O conservadorismo rebelde de um escritor

Capa Vamos ao que interessa

Voltaire sabia, como Hitchens soube, que a morte não passa de um facto sem grandeza. Porque de nós, do que fomos ou fizemos, tudo o que restará é apenas o exemplo.

João Pereira Coutinho, Vamos ao que interessa

Vamberto Freitas

Escolhi este passo de Vamos ao que interessa, o novo livro de João Pereira Coutinho, por várias razões que têm tudo a ver com a minha já longa admiração pelo colunista da Folha de São Paulo, e agora também, pelo que me dizem, do lisboeta Correio da Manhã. Li e tenho na minha estante o seu Avenida Paulista, e por algumas vezes tive o privilégio de o ler enquanto bebericava uma cerveja algures no interior de São Paulo, ou seja, no próprio terreno a que se dirigia um portuga cuja linguagem contradiz muito do que pensam de nós naquelas partes. Não é fácil a um esquerdista vindo dos anos 70 admitir publicamente estes pecados num país tão sisudo e estratificado ideologicamente como o nosso, mas eu também venho de outras geografias muito mais vastas, abertas e diversificadas. Parafraseando alguém, eu dizia a quem me perguntava que o maior alívio no meu regresso à pátria era não ter de ler diariamente a primeira página do (conservador) Los Angeles Times, a voz muito patriótica e auto-convencida do oeste americano, a voz do capitalismo à moda californiana, ou seja, do dinheiro como valor absoluto, inquestionável. Essa era outra mentirinha minha, pois um dia sem abrir as suas páginas de opinião e rir com o cartoon do australiano Paul Conrad era um dia incompleto. Los Angeles e o seu “bairro” autónomo ali ao lado, chamado de Hollywood, pensam-se os expoentes sem par de cultura e prazer, ou talvez só da cultura do prazer e da adolescência perpétua, como no romance pouco angélico Menos Que Zero, de Bret Easton Ellis. Não foi surpresa alguma para mim que João Pereira Coutinho tem mais ou menos a minha opinião sobre esta faceta da indústria cinematográfica que monopoliza – a opinião é minha – uma das cidades mais feias e incultas dos Estados Unidos, e onde como jovem universitário dos arredores mais calmos e racionais eu me passeava nas suas duas avenidas principais com alguns colegas aos sábados à noite, só para ver os freaks que por lá se exibiam. Queria apenas dizer que desde as minhas primeiras leituras do autor aqui em foco creio ter topado a sua visão existencial, que tem a ver com muito do mundo anglo-saxónico, versão britânica e oxfordiana, sem nunca abdicar da sua inteligência e capacidade crítica, não tanto no que diz respeito à política, mas sim quanto à influência esmagadora do bom e do desprezível que reinam em todos os cantos do globo. Um dia gostava de lhe perguntar o que é que, exactamente, ele gostaria de “conservar” em Portugal, sabendo que a palavra significa, em termos de ideologia e postura filosófica, muito mais do que essa minha interpretação simplista do termo, e que me provocava arrepios durante boa parte da minha vida americana. João Pereira Coutinho faz-me lembrar um outro conservador que eu lia e ouvia sem falhar, e que por acaso visitava os Açores nas suas viagens de iatista milionário, e assistia à missa numa igreja da Horta, espantado com o reacionarismo de certo padre – William F. Buckley, católico assumido, esse que no seu gabinete de trabalho tinha um relógio cujos ponteiros andavam para trás simbolizando a sua aversão à sociedade esquerdizada que ele pensava ser a América da última metade do século passado. É certo que há uma semelhança muito próxima, mas nem sempre confundo o termo “conservador” com “direita”, e tudo o que isso implicaria na luta política numa sociedade livre. Alguma da melhor literatura modernista ocidental veio de quem poderia ser – ou era – arrumado nessa categoria, que também é um pressuposto intelectual, um T. S. Eliot entre eles, digamos, e um Fernando Pessoa, ou, no nosso tempo, Agustina Bessa-Luís. Acredito haver uma diferença entre nós e eles, os conservadores e os da minha laia: onde vemos a tragédia, eles vêem a muito antiga comédia humana, onde queremos aplicar receitas, eles encolham os ombros, como que a dizer, seria bom, mas não resolve nada, onde escrevemos parágrafos longos e chatos, eles escrevem frases curtas e lapidares. Um livro de trezentas e quarenta e sete páginas, como este Vamos ao que interessa, e que não menciona um único nome de um político português, merece de imediato a minha adesão. Estou consciente de que o público leitor maioritariamente de São Paulo a quem se dirigem estes escritos não conhece quem são, e se conhecesse, não quereria saber. A sua aguda capacidade de desconstruir, ou pelo menos de rever, desde a mais banal à mais aguda questão social ou cultural do nosso tempo e das suas geografias transatlânticas, proporciona-me momentos de proveito e raro prazer, nestes que são textos jornalísticos que rareiam no nosso país. Se não digo na nossa língua é porque sei muito bem que os grandes mestres da crónica clássica são quase sempre e historicamente da terra brasileira.

