Edmund Wilson no Canadá, ou a literatura como acto de resistência

Capa O Canada

Por detrás da resistência francófona ao Canadá de língua inglesa, tal como a resistência deste mesmo Canadá à absorção pelos Estados Unidos [1965], está um instinto de auto-preservação contra as investidas e invasão de um poder centralizado que provoca rebeliões no mundo inteiro.

Edmund Wilson, O Canada

Vamberto Freitas

De Haiti ao Canadá, por mais distante que pareça este peculiar interesse por duas geografias histórica e culturalmente distantes aos olhos de um europeu, não constituiu para Edmund Wilson um tão radical salto, tendo resultado na publicação (1965) dos seus ensaios sobre a literatura do país vizinho, O Canada: An American’s Notes On Canadian Culture. Wilson revisitaria o Canadá a princípio dos anos 60 por muitas razões, mas essencialmente terá a ver com a necessidade que ele sentia em conhecer a vida erudita de tão íntimo e ao mesmo tempo distante vizinho. Na rede de amizades e influências que Wilson mantinha através de correspondência, viagens e locais de vivência e trabalho, tudo e todos se encontravam numa ambiência de cosmopolitismo pouco comum a um escritor norte-americano vivendo dentro do seu próprio país. Interliga, como nenhum outro crítico ou jornalista literário, os aparentemente mais díspares autores e temáticas, com a facilidade de um poliglota, e de quem desde a infância tinha viajado e conhecido toda a gente nas esferas eruditas da Europa e do seu continente natal. Wilson perpetua na sua vida literária, até ao fim, o papel de “consciência intelectual” do seu tempo e contra os poderes que constantemente marginalizam e oprimem a vida criativa nas mais distantes e diversas sociedades. Se entre as comunidades nativo-americanas (e não só) Wilson possivelmente veria “tribos” sob constante e fatal ameaça de inimigos implacáveis e cujos valores nada tinham a ver com os do grupo de geografias cercadas, entre o Haiti e o Canadá, por exemplo, Wilson via também principalmente duas comunidades linguísticas ligadas a um mundo cultural que ele sempre apreciara desde o início da sua carreira (o mundo de língua francesa), e ambas em luta pela sua sobrevivência e o reconhecimento por parte do outro, esse que em todas as culturas tende a pedir para si a essencial “legitimação”. Logo após o seu regresso aos Estados Unidos depois da sua estada no Canadá, Wilson escreve ao seu amigo haitiano Phillipe Thoby-Marcelin, dando-lhe conta do que estava a fazer e especialmente do que o levara em visita de estudo ao país-irmão. Muitos dos próprios intelectuais e certos políticos canadianos francófonos, na luta nacional e internacional pelo reconhecimento cultural e na sua luta pela autonomia ou independência política do restante Canadá, comparavam-se com os “reis negros” de África, e como estes eram tratados e instrumentalizados pelos britânicos na defesa dos interesses exclusivos do império. Creio que Wilson regressa ao Canadá desta vez também profundamente influenciado pelo que já tinha visto e escrito no Haiti, perfeitamente consciente de que o Canadá francófono teria de ser revisto na perspectiva que viríamos a chamar pós-colonialista, e que ele descrevia como constituindo a luta contra os poderes metropolitanos centralizadores.

É essencialmente esta capacidade de se identificar directamente com as minorias étnicas e nacionais, esta sensibilidade cultural que o leva à necessária empatia com os grupos que vai estudando e faz antecipar e a valorizar o que todos viríamos mais tarde a denominar de “multicultralismo”. Para Wilson, o mosaico seria metaforicamente a referência anti-centralizadora e democrática da integração ou convivência dos diferentes grupos humanos na mesma sociedade. Tudo isto foi por Wilson claramente entendido e implicava, muito antes da reformulação de políticas que estabelecem o direito à diferença étnico-cultural, a rejeição desse que foi e é o melting pot, um dos mais sagrados preceitos no que respeita à “união” cimentada da nação norte-americana, desde a fundação até à modernidade. Os Estados Unidos eram uma suposta nova “nação”, que teria sido e era continuamente criada através do esquecimento e dissipação ancestral de cada grupo que lá ia chegando, e da consequente “reinvenção” de cada um desses mesmos grupos e indivíduos. Wilson rejeitava determinantemente essa descaracterização cultural das diversas comunidades nacionais e étnicas no seu e noutros países, e achava os Estados Unidos menos interessantes como sociedade porque não se valorizava e não desfrutava do cosmopolitismo intrínseco ao multicultralismo dos que convivem e partilham pacificamente um determinado espaço. Wilson nunca insistiu nos seus vastos escritos na superioridade ou inferioridade dos grupos em convivência nas múltiplas geografias que ele tão bem conhecia, visitava ou sobre elas lia. A apreciação multicultural de Wilson partiria sempre dessa sua empatia humana e cultural, mas também do seu cosmopolitismo que vinha desde o início da sua carreira em Nova Iorque como crítico eminente do movimento literário modernista. Era, por outras palavras, o autor de Axle’s Castle a revisitar continuamente a desejada diversidade cultural para uma tentativa de síntese da experiência humana no seu tempo e lugar. Wilson foi um dos primeiros grandes críticos norte-americanos a ler expansivamente as literaturas canadianas, e leu-as sem preconceitos elitistas – como sempre, para Wilson o acto literário seria complexo, e de significações diversas, desde oferecer um retrato da humanidade no seu peculiar isolamento das terras frígidas do país vizinho a retratar os outros na sua alienação e isolamento urbano e modernista. Aliás, na secção sobre a literatura canadiana de língua inglesa, Wilson diz a determinada altura que os próprios canadianos poderiam nem se valorizar nem sequer ler-se mutuamente, ou nem tão-pouco reconhecerem a existência de uma literatura canadiana digna desse nome (por mais incrível que pareça, estamos aqui a princípios da década de 60), mas o que existia, existia e bem, na opinião do crítico visitante, já bem informado através de leituras exaustivas. Wilson é, também aqui, um dois primeiros críticos e homem de letras a reconhecer o que despontava artisticamente no país vizinho, e que tanto era ignorado pelos outros como pelos próprios canadianos, não rara vezes pelos que estavam directamente envolvidos, os escritores das duas línguas canadianas. Tal era aparentemente o grau de descrença na possibilidade nacional e internacional de uma literatura canadiana, que, diz Wilson algo perplexo, os escritores de língua inglesa não se liam uns aos outros, sendo o objectivo de cada um em qualquer das duas comunidades a publicação “prestigiada” em Paris ou em Nova Iorque. Como exemplo mais claro deste fenómeno na literatura canadiana de então, temos o caso do romancista John Buell, que disse a Wilson considerar serem franceses alguns dos seus romances (The Pyx, por exemplo, e como apontou o próprio autor a Wilson), e publicava em tradução na capital francesa e em Nova Iorque no original. Wilson, repita-se, recebia constantemente nessa época livros canadianos e indicações-outras provindas dessa sua sempre larga rede de contactos nos dois lados da fronteira. Tinha, como mais ninguém, conhecimento directo das obras e de nomes que só hoje são bem conhecidos, pelo menos na América do Norte, como, só para nomear uns poucos, Morley Callaghan, Marie-Claire Blais, E. J. Pratt, Mavis Gallant e André Laugevine . Creio que não será tão descabido aqui, como poderá parecer à primeira vista, afirmar que Wilson foi possivelmente uma das vozes mais importantes no lançamento dos escritores canadianos nos Estados Unidos, e muito provavelmente foi também uma voz que “impulsionou” radicalmente e ofereceu segurança a alguns desses mesmos escritores do país vizinho, que pela primeira vez nas suas carreiras e esforços viam os seus trabalhos reconhecidos nas mais prestigiadas páginas do jornalismo cultural e literário nova-iorquino.

Wilson lembra e relembra sempre em várias passos que é a favor desta convivência étnica, que caracteriza o Canadá acima de tudo. Anos mais tarde, essa realidade do mosaico societal canadiano seria oficializada por uma política aberta e de defesa do multiculturalismo do país, fazendo hoje do Canadá uma das sociedades mais abertas do mundo. Do mesmo modo, esse multiculturalismo que Wilson então chamava simplesmente a “heterogeneidade” étnica, marcaria do mesmo modo todo o discurso teórico “pós-colonial” nas universidades dos Estados Unidos a partir dos anos 80, perdurando até aos nossos dias. Significativo, neste sentido, será por certo a admiração que Edward Said, um dos mais proeminentes teóricos pós-colonialistas, manifestava por Edmund Wilson em alguns dos seus escritos. Wilson, por outro lado, toma nota do que alguém no Canadá lhe diz acerca dessa realidade multicultural, que ele tanto valoriza e apoia: essa diferenciação poderia também permitir hipocritamente a “exclusão” ou “afastamento” do poder político comunitário ou nacional de alguns desses grupos possivelmente fechados entre si. É, no entanto, insista-se, o mosaico canadiano que Wilson prefere ao melting pot do seu país. Wilson parece totalmente conciliado com a ausência de definições ou certezas absolutas acerca do que constitui ou não uma “nação” ou “nacionalidade”, vendo nessa indeterminação canadiana virtudes e liberdades, que só o multiculturalismo politicamente estabelecido e a retórica académica norte-americana viriam mais tarde a reconhecer.

