A salvação que nos espreita, sempre

capa Uma Bondade Infinita

Encontrara a expressão: um espelho ficava-lhe bem… Deveria experimentá-los em momentos diferentes do dia, pois os movimentos da luz tudo definem.

Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita

Vamberto Freitas

A trama e a complexa rede que interliga todos os personagens deste novo romance de Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita, coloca-nos num labirinto bíblico, do qual naturalmente todos nele aprisionados tentam fugir antes que a morte os apanhe. Trata-se de uma só família mista, afegã e de outra nacionalidade indefinida, de um país nunca aqui nomeado, em que se encontram no exílio, ou como refugiados. Um patriarca com um passado mais do que sujo nos miseráveis campos onde se recolhem as vítimas de bombardeamentos aéreos não-identificados nas montanhas afegãs, tenta limpar o seu nome de um passado assassino e obscuro, para depois gozar uma aposentação nesse país — que sabemos ser à beira-mar, e com características que insinuam ao leitor português tratar-se de uma vizinhança bem conhecida – na companhia de uma amante inglesa, agente dos serviços secretos de sua Majestade. A criminalidade militar e civil contra os inocentes é uma só, pois esses actos de guerra poderão ter como alvo os que são de facto tidos como terroristas, como o que na realidade tem acontecido ao longo destes anos de guerra perpétua, ou então a chacina quase diária de cidadãos comuns, desculpada sempre por um engano de “informação” no terreno, ou simplesmente como sendo os inevitáveis “danos colaterais” de uma guerra sem tréguas nem moralidade. Estamos aqui nos anos antes do Estado Islâmico se manifestar, mas o Mal vem de longe. Ernesto Rodrigues diz que tinha este romance escrito já em 2010, mas a sua visão do que viria a acontecer, no que diz respeito à crise actual dos refugiados na Europa, parece que aconteceu ontem, todas as possibilidades tecidas no seu romance são-nos a notícia de cada dia. A violência aqui gera violência, o que era uma questão de nações em conflito transforma-se em lutas verdadeiramente fratricidas, o amor e ódio pessoais, o acaso no percurso de cada um levando a consequências de vida e morte, perfídia ou bondade. Alias, duas imagens acompanharam-me na leitura deste romance. A primeira é que desde o primeiro ao último capítulo estamos sempre na dúvida de quem é quem, como num emaranhado de sombras nocturnas, a sua movimentação numa geografia de dor e má sorte parecem imagens desconexas como numa reportagem televisiva incerta sobre mais um atentado à bomba ou de tiroteio. Vemos meros indícios do que se passa, mas mantemo-nos num escuro absoluto sobre quem provocou a desordem mortífera, e muito menos das ligações de uns e outros. O facto de nunca o narrador nos fornecer pormenores claros que nos iluminem mais um pouco no possível entendimento tanto do que aconteceu ou porquê, cria esse efeito de mistério que sentimos ante notícias nebulosas de sucessivos acontecimentos diários como estes. A segunda, fez-me lembrar a abertura de A Peste, de Albert Camus, quando o Dr. Bernard Rieux sai à rua na cidade de argelina de Oran e começa a ver ratos mortos por toda a parte, a evidência de uma muito antiga morte que vai impiedosamente alastrar-se a outros. O seu momento de escolhas e decisões, entre a cobardia da fuga ou o sofrimento solidário, não pode ser adiado. A encarnação do Mal dessa e agora outra vez da nossa época toma todas as formas colectivas imagináveis, o Bem reside na consciência dos indivíduos que enfrentarão, com ou sem medo, a escuridão infernal. Não é de maniqueísmo humano que se trata aqui, é da própria História tal como tem sido vivida desde tempos imemoriais.

