As falas do ex-império

capa Esse Cabelo

A procura de uma origem e de uma identidade não reconstitui a minha origem nem descobre a minha identidade. Uma pessoa apenas se encontra a si mesma por acaso.

Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo

Vamberto Freitas

A magnífica narrativa esse cabelo, o livro de estreia da luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida, é uma combinação de biografia, autobiografia, crónica ficcionada, novela, ensaio teórico, tudo. Que penso do livro? Que é um dos mais inteligentes e brilhantes mergulhos linguísticos sobre o tema que é o nosso “ser” e “estar”, ou, melhor, como habitamos o “outro”, o duplo em cada um de nós, para além de raça e etnicidade, numa sociedade contemporânea, marcada, apesar da sua existência multissecular, pela fragmentação da sua própria modernidade, ou pós-modernidade, como diriam outros. Portugal, tendo dirigido um império durante mais de quinhentos anos, não poderia escapar a essa sua outra dupla condição existencial. “Abril é o mais cruel dos meses”? É, e foi para nós ambas as coisas, um misto de crueldade e bondade, quando a verdade da nossa história nos bateu à porta numa madrugada do mês primaveril, quase sem aviso, em que a terra podre morreu para de seguida se colorir de flores. Essa dolorosa renascença trouxe consigo uma poética muito própria – a convivência, agora em liberdade, de muitos dos filhos dessas geografias das nossas magoadas memórias e dos nossos mais humanos afectos. Quando mencionei a leitura deste livro noutra parte, alguém fez-me lembrar, acertadamente, que algo destas páginas poderão ter a ver com as do grande romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche, e sobre o qual eu tinha escrito um destes mini-ensaios aquando da sua publicação no nosso país. É certo que, também aí, o cabelo e penteado afro são insinuadas metáforas da vida e sobrevivência de “outros”, particularmente nas grandes cidades ocidentais metropolitanas. As nossas noções da estética do corpo, digamo-lo assim, tornam-se noutros signos de como nos vemos e nos tratamos uns aos outros, o próprio racismo eventualmente definindo a vítima, em vez de a revoltar. Eu vivi a minha adolescência e anos de faculdade na Califórnia dos anos sessenta e setenta, sei muito muito bem como nasceu o black is beautiful/negro é lindo, e há uma outra autobiografia em destaque nas minhas estantes aqui em casa, cuja capa ostenta a foto de uma mulher linda, com o seu cabelo ao natural, ordenadamente desordenado – Angela Davis: An Autobiography (1974). Isto para dizer que a narrativa de Dajaimilia Pereira de Almeida é tanto sobre cabelo afro como Moby Dick é sobre baleias. Pensando tudo isto ainda de outro modo, poderei dizer que, sim, há aqui uma afinidade qualquer – a natureza mal compreendida torna-se a nossa própria perseguição, a estética virando irracionalmente a condenação tanto do perseguido como do perseguidor. A minha leitura de esse cabelo: A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza a história de Portugal e Angola foi-me mais do que gratificante em termos estritamente literários, não pela originalidade do seu tema, mas por finalmente ser feita em português e escrita por uma autora que vive essa duplicidade de nacionalidades que se reencontram agora e, necessariamente, redefinem a nossa cultura, a nossa cidadania, o nosso país, a nossa maneira de estar no mundo. Quando penso que já sei muito sobre crítica literária, releio duas páginas de Edmund Wilson, e ele coloca-me de imediato no meu devido lugar. Direi o mesmo a uma nova geração de escritores lusos: quando pensarem que já dominam as técnicas fundamentais da narrativa, por favor leiam esta escritora. É bom sabermos quem está ao lado – ou ao alto, como um pássaro observador, numa das imagens aqui reinventada.