Vamos ao que interessa está organizado por capítulos conforme a temática abordada, e li-o em sequência como se de uma narrativa de fôlego se tratasse. Uma coluna que valha o espaço num grande jornal olha para o seu objecto ou sujeito e torce-o ou retorce-o através de linguagens que quase se tornam uma personagem. Para mim, ler João Pereira Coutinho não será tanto o que ele diz, mas sim o modo como, a frase pirotécnica que nos agarra toda a atenção, nos faz virar as páginas em busca do seu olhar simultaneamente rebelde e sereno, o dizer de quem não quer nem deseja convencer os leitores sobre seja o que for, apenas reafirmar que há outros modos de estar e ser na comédia primordial que é a nossa existência. Como se diria sobre um outro grande cronista português, Onésimo Teotónio Almeida, nunca ri de, mas sim com o seu sujeito. O humor fino é uma raridade na literatura ou escrita de qualquer género em Portugal, geralmente o escritor sabe tudo e os outros nada, confundindo-se frequentemente com o que não passa de sátira feroz e esmagadora, “o pisar e repisar da vítima”, como também me diria em entrevista o falecido José Martins Garcia, autor de uma vasta obra, que inclui dois títulos bastante significantes, Katafaraum É Uma Nação e Contrabando Original, com certa noção de esperteza alegre. Um livro, um filme, um quadro, uma noite entre académicos ingleses nas suas bebedeiras quase cerimoniais de fim-de-semana nos bares situados numa das vizinhanças mais sérias, criativas e conservadoras da academia internacional que é Oxford – é o riso desconcertante que consegue por instantes que sejamos todos capazes da auto-depreciação ao olharmos os espelhos que nos devolvem a verdade nua e crua, e que se não nos fazem aceitar o outro, obriga-nos a olhá-lo com tolerância e sabedoria, a reconhecer que em última instância somos iguais tanto na loucura como na seriedade da vida. No mini-ensaio que é “Imaginar Sísifo feliz” João Pereira Coutinho relembra-nos que, assumamos a ideologia ou a mundividência que quisermos ou em que estamos catalogados por outros, a verdade permanece, a condenação é universal e vem do fundo e do início do nosso ser. Aprendamos a aceitar a pedra às costas ou a rolar montanha abaixo ou montanha acima, revoltados ou resignados, ninguém a segura ou se safa da sua sorte. É ainda no texto “Exemplos terminais” que o autor derrama, por assim dizer, muita da sua inteligência afectiva e disponibilidade para o diálogo e admiração perante um outro, o ensaísta inglês Christopher Hitchens nos seus últimos dias de vida em Nova Iorque, contados no livro Mortalidade, esse que sempre esteve no outro lado da barricada ideológica e política, o inveterado ateu que um dia afirmou que Henry Kissinger deveria ser julgado num tribunal internacional por alegados crimes de guerra.

Finalmente, o tema inevitável: Deus. Quando se soube – escreve João Pereira Coutinho num tom que adivinhamos de desprezo pelos que pulavam de contentes com a má sorte de Hitchens – da doença, percorreu por um certo mundo crente o frémito de que a doença era um castigo de Deus a um ateu militante e, atendendo à localização do tumor, vociferante. Essa foi a primeira versão do regozijo fanático. Mas houve outra, em variação mefistofélica: o cancro era um teste último para que o mais famoso ateu do planeta renunciasse às suas ‘blasfémias’ e abraçasse uma qualquer espécie de fé ‘terminal’… Em relação aos segundos, Hitchens prefere evocar Voltaire, que na hora da morte foi convidado a renunciar ao diabo. Resposta do francês: ‘Este não é o momento para fazer novos inimigos’”.

Nunca li o ensaio sob o título de Conservadorismo, de João Pereira Coutinho, doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais e Professor na Universidade Católica Portuguesa. Vinte e sete anos de Califórnia, quase todos eles vividos em Orange County, onde fica a minha alma mater, mas também a biblioteca-museu de Richard Nixon, vacinaram-me contra certas tentações sócio-políticas. É certo que tudo isso foi antes de um Donald Trump numa margem da sociedade e de Bernie Sanders na outra. Dessa pregação ouvi mais do que queria e necessitava. É-me difícil imaginar um “conservador” português à maneira anglo-saxónica, ao contrário de um homem ou mulher de “direita”. Sei que existem essas poucas excepções, e o autor de Avenida Paulista e Vamos ao que interessa relembra-nos que no nosso jornalismo também é possível a civilidade, o reconhecimento do outro, a abertura ao diálogo sem nunca se trivializar a pessoa com quem não mantemos afinidades ideológicas ou políticas.

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João Pereira Coutinho, Vamos ao que interessa, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 10 de Junho de 2016.

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2 thoughts on “O conservadorismo rebelde de um escritor

  1. Ana Junho 12, 2016 / 4:53 pm

    Muito bom !

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