Uma Bondade Perfeita é uma narrativa, em parte, de intertextualidades diversas, que vão desde figuras de óperas canónicas, como Alcina, de Handel, a textos modernos e antigos, que, tal como afirmou publicamente o autor, vão de Séneca a Jorge Luís Borges. A própria capa é um resumo perfeito do romance – um menino nos braços da mãe, esta de olhos bem abertos e expressão simultaneamente destemida e assustada, ambos em fuga à tempestade de fogo que ameaça o mundo à sua volta, a versão reajustada à história dos nossos dias, uma representação agora quase fotográfica de Madonna and Child, de Giampietrino, parecendo ainda uma imagem demasiado recorrente nos ecrãs nas nossas salas. Esqueçamos por agora os nomes dos sete filhos que serão alvo da fúria assassina do próprio pai, um criminoso de guerra de nome Menigno, que se quer ver livre de todas as acusações que recaem sobre ele, inclusive a de ser pai e avó de uma das personagens, Indira, com assentimento da própria esposa, também chantageada e ameaçada. Toda a história é contada por Clemente e por um ex-jornalista tornado frade, Filodemo, antigo amor de Alcina, que abandona um filho num campo de refugiados no Pakistão, para se dedicar à salvação de muitas mais vidas. Toda a narrativa é desencadeada pelo bombardeamento desse campo, em que esse filho abandonado, o próprio Clemente, que terá de ser o carrasco, numa prisão dirigida por Menigno, da mãe que o havia salvo, Ágata, judia convertida ao catolicismo e devota de Nossa Senhora de Fátima. O significado de cada nome poderá interessar um ou outro leitor, mas será a reacção de cada personagem, muito especialmente dos dois narradores, que nos prende frase a frase, em que Ernesto Rodrigues consegue, ora na mais clara e despojada linguagem, ora na poetização de cada palavra e imagem, devolver à ficção os seus próprios esconderijos e ambiguidades entre o medo e a coragem, a maldade pura de uns e a santidade inerente a outros. O fim terá lugar nesse país sem nome, e o triunfo da bondade dentro da catástrofe pessoal e histórica é essa subversão do que habitualmente esperaríamos numa obra de ficção contemporânea, e sobretudo numa época em que a morte ronda não só os campos de batalha praticamente no mundo inteiro, mas na rua ao lado, no bar vizinho, e muito mais ainda numa prisão de um país onde a pena de morte ou qualquer tipo tortura foram supostamente abolidas há muito, mas onde de quando em quando acontecem “suicídios”. Se o país aqui não tem nome (para além do Afeganistão e Pakistão), têm-no os personagens que carregam em si as angústias do nosso tempo e a moralidade que nos resta, têm-no os que do mesmo modo simbolizam o desespero, a crueldade e a morte que se espalham sem limites nem fronteiras.

Em segundos, Filodemo – diz um dos narradores no fecho da narrativa – reviu o passado, imprevisível como a imaginação. Pegou no menino da tenda e só já pôde abraçá-lo, tão pesado era; ergueu nos braços a sua professora de línguas e viu-a, corada, entregando-lhe um prémio, e cálido beijo de alma que foi o início desta aventura. Senhor da história, ele não esperava um final tão feliz”.

Recentemente, a escritora norte-americana Ayana Mathis escreveu numa coluna do suplemento literário do The New York Times sobre os temas que ela dizia estarem “mal representados”, ou mesmo ausentes da literatura contemporânea. Para minha surpresa, o seu lamento ia muito além do que eu esperava numa romancista da nova geração. Diz que os seus colegas, em toda parte, parecem “ter decidido” que o “desespero, alienação e uma escuridão generalizada são a única descrição da condição humana… Somos um bando pós-moderno de frades medievais, auto-flagelando-se e sentindo-se marginalizados, suspeitando da alegria e integridade da vida”. Não queria ela dizer, suponho, que estas visões não devem estar ausentes de uma literatura atenta à vida dos nossos dias, mas que simplesmente se tornava cansativa e falsa por excluir o outro lado da nossa existência, de reafirmar também a alegria de sermos e estarmos em comunidade com os outros. Ernesto Rodrigues não entra por aí neste seu romance, não deixa de retratar um mundo mergulhado precisamente nesse desespero ou escuridão, tal como o vemos ao longe, ou outros o vivem de perto, a violência e morte generalizadas nesses campos de batalha conhecidos, e perante a ameaça constante que também vivemos todos nas nossas próprias sociedades. Este romance é ainda sobre outra das mais cruéis condenações, as vidas sacrificadas pelas exigências de homens (e mulheres) a favor da sua própria e pessoalíssima felicidade, da sua própria perversão hedonista, as vidas sob ameaça não só da morte militarizada, mas sobretudo da violência física e psicológica perpetrada pelos que nos são mais próximos. A noção distorcida de “família” indesejada nestas páginas nasce de um psicopata incorrigível, o mesmo que tinha o poder de mandar bombardear um campo de refugiados no seu próprio país, para matar uma única criança, fruto do seu desejo sem amarras, e isto sem que ninguém assuma responsabilidades, sem o mundo saber nunca quem foi quem assassinou quem nessas tendas, agora sim, de desespero e agonia absolutas. Há sempre vítimas, raramente culpados.

Uma Bondade Perfeita traz-nos o outro lado da nossa humanidade – a consciência de que só nos resta a resistência individual e no anonimato aos que nos subjugariam aos seus propósitos ou projectos num reino da morte e do nada. Não estamos perante qualquer noção de “religiosidade”, mas sim de uma opção existencialista. Fugir da tragédia – ou enfrentá-la na solidão, mesmo correndo todos os riscos num mundo sem regras nem piedade.

_______

Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita, Lisboa, Gradiva, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 27 de Maio de 2016.

Anúncios

Um escritor luso-americano e os seus subterrâneos

capa shadowboxing with Bukowski

Num momento por ora divertido, eu olhei e vi Bukowski sentado no outro lado rua no restaurante Ka-bob com o romeno louco, provavelmente partilhando uma garrafa de wiskey barato. Os dois estavam a fumar e a maldizer a incessante passagem do tempo.

