Uma outra e esquecida América

capa Lila

Ela tinha dito a si própria que ia ao cinema só para ver como os outros viviam porque estava curiosa. Tinha mais ou menos decidido que ela própria não tinha vivido, ou então isto era o melhor que podia fazer.

Marilynne Robinson, Lila

Vamberto Freitas

Não haverá antídoto literário maior à época em que todos vivemos como Lila, o romance de Marilynne Robinson, que sempre me pareceu ser uma das mais respeitadas e menos mediáticas autoras norte-americanas. É claro que este estatuto, se não estou muito fora da realidade, é invejável a todos os níveis. Professora, desde 1991, no famoso University of Iowa Writer’s Workshop, Robinson tornou-se ao longo dos anos essa figura de referência, tanto pela sua ficção como pelo ensaísmo, também de grande originalidade pelo modo como contradiz o espírito do nosso tempo. Traduzido e publicado recentemente no nosso país, com o mesmo título, Lila proporciona-nos momentos de leitura já pouco comuns numa era em que a literatura se preocupa com todos os temas e tramas, menos com a vida escondida, esquecida, de pequenas comunidades rurais, e algo mais – a religiosidade durante todo um século profano e violento, e que na América teve a sulista Flannery O’Connor como voz distinta e solitária. Por certo que ler este romance, o terceiro volume de uma trilogia que começou com Home e Galied, que recebeu o Pulitzer Prize em 2005, um entre alguns outros prémios de grande prestígio nacional com que tem sido visada a autora tranquila. Quando lia as páginas aqui em foco vi que Robinson acabava de receber ainda o Library of Congress Prize for American Fiction, depois de Lila ter recebido o National Book Critics Circle Award, definitivamente confirmando o seu lugar no cânone da literatura nacional, muito antes, suponho, das academias iniciarem os seus pronunciamentos, que para uma mulher branca e de temática fora do revisionismo pós-moderno não será assim tão nítido e certeiro. Passando os olhos pelas grandes e respeitadas folhas literárias nova-iorquinas e no restante país, no entanto, a ideia é que cada livro desta autora merece atenção aprofundada, e na maior parte dos casos de entusiasmo laudatório. Foi-me totalmente inesperado abrir um dia o The New York Review of Books e ver que publicavam uma extensa conversa entre a autora e Barak Hussein Obama, “President Obama & Marilynne Robinson: A Conversation in Iowa”. Obama havia citado a autora num momento elegíaco, e tinha descoberto um dos seus livros durante a sua campanha presidencial em 2008. Não serão muitos os líderes com o poder e a responsabilidade mundial de um presidente como Barak Obama que solicitam, pedem, a um escritor umas horas de diálogo sobre literatura, e especificamente sobre alguns dos temas trabalhados consistentemente pela autora — os estados de alma colectiva da nossa contemporaneidade, a história turbulenta na criação de uma sociedade, a própria noção de liberdade e democracia. Não sei como se sentiriam outros ao ler esta inusitada conversa, sei que para mim é um sinal de que, para além da cacofonia da nossa actualidade, de todas as inseguranças e medos, é dignificante para nós todos saber que mesmo os mais poderosos reconhecem na arte uma outra redenção, a sustentada reflexão sobre quem somos e porque assim somos. A literatura não terá “missão” mais nobre do que esta, mesmo que o prazer do texto não tenha, nem deva ter, a veleidade ou a preocupação de mudar o mundo. Despertar o pensamento de um leitor só por si justifica abrir um livro, a vida da mente nada menos crucial do que a mais consequente descoberta científica.

Uma das coisas que não tenho muita oportunidade de fazer tanto quanto gostaria – inicia Barak Obama o diálogo com Marilynne Robinson em Iowa, pois foi ele a deslocar-se ao terreno íntimo da autora – é simplesmente ter uma troca de palavras com alguém que me dá prazer, e em quem estou intelectualmente interessado; ouvi-los e conversar com eles sobre as amplas forças culturais que influenciam a nossa democracia e as nossas ideias determina o que sentimos sobre a cidadania e a direcção em que o país deveria seguir”.

