Antonio Tabucchi e os Açores

capa Mulher de Porto Pim

Montes de fogo, vento e solidão. Assim descrevia os Açores, no século XVI, um dos primeiros navegantes portugueses que ali desembarcaram.

Antonio Tabucchi, Mulher de Porto Pim

Vamberto Freitas

Acaba de sair uma nova e muito bem trabalhada edição de Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabuccchi, originalmente publicado em Itália em 1983. Entre nós, ficou como um conjunto de textos nada desconexos, nem sequer numa primeira leitura, por mais apressada que seja. Tenho ouvido, ultimamente, algumas opiniões menos favoráveis entre alguns escritores açorianos, sem nunca me especificarem o que é que falha numa ou noutra destas curtas narrativas, que resultaram obviamente de uma visita do autor ao nosso arquipélago nos anos cruciais à democratização do nosso país, e em que o autor residiu intermitentemente mais de quarenta anos até ao seu falecimento em 2012. Boa parte da sua obra reflecte essa íntima experiência lusa, com profundas ressonâncias pessoanas constantes, incluindo Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa: Um Delírio, e ainda os romances policiais ou histórico-políticos Afirma Pereira (tornado filme, com Marcello Mastroianni no papel do protagonista) e, um pouco mais tarde, A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. O que mais o distingue, para nós açorianos, não é ter sido o único escritor estrangeiro, ou mesmo aportuguesado, dado a sua vida dedicada também ao ensino da nossa língua e literatura em universidades italianas, que tomou os Açores como tema. Será, no entanto, precisamente essa disponibilidade que um dia o trouxe ao arquipélago para melhor nos conhecer, e que resultaria nesse seu pequeno livro que mereceu largos comentários e apreciações diversas, inclusive de Enrique Vila-Matas, o escritor catalão de fama mundial, que também dedicaria belas páginas às nossas ilhas. Li-o de novo com o mesmo fascínio de há anos, tendo dado conta das minhas reacções de então num mini-ensaio de 1994, e que faz parte do meu Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas. Não queria ocupar muito espaço aqui com essas palavras, mas devo lembrar que a minha admiração pela sua narrativa atlântica permanece, esse primeiro aconchego textual em nada diminuído ou revisto. Dizia então que até um documento burocrático, neste instante um muito antigo regulamento da baleação em Portugal, ao ser citado numa destas narrativas intitulada “Alto Mar”, sem se tocar numa palavra ou vírgula, virava, com a passagem do próprio tempo e um poder simbólico que por certo estava longe da intencionalidade e ainda mais da imaginação de um fazedor de leis e proibições, arte e metáfora da sobrevivência de um povo, talvez mais acentuadamente do que qualquer objecto da faina pendurado nas paredes de um museu. “Transforma-se – aventurava eu nesse escrito inicial – numa viva passagem literária, plena de significantes históricos e sociais. A luta humana pela sobrevivência, e em que esse imperativo e o meio total circundante se conjugam numa perfeição quase divina.” É certo que nessas mesmas páginas eu relembrava que a literatura açoriana, a partir do início do século passado, se tinha encarregado de criar as imagens e metáforas intemporais da história e vivência nas ilhas, raramente, mesmo assim, sem que a sua prosa, poesia e dramaturgia ultrapassassem o mar que nos separa do restante país. Só que também esta situação vem mudando vagarosamente, o cânone literário nacional muito mais rico do que era ainda há algumas décadas atrás. Concomitantemente com mais esta reedição do livro de Tabucchi, a mesma casa lisboeta, a D. Quixote/LeYa, acaba de reeditar Açores: O Segredo das Ilhas/Narrativas de Viagem, de João de Melo, demonstrando assim, creio, a sua sensibilidade perante as ilhas e a nossa crescente presença no imaginário nacional, e até euro-americano.

