Portugal das partidas e dos regressos

Capa As Altas Montanhas de Portugal

Só nos últimos anos, depois do sucesso da sua engenharia da identidade, os seus pais cederam um pouco, ele e a sua irmã Teresa espreitaram ocasionalmente as suas vidas passadas. Isso veio através de pequenas histórias, ilustradas com fotos da família.

Yann Martel, The High Mountains of Portugal

Vamberto Freitas

As palavras que vão aqui em epígrafe são citadas da terceira parte do romance The High Mountains of Portugal/As Altas Montanhas de Portugal, de Yann Martel, o escritor canadiano nascido em Espanha, e que é uma das mais lidas e prestigiadas vozes na ficção mundial. Este seu novo livro segue The Life of Pi/A Vida de Pi, também publicado no nosso país pela Editorial Presença, vencedor do britânico Man Booker Prize, e depois feito filme pelo também reconhecido realizador Ang Lee. Mencionar estes precedentes na obra do autor é manifestar, à minha maneira, a surpresa que me foi ver um o título de uma obra vinda de quem vem, e depois a sua linguagem e temática, que parte do século vinte português para uma outra universalização da nossa condição, juntando não só a nossa história social e anti-imperial assim como traz ao centro da narrativa um imigrante luso-canadiano que havia deixado em tenra idade o norte de Portugal com os pais a meados do século, e depois regressado às suas origens rurais já como senador, rejeitando uma vida de privilégio e poder nessa outra pátria do nosso destino de povo andarilho e construtor de sociedades. Tenho duas hipóteses para estas opções ficcionais de Martel – nasceu aqui ao lado, e logo poderá ter conhecimento alargado de toda a Península Ibérica, e é residente num país em que os nossos também cultivaram para si um jardim existencial e que, aos poucos, se projectaram e fazem sentir a sua presença. Seja como for, Yann Martel é uma dessas vozes que tem literalmente o mundo como tema, a imigração como condição generalizada, a convivência e conflitualidade das nações e etnias o tema todo abrangente num mundo de crescente porosidade transfronteiriça. Uma das mais evidentes consequências na grande literatura contemporânea é a ausência de preconceitos ou chauvinismos nacionais, raciais e culturais, é o surgimento noutras línguas de histórias que permaneciam ignoradas fora de quem as viveu ou foi obrigado a estudá-las. Portugal, durante todo o século passado, foi um país tão conturbado ou pacífico como qualquer outro no mesmo continente, a sua tardia entrada na modernidade igual à da maioria da humanidade, cada sociedade, como um dia ouvi Carlos Fuentes relembrar num lançamento dos seus livros na Califórnia e quando contextualizamos o poder ou os mitos das nações mais poderosas, contém dentro de si o que se viria a designar por primeiro, segundo e terceiro mundo. As Altas Montanhas de Portugal é uma fabulosa viagem imaginada pelo nosso país, a partir de Lisboa em 1904 rumo a uma aldeia escondida nos arredores de Bragança, narrada ora com o vigor realista para quem este imaginário é por demais conhecido, e com um humor desusado ante propósitos e situações vividas pelos protagonistas, um mundo quase sempre fantástico requerendo as linguagens que nos transmitem a magia e suspensão de credulidade. Aliás, uma das mais marcantes características dessas literaturas de que venho falando aqui e noutras partes é precisamente a visão de tudo que enforma uma “cultura”, inclusive, ou muito particularmente, a sua religiosidade e superstições várias.