Darrell Kastin, Shadowboxing With Bukowski

Vamberto Freitas

É certo que qualquer escritor tem a sua própria história de vida, as suas próprias referências particulares, pessoais, familiares ou literárias. No caso de Darrell Kastin – Kastinovich na presente obra – mais ninguém entre os luso-descendentes norte-americanos poderia ter escrito um romance, ou biografia romanceada, como este. Não será fácil, mesmo que procurássemos, encontrar um luso-americano com semelhante descendência, mas parte da riqueza de uma sociedade multi-étnica e multicultural reside precisamente nesse facto, em homens e mulheres que traçam as suas origens às mais variadas geografias e circunstâncias ancestrais. O nome do autor do romance The Undiscovered Island e dos contos The Conjurer & Other Azorean Tales de modo algum insinua que ele é descendente de mãe açoriana, filha da família picoense Canto e Castro que emigrou para os EUA após a Segunda Grande Guerra, e de pai judeu russo, cujo nome raramente, ou nunca, aparece em notas biográficas do autor. Darrell Kastin nasceu e foi criado em Los Angeles, e é em San Pedro, onde fica localizado o grande porto daquela metrópole, que decorre – com um breve desvio no México – toda a história e trama deste seu novo romance, Shadowboxing With Bukowski, que poderá ser traduzido livremente por “em luta ou boxe imaginário com Bukowski”. É mesmo desse que falamos, de Charles Bukowski, o poeta e escritor fora-da-lei e fora-de-tudo que residiu boa parte dos seus últimos e mais produtivos anos naquela cidade de marujos. imigrantes e outros ou em busca de um sonho qualquer ou conformados nas margens sem saída rodeadas de bares de má fama com olhos no Pacífico, que é o fim da aventura novo-mundista, não os levando a mais lado nenhum, o fracasso como modo de vida e atitude filosófica. Acontece que vivi durante mais de vinte anos ali por perto, mas raramente punha lá lá os pés, mesmo sabendo que era onde residia um dos mais subterrânicos escritores da nossa actualidade, vindo do nada e de toda a parte, só tornado conhecido no seu país por largos números de leitores – era já uma espécie de ídolo literário na Europa, especialmente na Alemanha, de onde tinha nascido de pai alemão-americano e mãe com origens na cidade de Danzig – após o famoso e inesquecível filme Barfly, em 1987, com Mickey Rourke e Fay Dunaway. Alguns dos seus livros, prosa e poesia, viriam muito mais tarde a ser publicados em Portugal, como Mulheres, Correios e Música para Água Ardente. O romance Hollywood, também publicado entre nós, resultou , mais ou menos, das suas andanças entre os magnatas e estrelas naquela outra parte mítica de Los Angeles durante as filmagens da sua vida de bêbado e marginal absoluto. Se menciono com algum pormenor este outro autor é porque a presente obra de Darrell Kastin assim o requer. Foi ele o único entre nós que conheceu e conviveu de perto com o hoje famoso autor, que frequentava a livraria que Darrel Kastin teve por algum tempo em San Pedro, como indica o título do livro, que também, uma vez mais, estará algures entre a realidade e a ficção.

