Os Açores a cada olhar

Açores O Segredo das Ilhas

Havia nessa forma peculiar de ver a geografia que então me cercava, não uma ilusão de óptica nem um modo inocente de imaginar o mundo; talvez uma presciência poética que parecia anunciar-me um “sentimento” ou um “desejo” de literatura.

João de Melo, Açores: O Segredo das Ilhas

Vamberto Freitas

Suponho que acontece a todos nós – nem sempre um livro nos chega num momento ideal para uma merecida leitura atenta. Foi o que me aconteceu quando este Açores: O Segredo das Ilhas, de João de Melo, foi originalmente publicado em 2000, em formato de um belíssimo álbum ilustrado com fotos e quadros de diferentes proveniências e autores. Olho-o hoje, depois desta leitura atenta numa edição também especial mas agora manuseável e como que dirigida ao eventual visitante literato que nela até encontra espaço para as suas próprias notas, e dou-me conta do que então tinha perdido, e que espero não tenha acontecido a outros para quem as ilhas atlânticas são objecto de curiosidade, e ainda mais de afectos de vária natureza. Não o leio nem ao longe nem de longe – este é um texto demasiado íntimo, como imagino será para muitos outros leitores numa primeira ou demais leituras, e tanto para quem está directamente ligado ao arquipélago, para quem o vive quotidianamente numa das suas nove ilhas, como para os que residem noutras geografias, ou ainda para quem dele sabe, mas só agora o vai conhecer, começando por estas páginas. Creio que foi Jorge de Sena que escreveu um dia que uma foto lunar, ou coisa que se lhe pareça, não lhe interessava muito, só a paisagem que tinha sinal da passagem da humanidade por ela lhe despertava a curiosidade. Mantenho, mais ou menos, essa relação com o meu meio ilhéu, ou o de outras partes. Quando um desses espaços é descrito, sentido e vivido por um escritor cujas palavras se tornam sucessivas metáforas do seu próprio estado interior ou da vivência dos que se encontram e vivem nesses redutos entre serras e cerrados, no fundo de crateras vulcânicas, algumas delas fumegantes e com voz própria, quando se olha para uma natureza que a história recorda no seu estado virgem e depois trabalhada palmo a palmo, contra todas as probabilidades de falhanço, pelos homens e mulheres que nela desembarcaram há alguns séculos atrás na primeira experiência medieval e renascentista da Europa, com o mandato único de fornecer serviços às primeiras naus que atravessavam todos os oceanos, só se poderá ter um olhar empático, ao mesmo tempo sereno e espantado perante as cores da terra e do céu, do seu mar e a distância sempre ao pé de casa, o horizonte ali no lado de fora das nossas portas. A verdade é que a escrita de João de Melo é um poema à memória de umas ilhas que são um paraíso e paradoxalmente algo menos do que um jardim real, a sua prosa capta a beleza de montes e planícies, repita-se, trabalhadas pelos seus habitantes, a convivência no meio de árvores, flores e cores endémicas ou vindas de longe, uma síntese da vida debaixo de um céu frequentemente cinzento e de um verde-azul virado também para um mar desafiante nos seus dias de chumbo e de velada ameaça. Não leio nem poderia ler este belo livro de João de Melo pelos retratos quase perfeitos em que se tornam cada frase ou parágrafo, e que eu no meu dia a dia quase ignoro ou inconscientemente faço que não vejo, como passar de carro praticamente à beira-água olhando só para dentro, para as formas das casas no outro lado. Leio-o, sim, pela beleza poética com que o escritor confessa, passo a passo, o que lhe desperta na alma cada visão deste xadrez que é a Natureza nos Açores, quase toda ela intervencionada, mas por quem a ama e tem a perfeita noção da sua estética e ética, a mão dos deuses e dos homens estendida em nome da sobrevivência e imperativo comunitário. Este é o livro, creio, que o autor teria de escrever após as obras ficcionais que o precedeu, muito particularmente O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. É como levar os personagens dos dois romances de uma pequena freguesia em São Miguel para o resto da sua terra atlântica, mostrando-lhe que não estavam, nunca estiveram, sozinhos na sua sorte histórica, no seu drama existencial.