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Edmund Wilson, O Canada: An American’s Notes On Canadian Culture, New York, Farrar, Strauss And Giroux, 1965. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade. Este escrito foi tirado e revisto de um longo ensaio inédito sobre a obra crítica e ensaística de Edmund Wilson. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 22 de Julho, 2016.

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Antonio Tabucchi e os Açores

capa Mulher de Porto Pim

Montes de fogo, vento e solidão. Assim descrevia os Açores, no século XVI, um dos primeiros navegantes portugueses que ali desembarcaram.

Antonio Tabucchi, Mulher de Porto Pim

Vamberto Freitas

Acaba de sair uma nova e muito bem trabalhada edição de Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabuccchi, originalmente publicado em Itália em 1983. Entre nós, ficou como um conjunto de textos nada desconexos, nem sequer numa primeira leitura, por mais apressada que seja. Tenho ouvido, ultimamente, algumas opiniões menos favoráveis entre alguns escritores açorianos, sem nunca me especificarem o que é que falha numa ou noutra destas curtas narrativas, que resultaram obviamente de uma visita do autor ao nosso arquipélago nos anos cruciais à democratização do nosso país, e em que o autor residiu intermitentemente mais de quarenta anos até ao seu falecimento em 2012. Boa parte da sua obra reflecte essa íntima experiência lusa, com profundas ressonâncias pessoanas constantes, incluindo Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa: Um Delírio, e ainda os romances policiais ou histórico-políticos Afirma Pereira (tornado filme, com Marcello Mastroianni no papel do protagonista) e, um pouco mais tarde, A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. O que mais o distingue, para nós açorianos, não é ter sido o único escritor estrangeiro, ou mesmo aportuguesado, dado a sua vida dedicada também ao ensino da nossa língua e literatura em universidades italianas, que tomou os Açores como tema. Será, no entanto, precisamente essa disponibilidade que um dia o trouxe ao arquipélago para melhor nos conhecer, e que resultaria nesse seu pequeno livro que mereceu largos comentários e apreciações diversas, inclusive de Enrique Vila-Matas, o escritor catalão de fama mundial, que também dedicaria belas páginas às nossas ilhas. Li-o de novo com o mesmo fascínio de há anos, tendo dado conta das minhas reacções de então num mini-ensaio de 1994, e que faz parte do meu Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas. Não queria ocupar muito espaço aqui com essas palavras, mas devo lembrar que a minha admiração pela sua narrativa atlântica permanece, esse primeiro aconchego textual em nada diminuído ou revisto. Dizia então que até um documento burocrático, neste instante um muito antigo regulamento da baleação em Portugal, ao ser citado numa destas narrativas intitulada “Alto Mar”, sem se tocar numa palavra ou vírgula, virava, com a passagem do próprio tempo e um poder simbólico que por certo estava longe da intencionalidade e ainda mais da imaginação de um fazedor de leis e proibições, arte e metáfora da sobrevivência de um povo, talvez mais acentuadamente do que qualquer objecto da faina pendurado nas paredes de um museu. “Transforma-se – aventurava eu nesse escrito inicial – numa viva passagem literária, plena de significantes históricos e sociais. A luta humana pela sobrevivência, e em que esse imperativo e o meio total circundante se conjugam numa perfeição quase divina.” É certo que nessas mesmas páginas eu relembrava que a literatura açoriana, a partir do início do século passado, se tinha encarregado de criar as imagens e metáforas intemporais da história e vivência nas ilhas, raramente, mesmo assim, sem que a sua prosa, poesia e dramaturgia ultrapassassem o mar que nos separa do restante país. Só que também esta situação vem mudando vagarosamente, o cânone literário nacional muito mais rico do que era ainda há algumas décadas atrás. Concomitantemente com mais esta reedição do livro de Tabucchi, a mesma casa lisboeta, a D. Quixote/LeYa, acaba de reeditar Açores: O Segredo das Ilhas/Narrativas de Viagem, de João de Melo, demonstrando assim, creio, a sua sensibilidade perante as ilhas e a nossa crescente presença no imaginário nacional, e até euro-americano.

Mulher de Porto Pim é mais do que uma mera curiosidade da literatura de viagens referente aos Açores. Lê-lo em sequência e suspendendo no percurso dessas páginas as nossas próprias experiências de vida, ideias e noções históricas, que, de qualquer modo, são sempre e necessariamente provisórias, acompanhamos o autor na sua narrativa, que vai de ilha em ilha, Flores, Pico, São Miguel, e muito especialmente o Faial, algures entre a realidade e a ficção. O narrador nunca se assume como protagonista no que nos conta, retraindo-se como um ouvinte atento e interessado entre os que com ele tomam um copo, conversam, inventam ou reinventam as suas histórias, ora dramáticas ora cómicas, os seus momentos lúdicos nunca separados da luta pela vida em ilhas, que eram ainda por essa altura um mistério quase absoluto, mesmo para o restante país. Antes de alguns portugueses que escreveram sobre nós ao longo dos séculos, foram quase sempre os estrangeiros, em termos afectuosos ou difamadores, que nos lembravam nas suas obras. Da civilidade de uns irmãos Joseph e Henry Bullar, em Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, e de Albert, Príncipe de Monaco, em La Carrière d’un Navigateur, (ambos mencionados por Tabucchi) à barbaridade racista de um Mark Twain em Innocents Abroad, ao poema adulto de John Updike “Azores” e à imaginação de infância num diário de um Edmund Wilson contendo impressões ou avistamentos ao longe a partir de um cruzeiro, durante séculos quase só nos “conheciam” alguns militares portugueses cá destacados por razões de soberania nacional ou castigo institucional, as suas atitudes posteriores frequentemente condicionadas pela sua sorte pessoal. Manuel Alegre disse-me há uns tempos que a sua presença inicial nestas ilhas, a que ele regressa sempre e celebra nalguma da sua poesia, foi como que um desterro punitivo. Lembro-me de o olhar perplexo ao usar essa palavra, mas depois concordámos que a nossa vivência até ao 25 de Abril de 1974 era pouco mais do que isso, o mundo longe e inacessível, fora de uma muito reduzida elite, ou quase só para os que fugiam da fome e humilhação para as Américas. Mulher de Porto Pim tem no seu centro narrativo uma dama estrangeira que arriba à Horta para um “trabalho” que então era considerado uma transgressão aceite no faz de conta que é muita da nossa vida, é uma narrativa que consegue a proeza de parecer simultaneamente uma peça jornalística de viagem e um conto com princípio, meio e fim, uma ficção que espelha toda a solidão e tragédia de que supostamente já falavam os primeiros povoadores que o autor cita em paráfrase a dada altura, o medo, a coragem, a criminalidade e fuga o tema que domina toda a nossa própria literatura da vida em ilha. A cada passo nesta prosa, as ilhas perdem o exotismo que sempre as rodeou até a tempos recentes, e tornam-se numa geografia humana, isolada, sim, mas palco de uma humanidade que vai e vem do mundo na sua incessante busca de salvação e felicidade.

E a ti italiano – diz o protagonista, de guitarra na mão, numa noite de copos, reconhecendo no autor-personagem um interlocutor fora do comum, e com um olhar sóbrio e atento que nada tinha a ver com a maioria dos que ele via habitualmente durante os seus cantos – que vens aqui todas as noites e se vê que és ávido de histórias verdadeiras para passares ao papel, ofereço-te esta história que acabaste de ouvir. Podes até pôr o nome de quem ta contou, mas não aquele pelo qual sou conhecido nesta tasca, que é um nome para turistas de passagem. Escreve que esta é a verdadeira história de Lucas Eduíno, que matou com o arpão a mulher que julgara sua, em Porto Pim”.