Shadowboxing With Bukowski é feito de um conjunto de pequenas histórias, todas elas em volta de uma livraria com o nome de The Little Big Bookshop, numa clara paródia ao famosos livro de Thomas Berger, The Litte Big Man. O seu proprietário-gerente é Kastinovich, que aparentemente a comprou com financiamento do pai no começo de uma vida, que inclui já um casamento instável e uma filha de pouco mais de um ano de idade, que passa os dias deitada no seu carrinho vista através da montra pelos transeuntes e pelos pouquíssimos leitores que entram para espreitar um ou outro livro, raramente comprando-os mesmo a preços simbólicos nos anos 80, a era de Reagan pouco dada à reflexão e muito menos à literatura séria. Aliás, a narrativa na primeira pessoa é constituída por um chorrilho de queixas e cómicos azedumes de Kastinovich, que passa os dias e as noites quase só entre os seus livros, dizendo que por vezes os ouve dialogar uns com os outros, olhando de lado os clientes que optam pela literatura mais “popular”, de auto-ajuda ou ficção cor-de-rosa e light. Enquanto passam as horas e os dias quase totalmente vazios, o narrador vai falando do que acaba por ser uma espécie de cânone literário do Ocidente, desde Shakespeare até à contemporaneidade, obsessivamente lembrando e comentado os seus favoritos, como o esquecido romance Ask The Dust, do também esquecido escritor John Fante, que durante os anos 20-30 “retratou” Los Angeles a partir das margens e dos seus subterrâneos, e que naturalmente teria sido uma das referências primeiras do próprio Charles Bukowski, que no tempo ficcional desta narrativa já tinha finalmente conquistado um lugar proeminente na literatura americana, mesmo que ainda nessa altura a academia fazia que não dava por nada, ou simplesmente não conseguia catalogá-lo ordenadamente numa das muitas teorias literárias da moda que então reinavam entre os estudiosos. Bukowski, para seu pecado ainda mais ofensivo, era um bêbado ordinário cuja única ideologia seria a sua própria sobrevivência numa sociedade que ele detestava com o mesmo grau que detestava todas as outras, e desconfiava da suposta “bondade” humana. Kastinvoch tem-no simultaneamente como autor admirado e fonte de ansiedade de influência, o poeta e escritor uma sombra que morava ali perto e era visto quase diariamente no outro lado da rua a conversar com um velho imigrante romeno dono do restaurante Ka-bob, que tanto se lhe dava que gostassem da sua comida como caíssem mortos à sua frente. É este, pois, o cenário principal do romance, quase todo ele um monólogo do falhado e infeliz protagonista. Resta-lhe quase só uma mulher solteira de nome Katherine, que visita a livraria e desperta em Kastinovich todas as fantasias de cama e de futuro, tudo quanto contradiz imaginariamente a sua apagada existência, a visita do pai e as suas palavras sobre o negócio emborcado um outro contraponto tão agudo como a sua vida de casado com uma mulher que apenas existe no silêncio e na negação de qualquer prazer conjugal. Por uma única vez lemos a palavra, sem qualquer outra explicação, “Azores” como sendo um dos pontos de refúgio mais desejados pelo narrador. De resto, o que fica é como que uma prolongada meditação existencialista, em que o seu sujeito tenta avaliar, rejeitar e escolher uma vida-outra que nunca chega, o leitor sabe da venda da livraria quando o romance encerra, dando lugar a outro prédio destinado ao comércio de coisas numa típica comunidade sul-californiana, que tem um mar quase invisível para quem dele não vive, num simbolismo cujo significado primeiro – insisto na imagem e na metáfora – é o fim da terra e do sonho, como alguém já escreveu, para quem nunca se deixou apanhar pela filosofia de um perpétuo acumular de riqueza.

A vida intelectual em San Pedro parece nula, e as suas pequenas livrarias mantidas por amantes de livros, como Kastinovich, e ainda um amigo seu de nome Moisés, a dois ou três quarteirões de distância. Bukowski é representado aqui com a leveza fleumática com que o imaginamos. Está absolutamente indiferente à fama e à venda ou recepção pública dos seus livros, a viver com uma avença permanente do seu real e histórico editor Black Sparrow Press, bebendo nos bares do seu bairro e a apostar na corrida de cavalos ali bem perto. A sua presença funciona nestas páginas como símbolo vivo não do escritor marginal, mas do homem que tem a noção e a medida certa dos seus próprios valores e ambições. Numa cena pungente, e para evitar ou adiar a falência da pequena livraria, Bukowski faz uma sessão de autógrafos durante algumas quatro horas, nunca parando de beber a sua cerveja. Kastinovich não tem nada a ver com o seu estilo pessoal, literário, e ainda menos com a temática dramática da sua vida, escrevendo a certa altura um ensaio denunciando Hemingway e Bukowski por terem “corrompido” a literatura moderna americana com o seu individualismo extremado. Isto acontece como um gesto cómico e de desespero por entre os seus livros que ninguém compra, ou sequer folheia. Shadowboxing With Bukowski é esse belo e leve romance sobre a vida dos livros e da mente numa cidade absolutamente indiferente, ou então mesmo hostil, ante a cultura que vá além da comédia humana fabricada ali mesmo ao lado, em Hollywood. Que o autor Darrell Kastin tenha vivido esses dias em tão improvável companhia é-me ainda hoje ponto de inveja. Quando muito mais tarde o vim a conhecer pessoalmente e a escrever sobre os seus livros de temática estritamente açoriana e imigrante, não me cansei de lhe perguntar como era o mítico poeta e autor, hoje tão respeitável que até uma editora multinacional comprou todos os direitos de publicação dos seus livros. Temos aqui uma narrativa que satisfaz qualquer leitor quando interessado no início da carreira de um novo escritor, ou na vida extra-literária de outro autor já consagrado, mas permanecendo distante de todos os cânones tradicionais.

A capa de Shadowboxing With Bukowski traz uma estante cheia de livros, com um de Bukowski em destaque. Para o leitor mais curioso, se olhar demoradamente, encontrará um outro, de todo improvável entre os grandes nomes da tradição intelectual ocidental: A History of the Azores Islands, de James H. Guill, que também tenho na minha estante. A originalidade de Darrell Kastin passa também por aqui, por uma educação literária pouco comum entre nós.

______

Darrell Kastin, Shadowboxing With Bukowski, Burlington, VT, Fomite, 2016. As traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 20 de Maio de 2016.

Vida e literatura, ou novos velhos mundos

capa Amor em Lobito Bay Lídia Jorge

O que vale uma cidade, se acaso não alimenta os mitos sobre os quais acorda todas as manhãs e se deita todas as tardes?