João de Melo escreve sobre a sua terra estendida a meio-atlântico como quem dela nunca saiu, mas conhece muito mais mundo e mundividências. Não é um regresso, é um diálogo consigo próprio, e acredito ainda que a cada instante desta sua viagem aos Açores no verão de 1997 ele nunca esqueceu outros dois grandes escritores portugueses que fizeram das ilhas algumas da suas mais enigmáticas e poéticas paginas – Raul Brandão em As Ilhas Desconhecidas, escrito a meados dos anos 20, e por certo Vitorino Nemésio em praticamente toda a sua obra, com relevo naturalmente para o clássico Mau Tempo no Canal. Por certo que esta narrativa é de imediato reconhecida por ter sido escrita pelo autor da ficção que referi anteriormente, toda a fauna e flora carregada de simbolismo ou subtilmente transformada em metáfora, uma vez mais, dos que habitam os pedaços de terra situados precisamente entre dois grande continentes, entre a velha Europa das suas remotas origens e o Novo Mundo, que desde sempre lhe serviu de imaginário futurista. João de Melo relembra sempre o que na sua infância havia sido a terra e o mar dos seus mistérios, o mar açoriano já então branco na sua fúria abraçadora das pedras negras em cada rocha ou fajã, relembra ele nestas páginas o que Raul Brandão nos tinha dito no livro que despertou em Nemésio a sua vontade de melhor se perceber, e que está definitivamente por detrás da sua escrita posterior – a ilha em frente é o mundo que completa, que assegura a cada um que a avista que não está só, que pertence a algo maior do que a casca em que nasceu e faz desenrolar o drama da sua vida, o navio passando ao longe tornado metonímia de todas as possibilidades de fuga e vida-outra, como na poesia de Pedro da Silveira. Quando o autor nos reafirma que muito do que vê em sua volta lhe desperta “um sentimento ou um desejo de literatura”, não só recordamos ou (re)imaginamos a sua grande obra, incluindo alguma poesia e ensaísmo, toda a sua escrita antes desta viagem como, para os que conhecem o melhor da literatura açoriana, voltamos a compreender a força destas raízes, desta natureza que levaria Roberto de Mesquita a reinventar toda uma poética simbolista da condição humana na versão atlântica, que ele viveu ou sofreu conscientemente uma vida inteira. No fundo de cada cratera habitada poderão residir as “almas cativas”, mas sem nunca se amordaçarem pela ameaça ou pela estreiteza dos seus trilhos, os seus escritores sendo como que artistas compulsivos ante a tela que lhes foi entregue já colorida, faltando só a presença e a visão humana que a completa e lhe dá sentido. A prosa de João de Melo, aqui como quase toda a sua obra, combina a magia e a poesia em busca dos significados da sua própria história natal, o fatalismo de um povo ao mesmo tempo profundamente enraizado e irrequieto, a força da terra, das suas pequenas cidades e freguesias rurais, em luta permanente com a vontade de partidas e regressos, a vida em ilha no seu estado puro.

É alias nas cidades açorianas – escreve num capítulo intitulado “O Arco das Ilhas”, que encerra esta sua comovida narrativa – que pulsa o coração de cada ilha. Não se pode separá-los. Nos Açores, as razões do coração são em parte a medida e a explicação de cada ilha. Com as cidades, é mais ou menos a mesma coisa. Cada açoriano traz consigo a paixão da sua cidade favorita. Na Horta, deleita-nos o modo como a cidade se distende, parecendo dispersar-se ao longo da sua dupla enseada. A vida que nela se concentra chega ali vinda de dentro e de fora da ilha. Vem do cabo do mundo, nos veleiros que aportam à sua marina. Vai de volta pelos caminhos sonhados do horizonte. Na cidade de Ponta Delgada, o arquitecto previu tudo: a doca e a marina para os navios do mundo… Angra do Heroísmo, a mais bela cidade dos Açores, tem perfil e traça renascentista: ruas direitas, fachadas corridas por varandas de ferro forjado, solares e palácios, igrejas barrocas, e uma perfeita ligação com o mar”.