A narrativa “Antero de Quental: Uma vida” poderá parecer fora de todos estes contextos de Mulher de Porto Pim, mas não creio que lhe seja alheia. Afinal, é a vida trágica açoriana que mais enforma esta indefinida escrita, a vida de baleeiros, a de um baleeiro-cantor, a de uma mulher assassinada, o real e a imaginação recriando passados, situando os seus personagens numa certa contemporaneidade, a convivência da escuridão heróica desse passado com a modernidade a chegar. Se há um poeta que representa a fuga ao cerco e depois a melancolia dos dias e noites das e na ilhas – como nos relembraria muito mais tarde Roberto de Mesquita – mesmo que só nos seus últimos dias de vida, Antero é provavelmente essa figura. O que Tabucchi faz com a reconstrução da sua vida de sonhos e desespero é retirar-lhe aquela imagem de santidade que outros empastaram à sua biografia desde o In Memoriam. Ainda hoje quase temos de falar no poeta como se tudo o que ele escreveu, disse ou viveu está fora da esfera de uma vida comum e atribulada, como é para a esmagadora maioria dos homens e das mulheres. Ler as suas cartas é um consolo meu – dos sonetos ao pensamento que lhe restava, a sua interpretação da história, da política, e até as suas descrições e análises de certas ilhas nossas e o seu enquadramento no mosaico nacional do seu tempo e conjuntura mundial ainda nos falam directamente. “Quando chegou à idade dos estudos universitários partiu para Coimbra, como exigia a tradição familiar, e anunciou que tinha chegado o momento de abandonar o estudo das leis cósmicas e de se dedicar às dos homens”. Um grande poeta não vem do céu, vem da sua gente e das suas circunstâncias.

Num momento em que os Açores estão, parece, na moda euro-americana, ler este Mulher de Porto Pim seria um bom começo para o resto da viagem. Para quem, entre nós, nunca o leu, a ideia é a mesma – ver como os outros nos vêem, e como vemos os outros.

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Antonio Tabucchi, Mulher de Porto Pim e outras histórias (tradução de Maria Emília Marques Mano), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 15 de Julho, 2016.

Os Açores a cada olhar

Açores O Segredo das Ilhas

Havia nessa forma peculiar de ver a geografia que então me cercava, não uma ilusão de óptica nem um modo inocente de imaginar o mundo; talvez uma presciência poética que parecia anunciar-me um “sentimento” ou um “desejo” de literatura.

João de Melo, Açores: O Segredo das Ilhas

Vamberto Freitas

Suponho que acontece a todos nós – nem sempre um livro nos chega num momento ideal para uma merecida leitura atenta. Foi o que me aconteceu quando este Açores: O Segredo das Ilhas, de João de Melo, foi originalmente publicado em 2000, em formato de um belíssimo álbum ilustrado com fotos e quadros de diferentes proveniências e autores. Olho-o hoje, depois desta leitura atenta numa edição também especial mas agora manuseável e como que dirigida ao eventual visitante literato que nela até encontra espaço para as suas próprias notas, e dou-me conta do que então tinha perdido, e que espero não tenha acontecido a outros para quem as ilhas atlânticas são objecto de curiosidade, e ainda mais de afectos de vária natureza. Não o leio nem ao longe nem de longe – este é um texto demasiado íntimo, como imagino será para muitos outros leitores numa primeira ou demais leituras, e tanto para quem está directamente ligado ao arquipélago, para quem o vive quotidianamente numa das suas nove ilhas, como para os que residem noutras geografias, ou ainda para quem dele sabe, mas só agora o vai conhecer, começando por estas páginas. Creio que foi Jorge de Sena que escreveu um dia que uma foto lunar, ou coisa que se lhe pareça, não lhe interessava muito, só a paisagem que tinha sinal da passagem da humanidade por ela lhe despertava a curiosidade. Mantenho, mais ou menos, essa relação com o meu meio ilhéu, ou o de outras partes. Quando um desses espaços é descrito, sentido e vivido por um escritor cujas palavras se tornam sucessivas metáforas do seu próprio estado interior ou da vivência dos que se encontram e vivem nesses redutos entre serras e cerrados, no fundo de crateras vulcânicas, algumas delas fumegantes e com voz própria, quando se olha para uma natureza que a história recorda no seu estado virgem e depois trabalhada palmo a palmo, contra todas as probabilidades de falhanço, pelos homens e mulheres que nela desembarcaram há alguns séculos atrás na primeira experiência medieval e renascentista da Europa, com o mandato único de fornecer serviços às primeiras naus que atravessavam todos os oceanos, só se poderá ter um olhar empático, ao mesmo tempo sereno e espantado perante as cores da terra e do céu, do seu mar e a distância sempre ao pé de casa, o horizonte ali no lado de fora das nossas portas. A verdade é que a escrita de João de Melo é um poema à memória de umas ilhas que são um paraíso e paradoxalmente algo menos do que um jardim real, a sua prosa capta a beleza de montes e planícies, repita-se, trabalhadas pelos seus habitantes, a convivência no meio de árvores, flores e cores endémicas ou vindas de longe, uma síntese da vida debaixo de um céu frequentemente cinzento e de um verde-azul virado também para um mar desafiante nos seus dias de chumbo e de velada ameaça. Não leio nem poderia ler este belo livro de João de Melo pelos retratos quase perfeitos em que se tornam cada frase ou parágrafo, e que eu no meu dia a dia quase ignoro ou inconscientemente faço que não vejo, como passar de carro praticamente à beira-água olhando só para dentro, para as formas das casas no outro lado. Leio-o, sim, pela beleza poética com que o escritor confessa, passo a passo, o que lhe desperta na alma cada visão deste xadrez que é a Natureza nos Açores, quase toda ela intervencionada, mas por quem a ama e tem a perfeita noção da sua estética e ética, a mão dos deuses e dos homens estendida em nome da sobrevivência e imperativo comunitário. Este é o livro, creio, que o autor teria de escrever após as obras ficcionais que o precedeu, muito particularmente O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. É como levar os personagens dos dois romances de uma pequena freguesia em São Miguel para o resto da sua terra atlântica, mostrando-lhe que não estavam, nunca estiveram, sozinhos na sua sorte histórica, no seu drama existencial.

João de Melo escreve sobre a sua terra estendida a meio-atlântico como quem dela nunca saiu, mas conhece muito mais mundo e mundividências. Não é um regresso, é um diálogo consigo próprio, e acredito ainda que a cada instante desta sua viagem aos Açores no verão de 1997 ele nunca esqueceu outros dois grandes escritores portugueses que fizeram das ilhas algumas da suas mais enigmáticas e poéticas paginas – Raul Brandão em As Ilhas Desconhecidas, escrito a meados dos anos 20, e por certo Vitorino Nemésio em praticamente toda a sua obra, com relevo naturalmente para o clássico Mau Tempo no Canal. Por certo que esta narrativa é de imediato reconhecida por ter sido escrita pelo autor da ficção que referi anteriormente, toda a fauna e flora carregada de simbolismo ou subtilmente transformada em metáfora, uma vez mais, dos que habitam os pedaços de terra situados precisamente entre dois grande continentes, entre a velha Europa das suas remotas origens e o Novo Mundo, que desde sempre lhe serviu de imaginário futurista. João de Melo relembra sempre o que na sua infância havia sido a terra e o mar dos seus mistérios, o mar açoriano já então branco na sua fúria abraçadora das pedras negras em cada rocha ou fajã, relembra ele nestas páginas o que Raul Brandão nos tinha dito no livro que despertou em Nemésio a sua vontade de melhor se perceber, e que está definitivamente por detrás da sua escrita posterior – a ilha em frente é o mundo que completa, que assegura a cada um que a avista que não está só, que pertence a algo maior do que a casca em que nasceu e faz desenrolar o drama da sua vida, o navio passando ao longe tornado metonímia de todas as possibilidades de fuga e vida-outra, como na poesia de Pedro da Silveira. Quando o autor nos reafirma que muito do que vê em sua volta lhe desperta “um sentimento ou um desejo de literatura”, não só recordamos ou (re)imaginamos a sua grande obra, incluindo alguma poesia e ensaísmo, toda a sua escrita antes desta viagem como, para os que conhecem o melhor da literatura açoriana, voltamos a compreender a força destas raízes, desta natureza que levaria Roberto de Mesquita a reinventar toda uma poética simbolista da condição humana na versão atlântica, que ele viveu ou sofreu conscientemente uma vida inteira. No fundo de cada cratera habitada poderão residir as “almas cativas”, mas sem nunca se amordaçarem pela ameaça ou pela estreiteza dos seus trilhos, os seus escritores sendo como que artistas compulsivos ante a tela que lhes foi entregue já colorida, faltando só a presença e a visão humana que a completa e lhe dá sentido. A prosa de João de Melo, aqui como quase toda a sua obra, combina a magia e a poesia em busca dos significados da sua própria história natal, o fatalismo de um povo ao mesmo tempo profundamente enraizado e irrequieto, a força da terra, das suas pequenas cidades e freguesias rurais, em luta permanente com a vontade de partidas e regressos, a vida em ilha no seu estado puro.

