Sátira, Angústia e Exílio na Ficção de José Martins Garcia

EscritorJosé Martins Garcia

Entrevista de Vamberto Freitas

Quando voltei a folhear e a reler determinadas passagens de Contrabando Original, de José Martins Garcia, em preparação para esta entrevista, verifiquei que na primeira leitura havia exagerado um velho hábito – sublinhei com certo fervor e comentei, nas margens, por entre linhas, em qualquer espaço em branco que foi restando naquele livro, inúmeras palavras, frases e ideias que alicerçam o distinto mundo ficcional do autor. E quando faço isso a um romance, o género mais sagrado da minha estante, é porque, claro, o entusiasmo pelo que ia lendo se sobrepôs irremediavelmente à minha habitual e também muito enraizada atitude de não profanar, nem com palavras boas nem com palavras más, os templos dos outros.

Reproduzo aqui, no entanto, um dos primeiros comentários que impulsivamente escrevi, mas que, neste caso, creio sintetizar a condição humana fundamental nestes e noutros romances do mesmo autor: “O narrador emigra de vários modos e a tempos diferentes: interiormente, desde que se conhece, não se sente parte daquele seu mundo, nem sequer daquela sua família mais imediata. A sua precoce passagem de um lugar para outro dentro da ilha, ou, mais tarde, de continente para continente é sempre um marco significativo de crescimento, mas o seu incessante deambular nunca deixa de ser um dos mais dolorosos exílios literários – sempre, estar sem estar, viver sem nunca pertencer”.

Os narradores de Martins Garcia são, para mim, como que imparáveis e dos mais assustadores ciclones de palavras que tudo à sua frente levam, e pouquíssimas são as personagens que aí se livram das maléficas teias deste seu moderno mundo ficcional. “Sim, nasci numa ilha e perdi-me no mundo”, diz um deles em Contrabando Original, definindo assim o que me parece ser a temática fundamental de toda a sua obra criativa – o abandono, ou o sentimento de exílio interior na terra açoriana, e depois a labiríntica caminhada à procura de outra vida e de um lugar.

José Martins Garcia nasceu na ilha do Pico, em 1941, muito andou, mas reafirma aqui que, quanto a dados biográficos, poucas afinidades terá com a “gente” da sua criação. Diz-nos que desde sempre existiu “o divórcio entre a minha vida quotidiana e os mundos que inventei”. Em 1966 foi mobilizado para a Guiné-Bissau, e após essa fase da sua vida viveu e exerceu o professorado em universidades de Portugal Continental, França, e Estados Unidos. Regressou há poucos anos ao arquipélago natal e vive em Ponta Delgada, onde também é professor de Teoria da Literatura e Literatura Açoriana, na Universidade dos Açores. A sua obra inclui ainda alguns volumes de contos, poesia, teatro e trabalhos de cariz académico, como, entre outros, Linguagem e Criação e Vitorino Nemésio: A Obra e o Homem.

Contrabando Original serviu-nos aqui como ponto de partida para uma mais alargada abordagem da sua temática e, em minha opinião, da sua distinta voz e visão ficcionada do mundo português continental e açoriano. Os seus outros romances até à data publicados são Lugar de Massacre e a trilogia constituída por A Fome, O Medo e a Imitação da Morte.

Contrabando Original veio, para quem ainda não tivesse dado por isso, estabelecer Martins Garcia (não se ofenda com a palavra, pois utilizo-a até com certa simpatia e respeito) como o mais cínico romancista português actual. Desgosta-o esta minha observação?