As três narrativas que compõem o romance são intituladas “Homeless”, “Homeward” e “Home” – na tradução de outro leitor, “Sem casa”, “A caminho de Casa” e “Em casa”. Na semântica da língua inglesa, creio, significam estas expressões algo mais do que a palavra “casa” nos quererá dizer – a ausência de pátria, estar nas margens, em busca de um sentido de pertença ao todo, o encontro ou reencontro com as nossas mais profundas raízes. Numa primeira leitura parecerá que são três narrativas distintas, mas estão interligadas por uma história comum, que vai, como já referi, do princípio do século XX até aos anos 80. Vemos um Portugal no seu primitivismo ante a modernidade que se avizinha, um Portugal firme nas suas tradições e modo de estar no mundo e simultaneamente aberto às mudanças tecnológicas que estavam a revolucionar as sociedades ocidentais. A narrativa vai relembrando a nossa história imperial em África, onde um padre testemunha, desde Angola a São Tomé e Príncipe, a escravatura, descobrindo uma figura na forma de um chimpanzé crucificado, e que lhe sugere que o horror ante tanta injustiça e opressão humana não terá a redenção de nada e ninguém, levando-o ainda a suspeitar que Deus, que permite tanta crueldade, toma a forma que Lhe queremos dar, que a nossa crença tem fundamento tão-só na invenção imaginária da humanidade. Envia o dito crucifixo para Portugal, que acaba numa pequena igreja de uma aldeia em Trás-Os-Montes. É precisamente aí onde chega o protagonista da primeira narrativa, Tomás, funcionário do Museu Nacional de Arte Antiga, sobrinho de um capitalista residente na Lapa, cuja fortuna origina e é sustentada pelo comércio luso-africano, um dos primeiros donos em Lisboa de um Ford. Tomás vivia um doloroso luto pela mulher e filha que haviam sucumbido à morte, e como protesto contra a “normalidade” das coisas e das crenças andava só para trás, introduzindo assim o que durante toda a restante narrativa será a pura descrição realista em convivência com o fantástico de um mundo apanhado entre superstição atávica e a chegada, uma vez mais, da modernidade. Esse tio de Tomás insiste que ele vá sozinho no seu carro até ao norte do país em busca do crucifixo do padre aqui de nome Ulisses, mesmo que ele não tivesse a menor ideia como conduzir o que ainda era ou parecia a quase todos uma estranhíssima geringonça mecânica. Atravessa inúmeras aldeias com o carro aos solavancos, provocando a maior algazarra entre todos os que nunca tinham visto a nova invenção. Numa descrição precisa da nossa geografia interior, o humor é incessante, as peripécias quase metáforas de todo um povo parado no tempo, sem que deixemos de ver os sinais que já apontavam a chegada e a aceitação da ciência e da tecnologia. As Altas Montanhas de Portugal é outra narrativa, pois, tão característica dessa literatura reinventada brilhantemente por um rol de escritores pós-coloniais, ou para quem a vivência pós-fronteiriça, pelas mais variadas razões profissionais e humanas, se tornou um modo de vida. Não se trata aqui de uma peça literária de um viajante que nos visita e depois nos escreve, longe disso. É um romance de quem conhece Portugal intimamente, decidindo retratá-lo como um perfeito mosaico ou azulejo com tudo o que de simples, belo e misterioso o caracteriza. É, sobretudo, outra narrativa modernista em que a busca ou construção de uma identidade acontece adentro da fragmentação e cansaço social e político em todas as sociedades ocidentais.

Por entre as peripécias de uma estranha viagem, o narrador vai interligando pessoas e incidentes dramáticos até ao presente. Peter Tovy, agora senador canadiano cansado da chicana política, como já se disse, é filho de uma família da aldeia de Tuizelo, que havia emigrado para o Canadá a meados do século passado, como resultado de um grave incidente de estrada provocado por Tomás aquando da sua viagem ao norte do país em busca do tal crucifixo africano, rejeitando para sempre o seu passado português, insistindo que os seus filhos se integrassem por completo na nova sociedade, esquecessem a sua língua e a sua história ancestral. Yann Martel, conhecedor destes dilemas identitários, parece aqui um escritor luso-canadiano ou luso-americano. O certo é que nessa nossa outra literatura em língua inglesa, o regresso voluntário, por vezes eufórico, às raízes é um dos temas mais predominantes, um insistente tropo que nos tem dado alguma da melhor literatura contemporânea hifenizada, o testemunho modernista da nossa peregrinação. Tovy acaba, sem saber de início, na casa dos seus pais, na casa onde tinha nascido. Para o acompanhar no seu regresso trouxe um chimpanzé que havia visto e comprado num centro de estudos nos Estados Unidos, uma afinidade de olhares entre ele e o primata desde o início, e que ele nunca soube explicar. Na aldeia, torna-se um favorito dos habitantes acolhedores – e a linha unificadora da narrativa, forçada que é, funciona a todos os níveis ante o leitor que havia suspendido todo o seu saber realista, o primeiro requisito para a leitura de qualquer ficção, que acaba por espelhar o outro lado do que pensamos ser a “realidade”. O que fica nestas páginas é o que de melhor nos proporciona a grande literatura – o retrato, aqui entre um certo surrealismo e realismo do que fomos e como somos na nossa ruralidade aberta ao mundo, o povo que não conhece mas imagina constantemente o que fica para lá do horizonte ou da montanha, a coragem da navegação em busca da sua própria sobrevivência, o eventual regresso à nossa Ítaca. É isso que creio ser uma das marcantes qualidades deste romance, desde a sua abertura até ao encerramento – do mar para a terra, e da terra para o mar, a trágico-comédia “demasiado humana”, universal. O modo como o narrador relata o que Tovy sente no seu quotidiano canadiano, e depois numa viagem aos Estados Unidos, significa que, para além das aparências, a modernidade traz consigo outro tipo de loucura vivencial e vazio, a vida quieta entre montanhas imaginárias nada menos desejável. O seu filho Ben visita-o na aldeia portuguesa a dada altura – a força das raízes e a continuidade ancestral.

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Yann Martel, The High Mountains of Portugal, Edinburgh/London, Canongate, 2016. Li esta versão em língua inglesa, e a tradução da epígrafe é da minha responsabilidade. O romance foi publicado no nosso país com o título As Altas Montanhas de Portugal, Lisboa, Editorial. Presença, 2016.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 06 de Maio de 2016.

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