É alias nas cidades açorianas – escreve num capítulo intitulado “O Arco das Ilhas”, que encerra esta sua comovida narrativa – que pulsa o coração de cada ilha. Não se pode separá-los. Nos Açores, as razões do coração são em parte a medida e a explicação de cada ilha. Com as cidades, é mais ou menos a mesma coisa. Cada açoriano traz consigo a paixão da sua cidade favorita. Na Horta, deleita-nos o modo como a cidade se distende, parecendo dispersar-se ao longo da sua dupla enseada. A vida que nela se concentra chega ali vinda de dentro e de fora da ilha. Vem do cabo do mundo, nos veleiros que aportam à sua marina. Vai de volta pelos caminhos sonhados do horizonte. Na cidade de Ponta Delgada, o arquitecto previu tudo: a doca e a marina para os navios do mundo… Angra do Heroísmo, a mais bela cidade dos Açores, tem perfil e traça renascentista: ruas direitas, fachadas corridas por varandas de ferro forjado, solares e palácios, igrejas barrocas, e uma perfeita ligação com o mar”.

Cada outro recanto das ilhas fica para os olhos de cada cidadão ou visitante, a mudança de cores e humores climatéricos tão inconstantes como a fúria dos deuses. Alguém disse-me um dia que era quase impossível um pintor de fora conseguir retratar na sua tela as cores e as formas do campo e do mar açorianos. Enquanto aplica umas pinceladas, tudo em sua volta já terá mudado no olhar seguinte. Poderá ser assim, mas os escritores da terra, residentes ou ao longe, nunca hesitaram em tentar captar as geografias dos seus mais indeléveis afectos e memórias. Se há um lugar lusitano em que a saudade dos navegantes permanece viva, é nas suas ilhas. Sai-se delas, sim, mas nunca mais deixamos de ser habitados pela memória da terra-mãe, o “desterro” perpétuo do povo que as ocupou e para sempre lhes trouxe vida e história. Açores: O Segredo das Ilhas funciona tanto como uma representação para os que conhecem, vivem ou por outros laços estão irremediavelmente ligados às ilhas, como é ainda mais um maravilhoso e muito bem formado e informado acompanhante para qualquer visitante que cá vem uma única vez, ou retorna temporariamente. Juntamente com outros livros, alguns deles já aqui mencionados, a terra açoriana tem sido sempre espelhada em todos os géneros de literatura, como poucas outras de igual dimensão no mundo. Pensando bem, a sua geografia é demasiado central, está na rota da História, e possivelmente do futuro – mesmo que poucos no restante país tenham a perfeita consciência desse feliz destino.

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João de Melo, O Segredo das Ilhas/Narrativa de Viagem (1ª edição em formato trade), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 08 de Julho de 2016.

Sátira, Angústia e Exílio na Ficção de José Martins Garcia

EscritorJosé Martins Garcia

Entrevista de Vamberto Freitas

Quando voltei a folhear e a reler determinadas passagens de Contrabando Original, de José Martins Garcia, em preparação para esta entrevista, verifiquei que na primeira leitura havia exagerado um velho hábito – sublinhei com certo fervor e comentei, nas margens, por entre linhas, em qualquer espaço em branco que foi restando naquele livro, inúmeras palavras, frases e ideias que alicerçam o distinto mundo ficcional do autor. E quando faço isso a um romance, o género mais sagrado da minha estante, é porque, claro, o entusiasmo pelo que ia lendo se sobrepôs irremediavelmente à minha habitual e também muito enraizada atitude de não profanar, nem com palavras boas nem com palavras más, os templos dos outros.

Reproduzo aqui, no entanto, um dos primeiros comentários que impulsivamente escrevi, mas que, neste caso, creio sintetizar a condição humana fundamental nestes e noutros romances do mesmo autor: “O narrador emigra de vários modos e a tempos diferentes: interiormente, desde que se conhece, não se sente parte daquele seu mundo, nem sequer daquela sua família mais imediata. A sua precoce passagem de um lugar para outro dentro da ilha, ou, mais tarde, de continente para continente é sempre um marco significativo de crescimento, mas o seu incessante deambular nunca deixa de ser um dos mais dolorosos exílios literários – sempre, estar sem estar, viver sem nunca pertencer”.

Os narradores de Martins Garcia são, para mim, como que imparáveis e dos mais assustadores ciclones de palavras que tudo à sua frente levam, e pouquíssimas são as personagens que aí se livram das maléficas teias deste seu moderno mundo ficcional. “Sim, nasci numa ilha e perdi-me no mundo”, diz um deles em Contrabando Original, definindo assim o que me parece ser a temática fundamental de toda a sua obra criativa – o abandono, ou o sentimento de exílio interior na terra açoriana, e depois a labiríntica caminhada à procura de outra vida e de um lugar.

José Martins Garcia nasceu na ilha do Pico, em 1941, muito andou, mas reafirma aqui que, quanto a dados biográficos, poucas afinidades terá com a “gente” da sua criação. Diz-nos que desde sempre existiu “o divórcio entre a minha vida quotidiana e os mundos que inventei”. Em 1966 foi mobilizado para a Guiné-Bissau, e após essa fase da sua vida viveu e exerceu o professorado em universidades de Portugal Continental, França, e Estados Unidos. Regressou há poucos anos ao arquipélago natal e vive em Ponta Delgada, onde também é professor de Teoria da Literatura e Literatura Açoriana, na Universidade dos Açores. A sua obra inclui ainda alguns volumes de contos, poesia, teatro e trabalhos de cariz académico, como, entre outros, Linguagem e Criação e Vitorino Nemésio: A Obra e o Homem.

Contrabando Original serviu-nos aqui como ponto de partida para uma mais alargada abordagem da sua temática e, em minha opinião, da sua distinta voz e visão ficcionada do mundo português continental e açoriano. Os seus outros romances até à data publicados são Lugar de Massacre e a trilogia constituída por A Fome, O Medo e a Imitação da Morte.

Contrabando Original veio, para quem ainda não tivesse dado por isso, estabelecer Martins Garcia (não se ofenda com a palavra, pois utilizo-a até com certa simpatia e respeito) como o mais cínico romancista português actual. Desgosta-o esta minha observação?

José Martins Garcia – Para ser franco, digo-lhe que me desgosta. Melhor dizendo: não me parece corresponder, dum modo global, ao que deixei dito nos cinco romances que até hoje publiquei. Se me tivesse classificado como romancista satírico, ou predominantemente satírico, aí sim, eu estaria inteiramente de acordo. Bem sei que a palavra cinismo já significou uma atitude filosófica de desprezo por todos ou quase todos os valores estabelecidos… Mas, hoje em dia, cinismo associa-se (estou em crer) a algo pior que o desprezo: a uma espécie de gozo pela humilhação, ao pisar e ao repisar da vítima. É certo, por outro lado, que não há sátira sem vítima. O autor de textos satíricos escolhe um alvo. Esse alvo é tratado com antipatia, com agressividade. Esse alvo é uma vítima. Mas a atitude criadora do autor satírico não é uma atitude necessariamente cínica. Deixe-me lembrar-lhe que muitos autores de sátiras, especialmente os de sátiras sociais, até são por vezes lidos como moralistas. Não gosto, é certo, de moralistas. Cultivo, no entanto, a minha própria ética. Se acredita nesta minha última frase, bem vê que não posso encarar-me a mim como cínico… e isto na medida em que cinismo e ética são incompatíveis. Deixe-me recordar um aspecto de Lugar de Massacre: aquelas personagens loucas ou a caminho da loucura, que se movem num hospital de Bissau, não são simples “palhaços” caídos nas malhas de uma guerra sem finalidade; são seres despedaçados na própria identidade; representam uma geração sacrificada ao nada. E a função do narrador, neste caso, não é suscitar o riso, muito menos mascarar-se de cínico. A função desse narrador é essencialmente de denúncia da paranóia que foi aquela guerra colonial. Uma denúncia que se processa em vários planos, parecendo-me o plano satírico um dos mais relevantes do livro. Mas note: quem é a vitima dessa sátira? Os tais “palhaços” meio loucos?… Não; os chefes megalómanos, ou chefes (ou supostos chefes) com as cabeças cheias de fumaça imperialista.