José Martins Garcia – Para ser franco, digo-lhe que me desgosta. Melhor dizendo: não me parece corresponder, dum modo global, ao que deixei dito nos cinco romances que até hoje publiquei. Se me tivesse classificado como romancista satírico, ou predominantemente satírico, aí sim, eu estaria inteiramente de acordo. Bem sei que a palavra cinismo já significou uma atitude filosófica de desprezo por todos ou quase todos os valores estabelecidos… Mas, hoje em dia, cinismo associa-se (estou em crer) a algo pior que o desprezo: a uma espécie de gozo pela humilhação, ao pisar e ao repisar da vítima. É certo, por outro lado, que não há sátira sem vítima. O autor de textos satíricos escolhe um alvo. Esse alvo é tratado com antipatia, com agressividade. Esse alvo é uma vítima. Mas a atitude criadora do autor satírico não é uma atitude necessariamente cínica. Deixe-me lembrar-lhe que muitos autores de sátiras, especialmente os de sátiras sociais, até são por vezes lidos como moralistas. Não gosto, é certo, de moralistas. Cultivo, no entanto, a minha própria ética. Se acredita nesta minha última frase, bem vê que não posso encarar-me a mim como cínico… e isto na medida em que cinismo e ética são incompatíveis. Deixe-me recordar um aspecto de Lugar de Massacre: aquelas personagens loucas ou a caminho da loucura, que se movem num hospital de Bissau, não são simples “palhaços” caídos nas malhas de uma guerra sem finalidade; são seres despedaçados na própria identidade; representam uma geração sacrificada ao nada. E a função do narrador, neste caso, não é suscitar o riso, muito menos mascarar-se de cínico. A função desse narrador é essencialmente de denúncia da paranóia que foi aquela guerra colonial. Uma denúncia que se processa em vários planos, parecendo-me o plano satírico um dos mais relevantes do livro. Mas note: quem é a vitima dessa sátira? Os tais “palhaços” meio loucos?… Não; os chefes megalómanos, ou chefes (ou supostos chefes) com as cabeças cheias de fumaça imperialista.

Mas gostaria também de fazer algumas observações sobre Contrabando Original. E começo por fazer uma pergunta embaraçosa: Quem é o narrador desse romance? Por outras palavras: eu, que sou apenas o “autor empírico” do livro, a quantos narradores dei voz? Quantas vozes se acumulam nesse romance? Ser eu próprio a responder a tais perguntas significaria um poder de objectividade pretensioso, ridículo mesmo. Se admitirmos a unidade do narrador, não me parece que esse narrador se revele cínico. Não será ele um professor de Latim que declara, no fim do livro, que inventou uma família por ter ficado órfão de tenra idade?… Não será ele um diplomata enfastiado com a fachada que é obrigado a cultivar? Ou será ele um actor tornado efectivo contrabandista? Ou este contrabando é todo em sentido figurado?… Porque será o narrador um refractário à guerra colonial?…Cínico?…Talvez sim, em certas circunstâncias. Talvez não, se repararmos na sua situação de clandestino. Enfim, creio que, seja lá quem for o narrador de Contrabando Original, sátira e amargura se sobrepõem ao cinismo. Sátira e angústia… o riso perante a própria extinção.

– Sobre si escrevi um dia – antes da saída de Contrabando Original – que “a rebeldia cultural teria, por certo, os seus limites”. Creio que me enganei. O seu narrador nesse romance está totalmente liberto de quaisquer amarras sociais, culturais e políticas. Nunca tinha lido, em língua portuguesa, tamanha subversão literária, e confesso que me deliciei. Mas não haverá uma só virtude lusa dos nossos dias, e que você poderia, num dos seus possíveis momentos de “bondade” literária, referir, nem que fosse numa breve frase?

JMG – Bom! Vejo que você admite a unidade do narrador de Contrabando Original. Não disponho de argumentos que me possibilitem demonstrar matematicamente o contrário. Mas uma coisa é certa: Miguel Rafael, empregado de café, Jeremias Rodrigues talvez actor e contrabandista, outro Miguel Rafael atascado na clandestinidade lisboeta, outro Jeremias Rodrigues diplomata, a voz final de um professor de Latim – nenhum deles coincide, nem na biografia nem na concepção do mundo com um tal José Martins Garcia. Contrabando Original é um romance que impede qualquer coincidência entre o autor e o narrador. Tem a certeza de que esse narrador está “totalmente liberto” daquelas amarras que mencionou?… Olhe que eu – mas sou apenas o autor, o inventor de ficções – não estou tão seguro disso. Admitamos que o narrador se chama Miguel Rafael, rapaz pobre, sem acesso aos estudos, empregado num obscuro café duma vilória, etc., etc. Admitamos que foi ele – e não só Jeremias Rodrigues – quem partiu para outras terras. Cortou as amarras com a sua “tribo”, depois as amarras com o seu país, com o seu ser cultural… E depois? Em vez de amarras, encontrou enredos: os da feroz concorrência no mundo do cinema: os riscos de uma actividade ilegal: a periclitância de qualquer situação. Não vejo essa personagem como alguém “totalmente liberto”, mas antes como alguém profundamente dividido entre uma cultura obsoleta, estagnada, sufocante em meio cultural que o deslumbra pela novidade, pelo esplendor…talvez ilusório. Em suma: um extraterritorial a contas com seduções e decepções. Mas adiante!

