Vida e literatura, ou novos velhos mundos

capa Amor em Lobito Bay Lídia Jorge

O que vale uma cidade, se acaso não alimenta os mitos sobre os quais acorda todas as manhãs e se deita todas as tardes?

Lídia Jorge, O Amor em Lobito Bay

Vamberto Freitas

Diz-se algures na nuvem que Lídia Jorge firmou a seu nome na literatura portuguesa com A Costa dos Múrmurios, o romance “colonial” publicado em 1988. Por certo que os prémios literários no nosso país e no estrangeiro têm sido constantes, a tradução em várias línguas de boa parte da sua obra um outro sinal de que desde há muito, desde o inesquecível O Dia dos Prodígios no início dos anos 80, que a sua ficção conquistou um estatuto no além-fronteiras que fará muita inveja a autores de países ou de “culturas” que têm de si uma auto-imagem bastante inflacionada em relação a nós devido ao seu poderio em tudo, supõe-se, menos nas artes. O conto que encerra O Amor em Lobito Bay, “O Poeta Inglês”, é paradigmático deste estatuto simultaneamente conhecido, mas sempre fonte de ansiedades quanto à nossa presença literária entre outros. A narradora reveste-se aqui de poeta em digressão pela França menos mitificada, as pequenas cidades e vilas do interior, na companhia de colegas desse mesmo país, da Holanda, da República Checa, da Inglaterra. O holandês anda convencido do seu profundo conhecimento e originalidade de uma narrativa sobre África, o checo a insinuar que um grupo de poetas diminui a grandeza de cada um, que qualquer um deles deveria aparecer só num palco para um recital poético, a francesa permanece indiferente, a portuguesa ansiosa entre eles todos, sobressaindo o poeta inglês, com o seu suposto humor frio e subtil, romântico suicidário que vê instantaneamente nas terras vinhateiras do país gaulês a metáfora perfeita da nossa existência ou passagem pelo mundo, a firmeza das nossas raízes vergando conforme o vento, a sua e nossa eventual e perpétua morte e renascimento. É o mais aplaudido e acarinhado pelo público, e o que menos se preocupa com a reacção destes seus ouvintes ou leitores. A narradora-protagonista deste conto relata com uma ironia que ela própria parece não topar nas suas palavras de como a arte dos nossos dias não se liberta de uma hegemonia absolutamente injustificada na literatura contemporânea. “…O livrinho da Penguin – diz-nos ela numa descrição do seu colega em palco, e do que pensamos ser a postura fleumática inglesa – colocado sobre o joelho esquerdo, e agora levantava-se e não levava consigo o livrinho”. Seguem-se a bebedeira e depois a morte do poeta. Note-se ainda a menção da famosa e histórica editora de língua inglesa. Resignados todos os outros, constituem um “clube” em permanente homenagem ao poeta morto. Apetece-me lembrar aqui as palavras de Carlos Fuentes na minha faculdade californiana durante a apresentação de um dos seus romances, e enquanto enviava mensagens ambíguas aos leitores norte-americanos em sua frente – quando a literatura britânica se encontra num estado anémico, de repente aparece um irlandês! Se não for esta uma peça de ironia e riso, nada nos diria, nada justificaria o tempo e espaço de uma grande escritora como Lídia Jorge. Só que estes contos de O Amor em Lobito Bay são menos dispersos do que poderá parecer numa primeira leitura, lidos em sequência erguem-se como uma magnífica colectânea tematicamente unificada pela visão matura e segura da vida e da morte, da inevitável confluência de velhos e novos mundos transcontinentais, desde África e Europa à América do Norte, fatias da vida de portugueses e de outros aprisionados pela memória do passado, ou simplesmente a sobreviver na absoluta fragmentação das nossas vidas, nos mais variados cenários e geografias.