Mas gostaria também de fazer algumas observações sobre Contrabando Original. E começo por fazer uma pergunta embaraçosa: Quem é o narrador desse romance? Por outras palavras: eu, que sou apenas o “autor empírico” do livro, a quantos narradores dei voz? Quantas vozes se acumulam nesse romance? Ser eu próprio a responder a tais perguntas significaria um poder de objectividade pretensioso, ridículo mesmo. Se admitirmos a unidade do narrador, não me parece que esse narrador se revele cínico. Não será ele um professor de Latim que declara, no fim do livro, que inventou uma família por ter ficado órfão de tenra idade?… Não será ele um diplomata enfastiado com a fachada que é obrigado a cultivar? Ou será ele um actor tornado efectivo contrabandista? Ou este contrabando é todo em sentido figurado?… Porque será o narrador um refractário à guerra colonial?…Cínico?…Talvez sim, em certas circunstâncias. Talvez não, se repararmos na sua situação de clandestino. Enfim, creio que, seja lá quem for o narrador de Contrabando Original, sátira e amargura se sobrepõem ao cinismo. Sátira e angústia… o riso perante a própria extinção.

– Sobre si escrevi um dia – antes da saída de Contrabando Original – que “a rebeldia cultural teria, por certo, os seus limites”. Creio que me enganei. O seu narrador nesse romance está totalmente liberto de quaisquer amarras sociais, culturais e políticas. Nunca tinha lido, em língua portuguesa, tamanha subversão literária, e confesso que me deliciei. Mas não haverá uma só virtude lusa dos nossos dias, e que você poderia, num dos seus possíveis momentos de “bondade” literária, referir, nem que fosse numa breve frase?

JMG – Bom! Vejo que você admite a unidade do narrador de Contrabando Original. Não disponho de argumentos que me possibilitem demonstrar matematicamente o contrário. Mas uma coisa é certa: Miguel Rafael, empregado de café, Jeremias Rodrigues talvez actor e contrabandista, outro Miguel Rafael atascado na clandestinidade lisboeta, outro Jeremias Rodrigues diplomata, a voz final de um professor de Latim – nenhum deles coincide, nem na biografia nem na concepção do mundo com um tal José Martins Garcia. Contrabando Original é um romance que impede qualquer coincidência entre o autor e o narrador. Tem a certeza de que esse narrador está “totalmente liberto” daquelas amarras que mencionou?… Olhe que eu – mas sou apenas o autor, o inventor de ficções – não estou tão seguro disso. Admitamos que o narrador se chama Miguel Rafael, rapaz pobre, sem acesso aos estudos, empregado num obscuro café duma vilória, etc., etc. Admitamos que foi ele – e não só Jeremias Rodrigues – quem partiu para outras terras. Cortou as amarras com a sua “tribo”, depois as amarras com o seu país, com o seu ser cultural… E depois? Em vez de amarras, encontrou enredos: os da feroz concorrência no mundo do cinema: os riscos de uma actividade ilegal: a periclitância de qualquer situação. Não vejo essa personagem como alguém “totalmente liberto”, mas antes como alguém profundamente dividido entre uma cultura obsoleta, estagnada, sufocante em meio cultural que o deslumbra pela novidade, pelo esplendor…talvez ilusório. Em suma: um extraterritorial a contas com seduções e decepções. Mas adiante!

A interrogação que me faz sobre a existência de “uma só virtude lusa” representa, em meu entender, um salto – sempre incómodo, sempre polémico! – entre ficção e realidade. Com efeito, quem tem de responder a essa pergunta já não é o romancista, mas o cidadão. As personagens e os narradores (que, nos meus romances, são personagens dotadas dum estatuto especial) são seres fictícios que podem veicular as mais contraditórias opiniões sobre a vida, o mundo, as pátrias, os impérios, Deus e o Diabo. Eu, enquanto cidadão, não penso que os portugueses sejam um povo inferior, cheio de defeitos – só defeitos -, enfim uma comunidade negativa. Mas eu, enquanto ficcionista, tenho enquadrado quase sempre as minhas criaturas em situações e em épocas marcadas por revoltantes injustiças, atropelos da dignidade, discriminações e abusos de vária ordem. A ficção, sendo distinta da realidade, tem profundas relações com a realidade, embora nunca chegue, obviamente, a esgotá-la. O escritor que em mim vive selecciona os aspectos do mundo. Tenho seleccionado só aspectos negativos da sociedade portuguesa? Não, estou em crer que não. Lembro-lhe que há em A Fome, por exemplo, páginas de exaltação das lutas liberais. No Lugar de Massacre há, pelo menos, um oficial das Forças Armadas que considero notável pelo seu conceito de justiça. Mesmo no Contrabando Original há um padre notável pela humildade e pela tolerância…Isto para não entrar num problema crucial em alguns dos meus romances: o da Mulher, ora demónio, ora deusa… São ângulos de observação, são “visões”…

– O 25 de Abril na sua ficção, em O Medo, por exemplo, é abordado como um acto de loucos. Nos mesmos livros, nas mesmas páginas, a antiga situação não passa de um mundo de imbecis. As desilusões do seu narrador/protagonista são totais, absolutas e contínuas. Não acha que, se mais não se pudesse dizer, só as liberdades cívicas e culturais realmente conquistadas são a maior justificação de tudo quanto a partir de 1974 aconteceu?

JMG – Como cidadão português não encontro justificação para “tudo quanto a partir de 1974 aconteceu”. Isto porque, segundo a minha ética, não existe nenhuma justificação para a condenação dum inocente.. “Razão de Estado, crime de Estado!” – cito de memória e já nem me lembro do nome do autor da fórmula. Confesso-lhe que respeito sinceramente as liberdades cívicas e culturais a que você se refere. Acontece, porém, que essas liberdades, em tempos de confusão, se transformam com extrema rapidez em alarido demagógico. Caça ao voto por todos os meios – promessas, promessas! E nos bastidores, que se passa? Alianças e deslealdades passam a chamar-se tácticas. O cidadão que julgo ser deixou, sobre estas questões, uma recolha de carácter ensaísta – Cultura, Política, Informação. O escritor satírico escreveu O Medo. Neste caso, a ficção é mais elucidativa que os textos de intervenção. Eu, modestamente, contribuí para que acontecesse o 25 de Abril de 1974. Eu, enquanto escritor, desaprovei e caricaturei os resultados. Se a minha produção ficcional combateu o regime que tornou possível o autoritarismo totalitário e a guerra colonial, não encontrei motivos para aplaudir a “nova ordem”, triunfalista e totalitária, que atingiu os píncaros da paranóia em 1975…

– Você é, parece ser, um outsider na sociedade portuguesa. Como e quando chegou a esse estado de “exílio”? Ser “inteligente” é forçosamente estar “descontente” nas sociedades modernas?

JMG – Sou esse outsider… Porquê? Nasci numa ilha grande e demograficamente rarefeita. Fui um bom ouvinte de aventuras marinheiras. Gostava tanto de ouvir um “causo” – quanto mais fabuloso, melhor! – que hoje até me parece ter abusado, em criança, da paciência dos adultos dotados de capacidade narrativa. Sonhava mais de olhos abertos do que durante o sono. Parece-me que por motivos ainda hoje apenas pressentidos, eu próprio criei o meu “exílio”. O mundo circundante não bastava… Permanecer nele seria resignar-me à monotonia. Sair dele seria (como foi) uma aventura marcada por muito sofrimento. Estar onde não prestava. Perder esse onde libertou-me das coordenadas habituais, mas tive que enfrentar um ror de riscos. De certo modo, quis fazer coincidir a vida com a imaginação. Claro que isso é impossível. O resultado, quer me acredite quer não, foi o divórcio entre a minha vida quotidiana e os mundos que eu inventei. Rigorosamente falando, não há nada de autobiográfico nos meus romances, nos meus contos, muito menos ainda na minha escassa produção teatral…Só na poesia lírica o “eu” que sinto se exprime sem invenção dum médium… Mesmo assim, quem sabe se o “fingidor” não se intromete no poema? Não posso portanto determinar nem como nem o quando desta maneira de ser. Sou um exilado, é certo. Mas sou um exilado por temperamento… com o acréscimo, claro está, das circunstâncias.