A interrogação que me faz sobre a existência de “uma só virtude lusa” representa, em meu entender, um salto – sempre incómodo, sempre polémico! – entre ficção e realidade. Com efeito, quem tem de responder a essa pergunta já não é o romancista, mas o cidadão. As personagens e os narradores (que, nos meus romances, são personagens dotadas dum estatuto especial) são seres fictícios que podem veicular as mais contraditórias opiniões sobre a vida, o mundo, as pátrias, os impérios, Deus e o Diabo. Eu, enquanto cidadão, não penso que os portugueses sejam um povo inferior, cheio de defeitos – só defeitos -, enfim uma comunidade negativa. Mas eu, enquanto ficcionista, tenho enquadrado quase sempre as minhas criaturas em situações e em épocas marcadas por revoltantes injustiças, atropelos da dignidade, discriminações e abusos de vária ordem. A ficção, sendo distinta da realidade, tem profundas relações com a realidade, embora nunca chegue, obviamente, a esgotá-la. O escritor que em mim vive selecciona os aspectos do mundo. Tenho seleccionado só aspectos negativos da sociedade portuguesa? Não, estou em crer que não. Lembro-lhe que há em A Fome, por exemplo, páginas de exaltação das lutas liberais. No Lugar de Massacre há, pelo menos, um oficial das Forças Armadas que considero notável pelo seu conceito de justiça. Mesmo no Contrabando Original há um padre notável pela humildade e pela tolerância…Isto para não entrar num problema crucial em alguns dos meus romances: o da Mulher, ora demónio, ora deusa… São ângulos de observação, são “visões”…

– O 25 de Abril na sua ficção, em O Medo, por exemplo, é abordado como um acto de loucos. Nos mesmos livros, nas mesmas páginas, a antiga situação não passa de um mundo de imbecis. As desilusões do seu narrador/protagonista são totais, absolutas e contínuas. Não acha que, se mais não se pudesse dizer, só as liberdades cívicas e culturais realmente conquistadas são a maior justificação de tudo quanto a partir de 1974 aconteceu?

JMG – Como cidadão português não encontro justificação para “tudo quanto a partir de 1974 aconteceu”. Isto porque, segundo a minha ética, não existe nenhuma justificação para a condenação dum inocente.. “Razão de Estado, crime de Estado!” – cito de memória e já nem me lembro do nome do autor da fórmula. Confesso-lhe que respeito sinceramente as liberdades cívicas e culturais a que você se refere. Acontece, porém, que essas liberdades, em tempos de confusão, se transformam com extrema rapidez em alarido demagógico. Caça ao voto por todos os meios – promessas, promessas! E nos bastidores, que se passa? Alianças e deslealdades passam a chamar-se tácticas. O cidadão que julgo ser deixou, sobre estas questões, uma recolha de carácter ensaísta – Cultura, Política, Informação. O escritor satírico escreveu O Medo. Neste caso, a ficção é mais elucidativa que os textos de intervenção. Eu, modestamente, contribuí para que acontecesse o 25 de Abril de 1974. Eu, enquanto escritor, desaprovei e caricaturei os resultados. Se a minha produção ficcional combateu o regime que tornou possível o autoritarismo totalitário e a guerra colonial, não encontrei motivos para aplaudir a “nova ordem”, triunfalista e totalitária, que atingiu os píncaros da paranóia em 1975…

– Você é, parece ser, um outsider na sociedade portuguesa. Como e quando chegou a esse estado de “exílio”? Ser “inteligente” é forçosamente estar “descontente” nas sociedades modernas?

