Toda a mítica do oeste americano

capa Butcher's Crossing

Nem tão-pouco conseguia recordar a força dessa outra paixão que o impelira a atravessar meio continente rumo a uma terra bravia onde sonhara poder encontrar, como numa visão, o seu eu inalterável.

John Williams, Butcher’s Crossing

Vamberto Freitas

É exactamente a meio da grande narrativa que é Butcher’s Crossing, de John Williams, publicado originalmente em 1960, onde encontramos o parágrafo que interliga tudo o que antes e depois parecerá uma brilhante paródia aos melhores filmes do oeste, em que Hollywood, simultaneamente, inventava toda uma tradição, e reinventava, do mesmo modo, toda uma ideologia oposicionista durante os anos da realização dessas mesmas produções, os anos 40 e 50 da Guerra Fria e do capitalismo já então desenfreado. A mensagem marxista escondida nalgumas dessas histórias de pistoleiros, dos bons e dos maus em luta pela terra e pela lei, era consentânea com uma indústria do cinema furiosa e perseguida pelo pior de uma sociedade democrática – a ignorância das massas como aliada do sistema de acumulação sem limites da riqueza do país, nas mãos – hoje mais do que nunca – de umas poucas multinacionais e indivíduos ou famílias. Tanto o cinema como a literatura mais lida no país, sabendo de um planeta desequilibrado em tudo que se refere à existência da maioria de nós, perderam a coragem das ideias, e limitam-se a propor, como adolescentes ofendidos, uma visão apocalíptica de grandes desastres, a humanidade armada contra terrores inexplicáveis e planetariamente malignos. A nossa radical contingência existencialista da actualidade, no entanto, recomeça a provocar na arte de toda a parte o regresso das ideias e da ideologia, ou como diria a filósofa brasileira Marcia Tiburi numa recente entrevista, “a politização da estética”. Não será mero capricho que leva um realizador como Sam Mendes, um britânico tão dedicado à desconstrução do chamado sonho americano, a anunciar que quer fazer um filme deste Bucther’s Crossing, que espantosamente só encontrou os seus leitores décadas depois de ser escrito e publicado, e como resultado da francesa Anna Gavalda ter descoberto e traduzido um outro romance do mesmo autor, Stoner, que levou os próprios americanos a reconsiderar uma das mais ignoradas e até há pouco obscuras carreiras literárias no seu país. Aliás, foi assim quando Jean Paul Sartre leu a obra de William Faulkner, até então a passear-se na pequena praça da sua Oxford, em Mississippi, e a beber até à morte sem que ninguém desse por isso, após já ter escrito O Som e a Fúria, um romance de grande fôlego temático e originalidade estética na transfiguração da condição humana, tal como era vivida no seu pequeno e inventado Yoknapatawpha County. Faulkner. Segundo Malcolm Cowley, citado por Joseph Blotner na sua biografia do autor sulista, Sartre diria que “para os jovens em França, Fulkner é um deus”. Butcher´s Crossing é também uma revisitação a toda mítica americana em volta da conquista do continente, uma implacável, repita-se a palavra, desconstrução da suposta heroicidade e inocência de homens e mulheres destemidamente a apropriar-se da terra e alma de uma nova nação, da justeza questionável dos seus actos, de um sistema societal que inevitavelmente acaba numa fogueira de coisas, e da fuga na pradaria rumo ao nada ou a outra sorte dos seus provocadores. “John Williams – escreveu o ensaísta Kim Kreider na The New Yorker, em 2013, quando o romance Stoner reencontrou o seu devido lugar, pelo menos entre os críticos – foi arrumado naquela categoria pouco invejável habitada por um rol augusto, que inclui Richard Yates e James Salter: um escritor de escritores/a writer’s writer”. Mestre dos seus pares. De modo algum acho essa sorte “pouco invejável”, mas sim o contrário.