Não penso que se possa estabelecer uma relação transparente entre essa sensação de permanente “exílio” e qualquer forma ou grau de “inteligência”. A “inteligência” – como todos os nomes abstractos – possui um vasto leque de polissemia. É-se inteligente em função de quê? Do êxito dos negócios? Duma descoberta científica? Do entendimento da oportunidade de se ascender ao poder? Por se ter respondido a um apelo divino? Por se ter esculpido a Vénus de Milo? Inteligência e descontentamento?… Talvez. Mas quantos se mostram pura e simplesmente alienados, buscando um qualquer modo de evasão, drogando-se, caminhando apenas para a auto-destruição?…

– O seu mundo ficcional açoriano e continental é feito de gente, ou totalmente inconsciente ou então híper-consciente da sua posição no esquema das coisas: num caso, deparamo-nos com tristes imbecis ou vigaristas à beira da loucura; no outro, com narradores e personagens obsessivamente a espreitar e a comentar um mundo de misérias e equívocos, ora trágicos ora patéticos. A ficção – a arte – será o último e único refúgio dos seus narradores?

JMG – Como “seres de ficção”, os meus narradores encontram-se, pelo menos à primeira vista, confinados aos seus universos ficcionais. Você encontra dois grandes filões nessa “multidão”: o dos inconscientes e o dos híper-conscientes. Creio que a fronteira entre esses lotes é mais nítida no plano das personagens do que no dos narradores. Mas uma análise mais aprofundada desta questão levar-nos-ia a considerações de ordem técnica… que por vezes enfastiam as pessoas. Quando você me pergunta se os meus narradores fazem da ficção um “último e único refúgio”, eu entendo que o que está em causa é a velha questão da “função da arte”. Abordar essa questão equivale a discutir, uma vez mais, se a arte deve ser moralizadora, ou revolucionária, ou comprometida (engagée), ou arte pela arte, etc. Deixemos de lado o que há de tautológico nesta última expressão: arte pela arte. Ela foi um desafio, uma provocação. Se a minha ficção é de cunho satírico, os meus narradores situam-se em oposição a algo. Esse posicionamento já contraria, só por si, a ideia de “refúgio”. O narrador de A Fome – a voz de um tal António Cordeiro – acaba a sua narrativa com uma citação do padre Cordeiro historicamente documentado. No momento em que transcreve esse fragmento “histórico”, o narrador de A Fome sabe que lhe resta perder-se. É a dispersão, a perdição, a pulverização de um ser… e duma certa condição, neste caso um efeito da insularidade exterior e interior. Quererá isto significar que a ficção foi para esse narrador o único refúgio? Estou em crer que não. Creio que a ficção foi, neste caso, mais um caminho para a ruptura do que uma forma de escapar ao mundo. O Medo, por seu lado, acaba com um homicídio, um homicídio inevitável. O leitor que decida: esse homicídio foi justo ou injusto? Talvez o refúgio na ficção seja uma concepção derivada exclusivamente do romance Imitação da Morte. O narrador, ao usar esse título, anuncia o seu definitivo cerco, o enclausuramento que não poderá romper. Não pode quebrar os muros da “prisão” porque de facto já se sente para além de qualquer forma de vida. O narrador chama-se António Cordeiro, mas é um António Cordeiro que fechou o ciclo. Mas tenho de falar de novo do aspecto satírico da minha ficção. Esse António Cordeiro, aparentemente refugiado no seu mundo ficcional, não estará a apontar para o mundo empírico sugerindo que também não é ali o seu lugar?…

– Acha que as suas responsabilidades na Universidade dos Açores – o ter de dar aulas e até de publicar trabalhos académicos – é um incómodo à sua escrita ficcional? Tenho a impressão que você é, primeiro que tudo, um romancista e só por pura necessidade tem de fazer algo mais… Será que o escritor português está para sempre condenado a uma vida repartida?

JMG – No que respeita à coexistência do professor e do escritor na mesma pessoa, costumo declarar que me esforço por torná-la em “coexistência pacífica”. Por vezes, as coisas correm sem atritos de maior. Outras vezes, surgem dificuldades. Gosto de falar de literatura. Como a minha actividade docente se situa nesse âmbito, sinto-me contente quando reconheço ter comunicado com os alunos – com a maioria, o que é corrente. Os trabalhos “académicos” – por exemplo, a minha tese sobre Fernando pessoa, as páginas que tenho dedicado a Vitorino Nemésio ou a David Mourão-Ferreira – chegam a provocar-me um entusiasmo de “descoberta” que tem certas semelhanças com o prazer de escrever ficção ou poesia. É claro que nem tudo é um mar de rosas… O pior conflito entre o professor e o escritor surge nos momentos em que o ficcionista deseja conviver apenas com as suas personagens. Nesses momentos, o quotidiano é dificilmente suportável. Às vezes a escrita tem de ser adiada… e o escritor sente uma certa irritação.

O escritor português estará condenado para sempre e este conflito? Para sempre, não sei. Por enquanto, creio que sim. Escritor não é profissão em Portugal. Às vezes ouve-se dizer que Fulano já se tornou escritor a tempo inteiro… Não se tratará de mais um boato? Pode ser que certos “direitos de autor” chegam para custear as despesas dum escritor “célebre” durante uns meses… Mas que estabilidade será essa?… E o perigo de se ter de escrever “em série” quando não se tem outra fonte de recursos?… Em Portugal, o escritor é um excêntrico.

– Você esteve sempre muito próximo da obra de Vitorino Nemésio, e sobre ele tem escrito extensivamente. Como enquadrar o Mau Tempo no Canal na ficção portuguesa deste século em termos de qualidade e ante o velho debate Literatura Portuguesa/Literatura Açoriana?

JMG – É verdade que já escrevi muitas páginas sobre a obra de Vitorino Nemésio, boa parte delas dedicadas a Mau Tempo no Canal. Deve compreender como me é difícil sintetizar uma apreciação a um romance que, de dia para dia, me parece fornecer cada vez mais matéria para análise, reflexão e crítica. Trata-se de um romance a todos os títulos excepcional. Possui o dom de ir crescendo. Não acho, neste momento, melhores palavras para referir a sua espantosa qualidade literária. É um “monumento” da Literatura Portuguesa. É um admirável “universo” extraído da condição açoriana, da Açorianidade, se preferir. É uma obra-prima da Literatura Açoriana – o que significa uma obra-prima da Literatura Portuguesa.

– E já vamos à pergunta das perguntas: existe ou não uma Literatura Açoriana?

JMG – Ui!…Desculpe! Você não tem culpa nenhuma do cansaço que sinto quando ouço essa pergunta! Associo-lhe imediatamente uma outra pergunta: “O que é a Literatura?” Se partirmos do princípio de que ninguém confunde Mau Tempo no Canal com o elogio das cracas ou com a propaganda da tourada-à-corda, teremos dado um primeiro passo no sentido de distinguirmos o literário e o não literário. Existe uma Literatura Açoriana. Existem formas de um conteúdo que são específicas da mundividência açoriana quando tratada como arte da linguagem. Mas se entendermos, ao contrário do que fica dito, que a literatura é um instrumento ao serviço de interesses políticos, sociais, da luta de classes, de reivindicações separatistas… por aí nada feito! Não é, no entanto, a instrumentalização da Literatura Açoriana o que mais me preocupa no tocante a este problema, porque qualquer literatura pode ser instrumentalizada mediante um decreto ditatorial, uma comunicação social monolítica, etc. O que hoje me torna algo perplexo – hoje, após quatro anos de permanência dentro dos Açores – é a periclitância da Literatura Açoriana enquanto “instituição social”. Toda a produção literária açoriana está sujeita a muitas limitações dentro dos Açores. Cá dentro a que se dá por isso. O livro de autor açoriano circula mal. A recepção é deficiente. A crítica sistemática não existe. Somos apenas uns 280 mil seres. A comunicação social não dispõe de meios que divulguem a obra literária. Não há critérios de selecção. O resultado destas carências é paradoxal: a Literatura Açoriana faz-se, edita-se e consome-se principalmente fora dos Açores. Como vê, um problema bicudo!

– Para quem escreve? Quem, no seu parecer, lê ficção açoriana nos Açores?

JMG – Eu escrevo para todo e qualquer ser humano que deseje acompanhar-me num percurso de distanciamento. Escrevo para quem deseje situar-se numa atitude crítica perante todas as normas. Escrevo para quem deseje confrontar as suas concepções com as minhas. Não para me impor. Não para impor uma ideologia. Antes para sugerir que cada qual encontre um caminho pessoal, uma consciência pessoal, uma consciência diferente da que as organizações, as seitas, os dogmas nos pretendem fazer acatar.