Mulher de Porto Pim é mais do que uma mera curiosidade da literatura de viagens referente aos Açores. Lê-lo em sequência e suspendendo no percurso dessas páginas as nossas próprias experiências de vida, ideias e noções históricas, que, de qualquer modo, são sempre e necessariamente provisórias, acompanhamos o autor na sua narrativa, que vai de ilha em ilha, Flores, Pico, São Miguel, e muito especialmente o Faial, algures entre a realidade e a ficção. O narrador nunca se assume como protagonista no que nos conta, retraindo-se como um ouvinte atento e interessado entre os que com ele tomam um copo, conversam, inventam ou reinventam as suas histórias, ora dramáticas ora cómicas, os seus momentos lúdicos nunca separados da luta pela vida em ilhas, que eram ainda por essa altura um mistério quase absoluto, mesmo para o restante país. Antes de alguns portugueses que escreveram sobre nós ao longo dos séculos, foram quase sempre os estrangeiros, em termos afectuosos ou difamadores, que nos lembravam nas suas obras. Da civilidade de uns irmãos Joseph e Henry Bullar, em Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, e de Albert, Príncipe de Monaco, em La Carrière d’un Navigateur, (ambos mencionados por Tabucchi) à barbaridade racista de um Mark Twain em Innocents Abroad, ao poema adulto de John Updike “Azores” e à imaginação de infância num diário de um Edmund Wilson contendo impressões ou avistamentos ao longe a partir de um cruzeiro, durante séculos quase só nos “conheciam” alguns militares portugueses cá destacados por razões de soberania nacional ou castigo institucional, as suas atitudes posteriores frequentemente condicionadas pela sua sorte pessoal. Manuel Alegre disse-me há uns tempos que a sua presença inicial nestas ilhas, a que ele regressa sempre e celebra nalguma da sua poesia, foi como que um desterro punitivo. Lembro-me de o olhar perplexo ao usar essa palavra, mas depois concordámos que a nossa vivência até ao 25 de Abril de 1974 era pouco mais do que isso, o mundo longe e inacessível, fora de uma muito reduzida elite, ou quase só para os que fugiam da fome e humilhação para as Américas. Mulher de Porto Pim tem no seu centro narrativo uma dama estrangeira que arriba à Horta para um “trabalho” que então era considerado uma transgressão aceite no faz de conta que é muita da nossa vida, é uma narrativa que consegue a proeza de parecer simultaneamente uma peça jornalística de viagem e um conto com princípio, meio e fim, uma ficção que espelha toda a solidão e tragédia de que supostamente já falavam os primeiros povoadores que o autor cita em paráfrase a dada altura, o medo, a coragem, a criminalidade e fuga o tema que domina toda a nossa própria literatura da vida em ilha. A cada passo nesta prosa, as ilhas perdem o exotismo que sempre as rodeou até a tempos recentes, e tornam-se numa geografia humana, isolada, sim, mas palco de uma humanidade que vai e vem do mundo na sua incessante busca de salvação e felicidade.

E a ti italiano – diz o protagonista, de guitarra na mão, numa noite de copos, reconhecendo no autor-personagem um interlocutor fora do comum, e com um olhar sóbrio e atento que nada tinha a ver com a maioria dos que ele via habitualmente durante os seus cantos – que vens aqui todas as noites e se vê que és ávido de histórias verdadeiras para passares ao papel, ofereço-te esta história que acabaste de ouvir. Podes até pôr o nome de quem ta contou, mas não aquele pelo qual sou conhecido nesta tasca, que é um nome para turistas de passagem. Escreve que esta é a verdadeira história de Lucas Eduíno, que matou com o arpão a mulher que julgara sua, em Porto Pim”.

A narrativa “Antero de Quental: Uma vida” poderá parecer fora de todos estes contextos de Mulher de Porto Pim, mas não creio que lhe seja alheia. Afinal, é a vida trágica açoriana que mais enforma esta indefinida escrita, a vida de baleeiros, a de um baleeiro-cantor, a de uma mulher assassinada, o real e a imaginação recriando passados, situando os seus personagens numa certa contemporaneidade, a convivência da escuridão heróica desse passado com a modernidade a chegar. Se há um poeta que representa a fuga ao cerco e depois a melancolia dos dias e noites das e na ilhas – como nos relembraria muito mais tarde Roberto de Mesquita – mesmo que só nos seus últimos dias de vida, Antero é provavelmente essa figura. O que Tabucchi faz com a reconstrução da sua vida de sonhos e desespero é retirar-lhe aquela imagem de santidade que outros empastaram à sua biografia desde o In Memoriam. Ainda hoje quase temos de falar no poeta como se tudo o que ele escreveu, disse ou viveu está fora da esfera de uma vida comum e atribulada, como é para a esmagadora maioria dos homens e das mulheres. Ler as suas cartas é um consolo meu – dos sonetos ao pensamento que lhe restava, a sua interpretação da história, da política, e até as suas descrições e análises de certas ilhas nossas e o seu enquadramento no mosaico nacional do seu tempo e conjuntura mundial ainda nos falam directamente. “Quando chegou à idade dos estudos universitários partiu para Coimbra, como exigia a tradição familiar, e anunciou que tinha chegado o momento de abandonar o estudo das leis cósmicas e de se dedicar às dos homens”. Um grande poeta não vem do céu, vem da sua gente e das suas circunstâncias.

Num momento em que os Açores estão, parece, na moda euro-americana, ler este Mulher de Porto Pim seria um bom começo para o resto da viagem. Para quem, entre nós, nunca o leu, a ideia é a mesma – ver como os outros nos vêem, e como vemos os outros.

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Antonio Tabucchi, Mulher de Porto Pim e outras histórias (tradução de Maria Emília Marques Mano), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 15 de Julho, 2016.

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