A salvação que nos espreita, sempre

capa Uma Bondade Infinita

Encontrara a expressão: um espelho ficava-lhe bem… Deveria experimentá-los em momentos diferentes do dia, pois os movimentos da luz tudo definem.

Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita

Vamberto Freitas

A trama e a complexa rede que interliga todos os personagens deste novo romance de Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita, coloca-nos num labirinto bíblico, do qual naturalmente todos nele aprisionados tentam fugir antes que a morte os apanhe. Trata-se de uma só família mista, afegã e de outra nacionalidade indefinida, de um país nunca aqui nomeado, em que se encontram no exílio, ou como refugiados. Um patriarca com um passado mais do que sujo nos miseráveis campos onde se recolhem as vítimas de bombardeamentos aéreos não-identificados nas montanhas afegãs, tenta limpar o seu nome de um passado assassino e obscuro, para depois gozar uma aposentação nesse país — que sabemos ser à beira-mar, e com características que insinuam ao leitor português tratar-se de uma vizinhança bem conhecida – na companhia de uma amante inglesa, agente dos serviços secretos de sua Majestade. A criminalidade militar e civil contra os inocentes é uma só, pois esses actos de guerra poderão ter como alvo os que são de facto tidos como terroristas, como o que na realidade tem acontecido ao longo destes anos de guerra perpétua, ou então a chacina quase diária de cidadãos comuns, desculpada sempre por um engano de “informação” no terreno, ou simplesmente como sendo os inevitáveis “danos colaterais” de uma guerra sem tréguas nem moralidade. Estamos aqui nos anos antes do Estado Islâmico se manifestar, mas o Mal vem de longe. Ernesto Rodrigues diz que tinha este romance escrito já em 2010, mas a sua visão do que viria a acontecer, no que diz respeito à crise actual dos refugiados na Europa, parece que aconteceu ontem, todas as possibilidades tecidas no seu romance são-nos a notícia de cada dia. A violência aqui gera violência, o que era uma questão de nações em conflito transforma-se em lutas verdadeiramente fratricidas, o amor e ódio pessoais, o acaso no percurso de cada um levando a consequências de vida e morte, perfídia ou bondade. Alias, duas imagens acompanharam-me na leitura deste romance. A primeira é que desde o primeiro ao último capítulo estamos sempre na dúvida de quem é quem, como num emaranhado de sombras nocturnas, a sua movimentação numa geografia de dor e má sorte parecem imagens desconexas como numa reportagem televisiva incerta sobre mais um atentado à bomba ou de tiroteio. Vemos meros indícios do que se passa, mas mantemo-nos num escuro absoluto sobre quem provocou a desordem mortífera, e muito menos das ligações de uns e outros. O facto de nunca o narrador nos fornecer pormenores claros que nos iluminem mais um pouco no possível entendimento tanto do que aconteceu ou porquê, cria esse efeito de mistério que sentimos ante notícias nebulosas de sucessivos acontecimentos diários como estes. A segunda, fez-me lembrar a abertura de A Peste, de Albert Camus, quando o Dr. Bernard Rieux sai à rua na cidade de argelina de Oran e começa a ver ratos mortos por toda a parte, a evidência de uma muito antiga morte que vai impiedosamente alastrar-se a outros. O seu momento de escolhas e decisões, entre a cobardia da fuga ou o sofrimento solidário, não pode ser adiado. A encarnação do Mal dessa e agora outra vez da nossa época toma todas as formas colectivas imagináveis, o Bem reside na consciência dos indivíduos que enfrentarão, com ou sem medo, a escuridão infernal. Não é de maniqueísmo humano que se trata aqui, é da própria História tal como tem sido vivida desde tempos imemoriais.