Não disponho de estatísticas sobre a leitura de ficção açoriana nos Açores. Tenho o pressentimento – ou a intuição, se prefere – de que a sociedade açoriana, na maioria dos seus sectores, não tem predisposição para se reconhecer “ficcionada” … Muitos açorianos (dos que lêem alguma coisa) só admitem uma visão paradisíaca destas nove “maravilhas” que Deus arrancou ao Oceano… Certo?…

_ A Fome, O Medo e a Imitação da Morte constituem o que considero a “triologia do desespero”. Portugal, aí, é para os narradores-protagonistas um país quase totalmente estrangeiro. Em Contrabando Original diz-se a determinada altura que uma personagem emigrou para “leste”, isto é, para o Continente, em vez de para a América, e daí a sua desfortuna. Será mesmo que o açoriano terá muito pouco a ver com Portugal Continental?

JMG – Se o açoriano tivesse pouco a ver com Portugal Continental os narradores de A Fome, O Medo e a Imitação da Morte não se revelariam tão preocupados – você fala em “desespero” – com essa terra situada a “leste”. Na segunda parte de Contrabando Original, o capítulo 33 intitula-se “Miragens de América” e o capítulo 34 “Imagens de Portugal”. Essa sequência parece-me bem significativa do choque de dois apelos: viver no “Continente” ou emigrar para os Estados Unidos? Qual o termo mais forte: miragens ou imagens? … Creio tratar-se dum dilema tipicamente açoriano. De onde vêem os dólares, de onde é que nos contam aventuras prodigiosas? … Da América, evidentemente. Onde estão as nossas raízes? Que História nos ensinaram desde a instrução primária? A de Portugal evidentemente. Quanto ao facto de em A Fome o narrador se sentir estrangeiro em Lisboa, gostaria de lembrar-lhe que o mesmo narrador se sente estrangeiro ao desembarcar em Ponta Delgada. Além disso, este narrador perdeu o “bilhete” do regresso. Não será sempre um estrangeiro em todos os lugares? …

– Se não me engano, para si o homem moderno perdeu por completo o poder de influência sobre o seu meio ambiente. Em qualquer um dos romances acima mencionados, o protagonista, assim como quase todos os outros, apenas se limita a sofrer a sua “sorte” e a comentá-la desgostosamente…

JMG – E eu, se não me engano, avisto na sua pergunta outra pergunta subjacente. A seguinte: O escritor desistiu de transformar o mundo? Muitos escritores, suponho, responderiam que não desistiram de transformar o mundo, que continuam empenhados no aperfeiçoamento da humanidade, esperando mais justiça, mais pão, mais fraternidade. Eles estão no direito de acreditar nos seus princípios e nas suas finalidades. Pelo que me diz respeito, não acredito na eficácia imediata quando se trata de obra de arte. Não acredito que um belo romance, por exemplo, tenha efeitos benéficos, generosos, humanitários aquando da sua publicação. Se daqui a um século uma pessoa desesperada renunciar ao suicídio por ter lido uma página satírica de um dos meus livros, eu (mas como saber disso?) já sentiria ter cumprido uma missão.

– Na generalidade, a mulher, na sua ficção, está quase sempre subjugada e, por vezes alegremente submetida ao seu claustrofóbico meio ambiente. Que aconteceu às rebeldes açorianas, como a inesquecível Margarida de Mau Tempo no Canal?

JMG – Eu creio que um inventário das minhas personagens femininas, cuidadosamente analisado, não viria a corroborar, “na generalidade”, essa imagem da mulher subjugada, passiva, submetida ou submissa. As personagens femininas de A Fome, por exemplo, são quase todas razoavelmente calculistas. Uma sociedade machista oprime e humilha a mulher, é certo. Mas a mulher, embora vítima duma educação patriarcal, sabe muito bem transgredir, sabe defender-se, sabe encontrar o seu prazer. À margem do casamento. Às vezes graças ao adultério. Se uma certa camada (creio que a mais escassa) se resigna perante o despotismo do macho, a geração mais nova – e isto em pleno Estado Novo – já sabe manobrar com muita perícia no sentido de “usar” o homem, replicando assim ao “uso” de quem tem sido vítima ao longo dos tempos. O Medo, por outro lado, começa com uma transgressão e é uma mulher que toma a iniciativa desse acto “imoral”. No mesmo romance, a personagem chamada Inês é uma mulher totalmente livre e lúcida. E a Samantha de Contrabando Original?… Não lhe posso dar melhor exemplo de metamorfose duma ligação erótica num profundo amor. Apesar de que essa actriz tem de equívoco, apesar do meio permissivo em que se movimenta. Dir-me-á que essas mulheres não são açorianas. Dir-me-á que a Evelina, de O Medo, não será propriamente uma rebelde, ou que o exemplo é pouco significativo. Mas eu responderei que naquelas circunstâncias, ela representa o máximo da transgressão possível (ou verosímil). Também gostaria de dizer-lhe que Margarida Clark Dulmo, mulher revoltada no plano espiritual, acaba “domada” por André Barreto e toda uma série de interesses sociais. E isto sem desprimor para a heroína nemesiana – muito menos para o seu criador. As últimas páginas de Mau Tempo no Canal prestam-se a uma longa discussão quanto ao grau de “emancipação” de Margarida…

– A sua experiência “americana” – cinco anos na Nova Inglaterra como professor na Universidade de Brown – viria ser transfigurada em Imitação da Morte e em alguns poemas de Temporal. Quer falar mais um pouco desses seus anos nos Estados Unidos? Que mais recorda com alegria e tristeza?

JMG – Os cinco anos que passei em Providence, leccionando Literatura Portuguesa na Universidade de Brown, constituíram uma experiência tão importante que às vezes tenho a impressão de que apenas sonhei tudo isso… A primeira aula na Brown… O Centro de Estudos Luso-Brasileiros… Os rostos, os gestos…A primeira vez que vi nevar em Providence… O meu primeiro Natal em Providence… A Biblioteca da Brown, onde me sentia em casa… Os livros, as ideias, o tempo de pensar Fernando Pessoa. Depois, em Janeiro de 1984, o meu pai morreu na ilha do Pico. Vim ao Pico. Voltei por mais uns meses a Providence. Tudo tinha mudado. Para a tristeza.

– Você queixa-se, com frequência, da tendência do meio literário lisboeta de ignorar quase por completo os escritores que lá não vivem. Mas não será verdade que nos últimos anos essa situação mudou consideravelmente?

JMG – Algo terá mudado; não direi o contrário. Mas o espírito do “grupo iluminado” continua a vigorar – estou em crer. O grupo planeia, domina a casa editora, organiza a propaganda, tem os seus devotos nos órgãos de informação… Toda a gente sabe que assim é. Mais palavras para quê?

– Finalmente, é pouco usual o açoriano regressar ao arquipélago para ficar. Após tantas andanças por vários continentes, o seu regresso é definitivo, já encontrou o seu espaço vivencial?

JMG – Não encaro nenhuma situação como definitiva. Para ser mais rigoroso; não penso nisso. Não sei o que é “espaço vivencial”. Estou aqui, mas não me encontro aqui. Passeio por Lisboa, mas aquela cidade já não é Lisboa. Da última vez que passei pelo Quartier Latin reparei que faltava uma perna à estátua de Montaigne… e essa ausência altera irremediavelmente o rosto de Paris. Tenho medo de voltar a ver Providence. Só o Álvaro de Campos resiste ao desgaste: “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.

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Entrevista originalmente publicada no Diário de Notícias (Lisboa), e depois no meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, Lisboa, Edições Salamandra, 1992, e numa 2ª edição de Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada, em 2013. A foto é de Válter Tapia, fotógrafo responsável pela galeria de escritores açorianos na Livraria LeYa/SolMar, de Ponta Delgada.

A reinvenção de uma vida açoriana

A vida no Campo

 

Terei com certeza de falar da memória. Dos afectos e de uma razoável obsessão pela ideia de casa.