JMG – Sou esse outsider… Porquê? Nasci numa ilha grande e demograficamente rarefeita. Fui um bom ouvinte de aventuras marinheiras. Gostava tanto de ouvir um “causo” – quanto mais fabuloso, melhor! – que hoje até me parece ter abusado, em criança, da paciência dos adultos dotados de capacidade narrativa. Sonhava mais de olhos abertos do que durante o sono. Parece-me que por motivos ainda hoje apenas pressentidos, eu próprio criei o meu “exílio”. O mundo circundante não bastava… Permanecer nele seria resignar-me à monotonia. Sair dele seria (como foi) uma aventura marcada por muito sofrimento. Estar onde não prestava. Perder esse onde libertou-me das coordenadas habituais, mas tive que enfrentar um ror de riscos. De certo modo, quis fazer coincidir a vida com a imaginação. Claro que isso é impossível. O resultado, quer me acredite quer não, foi o divórcio entre a minha vida quotidiana e os mundos que eu inventei. Rigorosamente falando, não há nada de autobiográfico nos meus romances, nos meus contos, muito menos ainda na minha escassa produção teatral…Só na poesia lírica o “eu” que sinto se exprime sem invenção dum médium… Mesmo assim, quem sabe se o “fingidor” não se intromete no poema? Não posso portanto determinar nem como nem o quando desta maneira de ser. Sou um exilado, é certo. Mas sou um exilado por temperamento… com o acréscimo, claro está, das circunstâncias.

Não penso que se possa estabelecer uma relação transparente entre essa sensação de permanente “exílio” e qualquer forma ou grau de “inteligência”. A “inteligência” – como todos os nomes abstractos – possui um vasto leque de polissemia. É-se inteligente em função de quê? Do êxito dos negócios? Duma descoberta científica? Do entendimento da oportunidade de se ascender ao poder? Por se ter respondido a um apelo divino? Por se ter esculpido a Vénus de Milo? Inteligência e descontentamento?… Talvez. Mas quantos se mostram pura e simplesmente alienados, buscando um qualquer modo de evasão, drogando-se, caminhando apenas para a auto-destruição?…

– O seu mundo ficcional açoriano e continental é feito de gente, ou totalmente inconsciente ou então híper-consciente da sua posição no esquema das coisas: num caso, deparamo-nos com tristes imbecis ou vigaristas à beira da loucura; no outro, com narradores e personagens obsessivamente a espreitar e a comentar um mundo de misérias e equívocos, ora trágicos ora patéticos. A ficção – a arte – será o último e único refúgio dos seus narradores?

JMG – Como “seres de ficção”, os meus narradores encontram-se, pelo menos à primeira vista, confinados aos seus universos ficcionais. Você encontra dois grandes filões nessa “multidão”: o dos inconscientes e o dos híper-conscientes. Creio que a fronteira entre esses lotes é mais nítida no plano das personagens do que no dos narradores. Mas uma análise mais aprofundada desta questão levar-nos-ia a considerações de ordem técnica… que por vezes enfastiam as pessoas. Quando você me pergunta se os meus narradores fazem da ficção um “último e único refúgio”, eu entendo que o que está em causa é a velha questão da “função da arte”. Abordar essa questão equivale a discutir, uma vez mais, se a arte deve ser moralizadora, ou revolucionária, ou comprometida (engagée), ou arte pela arte, etc. Deixemos de lado o que há de tautológico nesta última expressão: arte pela arte. Ela foi um desafio, uma provocação. Se a minha ficção é de cunho satírico, os meus narradores situam-se em oposição a algo. Esse posicionamento já contraria, só por si, a ideia de “refúgio”. O narrador de A Fome – a voz de um tal António Cordeiro – acaba a sua narrativa com uma citação do padre Cordeiro historicamente documentado. No momento em que transcreve esse fragmento “histórico”, o narrador de A Fome sabe que lhe resta perder-se. É a dispersão, a perdição, a pulverização de um ser… e duma certa condição, neste caso um efeito da insularidade exterior e interior. Quererá isto significar que a ficção foi para esse narrador o único refúgio? Estou em crer que não. Creio que a ficção foi, neste caso, mais um caminho para a ruptura do que uma forma de escapar ao mundo. O Medo, por seu lado, acaba com um homicídio, um homicídio inevitável. O leitor que decida: esse homicídio foi justo ou injusto? Talvez o refúgio na ficção seja uma concepção derivada exclusivamente do romance Imitação da Morte. O narrador, ao usar esse título, anuncia o seu definitivo cerco, o enclausuramento que não poderá romper. Não pode quebrar os muros da “prisão” porque de facto já se sente para além de qualquer forma de vida. O narrador chama-se António Cordeiro, mas é um António Cordeiro que fechou o ciclo. Mas tenho de falar de novo do aspecto satírico da minha ficção. Esse António Cordeiro, aparentemente refugiado no seu mundo ficcional, não estará a apontar para o mundo empírico sugerindo que também não é ali o seu lugar?…

– Acha que as suas responsabilidades na Universidade dos Açores – o ter de dar aulas e até de publicar trabalhos académicos – é um incómodo à sua escrita ficcional? Tenho a impressão que você é, primeiro que tudo, um romancista e só por pura necessidade tem de fazer algo mais… Será que o escritor português está para sempre condenado a uma vida repartida?