O tempo ficcional de Lila são os anos que precedem a Grande Depressão com a queda da bolsa nova-iorquina em 1929, traz os seus personagens e vida até a fins da década de 40. A narradora nunca específica esse tempo, dá-nos os sinais políticos, económicos e culturais, principalmente através dos filmes que vai mencionado já no fim, e que a minha epígrafe menciona como sendo um mundo-outro da protagonista. Lila é retirada, roubada, de uma família rural disfuncional em Iowa, onde toda a acção decorre, sem nome conhecido até a mulher que a salva, também simplesmente chamada de Doll, lhe atribui esse nome, e mais tarde, numa escola, uma professora assume que ela é de origem norueguesa, e confere-lhe o apelido de Dahl. Essas duas vidas juntam-se eventualmente a um grupo de trabalhadores ambulantes, sem poiso nem qualquer recurso financeiro, indo de campo em campo, de casa em casa, oferecendo o seu trabalho braçal, retomando sempre a estrada, esses homens e mulheres que foram apanhados pela queda súbita da economia do país, os ditos tramps vestidos de trapos e de olhar ora inocente ora suspeito. A anti-utopia americana por excelência, um novo mundo tornado velho e angustiado, a fome de uns sustentando o conforto de outros. Todo o ambiente aqui é bíblico, os condenados nunca conscientes nem de Deus nem da revolta possível, é um mundo sem violência ou maldade entre os caídos, a aceitação do destino e da sua sorte tão natural como a neve que os ameaça fora de um tecto, como a inconstância do trabalho de sobrevivência, como os ossos que lhes restam da ave assada na fogueira da noite. Sobressai a consciência da narradora, que de quando em quando cita a Bíblia directamente, ou pela boca de um ou outro personagem mais atento, o Velho Testamento outra referência maior, e noutra parte o Salmo 19 como contextualização absoluta destas vidas desamparadas rumo à morte, e creio servindo como definição do tema predominante de toda esta narrativa: Não há termos, não há palavras, nenhuma voz que deles se ouça. Num momento de ausência e desespero, Lila é deixada nuns degraus de uma pequena cidade provinciana, Gilead, entra num templo protestante, e inicia nesse momento uma duradoura relação com o pastor John Ames, com mais do dobro da sua idade, mas que lhe será a salvação, passando de um estado de ser raiando o de selvagem, de uma marginalidade absoluta, uma menina-mulher sem ninguém, desconhecedora de tudo e todos, menos da sua alma e das tarefas de campo ou caseiras, tudo o que aqui e ali a salvaram da fome. A narradora vai deixando cair subrepticiamente alguns sinais dos anos que Lila viveu só em St. Louis, e depressa adivinhamos que se trata de prostituição e da vida citadina em subterrâneos ainda mais escuros e perigosos do que as cabanas abandonadas em que ela e os seus pernoitavam. Desde há muito que não lia algo de semelhante, a não ser, a um nível linguístico e tema bem mais limitados, um John Steinbeck, por exemplo, mas agora sem o seu sentimentalismo e por entre um sofisticado emaranhado de viragens na narrativa, de inesperadas atitudes por parte de outros protagonistas, a bondade humana lado a lado não com a criminalidade aberta mas sim com a injustiça de quem nasce sem nada, de quem nem se dá conta da injustiça da sua sorte, de uma sociedade que pura e simplesmente os ignora sem o mínimo impulso para um resgate humano solidário. Fora de Deus, não há mais nada nem ninguém.

Não há pregação em Lila, muito pelo contrário – há uma constante interpelação teológica, nenhuma certeza, só o conforto da fé de quem a tem. A humanidade no seu melhor está aqui na relação que Lila vive com o pastor John Ames (viúvo da mulher que morreu com a sua única filha) com quem casa e tem um filho. A vida isolada em Gilead gira em volta dos templos protestantes, longe da história, livre das chamas e turbulência. Estou em crer que este é um romance de regresso não a um mundo de injustiça, não nega a ideologia que faz e tem de fazer tremer qualquer sociedade ante os seus desequilíbrios e desigualdades, mas sim uma reafirmação de valores que prezam a dignidade humana em todas as suas facetas, a uma tolerância perdida ante o outro, regressa ao diálogo entre as várias forças da sociedade contemporânea que, como aliás é mencionado na conversa entre o Presidente e a autora, olham-se mutuamente como inimigos, estão fechadas “sobre si próprias”. Nunca antes tinha visto uma peça de ficção despertar tanta reflexão serena sobre uma sociedade moderna e complexa, como é a América dos nossos dias. A sua confusão política e guerras culturais (que é o mesmo que dizer, de valores sociais e intelectuais) estão bem à vista de todos. Num dos momentos humorísticos deste livro, Lila não sabe explicar a razão dos nomes das coisas e das gentes, encolhe os ombros e diz que é como os “Estados Unidos da América” – tinham de “chamar o país alguma coisa”. Não passe despercebido, é outro modo de insinuar que o suposto “excepcionalismo” americano é outro mito, a universalidade do coração humano e dos seus conflitos não tem nem nacionalidade nem fronteiras. Atravessamos, todos, os desertos das nossas origens, sem sabermos nunca o destino final.

________

Marilynne Robinson, Lila, New York, Farrar, Straus And Giroux, 2014. Li o original americano. A tradução da epígrafe e de outros passos é da minha responsabilidade, menos o Salmo 19, aqui citado. Lila foi publicado em Portugal pela Editorial Presença, em 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 29 de Abril de 2016.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s