Cada outro recanto das ilhas fica para os olhos de cada cidadão ou visitante, a mudança de cores e humores climatéricos tão inconstantes como a fúria dos deuses. Alguém disse-me um dia que era quase impossível um pintor de fora conseguir retratar na sua tela as cores e as formas do campo e do mar açorianos. Enquanto aplica umas pinceladas, tudo em sua volta já terá mudado no olhar seguinte. Poderá ser assim, mas os escritores da terra, residentes ou ao longe, nunca hesitaram em tentar captar as geografias dos seus mais indeléveis afectos e memórias. Se há um lugar lusitano em que a saudade dos navegantes permanece viva, é nas suas ilhas. Sai-se delas, sim, mas nunca mais deixamos de ser habitados pela memória da terra-mãe, o “desterro” perpétuo do povo que as ocupou e para sempre lhes trouxe vida e história. Açores: O Segredo das Ilhas funciona tanto como uma representação para os que conhecem, vivem ou por outros laços estão irremediavelmente ligados às ilhas, como é ainda mais um maravilhoso e muito bem formado e informado acompanhante para qualquer visitante que cá vem uma única vez, ou retorna temporariamente. Juntamente com outros livros, alguns deles já aqui mencionados, a terra açoriana tem sido sempre espelhada em todos os géneros de literatura, como poucas outras de igual dimensão no mundo. Pensando bem, a sua geografia é demasiado central, está na rota da História, e possivelmente do futuro – mesmo que poucos no restante país tenham a perfeita consciência desse feliz destino.

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João de Melo, O Segredo das Ilhas/Narrativa de Viagem (1ª edição em formato trade), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 08 de Julho de 2016.

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4 thoughts on “Os Açores a cada olhar

  1. António José Leite Vilas-Boas Agosto 2, 2016 / 4:07 pm

    Senhor Vamberto Freitas, boa tarde!
    Tendo adquirido recentemente este livro de João de Melo, e iniciando a sua leitura depois de ler o seu texto, e sendo o Senhor açoriano e conhecedor das «coisas» dos Açores, incluindo certamente a literatura, venho perguntar-lhe o seguinte: na página 18 do livro, João de Melo identifica o canal do «mau tempo» de Vitorino Nemésio como sendo o canal que separa São Jorge do Pico. João de Melo também é açoriano… Eu sou minhoto, mas tenho na mesa de cabeceira Mau tempo no canal, romance que acabei por ler e reler mais do que outro cuja ação se passa aqui para estes lados, durante muitos anos o meu preferido, A casa grande de Romarigães… Que Aquilino me perdoe… Ora bem: lendo e relendo Mau tempo no canal, convenci-me que o canal do tal «mau tempo» é o que separa a Madalena do Pico da Horta, já o atravessei várias vezes, com bom tempo… É certo que uma parte do romance de Nemésio decorre mesmo no canal de São Jorge. Mas eu penso que não é este o do «mau tempo»… Poderia, por favor, esclarecer-me?
    Obrigado, António Vilas-Boas.

  2. Vamberto Freitas Agosto 2, 2016 / 4:24 pm

    Caro António Vilas-Boas,
    Claro que é o senhor que está certo neste caso. O “canal” é precisamente, como diz, entre a Madalena do Pico e a Horta.

  3. António José Leite Vilas-Boas Agosto 2, 2016 / 4:49 pm

    Muito obrigado!

    • Vamberto Freitas Agosto 12, 2016 / 7:12 pm

      Muito obrigado, Emanuel. As suas palavras dão-me força para continuar este trabalho!

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