Lídia Jorge, O Amor em Lobito Bay

Vamberto Freitas

Diz-se algures na nuvem que Lídia Jorge firmou a seu nome na literatura portuguesa com A Costa dos Múrmurios, o romance “colonial” publicado em 1988. Por certo que os prémios literários no nosso país e no estrangeiro têm sido constantes, a tradução em várias línguas de boa parte da sua obra um outro sinal de que desde há muito, desde o inesquecível O Dia dos Prodígios no início dos anos 80, que a sua ficção conquistou um estatuto no além-fronteiras que fará muita inveja a autores de países ou de “culturas” que têm de si uma auto-imagem bastante inflacionada em relação a nós devido ao seu poderio em tudo, supõe-se, menos nas artes. O conto que encerra O Amor em Lobito Bay, “O Poeta Inglês”, é paradigmático deste estatuto simultaneamente conhecido, mas sempre fonte de ansiedades quanto à nossa presença literária entre outros. A narradora reveste-se aqui de poeta em digressão pela França menos mitificada, as pequenas cidades e vilas do interior, na companhia de colegas desse mesmo país, da Holanda, da República Checa, da Inglaterra. O holandês anda convencido do seu profundo conhecimento e originalidade de uma narrativa sobre África, o checo a insinuar que um grupo de poetas diminui a grandeza de cada um, que qualquer um deles deveria aparecer só num palco para um recital poético, a francesa permanece indiferente, a portuguesa ansiosa entre eles todos, sobressaindo o poeta inglês, com o seu suposto humor frio e subtil, romântico suicidário que vê instantaneamente nas terras vinhateiras do país gaulês a metáfora perfeita da nossa existência ou passagem pelo mundo, a firmeza das nossas raízes vergando conforme o vento, a sua e nossa eventual e perpétua morte e renascimento. É o mais aplaudido e acarinhado pelo público, e o que menos se preocupa com a reacção destes seus ouvintes ou leitores. A narradora-protagonista deste conto relata com uma ironia que ela própria parece não topar nas suas palavras de como a arte dos nossos dias não se liberta de uma hegemonia absolutamente injustificada na literatura contemporânea. “…O livrinho da Penguin – diz-nos ela numa descrição do seu colega em palco, e do que pensamos ser a postura fleumática inglesa – colocado sobre o joelho esquerdo, e agora levantava-se e não levava consigo o livrinho”. Seguem-se a bebedeira e depois a morte do poeta. Note-se ainda a menção da famosa e histórica editora de língua inglesa. Resignados todos os outros, constituem um “clube” em permanente homenagem ao poeta morto. Apetece-me lembrar aqui as palavras de Carlos Fuentes na minha faculdade californiana durante a apresentação de um dos seus romances, e enquanto enviava mensagens ambíguas aos leitores norte-americanos em sua frente – quando a literatura britânica se encontra num estado anémico, de repente aparece um irlandês! Se não for esta uma peça de ironia e riso, nada nos diria, nada justificaria o tempo e espaço de uma grande escritora como Lídia Jorge. Só que estes contos de O Amor em Lobito Bay são menos dispersos do que poderá parecer numa primeira leitura, lidos em sequência erguem-se como uma magnífica colectânea tematicamente unificada pela visão matura e segura da vida e da morte, da inevitável confluência de velhos e novos mundos transcontinentais, desde África e Europa à América do Norte, fatias da vida de portugueses e de outros aprisionados pela memória do passado, ou simplesmente a sobreviver na absoluta fragmentação das nossas vidas, nos mais variados cenários e geografias.

