A pequena burguesia, entre o nada e a morte

Um Postal de Detroit

 

Qual é o espanto? Ensinas aos teus alunos a grande literatura, os doidos varridos da grande literatura, e ficas espantada quando te digo que preferi andar a pé a comparecer a uma audiência no tribunal?

João Ricardo Pedro, Um Postal De Detroit

Vamberto Freitas

A nebulosidade linguística e temática numa peça literária de qualquer género será talvez a característica quase inescapável do Modernismo a partir das obras de James Joyce nas primeiras duas décadas do século passado. Do mesmo modo, a metaficção nunca mais deixou de fascinar uma boa parte dos escritores desde então até aos nossos dias, o símbolo ou a metáfora alusiva a textos do nosso ou de outros tempo um jogo a maior das vezes obscuro, que nem sempre servirá o que mais espera um leitor no virar de páginas em busca da interpretação pessoal de significados na forma e conteúdo, ou do puro prazer do texto, algo indefinido mas que cada um desfruta segundo os mais variados critérios num acto de leitura. Creio que esta é uma recente tendência na nossa ficção, ou pelos menos cada vez mais comum na nossa melhor escrita desde os anos 80, quando toda uma nova geração surgia com força. Li a entrevista que João Ricardo Pedro concedeu ao Público aquando da recente publicação deste seu segundo romance, Um Postal De Detroit, e surpreendeu-me o seu fascínio com ligações indefinidas ou envoltas em certo mistério entre personagens, coincidências de tempos e acontecimentos na narrativa, a serenidade e a vida aparentemente convencional de uns escondendo a sua própria loucura quotidiana, possíveis transgressões que contrariam em absoluto a moral dominante na sociedade, a sua interação com os supostos “marginais” ou figuras condenadas. Por certo que a literatura é feita desse jogo de espelhos e sombras em que as nossas identidades contraditórias são reflectidas, ou mesmo forjadas, a autenticidade do nosso ser diluída em obsessões ou coabitando em subterrâneos reais e imaginários. O autor disse ainda que durante a escrita deste seu segundo romance lia alguns autores americanos, entre os quais Ernest Hemingway e Raymond Carver. Dos dois prosadores aqui mencionados, poderá o autor ter sido relembrado da clareza da frase e da ausência de adjetivação supérflua, e ainda dos seus diálogos incompletos e envoltos na indefinição ou obscuras insinuações dos seus personagens, assim como a realidade da vida privada em nada consonante com as máscaras públicas das nossas sociedades. Mais do que uma vez, o narrador na primeira pessoa de Um Postal De Detroit, de nome João, nomeia todos os objectos que da sua irmã Marta encontrou, a personagem principal e ausente desde a abertura ao fecho do romance, inclusive as leituras que ela fazia e que ele encontra entre as coisas deixadas da sua intimidade – poesia de Álvaro de Campos e A Casa do Incesto, de Anais Nin, entre os mais notáveis, a alteridade que é o fundo ou a génese natural de toda a literatura, a transgressão e proibição de que é feita toda a arte. Aliás, o chamamento a outras obras e autores é quase constante, levando o leitor simultaneamente a desviar e a aproximar a sua atenção no processo de juntar o mosaico de formas variadas em que se torna a sua trama. Será já no fim da narrativa que percebemos, ou pensamos perceber, o próprio título deste romance. Se a ambiguidade de linguagens é outro postulado da grande literatura, como queriam os new critics antes do pós-modernismo subverter – ou alargar – toda a teoria literária, Um Postal De Detroit será um dos grandes exemplos na literatura portuguesa dos nossos dias.