JMG – No que respeita à coexistência do professor e do escritor na mesma pessoa, costumo declarar que me esforço por torná-la em “coexistência pacífica”. Por vezes, as coisas correm sem atritos de maior. Outras vezes, surgem dificuldades. Gosto de falar de literatura. Como a minha actividade docente se situa nesse âmbito, sinto-me contente quando reconheço ter comunicado com os alunos – com a maioria, o que é corrente. Os trabalhos “académicos” – por exemplo, a minha tese sobre Fernando pessoa, as páginas que tenho dedicado a Vitorino Nemésio ou a David Mourão-Ferreira – chegam a provocar-me um entusiasmo de “descoberta” que tem certas semelhanças com o prazer de escrever ficção ou poesia. É claro que nem tudo é um mar de rosas… O pior conflito entre o professor e o escritor surge nos momentos em que o ficcionista deseja conviver apenas com as suas personagens. Nesses momentos, o quotidiano é dificilmente suportável. Às vezes a escrita tem de ser adiada… e o escritor sente uma certa irritação.

O escritor português estará condenado para sempre e este conflito? Para sempre, não sei. Por enquanto, creio que sim. Escritor não é profissão em Portugal. Às vezes ouve-se dizer que Fulano já se tornou escritor a tempo inteiro… Não se tratará de mais um boato? Pode ser que certos “direitos de autor” chegam para custear as despesas dum escritor “célebre” durante uns meses… Mas que estabilidade será essa?… E o perigo de se ter de escrever “em série” quando não se tem outra fonte de recursos?… Em Portugal, o escritor é um excêntrico.

– Você esteve sempre muito próximo da obra de Vitorino Nemésio, e sobre ele tem escrito extensivamente. Como enquadrar o Mau Tempo no Canal na ficção portuguesa deste século em termos de qualidade e ante o velho debate Literatura Portuguesa/Literatura Açoriana?

JMG – É verdade que já escrevi muitas páginas sobre a obra de Vitorino Nemésio, boa parte delas dedicadas a Mau Tempo no Canal. Deve compreender como me é difícil sintetizar uma apreciação a um romance que, de dia para dia, me parece fornecer cada vez mais matéria para análise, reflexão e crítica. Trata-se de um romance a todos os títulos excepcional. Possui o dom de ir crescendo. Não acho, neste momento, melhores palavras para referir a sua espantosa qualidade literária. É um “monumento” da Literatura Portuguesa. É um admirável “universo” extraído da condição açoriana, da Açorianidade, se preferir. É uma obra-prima da Literatura Açoriana – o que significa uma obra-prima da Literatura Portuguesa.

– E já vamos à pergunta das perguntas: existe ou não uma Literatura Açoriana?

JMG – Ui!…Desculpe! Você não tem culpa nenhuma do cansaço que sinto quando ouço essa pergunta! Associo-lhe imediatamente uma outra pergunta: “O que é a Literatura?” Se partirmos do princípio de que ninguém confunde Mau Tempo no Canal com o elogio das cracas ou com a propaganda da tourada-à-corda, teremos dado um primeiro passo no sentido de distinguirmos o literário e o não literário. Existe uma Literatura Açoriana. Existem formas de um conteúdo que são específicas da mundividência açoriana quando tratada como arte da linguagem. Mas se entendermos, ao contrário do que fica dito, que a literatura é um instrumento ao serviço de interesses políticos, sociais, da luta de classes, de reivindicações separatistas… por aí nada feito! Não é, no entanto, a instrumentalização da Literatura Açoriana o que mais me preocupa no tocante a este problema, porque qualquer literatura pode ser instrumentalizada mediante um decreto ditatorial, uma comunicação social monolítica, etc. O que hoje me torna algo perplexo – hoje, após quatro anos de permanência dentro dos Açores – é a periclitância da Literatura Açoriana enquanto “instituição social”. Toda a produção literária açoriana está sujeita a muitas limitações dentro dos Açores. Cá dentro a que se dá por isso. O livro de autor açoriano circula mal. A recepção é deficiente. A crítica sistemática não existe. Somos apenas uns 280 mil seres. A comunicação social não dispõe de meios que divulguem a obra literária. Não há critérios de selecção. O resultado destas carências é paradoxal: a Literatura Açoriana faz-se, edita-se e consome-se principalmente fora dos Açores. Como vê, um problema bicudo!