Será precisamente dessa fragmentação do nosso ser e estar nos dias que são os nossos que se agudiza a memória do passado, ou o passado como pano de fundo ou cenário no palco em que todos actuamos, o presente tornando-se uma sucessão de não-eventos (como a digressão poética pela França), o surreal tornado normalidade, tudo o que poderá vir a ser a miticidade do futuro. “Um Rio Chamado Mulher” é, para mim, uma peça antológica destes contos de O Amor em Lobito Bay. A narradora portuguesa encontra-se em New Orleans, e decide fazer o percurso da narrativa de William Faulkner, ou de“Old Man”, que é uma fuga na ruralidade criminosa e subterrânea do sul profundo intercalada como uma outra narrativa citadina em The Wild Palms/As Palmeiras Bravas, traduzido no nosso país por Jorge de Sena. Esqueçamos aqui a temática do mestre de Oxford, Mississippi, e concentremo-nos na voz portuguesa. Está fascinada com a cidade carnavalesca e crioula, menciona os escritores que por lá passaram, e que hoje são vozes canónicas na sua língua, desde Mark Twain e Tennessee Williams a William Styron. A sua guia na cidade e na viagem rio acima é ela própria uma espécie de metaficção em pessoa, revelando-se ou uma mentirosa estupenda ou mais uma manifestação de que a literatura somos nós mesmos. Bebendo continuamente água quando pensam que está a beber uma poção alcoólica tão sincrética como o meio que habita, diz a dada altura à sua visitante lusa que foi ela a voz e a mulher real que Styron haveria de contar e transfigurar no seu romance Sophie’s Choice/A Escolha de Sofia, a polaca que havia sobrevivido a um campo de concentração nazi. Pouco interessa a veracidade da história, tal como é transmitida, a mulher parece um símbolo vivo de que a ficção da vida vivida é tão ou mais estranha do que a ficcão inventada por um escritor. A narradora acaba por realizar a sua viagem literária à terra de Faulkner, onde descobre a outra verdade – rareiam os seus admiradores locais, o homem e a obra totalmente desconsiderados pelos que supostamente são aí retratados, o mítico yoknapatawpha county e a gente e as suas vivências nada mais do que a representação do dito shakespeariano que serve de título ao outro grande romance do mesmo autor, que é O Som e a Fúria – all is sound and fury, signifying nothing/tudo é som e fúria significando nada. Se um poeta inglês é tudo, como no conto já referido, mesmo que a obra não seja conhecida pelos que o ouvem na digressão francesa, uma outra obra é tudo, mesmo que o seu autor seja tido como um ninguém, ou pior, tal como Sofia é uma simples e amigável mulher desenraizada numa grande cidade em festa perpétua, mas cuja história poderá de facto ter sido a fonte de uma grande peça de arte literária. Eis Lídia Jorge, creio, numa fase invejável da sua carreira – conta histórias em linguagens depuradas e belas, directas mesmo enquanto ricas, como em toda a sua obra, em imagens e metáforas.

De resto, este mesmo jogo entre uma realidade imaginária e a ficção pura, entre a memória de uns e a história vivida de outros, fica definida a temática que percorre e enforma todos os contos, inclusive o primeiro que dá o título ao livro. Num exercício de revisionismo historicista, um narrador adulto relembra a sua infância em Lobito nos últimos anos da guerra colonial, relembra nitidamente que enquanto brincavam ou jogavam já se ouviam os tiros ao longe, sem entenderem o que se passava, e muito menos que as suas vidas estavam prestes a mudar radicalmente. A entrada eufórica na cidade dos guerrilheiros nacionalistas depressa se torna um novo martírio para os que do mato só conheciam prazeres e aventuras inconsequentes. O MPLA e a FNLA, ao entrarem triunfantes na cidade, não demoraram muito em começar novos disparos entre si, o caos ordenado do antigo poder colonialista era agora substituído pelo caos mortífero dos vencedores. Algumas das cenas que representam a felicidade de crianças nada preocupadas com a cor da sua pele fez-me lembrar certos passos de um dos volumes das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula, que em Moçambique viveu dias semelhantes, e curiosamente conta-nos instantes inesquecíveis entre os que agora passavam a ver todas diferenças entre si. A morte, sempre, a espreitar ou já tendo ensombrado as vidas dos personagens em cada narrativa. Num outro conto de fundo americano, “Dama Polaca Voando em Limusine Preta”, a protagonista depara-se numa situação absurda em que teme, sem razão, pela vida, para depois ser compensada pelo dono e condutor imigrante dessa bruta e velha limusine, de fala entre o inglês e o iídeche, por ser demasiado parecida com a sua mulher, judia polaca que morreu inesperadamente em Israel. A portuguesa tinha despertado a memória e toda a emoção de uma grande perda na sua vida, surpreendendo ainda mais o leitor, que também espera o pior numa viagem a alta noite entre um hotel e um aeroporto. Há dois protocolos essenciais neste género de ficção condensada que um escritor domina, ou então não deve tocar – a surpresa ou viragem na narrativa, e o que alguma crítica literária valoriza acima de tudo, bringing out character, ou fazendo emergir dos pormenores, ou da observação casual, acerca de um personagem todo o interiorismo que o coloca em nossa frente como alguém que nos é absolutamente estranho, o outro, ou que nos é íntimo pelo reconhecimento da nossa comum humanidade. Em qualquer dos casos, é essa talvez a mais difícil tarefa de um escritor, se não quiser ficar por um acto literário, curto ou de fôlego, que mais não nos oferece do que ideias feitas ou propagadas pela outra ficção, que é a História de qualquer sociedade ou época. “Oxford – diz uma das narradoras – esse local de invejas, onde aquela gente, no dia do funeral de Faulkner, apenas fechara as lojas por uns escassos minutos”. Nem mais uma palavra seria necessária para percebermos por inteiro a “estatura” de um escritor entre os seus, o espaço também irónico que a literatura ocupa nas nossas sociedades

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Lídia Jorge, O Amor em Lobito Bay/Contos, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016.

 

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