Que nos diz Um Postal De Detroit? Quando falo de “nebulosidade de linguagem” de modo algum quero insinuar que este romance é outra coisa senão uma brilhante e viva interpelação do próprio acto literário, da imaginação como recurso primeiro na criação de uma estória, em que nenhum personagem, nem sequer o narrador, saberá por certo o que se passou. O narrador parte de um incidente bem conhecido do país português, que foi a colisão brutal de dois comboios em Alcafache, em 1985, matando 49 passageiros e fazendo “desaparecer”, por incerteza de identificação de outros corpos, mais de 64 passageiros. É a partir daqui que o autor inventa a Marta, filha de uma mãe professora e de um pai advogado, de nome Francisco, irmã de João que está obcecado pelo seu desaparecimento definitivo, e que havia passado uma vida em conflito e na tentativa freudiana de se aproximar afectivamente dessa irmã formada em belas artes, de sexualidade indefinida, e cujos únicos rastos que deixa são os seus cadernos de desenhos à Frida Khalo, que poderão ou não representar outras personagens, conhecidas dela e da sua família. Marta tinha ido passar uns dias perto de Grândola com a sua amiga Sofia, que se suicida nessa casa alentejana de férias no mesmo dia em que Marta entra no comboio rumo à morte, ou à sobrevivência que resulta na decisão radical de enterrar a sua própria identidade, reinventando uma existência desconhecida de todos. Toda a narrativa e a sua lógica ou o seu mistério levam à tentativa de João reconstruir os seus últimos passos, e o que a poderia ter levado aos escombros de um comboio e da sua própria pessoa. A vida de uma certa classe social que nos parece demasiado conhecida, ou que imaginamos conhecer, está marcada quotidianamente pelo segredo, pelo fingimento, e pela perversão de todos os valores apregoados pela nossa sociedade. Se um dos tabus maiores, bíblicos, é a sexualidade incestuosa, se ainda a hipocrisia social, hoje quase cómica e inconsequente, numa sociedade que se quer ou se auto-considera aberta, condena toda a sexualidade-outra entre homens e mulheres, o romance de João Ricardo Pedro é uma pequena jóia de prosa escorreita e vivíssima na construção de imaginários e fantasias, as surpresas sucedendo-se ante os olhares e conjeturas de cada personagem embrenhado, direta ou indiretamente, na tentativa de João desvendar o que terá levado à morte de Sofia, e sobretudo ao desaparecimento de sua irmã. Bem sei que este é o segundo romance do autor, mas é um magnífico instante da sua capacidade de dar ao leitor personagens que, sendo necessariamente meros produtos da imaginação, nos parecem seres de carne e osso, que conhecemos intimamente, ou então que conhecemos bem mas queremos ao longe. O outro aqui é-nos demasiado próximo nos seus relacionamentos familiares, a todos os níveis hierárquicos portas adentro, nem sangue nem convivência diária permitem a entrada no ser íntimo dos que nos são próximos em tudo, menos nos segredos que carregam em si.

O pássaro voou – diz João enquanto a empregada da família tenta repor as coisas no seu lugar, o quarto da irmã evocando todo um passado desfeito ou perdido no mistério – pelo corredor. A Silvana entrou no quarto da Marta, eu travei a fundo, apoiando as mãos na ombreira da porta, espreitando ora lá para dentro, ora para o fundo do corredor, dividido entre a necessidade de apanhar o pássaro e o medo de que a Marta pudesse aparecer a todo o momento e zangar-se comigo por estar a mexer nas suas coisas, a vasculhar nas suas coisas, a meter o nariz onde não era chamado. O pássaro pousou no estirador, no candeeiro, no cavalete. Meteu-se atrás do livro do Caravaggio, do livro do Cézanne, do livro do Hopper, do livro do Munch, do livro do Schiele, do livro do Bosch. Afiou o bico na fiada de cassetes de música. Derrubou com as asas a fotografia da Marta numa praça de Barcelona. A Silvana, ao tentar apanhá-lo, derrubou a fotografia em que Marta aparece abraçada a uma amiga na Praia da Zambujeira do Mar…”

Eis a clareza de um cenário descrito com precisão, a mostra completa de uma personagem e os seus mundos aparentes, o que a movia e comovia, sem entretanto nada esclarecer sobre quem é ou foi a Marta agora desaparecida. Por certo que a história de duas famílias “de bem” está a ser (re)construída trinta anos depois dos acontecimentos decisivos que culminaram com o inesquecível acidente, e a morte sem explicação de duas mulheres que teriam o mundo todo a seus pés. João Ricardo Pedro, que recebeu o Prémio LeYa pelo seu primeiro romance, O Teu Rosto Será O Último, em 2011, e que o veria traduzido e elogiado em várias línguas, como que presta homenagem nestas páginas não só à literatura, uma vez mais, como um acto de pura imaginação, a todas as artes, às infindáveis representações da nossa humanidade nas mais distantes e próximas épocas, tal como evoca variadas referências que fazem parte indissociável de uma narrativa que tem uma mulher-artista, ainda incompleta mas já obcecada com as imagens reinventadas nas folhas de desenhos e pinturas. Por vezes o seu irmão e narrador parece um Benjy faulkneriano adulto, absoluta e mentalmente perturbado, a relatar o que pensa ter visto e ouvido no seu passado, sem conseguir ligar nada e ninguém a um evento tão decisivo na sua vida. Cabe ao leitor juntar as peças, cabe só ao leitor toda e qualquer dedução, sem nunca poder chegar a uma única certeza, tal como todos os seres inventados nesta ficção. O postal enviado de Detroit por Francisco à sua filha em Portugal poderá conter insinuações, mas isso pouco importa. O que sobressai destas páginas é uma viagem pelas linguagens do afecto e do ódio, pela incompletude de cada momento vivido, sinais do ser e estar de cada um, mas nunca definindo ou desvendando os seus segredos de alma. Poderá ser também, permitam-me insistir, que todo este som e fúria nada significa – ou então significa que somos isto, e só isto.

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João Ricardo Pedro, Um Postal De Detroit, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 17 de Junho, 2016.

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