– Para quem escreve? Quem, no seu parecer, lê ficção açoriana nos Açores?

JMG – Eu escrevo para todo e qualquer ser humano que deseje acompanhar-me num percurso de distanciamento. Escrevo para quem deseje situar-se numa atitude crítica perante todas as normas. Escrevo para quem deseje confrontar as suas concepções com as minhas. Não para me impor. Não para impor uma ideologia. Antes para sugerir que cada qual encontre um caminho pessoal, uma consciência pessoal, uma consciência diferente da que as organizações, as seitas, os dogmas nos pretendem fazer acatar.

Não disponho de estatísticas sobre a leitura de ficção açoriana nos Açores. Tenho o pressentimento – ou a intuição, se prefere – de que a sociedade açoriana, na maioria dos seus sectores, não tem predisposição para se reconhecer “ficcionada” … Muitos açorianos (dos que lêem alguma coisa) só admitem uma visão paradisíaca destas nove “maravilhas” que Deus arrancou ao Oceano… Certo?…

_ A Fome, O Medo e a Imitação da Morte constituem o que considero a “triologia do desespero”. Portugal, aí, é para os narradores-protagonistas um país quase totalmente estrangeiro. Em Contrabando Original diz-se a determinada altura que uma personagem emigrou para “leste”, isto é, para o Continente, em vez de para a América, e daí a sua desfortuna. Será mesmo que o açoriano terá muito pouco a ver com Portugal Continental?

JMG – Se o açoriano tivesse pouco a ver com Portugal Continental os narradores de A Fome, O Medo e a Imitação da Morte não se revelariam tão preocupados – você fala em “desespero” – com essa terra situada a “leste”. Na segunda parte de Contrabando Original, o capítulo 33 intitula-se “Miragens de América” e o capítulo 34 “Imagens de Portugal”. Essa sequência parece-me bem significativa do choque de dois apelos: viver no “Continente” ou emigrar para os Estados Unidos? Qual o termo mais forte: miragens ou imagens? … Creio tratar-se dum dilema tipicamente açoriano. De onde vêem os dólares, de onde é que nos contam aventuras prodigiosas? … Da América, evidentemente. Onde estão as nossas raízes? Que História nos ensinaram desde a instrução primária? A de Portugal evidentemente. Quanto ao facto de em A Fome o narrador se sentir estrangeiro em Lisboa, gostaria de lembrar-lhe que o mesmo narrador se sente estrangeiro ao desembarcar em Ponta Delgada. Além disso, este narrador perdeu o “bilhete” do regresso. Não será sempre um estrangeiro em todos os lugares? …

– Se não me engano, para si o homem moderno perdeu por completo o poder de influência sobre o seu meio ambiente. Em qualquer um dos romances acima mencionados, o protagonista, assim como quase todos os outros, apenas se limita a sofrer a sua “sorte” e a comentá-la desgostosamente…

JMG – E eu, se não me engano, avisto na sua pergunta outra pergunta subjacente. A seguinte: O escritor desistiu de transformar o mundo? Muitos escritores, suponho, responderiam que não desistiram de transformar o mundo, que continuam empenhados no aperfeiçoamento da humanidade, esperando mais justiça, mais pão, mais fraternidade. Eles estão no direito de acreditar nos seus princípios e nas suas finalidades. Pelo que me diz respeito, não acredito na eficácia imediata quando se trata de obra de arte. Não acredito que um belo romance, por exemplo, tenha efeitos benéficos, generosos, humanitários aquando da sua publicação. Se daqui a um século uma pessoa desesperada renunciar ao suicídio por ter lido uma página satírica de um dos meus livros, eu (mas como saber disso?) já sentiria ter cumprido uma missão.

– Na generalidade, a mulher, na sua ficção, está quase sempre subjugada e, por vezes alegremente submetida ao seu claustrofóbico meio ambiente. Que aconteceu às rebeldes açorianas, como a inesquecível Margarida de Mau Tempo no Canal?