Será precisamente dessa fragmentação do nosso ser e estar nos dias que são os nossos que se agudiza a memória do passado, ou o passado como pano de fundo ou cenário no palco em que todos actuamos, o presente tornando-se uma sucessão de não-eventos (como a digressão poética pela França), o surreal tornado normalidade, tudo o que poderá vir a ser a miticidade do futuro. “Um Rio Chamado Mulher” é, para mim, uma peça antológica destes contos de O Amor em Lobito Bay. A narradora portuguesa encontra-se em New Orleans, e decide fazer o percurso da narrativa de William Faulkner, ou de“Old Man”, que é uma fuga na ruralidade criminosa e subterrânea do sul profundo intercalada como uma outra narrativa citadina em The Wild Palms/As Palmeiras Bravas, traduzido no nosso país por Jorge de Sena. Esqueçamos aqui a temática do mestre de Oxford, Mississippi, e concentremo-nos na voz portuguesa. Está fascinada com a cidade carnavalesca e crioula, menciona os escritores que por lá passaram, e que hoje são vozes canónicas na sua língua, desde Mark Twain e Tennessee Williams a William Styron. A sua guia na cidade e na viagem rio acima é ela própria uma espécie de metaficção em pessoa, revelando-se ou uma mentirosa estupenda ou mais uma manifestação de que a literatura somos nós mesmos. Bebendo continuamente água quando pensam que está a beber uma poção alcoólica tão sincrética como o meio que habita, diz a dada altura à sua visitante lusa que foi ela a voz e a mulher real que Styron haveria de contar e transfigurar no seu romance Sophie’s Choice/A Escolha de Sofia, a polaca que havia sobrevivido a um campo de concentração nazi. Pouco interessa a veracidade da história, tal como é transmitida, a mulher parece um símbolo vivo de que a ficção da vida vivida é tão ou mais estranha do que a ficcão inventada por um escritor. A narradora acaba por realizar a sua viagem literária à terra de Faulkner, onde descobre a outra verdade – rareiam os seus admiradores locais, o homem e a obra totalmente desconsiderados pelos que supostamente são aí retratados, o mítico yoknapatawpha county e a gente e as suas vivências nada mais do que a representação do dito shakespeariano que serve de título ao outro grande romance do mesmo autor, que é O Som e a Fúria – all is sound and fury, signifying nothing/tudo é som e fúria significando nada. Se um poeta inglês é tudo, como no conto já referido, mesmo que a obra não seja conhecida pelos que o ouvem na digressão francesa, uma outra obra é tudo, mesmo que o seu autor seja tido como um ninguém, ou pior, tal como Sofia é uma simples e amigável mulher desenraizada numa grande cidade em festa perpétua, mas cuja história poderá de facto ter sido a fonte de uma grande peça de arte literária. Eis Lídia Jorge, creio, numa fase invejável da sua carreira – conta histórias em linguagens depuradas e belas, directas mesmo enquanto ricas, como em toda a sua obra, em imagens e metáforas.

De resto, este mesmo jogo entre uma realidade imaginária e a ficção pura, entre a memória de uns e a história vivida de outros, fica definida a temática que percorre e enforma todos os contos, inclusive o primeiro que dá o título ao livro. Num exercício de revisionismo historicista, um narrador adulto relembra a sua infância em Lobito nos últimos anos da guerra colonial, relembra nitidamente que enquanto brincavam ou jogavam já se ouviam os tiros ao longe, sem entenderem o que se passava, e muito menos que as suas vidas estavam prestes a mudar radicalmente. A entrada eufórica na cidade dos guerrilheiros nacionalistas depressa se torna um novo martírio para os que do mato só conheciam prazeres e aventuras inconsequentes. O MPLA e a FNLA, ao entrarem triunfantes na cidade, não demoraram muito em começar novos disparos entre si, o caos ordenado do antigo poder colonialista era agora substituído pelo caos mortífero dos vencedores. Algumas das cenas que representam a felicidade de crianças nada preocupadas com a cor da sua pele fez-me lembrar certos passos de um dos volumes das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula, que em Moçambique viveu dias semelhantes, e curiosamente conta-nos instantes inesquecíveis entre os que agora passavam a ver todas diferenças entre si. A morte, sempre, a espreitar ou já tendo ensombrado as vidas dos personagens em cada narrativa. Num outro conto de fundo americano, “Dama Polaca Voando em Limusine Preta”, a protagonista depara-se numa situação absurda em que teme, sem razão, pela vida, para depois ser compensada pelo dono e condutor imigrante dessa bruta e velha limusine, de fala entre o inglês e o iídeche, por ser demasiado parecida com a sua mulher, judia polaca que morreu inesperadamente em Israel. A portuguesa tinha despertado a memória e toda a emoção de uma grande perda na sua vida, surpreendendo ainda mais o leitor, que também espera o pior numa viagem a alta noite entre um hotel e um aeroporto. Há dois protocolos essenciais neste género de ficção condensada que um escritor domina, ou então não deve tocar – a surpresa ou viragem na narrativa, e o que alguma crítica literária valoriza acima de tudo, bringing out character, ou fazendo emergir dos pormenores, ou da observação casual, acerca de um personagem todo o interiorismo que o coloca em nossa frente como alguém que nos é absolutamente estranho, o outro, ou que nos é íntimo pelo reconhecimento da nossa comum humanidade. Em qualquer dos casos, é essa talvez a mais difícil tarefa de um escritor, se não quiser ficar por um acto literário, curto ou de fôlego, que mais não nos oferece do que ideias feitas ou propagadas pela outra ficção, que é a História de qualquer sociedade ou época. “Oxford – diz uma das narradoras – esse local de invejas, onde aquela gente, no dia do funeral de Faulkner, apenas fechara as lojas por uns escassos minutos”. Nem mais uma palavra seria necessária para percebermos por inteiro a “estatura” de um escritor entre os seus, o espaço também irónico que a literatura ocupa nas nossas sociedades

______

Lídia Jorge, O Amor em Lobito Bay/Contos, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016.