Uma Bondade Perfeita é uma narrativa, em parte, de intertextualidades diversas, que vão desde figuras de óperas canónicas, como Alcina, de Handel, a textos modernos e antigos, que, tal como afirmou publicamente o autor, vão de Séneca a Jorge Luís Borges. A própria capa é um resumo perfeito do romance – um menino nos braços da mãe, esta de olhos bem abertos e expressão simultaneamente destemida e assustada, ambos em fuga à tempestade de fogo que ameaça o mundo à sua volta, a versão reajustada à história dos nossos dias, uma representação agora quase fotográfica de Madonna and Child, de Giampietrino, parecendo ainda uma imagem demasiado recorrente nos ecrãs nas nossas salas. Esqueçamos por agora os nomes dos sete filhos que serão alvo da fúria assassina do próprio pai, um criminoso de guerra de nome Menigno, que se quer ver livre de todas as acusações que recaem sobre ele, inclusive a de ser pai e avó de uma das personagens, Indira, com assentimento da própria esposa, também chantageada e ameaçada. Toda a história é contada por Clemente e por um ex-jornalista tornado frade, Filodemo, antigo amor de Alcina, que abandona um filho num campo de refugiados no Pakistão, para se dedicar à salvação de muitas mais vidas. Toda a narrativa é desencadeada pelo bombardeamento desse campo, em que esse filho abandonado, o próprio Clemente, que terá de ser o carrasco, numa prisão dirigida por Menigno, da mãe que o havia salvo, Ágata, judia convertida ao catolicismo e devota de Nossa Senhora de Fátima. O significado de cada nome poderá interessar um ou outro leitor, mas será a reacção de cada personagem, muito especialmente dos dois narradores, que nos prende frase a frase, em que Ernesto Rodrigues consegue, ora na mais clara e despojada linguagem, ora na poetização de cada palavra e imagem, devolver à ficção os seus próprios esconderijos e ambiguidades entre o medo e a coragem, a maldade pura de uns e a santidade inerente a outros. O fim terá lugar nesse país sem nome, e o triunfo da bondade dentro da catástrofe pessoal e histórica é essa subversão do que habitualmente esperaríamos numa obra de ficção contemporânea, e sobretudo numa época em que a morte ronda não só os campos de batalha praticamente no mundo inteiro, mas na rua ao lado, no bar vizinho, e muito mais ainda numa prisão de um país onde a pena de morte ou qualquer tipo tortura foram supostamente abolidas há muito, mas onde de quando em quando acontecem “suicídios”. Se o país aqui não tem nome (para além do Afeganistão e Pakistão), têm-no os personagens que carregam em si as angústias do nosso tempo e a moralidade que nos resta, têm-no os que do mesmo modo simbolizam o desespero, a crueldade e a morte que se espalham sem limites nem fronteiras.

Em segundos, Filodemo – diz um dos narradores no fecho da narrativa – reviu o passado, imprevisível como a imaginação. Pegou no menino da tenda e só já pôde abraçá-lo, tão pesado era; ergueu nos braços a sua professora de línguas e viu-a, corada, entregando-lhe um prémio, e cálido beijo de alma que foi o início desta aventura. Senhor da história, ele não esperava um final tão feliz”.

Recentemente, a escritora norte-americana Ayana Mathis escreveu numa coluna do suplemento literário do The New York Times sobre os temas que ela dizia estarem “mal representados”, ou mesmo ausentes da literatura contemporânea. Para minha surpresa, o seu lamento ia muito além do que eu esperava numa romancista da nova geração. Diz que os seus colegas, em toda parte, parecem “ter decidido” que o “desespero, alienação e uma escuridão generalizada são a única descrição da condição humana… Somos um bando pós-moderno de frades medievais, auto-flagelando-se e sentindo-se marginalizados, suspeitando da alegria e integridade da vida”. Não queria ela dizer, suponho, que estas visões não devem estar ausentes de uma literatura atenta à vida dos nossos dias, mas que simplesmente se tornava cansativa e falsa por excluir o outro lado da nossa existência, de reafirmar também a alegria de sermos e estarmos em comunidade com os outros. Ernesto Rodrigues não entra por aí neste seu romance, não deixa de retratar um mundo mergulhado precisamente nesse desespero ou escuridão, tal como o vemos ao longe, ou outros o vivem de perto, a violência e morte generalizadas nesses campos de batalha conhecidos, e perante a ameaça constante que também vivemos todos nas nossas próprias sociedades. Este romance é ainda sobre outra das mais cruéis condenações, as vidas sacrificadas pelas exigências de homens (e mulheres) a favor da sua própria e pessoalíssima felicidade, da sua própria perversão hedonista, as vidas sob ameaça não só da morte militarizada, mas sobretudo da violência física e psicológica perpetrada pelos que nos são mais próximos. A noção distorcida de “família” indesejada nestas páginas nasce de um psicopata incorrigível, o mesmo que tinha o poder de mandar bombardear um campo de refugiados no seu próprio país, para matar uma única criança, fruto do seu desejo sem amarras, e isto sem que ninguém assuma responsabilidades, sem o mundo saber nunca quem foi quem assassinou quem nessas tendas, agora sim, de desespero e agonia absolutas. Há sempre vítimas, raramente culpados.

Uma Bondade Perfeita traz-nos o outro lado da nossa humanidade – a consciência de que só nos resta a resistência individual e no anonimato aos que nos subjugariam aos seus propósitos ou projectos num reino da morte e do nada. Não estamos perante qualquer noção de “religiosidade”, mas sim de uma opção existencialista. Fugir da tragédia – ou enfrentá-la na solidão, mesmo correndo todos os riscos num mundo sem regras nem piedade.

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Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita, Lisboa, Gradiva, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 27 de Maio de 2016.

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2 thoughts on “A salvação que nos espreita, sempre

  1. Ernesto Rodrigues Maio 29, 2016 / 10:20 am

    Vamberto, caríssimo: grato por tudo. Venha o Verão, para um encontro aqui, e vá um abraço forte.

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