JMG – Eu creio que um inventário das minhas personagens femininas, cuidadosamente analisado, não viria a corroborar, “na generalidade”, essa imagem da mulher subjugada, passiva, submetida ou submissa. As personagens femininas de A Fome, por exemplo, são quase todas razoavelmente calculistas. Uma sociedade machista oprime e humilha a mulher, é certo. Mas a mulher, embora vítima duma educação patriarcal, sabe muito bem transgredir, sabe defender-se, sabe encontrar o seu prazer. À margem do casamento. Às vezes graças ao adultério. Se uma certa camada (creio que a mais escassa) se resigna perante o despotismo do macho, a geração mais nova – e isto em pleno Estado Novo – já sabe manobrar com muita perícia no sentido de “usar” o homem, replicando assim ao “uso” de quem tem sido vítima ao longo dos tempos. O Medo, por outro lado, começa com uma transgressão e é uma mulher que toma a iniciativa desse acto “imoral”. No mesmo romance, a personagem chamada Inês é uma mulher totalmente livre e lúcida. E a Samantha de Contrabando Original?… Não lhe posso dar melhor exemplo de metamorfose duma ligação erótica num profundo amor. Apesar de que essa actriz tem de equívoco, apesar do meio permissivo em que se movimenta. Dir-me-á que essas mulheres não são açorianas. Dir-me-á que a Evelina, de O Medo, não será propriamente uma rebelde, ou que o exemplo é pouco significativo. Mas eu responderei que naquelas circunstâncias, ela representa o máximo da transgressão possível (ou verosímil). Também gostaria de dizer-lhe que Margarida Clark Dulmo, mulher revoltada no plano espiritual, acaba “domada” por André Barreto e toda uma série de interesses sociais. E isto sem desprimor para a heroína nemesiana – muito menos para o seu criador. As últimas páginas de Mau Tempo no Canal prestam-se a uma longa discussão quanto ao grau de “emancipação” de Margarida…

– A sua experiência “americana” – cinco anos na Nova Inglaterra como professor na Universidade de Brown – viria ser transfigurada em Imitação da Morte e em alguns poemas de Temporal. Quer falar mais um pouco desses seus anos nos Estados Unidos? Que mais recorda com alegria e tristeza?

JMG – Os cinco anos que passei em Providence, leccionando Literatura Portuguesa na Universidade de Brown, constituíram uma experiência tão importante que às vezes tenho a impressão de que apenas sonhei tudo isso… A primeira aula na Brown… O Centro de Estudos Luso-Brasileiros… Os rostos, os gestos…A primeira vez que vi nevar em Providence… O meu primeiro Natal em Providence… A Biblioteca da Brown, onde me sentia em casa… Os livros, as ideias, o tempo de pensar Fernando Pessoa. Depois, em Janeiro de 1984, o meu pai morreu na ilha do Pico. Vim ao Pico. Voltei por mais uns meses a Providence. Tudo tinha mudado. Para a tristeza.

– Você queixa-se, com frequência, da tendência do meio literário lisboeta de ignorar quase por completo os escritores que lá não vivem. Mas não será verdade que nos últimos anos essa situação mudou consideravelmente?

JMG – Algo terá mudado; não direi o contrário. Mas o espírito do “grupo iluminado” continua a vigorar – estou em crer. O grupo planeia, domina a casa editora, organiza a propaganda, tem os seus devotos nos órgãos de informação… Toda a gente sabe que assim é. Mais palavras para quê?

– Finalmente, é pouco usual o açoriano regressar ao arquipélago para ficar. Após tantas andanças por vários continentes, o seu regresso é definitivo, já encontrou o seu espaço vivencial?

JMG – Não encaro nenhuma situação como definitiva. Para ser mais rigoroso; não penso nisso. Não sei o que é “espaço vivencial”. Estou aqui, mas não me encontro aqui. Passeio por Lisboa, mas aquela cidade já não é Lisboa. Da última vez que passei pelo Quartier Latin reparei que faltava uma perna à estátua de Montaigne… e essa ausência altera irremediavelmente o rosto de Paris. Tenho medo de voltar a ver Providence. Só o Álvaro de Campos resiste ao desgaste: “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.

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Entrevista originalmente publicada no Diário de Notícias (Lisboa), e depois no meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, Lisboa, Edições Salamandra, 1992, e numa 2ª edição de Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada, em 2013. A foto é de Válter Tapia, fotógrafo responsável pela galeria de escritores açorianos na Livraria LeYa/SolMar, de Ponta Delgada.

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