 

Portugal das partidas e dos regressos

Capa As Altas Montanhas de Portugal

Só nos últimos anos, depois do sucesso da sua engenharia da identidade, os seus pais cederam um pouco, ele e a sua irmã Teresa espreitaram ocasionalmente as suas vidas passadas. Isso veio através de pequenas histórias, ilustradas com fotos da família.

Yann Martel, The High Mountains of Portugal

Vamberto Freitas

As palavras que vão aqui em epígrafe são citadas da terceira parte do romance The High Mountains of Portugal/As Altas Montanhas de Portugal, de Yann Martel, o escritor canadiano nascido em Espanha, e que é uma das mais lidas e prestigiadas vozes na ficção mundial. Este seu novo livro segue The Life of Pi/A Vida de Pi, também publicado no nosso país pela Editorial Presença, vencedor do britânico Man Booker Prize, e depois feito filme pelo também reconhecido realizador Ang Lee. Mencionar estes precedentes na obra do autor é manifestar, à minha maneira, a surpresa que me foi ver um o título de uma obra vinda de quem vem, e depois a sua linguagem e temática, que parte do século vinte português para uma outra universalização da nossa condição, juntando não só a nossa história social e anti-imperial assim como traz ao centro da narrativa um imigrante luso-canadiano que havia deixado em tenra idade o norte de Portugal com os pais a meados do século, e depois regressado às suas origens rurais já como senador, rejeitando uma vida de privilégio e poder nessa outra pátria do nosso destino de povo andarilho e construtor de sociedades. Tenho duas hipóteses para estas opções ficcionais de Martel – nasceu aqui ao lado, e logo poderá ter conhecimento alargado de toda a Península Ibérica, e é residente num país em que os nossos também cultivaram para si um jardim existencial e que, aos poucos, se projectaram e fazem sentir a sua presença. Seja como for, Yann Martel é uma dessas vozes que tem literalmente o mundo como tema, a imigração como condição generalizada, a convivência e conflitualidade das nações e etnias o tema todo abrangente num mundo de crescente porosidade transfronteiriça. Uma das mais evidentes consequências na grande literatura contemporânea é a ausência de preconceitos ou chauvinismos nacionais, raciais e culturais, é o surgimento noutras línguas de histórias que permaneciam ignoradas fora de quem as viveu ou foi obrigado a estudá-las. Portugal, durante todo o século passado, foi um país tão conturbado ou pacífico como qualquer outro no mesmo continente, a sua tardia entrada na modernidade igual à da maioria da humanidade, cada sociedade, como um dia ouvi Carlos Fuentes relembrar num lançamento dos seus livros na Califórnia e quando contextualizamos o poder ou os mitos das nações mais poderosas, contém dentro de si o que se viria a designar por primeiro, segundo e terceiro mundo. As Altas Montanhas de Portugal é uma fabulosa viagem imaginada pelo nosso país, a partir de Lisboa em 1904 rumo a uma aldeia escondida nos arredores de Bragança, narrada ora com o vigor realista para quem este imaginário é por demais conhecido, e com um humor desusado ante propósitos e situações vividas pelos protagonistas, um mundo quase sempre fantástico requerendo as linguagens que nos transmitem a magia e suspensão de credulidade. Aliás, uma das mais marcantes características dessas literaturas de que venho falando aqui e noutras partes é precisamente a visão de tudo que enforma uma “cultura”, inclusive, ou muito particularmente, a sua religiosidade e superstições várias.