Leio esta narrativa como tenho lido alguns dos escritores pós-coloniais na língua inglesa. Desde o grande ensaio Orientalismo, do falecido Edward Said, à maior parte da obra de Salman Rushdie, especialmente desde Os Filhos da Meia-Noite e Os Versículos Satânicos, a literatura ocidental teve de ser reinventada, a língua e as linguagens dos outrora dominadores a ser utilizada, quase sempre com brilhantismo e uma criatividade que junta várias tradições e desenvolve um novo discurso ficcional como resposta dos que sofreram durante séculos e em directo as difamações de escritores que, por mais bem intencionados ou esclarecidos, construiram e impuseram as imagens “étnicas” que tínhamos de todos esses povos, perpetuaram todos os preconceitos que ainda hoje levam aos maiores e mais violentos conflitos mundiais. Poderão outros vociferar quanto quiserem no que toca a muito do “politicamente correcto”, mas um dos postulados reafirmados com a pós-modernidade literária deste novos escritores ex-coloniais inclui a sua vontade e capacidade de “responder ao império”, de apresentar outras visões artísticas da sua própria história, repor as imagens e as metáforas da sua própria dignidade durante os tempos em que voz não tinham, a legitimação institucional e intelectual das suas obras era quase proibida, sempre ignorada pelos bem-pensantes da academia. Ainda a meio de século passado ler um escritor afro-americano numa sala-de-aula era pouco comum, e isso mesmo a nível superior. Em Portugal, dava perseguição e cadeia. Os cabo-verdeanos viraram-se para a literatura brasileira por todas as razões históricas e linguísticas, e em Portugal eram poucos os que os conheciam, dentro ou fora das universidades. Comunicavam entre si, e de quando em quando chegavam alguns dos seus livros aos Açores. Ler as novas gerações que se têm evidenciado em países como Angola ou Moçambique não será o mesmo que ler uma escritora como Djaimilia Pereira de Almeida – estamos dentro de uma nova experiência e visão da literatura portuguesa, estamos, muito provavelmente, perante o início da renovação do nosso cânone, no qual a inclusão destas novas vozes vai redefinir toda uma cultura literária, que passa a ser cada vez mais inclusivista, a dialéctica entre o outro e os que nunca partiram do território enriquecendo e ampliando os referenciais geo-humanos que nos fizeram quem somos, ou pensamos ser. Esta literatura poderá demorar, mas vem aí, tal como o fado já mudou de letra, ritmo e som. Podem ranger os dentes os mais inabaláveis puritanos do nosso ambíguo portuguesismo, mas a verdade é que nada disto nos deveria parecer assim tão novo – simplesmente, as nossas letras e outras artes começam a manifestar, legitimamente e com o apoio de prestigiadas editoras, aquilo que sempre fomos, os filhos mestiços nascidos dos longínquos encontros e relacionamento íntimo com os outros. A autora de esse cabelo encerra a sua narrativa sem qualquer preocupação de se auto-definir ou de se apresentar com uma ou outra nacionalidade. Não precisa, sabemos que opta por ser portuguesa com origens em Moçambique e Angola, suponho que tem cidadania dupla, e está em paz, parece, no espaço que é o seu, com a saudade inevitavelmente transcontinental. Chegada a Portugal com dois anos de idade, em 1985, foi criada em Oeiras pelos seus avós portugueses que também haviam regressado de África. Doutorada em Teoria da Literatura, pela Universidade de Lisboa, nada na sua escrita é inocente, cada palavra, cada frase carregada com significados múltiplos, a beleza polissémica de uma escritora agarrando o leitor da primeira à última página. Este não é um livro só de uma estudiosa – é uma narrativa que desafia as próprias formas e géneros a que estamos habituados, um espaço literário entre a memória da vida vivida e a imaginação pura, o lugar “demasiado humano” entre a comédia e a tragédia, que já vêm insinuadas no subtítulo.

Durante muito tempo – escreve a narradora sobre o seu próprio ser, reconhecendo a pessoa que é, e não o que outros ou ela própria julgava que era – pensei que, de acordo com uma noção apropriada de seriedade, seria fraudulento dar a conhecer a Mila. Pensava então que ela seria percebida como uma negra de papel. Apercebo-me agora, porém, de que apenas para mim quem não fui é uma caricatura. Estar em minoria não consiste apenas em tomar de empréstimo a da nossa intimidade; consiste em apagar o que pode existir de singular não na vida que vivemos, mas na que não vivemos”.

Já nas últimas páginas de esse cabelo, a autora inclui duas lendárias fotos norte-americanas – a histórica chegada de Elizabeth Eckford ao Liceu Central de Little Rock, no estado sulista de Arkansas, rodeada de mulheres brancas em ira, relembra-nos a autora, o retrato inequívoco do ódio e da ignorância, a aluna negra caminhando sem medo e na postura mais digna e imaginável naquelas circunstâncias. Noutra foto famosa, Eddie Cantor pintado de negro negríssimo, a caricatura perfeita de como a suposta arte de um tempo desumanizou o outro, todos nós. Esta nova geração de escritores mundiais, para quem o sentido de pertença ou de pátria teria necessariamente de ser redefinido, universalizado, reapropria-se, inventa e reinventa as suas próprias linguagens, inventa e reinventa o seu próprio ser. Não se trata de uma arte literária de intervenção, ou sequer de protesto – mostra-nos as outras cores ou a fealdade das paisagens comuns das nossas vivências. A literatura não necessita de pregação ideológica, só a beleza da palavra e a “verdade” da mundividência de cada escritor – a grande literatura é o mais significativo e duradouro arquivo da nossa humanidade e libertação. Quando somos todos o outro, o nosso chão comum passa a ser o mosaico colorido da convivência, a pátria tão-só a ideia de que a coexistência dos povos é o único enlace que vale a pena defender e representar.

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Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo, Lisboa, Teorema/Leya, 2015.

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