igual número de detractores, mas pouco disso me interessa, particularmente neste texto, para além de situar minimamente o homem e a obra que tem a ver com uma inusitada visão das nossas comunidades lusas nos Estados Unidos, as da Costa Lesta em menor grau, e as da Califórnia, também maioritariamente de origem açoriana, observadas bem mais prolongada e atentamente. Se digo “inusitada visão” não será tanto pelas opiniões que o eminente jornalista e depois representante de um governo autoritário manifestaria nas reportagens do Diário de Notícias, jornal para o qual escrevia nessa época, mas sim por ter sido ele o primeiro grande intelectual modernista e continental propositadamente a visitar essas nossas “colónias” (como então eram chamadas) e dar conta do que viu e ouviu em primeira mão. Lembremos que estamos aqui a dois anos da Grande Depressão na maior e mais antiga democracia do mundo, e a poucos anos da ditadura que governaria Portugal durante quase cinco décadas. O que parece ter levado Ferro a atravessar o Atlântico para conhecer os nossos conterrâneos nas fábricas e na pesca de New Bedford, e, uma vez mais, principalmente nos vastos campos agrícolas da Califórnia, é que se torna aqui a questão fulcral – testemunhar como os portugueses no outro lado do Atlântico foram e são capazes de virar o mundo ao contrário, enquanto em Portugal nem a terra revolvem nem o mar exploram.

António Ferro inicia a sua viagem a 27 de Março quando embarca em Cherburgo no gigantesco cruzeiro Leviathan rumo a Nova Iorque, onde permanece uns dias de cabeça levantada para os arranha-céus, visitando quase todos os seus bairros, inclusive Harlem e os seus clubes nocturnos de jazz e copos proibidos pela Lei Seca. Descreve tudo minuciosamente, um modernista luso à solta no antro da arte e da sedução, manifestando por entre a sua admiração o racismo anti-negro, mesmo que por palavras muito mais amenas do que seria habitual naquela época e precisamente naquele lugar, mas pelo menos lembrando que para além da música (“Rapsódia Negra”, intitula ele esse eufórico capítulo) que ele interiorizava, também havia poetas e escritores negros na capital literária do país-mosaico, e assiste à chegada triunfal de um Lindbergh após a sua viagem pioneira de avião até Paris, esse mesmo que se tornaria em pouco um defensor acérrimo de Hitler. O seu espanto e curiosidade ante tanta diversidade simultaneamente rude e sofisticada não resistem à comparação insistente com a velha Europa, especialmente com a sua Lisboa amada já em turbilhão político, mas não necessariamente artístico, um Sá Carneiro ido para sempre, um Fernando Pessoa provavelmente calado e quieto entre o Martinho da Arcada e a Brasileira do Chiado. Para um admirador do futurismo de Marinetti, Nova Iorque oferecia-lhe essa imaginação feita visão e realidade. Ferro atravessou toda a América de comboio, com a respectiva paragem em Washington, onde se encontra com o nosso embaixador, para quem as nossas comunidades eram mais uma ideia do que uma realidade merecedora de maior atenção, e a quem Ferro declara abertamente que a razão primeira da sua viagem a este país é ir ver como vivem os seus compatriotas na longínqua geografia do Pacífico. Pelo meio, aprecia um pouco de tudo, e não se esquece de mencionar – coisa rara entre outros escritores portugueses que anos mais tarde também visitariam a América, assumindo que não valeria a pena falar da sua literatura – nomes que na altura já eram muito prestigiados, como Sherwood Anderson, Eugene O’Neill, Carl Van Vechten, e especialmente John Dos Passos, Ferro fazendo questão de lembrar enfaticamente a sua ancestralidade portuguesa. A verdade é que Novo Mundo Mundo Novo é uma distinta narrativa portuguesa da América, que não só antecede muitas outras como se demarca dos preconceitos habituais de outros autores nossos. Ferro tem olho desperto para tudo e todos, está atento aos pormenores de aparências e comportamentos, desde a atitude do criado de mesa num restaurante à mulher que sai do escritório após um dia de trabalho, no seu andar nas ruas citadinas ou no seu dançar numa noite de festa aberta ou farra clandestina. Um dos seus capítulos bem mais humorados e cómicos, num olhar de pouca certeza sociológica, é precisamente sobre as raparigas americanas e os cuidados que um marialva português deverá ter em qualquer tentação de conquista momentânea, se não quiser pagar um alto preço, como um casamento obrigatório, ou pior. Se sobressaem sempre o que ele pensa serem as suas “verdades” sobre a América, por certo que o riso do leitor justifica a viragem de cada uma destas páginas sem igual entre nós.

É na sua passagem pela Califórnia, desde San Diego ao extremo norte do estado, que António Ferro se detém nos detalhes mais simbólicos, se manifesta no seu êxtase. O distinto e respeitado jornalista é inevitavelmente recebido pelo cônsul português em San Francisco, e especialmente pelos então líderes comunitários, uns com formação académica, outros ricos proprietários das grandes “leitarias” e fazendas agrícolas, convivendo em suas casas, partilhando as suas refeições, espreitando esse outro modo de vida. Ferro fala dos açorianos como quem com eles partilhou desde sempre a história nacional, realça o seu patriotismo e saudades da pobre terra deixada para trás. Alguns dos passos mais reveladores destes capítulos do seu livro abordam as mulheres imigrantes, e o que já lhe parecia ser uma certa igualdade de porte e responsabilidades, totalmente alheias na terra-pátria. Vezes sem fim, o modernista lisboeta inequivocamente de ideologia direitista, que em breve passaria para os corredores do poder na nossa capital, queixa-se da ausência deste sentido de vida no velho continente, e especula sobre o que seria Portugal se estas capacidades de cultivar a terra, colher as riquezas do mar, e manejar as máquinas tivessem acontecido no solo natal. Por vezes parece que ele visitou as nossas comunidades com o propósito escondido de atirar à cara da classe governante portuguesa um outro modo de entender e dirigir os afazeres da nação, de compensar o trabalho constante e competente de uma esmagada classe trabalhadora. Ferro relembra ainda que a maioria destes imigrantes que triunfaram na América nunca sequer viram o seu próprio país continental, mas mantêm um arraigado, inquestionável patriotismo

É preciso conhecer – escreve ele sobre um desses compatriotas de sucesso americano, numa época em que os não anglo-saxónicos eram vistos com desprezo e racismo aberto – os Estados Unidos, o seu egoísmo patriótico, a desconfiança com que olham os imigrantes que triunfam, para compreender o que significa esta verdade, esta linda verdade: John de Matos, bom cidadão americano, nasceu em Portugal, como todos sabem, como diz a toda a gente….”

Por certo que a elite portuguesa de então pouco sabia dos EUA, e muito menos se interessava pela sorte do seu povo imigrado. A audácia literária e intelectual de António Ferro fica ainda mais comprovada com estas suas linguagens de surpresa e apreço. Novo Mundo Mundo Novo deverá ocupar um lugar de destaque nas nossas estantes, parte que é de todo um cânone literário que versa a história de termos sido, de sermos o povo luso e nemesiano – que se planta num viveiro, diria ele, para ser replantado noutro. Ainda hoje.

____

António Ferro, Novo Mundo Mundo Novo, Lisboa, Editora Portugal-Brasil, 1930. Edição distribuída recentemente pelo jornal Público. Eduardo Mayone Dias escreveu há uns anos sobre este mesmo livro num ensaio intitulado “António Ferro E O Seu Novo Mundo”, que pode ser lido nas páginas digitais da Fundação António Quadros.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 15 de Abril de 2016.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s