Burcher’s Crossing (que aqui poderá ser traduzido como Entroncamento do Carniceiro, um vilarejo improvisado no oeste americano a meados do século XIX, no interior do estado de Kansas, a semântica da tradução interpretativa aplicável também a toda a acção, negócios e trama do romance) tem como seu protagonista Will Andrews, um jovem de 23 anos, que decide abandonar os estudos em Harvard, em 1870, e uma família de bem em Boston, já então a cidade referencial e de enraizamento de toda a elite anglo-americana num país em construção, virado desde logo para esse oeste de aventura e mistério, de riqueza instantânea e morte anunciada, levando consigo uma herança antecipada de alguns milhares de dólares. Por mais que alguns ensaístas revisionistas denunciem a prosa e filosofia do canónico Walden, publicado em 1854, pelo seu simplismo e desonestidade, a verdade é que a obra de Henry David Thoreau capta muito do que o sábio, também de Boston, intuía sobre a condição da vivência americana já naqueles primórdios, “o desespero tranquilo” com que o autor descrevia a vida dos seus concidadãos em busca do seu sonhado lugar no novo mundo. Andrews decide ir numa caça aos búfalos nesses territórios sem lei nem dono, e chega um dia à dita vila em busca de parceiros e tutores para a sua viagem iniciática nessa outra e radical experiência então em curso, que era a expansão caótica e selvagem do novo país. Não é a História ou qualquer projecto de riqueza que o move, mas sim a procura do seu próprio ser, a também mítica noção de um suposto rito de passagem, uma prova da sua coragem, e talvez da sua masculinidade numa era de todo caracterizada por uma violência quase teológica entre homens e natureza. Andrews parte com o companheiro-chefe e atirador de nome Miller, com quem havia negociado os termos da caça, e um cozinheiro meio bèbado e sempre de Bíblia na mão, assim como com um especializado esfolador dos animais abatidos para a viagem às Montanhas Rochosas. Aí acontecerá a matança sem amarras de milhares de búfalos, de que somente querem as peles para venda e fabrico de roupas e malas. No que ainda se chamava simplesmente os Territórios de Colorado, fazem lembrar o obcecado capitão Ahab em Moby Dick, na perseguição da Natureza indiferente e inocente, a pradaria agora como que um mar sereno, as montanhas cobertas de neve e ventania congeladora tornadas ondas insuperáveis e assassinas. O simbolismo aqui é de uma subtileza preciosa, estão, afinal, a conspurcar a terra dos outros, no mais ganancioso e irracional imperialismo interno. Numa única cena a lembrar tudo isto, os quatro matadores-empreendedores passam, nessa sua determinada ida para o lucro e talvez para a morte, uma casota de uma família de índios sentados à sua beira, de olhar sereno, a sua paz algo incompreensível e sem significado para estes homens. O resultado da campanha, que dura alguns seis meses, é mais ou menos inesperado, mas a heroicidade das narrativas tradicionais do oeste é lembrada com a mesma ambiguidade que marca assustadoramente toda a vida humana. Andrews descobre o inferno, e depois derrama a sua incapacidade de amar na cama de uma prostituta alemã imigrante, de nome Francine, e que ele havia conhecido no bar da pequena povoação pioneira.

No decurso da última hora de caçada – escreve o narrador, sintetizando aqui o que parece ser o grande tema deste romance, e que mencionei nas primeiras linhas deste texto – acabara por encarar Miller como um mecanismo, um autómato, que se movia de acordo com o movimento da manada, e acabara por encarar a chacina praticada por Miller não como uma ânsia de sangue ou uma ânsia das peles ou uma ânsia do que as peles venderiam, ou sequer, enfim, como uma cega ânsia de fúria que se revolvesse obscuramente dentro dele: acabara por encarar a matança como uma fria e indiferente reação à vida em que Miller se tinha embrenhado. E olhava para si mesmo, a rastejar em silêncio atrás de Miller pela planura do vale, a apanhar os cartuchos vazios que ele ia consumindo, a arrastar a barrica de água, a tratar da espingarda, a limpá-la, a passá-la a Miller quando ele precisava dela – olhava para si mesmo e não sabia quem era, nem para onde ia”.

De regresso a Butcher’s Crossing, a pequena cidade de madeira e pó está quase deserta, os seus habitantes drasticamente reduzidos, resta só a memória apenas de sombras tornadas fantasmas, os que tinham vindo do desconhecido, perdidos ou mortos agora em nenhures. A sua identidade, como a de Will Andrews, perpetuamente em suspenso, a fuga ao desespero, a busca de si próprios dissipada no sonho da glória imaginada. O continente virgem volvendo aos velhos demónios da humanidade, a visão do inferno e da injustiça no suposto país de Deus. Butcher’s Crossing pareceu-me por vezes a paródia implacável dos antigos filmes hollywoodescos, e ao mesmo tempo como uma alegoria da história de descobertas e conquistas que subjugaram todas as novas geografias à muito antiga maldição, ao pecado original. As últimas páginas do romance contêm outra fogueira de peles abandonadas, rejeitadas pelo próprio mercado que incessantemente reinventa as suas coisas e desejos, deixando cair na sarjeta tanto os mais atrevidos como os inocentes úteis. Andrews não volta, não quer, não pode voltar mais às suas origens depois do que viu e viveu, rejeitando o amor que Francine lhe ofereceu, incapaz de se entregar à serenidade que ela própria representa e procura. Miller é visto em fuga, pradaria fora no seu cavalo rumo a outro destino incerto e sem razão.

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John Williams, Butcher’s Crossing (tradução de J. Teixeira de Aguilar), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 03 de Junho de 2016.

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