Joel Neto, A vida no campo

Vamberto Freitas

Não queria entrar aqui em antigas e inúteis discussões sobre literatura e geografia, ou sequer sobre literatura e identidade, mas um diário como este de Joel Neto, A vida no campo, obriga-me, pelo menos, a contextualizá-lo num mundo de escrita mais vasta do que a portuguesa, nomeadamente na sua versão açoriana. Uma das frases lapidarmente definidoras de alguns dos mais conhecidos, respeitados e duradouros escritores sulistas norte-americanos, desde há muito uma aparente influência entre nós, particularmente entre as novas gerações, é “south toward home/para o sul a caminho de casa”, que aliás serve de título a um estudo e biografia colectiva de Margaret Eby, e aparece desde há muito como uma premissa temática e demarcadora desses autores que escolheram a sua geografia natal para situar, ver e rever a condição humana tal como é observada e vivida no lado de fora da sua casa. Numa outra conhecida autobiografia, North Toward Home, intitulada, agora com alguma ironia, por outro autor sulista, que foi o famoso editor mississippiano da nova-iorquina e culta revista Harper’s, Willie Morris, fala-se no “território do coração” para separar uma geografia de mera vivência opcional ou profissional de outra geografia da terra natal, do “território” em que nascemos e crescemos, e que nos habita, irremediavelmente, para sempre. Desde prosadores como Vitorino Nemésio a João de Melo, Vasco Pereira da Costa e Joel Neto, esta tem sido uma marca seminal nas suas obras – “a viagem para dentro”, o reencontro com as origens, o confronto do passado com a reinvenção deliberada de personagens que um dia partiram em busca de vida e razão de ser, e que depois regressam também num acto consciente de resgate do seu mais profundo ser, a memória sempre desperta para o que, activamente, nos move e comove adentro do espaço único onde foi ancestralmente plantada, e ao longe cultivada, o que, ainda e sempre, chamamos de identidade, pessoal e colectiva. Não há cosmopolitismo num vácuo linguístico e cultural – só a capacidade homérica, de que os portugueses foram os primeiros, numa Europa pós-grega e romana, de dar provas da sua necessidade concreta e simbólica de encontrar e conviver com outros mundos e modos de vida. Este diário de Joel Neto, entre todos os diários escritos por açorianos, é a mais viva manifestação literária de homenagem a esse “território do coração”, e, diria, marcante para uma geração que vem depois da minha, a geração nascida e educada num Portugal mais ou mesmos livre e mais ou menos regenerado, a geração de uma época em que a distância, apesar do que o próprio escritor afirma aqui a certa altura, é já uma noção mais “teórica” do que existente ou consequente, uma nova realidade em que qualquer recanto do mundo pode ser visto ou testemunhado em tempo real, como dizem, em que o outro quase deixou de o ser, ou então seremo-lo todos nós, e em toda a parte. “O tipo de urbano em que eu me estava a transformar – escreve o autor já a encerrar o seu diário, e fazendo um balanço da vida no seu regresso à Ilha Terceira após vinte anos de Lisboa – é um exercício de estilo. E o problema é que não é mais nada além disso”. A metáfora primeira desta sua vivência na ilha redonda é o voo constante do milhafre, simbolicamente o mais açoriano de todos os pássaros: “Não há desespero na circularidade do seu voo. Ninguém que viva numa ilha ignora a força de um voo assim”. Pois não. Será também uma espécie de liberdade cercada, que não nos deixa nem nos oprime, ao contrário do que porventura pensam os continentais de todas as latitudes, nada menos aprisionados em terra por todos os lados.

A vida no campo cobre um período de tempo que vai de Setembro de 2014 a Setembro de 2015, a essa data já quatro anos na Terra Chã, freguesia situada nos arredores de Angra do Heroísmo, vizinha de um lugar e de uma outra freguesia quase mítica na Ilha Terceira: São Carlos, pelas suas belas quintas e imaginado sangue azul, e São Mateus, pelos seus destemidos pescadores, vigiados pela torre altiva da sua igreja, que parece policiar o Atlântico e em aviso perpétuo contra todas as tentações e eventuais corsários. Tão circular como o voo do milhafre é a vida do autor, da sua companheira Catarina, e dos cães Melville e Jasmin. Um regresso, por mais temporário que pensamos ser, envolve sempre reconstruções do que havia ficado inacabado, e refiro-me tanto às coisas práticas do nosso quotidiano como, ou muito especialmente, a recriação, por assim dizer, de relacionamentos e hábitos familiares, de afinidades de próximas e electivas com toda uma vizinhança, essa da memória e da saudade para se tornar de carne e osso, diariamente reencontrada. A semântica de “casa” não tem a carga emotiva do inglês “home”, mas tem, definitivamente para nós ilhéus, o pesado significado do território das nossas raízes, o chão nativo das nossas vidas. Cada dia que Joel Neto e Catarina acordam olham para a casa que havia sido do avô do autor, José Guilherme, que é também personagem de ficção, mais recentemente no grande romance do nosso autor, que é Arquipélago, imaginam mais uma obra dentro ou paredes afora, todo um universo sentimental a ser revivido por um e desfrutado pelo outro como que num oásis que lhe aparece após a travessia metropolitana da cidade de Lisboa. De resto, muitos dos que agora reencontramos pelas ruas e estabelecimentos comerciais da Terra Chã são do mesmo modo conhecidos dessas páginas anteriores. A obra de Joel Neto é já uma confirmação faulkneriana de que um pequeno e delimitado território natal é o único espaço essencial a uma outra grande arte literária, toda a humanidade aqui concentrada, podendo ser vista de uma só olhada, como um dia disse Eudora Welty, outra escritora sulista, toda a comunidade perscrutada no seu conjunto a qualquer momento na normalidade dos dias, como nas horas de aflição. Neste diário, à semelhança da referida ficção que o precedeu, paira uma grande assombração – o terramoto do Primeiro de Janeiro de 1980, que para sempre mudaria a face da ilha. Por certo que a prosa de um diário estará algures entre a realidade e a ficção, a memória recriando tempos perdidos, e a imaginação reinventando personagens e situações mesmo debaixo do olho do escritor. Se se pode falar de um retrato de fatias-de-via, também algures entre o que temos por real e surreal, de uma pequena povoação açoriana, este é um primoroso acto literário desse género. Joel Neto, pertencente a uma geração literária açoriana etariamente entre a minha e uma outra que aí vem, dá continuidade ao cânone testemunhal da existência a meio mar, de uma história feita de incessantes partidas e regressos, uma ode simultaneamente original e de imediato reconhecida ao modo como vivemos entre o riso e o medo. Não é sem mais nem menos que por várias ocasiões ele relembra ou faz chamamentos a outros escritores e poetas das ilhas, alguns dos quais determinantes na decisão de se tornar escritor, de ver neles e na sua obra a possibilidade de permanência que só a grande literatura (nos) permite. Quando nos diz deles, Joel Neto diz-nos sobretudo de si próprio.

Mas, para falar – cito alguns passos que dizem respeito aos nossos escritores mais próximos, e ainda de outras línguas e terras distantes, que antecedem a frase que me serve aqui de epígrafe – dos lugares de onde vem este diário, acho que terei primeiro de falar dos poetas. Dos que cantaram o campo e dos que cantaram este campo: Caeiro e Ramos Rosa, Félix e Marcolino… Depois terei de falar dos narradores: dos destas ilhas e dos de outras ilhas ainda, inclusive as rodeadas de terra por todo o lado – Nemésio, João de Melo, Álamo Oliveira; Hardy, Faulkner, Steinbeck… Mas não posso deixar de falar de José Daniel Macide e da sua Crónica das Terças, que na minha infância abria a última página do Diário Insular. Quando hoje releio Balada para Angra, acho que estava tudo lá”.

Joel Neto não vai muito a Angra, a não ser aos sábados de manhã, para descer a Rua da Sé e olhar, suponho, o Monte Brasil, a cidade que contém toda a história de Portugal em terra e debaixo de água. Foi a cidade da minha primeira imigração, no ano lectivo de 1963/64, quando entrei no então Liceu Nacional de Angra do Heroísmo. Os de fora, como eu, não tinham uma identidade geográfica precisa, éramos simplesmente “do monte”. Hoje sabemos que éramos da terra e do mar, muito mais do que qualquer citadino preocupado, acima de tudo, com o que este autor diz de si próprio e de outros em Lisboa – com o “estilo” ou a “pose”. Não será mera coincidência que os escritores portugueses, na sua vasta maioria, quase só brilham nos seus regressos às origens, aos pequenos territórios do seu coração, o resto ficando, também quase sempre, como meros “exercícios” literários, a linguagem sobressaindo, quando sobressai, como o único personagem memorável. Lionel Trilling, o grande ensaísta judeu-americano, nova-iorquino de nascimento e vivência, advertia constantemente os seus colegas escritores para a essencialidade artística da autenticidade, o que faz o leitor suspender toda a sua vida e crenças para testemunhar uma outra humanidade à sua volta. É disto que falo na minha leitura de A vida no campo, uma amostra, perdoem-me o atrevimento, de como uma sociedade convive entre o passado e a modernidade e pós-modernidade da nossa época. Estamos, afinal, em casa no mundo entre um cerrado e o mar, entre um lavrador e um escritor, entre a serenidade e a loucura.

A grande literatura não poderá ser muito mais do que isto.

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Joel Neto, A vida no campo, Lisboa, Marcador/Presença, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 01 de Julho, 2016.