As três narrativas que compõem o romance são intituladas “Homeless”, “Homeward” e “Home” – na tradução de outro leitor, “Sem casa”, “A caminho de Casa” e “Em casa”. Na semântica da língua inglesa, creio, significam estas expressões algo mais do que a palavra “casa” nos quererá dizer – a ausência de pátria, estar nas margens, em busca de um sentido de pertença ao todo, o encontro ou reencontro com as nossas mais profundas raízes. Numa primeira leitura parecerá que são três narrativas distintas, mas estão interligadas por uma história comum, que vai, como já referi, do princípio do século XX até aos anos 80. Vemos um Portugal no seu primitivismo ante a modernidade que se avizinha, um Portugal firme nas suas tradições e modo de estar no mundo e simultaneamente aberto às mudanças tecnológicas que estavam a revolucionar as sociedades ocidentais. A narrativa vai relembrando a nossa história imperial em África, onde um padre testemunha, desde Angola a São Tomé e Príncipe, a escravatura, descobrindo uma figura na forma de um chimpanzé crucificado, e que lhe sugere que o horror ante tanta injustiça e opressão humana não terá a redenção de nada e ninguém, levando-o ainda a suspeitar que Deus, que permite tanta crueldade, toma a forma que Lhe queremos dar, que a nossa crença tem fundamento tão-só na invenção imaginária da humanidade. Envia o dito crucifixo para Portugal, que acaba numa pequena igreja de uma aldeia em Trás-Os-Montes. É precisamente aí onde chega o protagonista da primeira narrativa, Tomás, funcionário do Museu Nacional de Arte Antiga, sobrinho de um capitalista residente na Lapa, cuja fortuna origina e é sustentada pelo comércio luso-africano, um dos primeiros donos em Lisboa de um Ford. Tomás vivia um doloroso luto pela mulher e filha que haviam sucumbido à morte, e como protesto contra a “normalidade” das coisas e das crenças andava só para trás, introduzindo assim o que durante toda a restante narrativa será a pura descrição realista em convivência com o fantástico de um mundo apanhado entre superstição atávica e a chegada, uma vez mais, da modernidade. Esse tio de Tomás insiste que ele vá sozinho no seu carro até ao norte do país em busca do crucifixo do padre aqui de nome Ulisses, mesmo que ele não tivesse a menor ideia como conduzir o que ainda era ou parecia a quase todos uma estranhíssima geringonça mecânica. Atravessa inúmeras aldeias com o carro aos solavancos, provocando a maior algazarra entre todos os que nunca tinham visto a nova invenção. Numa descrição precisa da nossa geografia interior, o humor é incessante, as peripécias quase metáforas de todo um povo parado no tempo, sem que deixemos de ver os sinais que já apontavam a chegada e a aceitação da ciência e da tecnologia. As Altas Montanhas de Portugal é outra narrativa, pois, tão característica dessa literatura reinventada brilhantemente por um rol de escritores pós-coloniais, ou para quem a vivência pós-fronteiriça, pelas mais variadas razões profissionais e humanas, se tornou um modo de vida. Não se trata aqui de uma peça literária de um viajante que nos visita e depois nos escreve, longe disso. É um romance de quem conhece Portugal intimamente, decidindo retratá-lo como um perfeito mosaico ou azulejo com tudo o que de simples, belo e misterioso o caracteriza. É, sobretudo, outra narrativa modernista em que a busca ou construção de uma identidade acontece adentro da fragmentação e cansaço social e político em todas as sociedades ocidentais.

Por entre as peripécias de uma estranha viagem, o narrador vai interligando pessoas e incidentes dramáticos até ao presente. Peter Tovy, agora senador canadiano cansado da chicana política, como já se disse, é filho de uma família da aldeia de Tuizelo, que havia emigrado para o Canadá a meados do século passado, como resultado de um grave incidente de estrada provocado por Tomás aquando da sua viagem ao norte do país em busca do tal crucifixo africano, rejeitando para sempre o seu passado português, insistindo que os seus filhos se integrassem por completo na nova sociedade, esquecessem a sua língua e a sua história ancestral. Yann Martel, conhecedor destes dilemas identitários, parece aqui um escritor luso-canadiano ou luso-americano. O certo é que nessa nossa outra literatura em língua inglesa, o regresso voluntário, por vezes eufórico, às raízes é um dos temas mais predominantes, um insistente tropo que nos tem dado alguma da melhor literatura contemporânea hifenizada, o testemunho modernista da nossa peregrinação. Tovy acaba, sem saber de início, na casa dos seus pais, na casa onde tinha nascido. Para o acompanhar no seu regresso trouxe um chimpanzé que havia visto e comprado num centro de estudos nos Estados Unidos, uma afinidade de olhares entre ele e o primata desde o início, e que ele nunca soube explicar. Na aldeia, torna-se um favorito dos habitantes acolhedores – e a linha unificadora da narrativa, forçada que é, funciona a todos os níveis ante o leitor que havia suspendido todo o seu saber realista, o primeiro requisito para a leitura de qualquer ficção, que acaba por espelhar o outro lado do que pensamos ser a “realidade”. O que fica nestas páginas é o que de melhor nos proporciona a grande literatura – o retrato, aqui entre um certo surrealismo e realismo do que fomos e como somos na nossa ruralidade aberta ao mundo, o povo que não conhece mas imagina constantemente o que fica para lá do horizonte ou da montanha, a coragem da navegação em busca da sua própria sobrevivência, o eventual regresso à nossa Ítaca. É isso que creio ser uma das marcantes qualidades deste romance, desde a sua abertura até ao encerramento – do mar para a terra, e da terra para o mar, a trágico-comédia “demasiado humana”, universal. O modo como o narrador relata o que Tovy sente no seu quotidiano canadiano, e depois numa viagem aos Estados Unidos, significa que, para além das aparências, a modernidade traz consigo outro tipo de loucura vivencial e vazio, a vida quieta entre montanhas imaginárias nada menos desejável. O seu filho Ben visita-o na aldeia portuguesa a dada altura – a força das raízes e a continuidade ancestral.

_______

Yann Martel, The High Mountains of Portugal, Edinburgh/London, Canongate, 2016. Li esta versão em língua inglesa, e a tradução da epígrafe é da minha responsabilidade. O romance foi publicado no nosso país com o título As Altas Montanhas de Portugal, Lisboa, Editorial. Presença, 2016.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 06 de Maio de 2016.