Edmund Wilson no Canadá, ou a literatura como acto de resistência

Capa O Canada

Por detrás da resistência francófona ao Canadá de língua inglesa, tal como a resistência deste mesmo Canadá à absorção pelos Estados Unidos [1965], está um instinto de auto-preservação contra as investidas e invasão de um poder centralizado que provoca rebeliões no mundo inteiro.

Edmund Wilson, O Canada

Vamberto Freitas

De Haiti ao Canadá, por mais distante que pareça este peculiar interesse por duas geografias histórica e culturalmente distantes aos olhos de um europeu, não constituiu para Edmund Wilson um tão radical salto, tendo resultado na publicação (1965) dos seus ensaios sobre a literatura do país vizinho, O Canada: An American’s Notes On Canadian Culture. Wilson revisitaria o Canadá a princípio dos anos 60 por muitas razões, mas essencialmente terá a ver com a necessidade que ele sentia em conhecer a vida erudita de tão íntimo e ao mesmo tempo distante vizinho. Na rede de amizades e influências que Wilson mantinha através de correspondência, viagens e locais de vivência e trabalho, tudo e todos se encontravam numa ambiência de cosmopolitismo pouco comum a um escritor norte-americano vivendo dentro do seu próprio país. Interliga, como nenhum outro crítico ou jornalista literário, os aparentemente mais díspares autores e temáticas, com a facilidade de um poliglota, e de quem desde a infância tinha viajado e conhecido toda a gente nas esferas eruditas da Europa e do seu continente natal. Wilson perpetua na sua vida literária, até ao fim, o papel de “consciência intelectual” do seu tempo e contra os poderes que constantemente marginalizam e oprimem a vida criativa nas mais distantes e diversas sociedades. Se entre as comunidades nativo-americanas (e não só) Wilson possivelmente veria “tribos” sob constante e fatal ameaça de inimigos implacáveis e cujos valores nada tinham a ver com os do grupo de geografias cercadas, entre o Haiti e o Canadá, por exemplo, Wilson via também principalmente duas comunidades linguísticas ligadas a um mundo cultural que ele sempre apreciara desde o início da sua carreira (o mundo de língua francesa), e ambas em luta pela sua sobrevivência e o reconhecimento por parte do outro, esse que em todas as culturas tende a pedir para si a essencial “legitimação”. Logo após o seu regresso aos Estados Unidos depois da sua estada no Canadá, Wilson escreve ao seu amigo haitiano Phillipe Thoby-Marcelin, dando-lhe conta do que estava a fazer e especialmente do que o levara em visita de estudo ao país-irmão. Muitos dos próprios intelectuais e certos políticos canadianos francófonos, na luta nacional e internacional pelo reconhecimento cultural e na sua luta pela autonomia ou independência política do restante Canadá, comparavam-se com os “reis negros” de África, e como estes eram tratados e instrumentalizados pelos britânicos na defesa dos interesses exclusivos do império. Creio que Wilson regressa ao Canadá desta vez também profundamente influenciado pelo que já tinha visto e escrito no Haiti, perfeitamente consciente de que o Canadá francófono teria de ser revisto na perspectiva que viríamos a chamar pós-colonialista, e que ele descrevia como constituindo a luta contra os poderes metropolitanos centralizadores.

É essencialmente esta capacidade de se identificar directamente com as minorias étnicas e nacionais, esta sensibilidade cultural que o leva à necessária empatia com os grupos que vai estudando e faz antecipar e a valorizar o que todos viríamos mais tarde a denominar de “multicultralismo”. Para Wilson, o mosaico seria metaforicamente a referência anti-centralizadora e democrática da integração ou convivência dos diferentes grupos humanos na mesma sociedade. Tudo isto foi por Wilson claramente entendido e implicava, muito antes da reformulação de políticas que estabelecem o direito à diferença étnico-cultural, a rejeição desse que foi e é o melting pot, um dos mais sagrados preceitos no que respeita à “união” cimentada da nação norte-americana, desde a fundação até à modernidade. Os Estados Unidos eram uma suposta nova “nação”, que teria sido e era continuamente criada através do esquecimento e dissipação ancestral de cada grupo que lá ia chegando, e da consequente “reinvenção” de cada um desses mesmos grupos e indivíduos. Wilson rejeitava determinantemente essa descaracterização cultural das diversas comunidades nacionais e étnicas no seu e noutros países, e achava os Estados Unidos menos interessantes como sociedade porque não se valorizava e não desfrutava do cosmopolitismo intrínseco ao multicultralismo dos que convivem e partilham pacificamente um determinado espaço. Wilson nunca insistiu nos seus vastos escritos na superioridade ou inferioridade dos grupos em convivência nas múltiplas geografias que ele tão bem conhecia, visitava ou sobre elas lia. A apreciação multicultural de Wilson partiria sempre dessa sua empatia humana e cultural, mas também do seu cosmopolitismo que vinha desde o início da sua carreira em Nova Iorque como crítico eminente do movimento literário modernista. Era, por outras palavras, o autor de Axle’s Castle a revisitar continuamente a desejada diversidade cultural para uma tentativa de síntese da experiência humana no seu tempo e lugar. Wilson foi um dos primeiros grandes críticos norte-americanos a ler expansivamente as literaturas canadianas, e leu-as sem preconceitos elitistas – como sempre, para Wilson o acto literário seria complexo, e de significações diversas, desde oferecer um retrato da humanidade no seu peculiar isolamento das terras frígidas do país vizinho a retratar os outros na sua alienação e isolamento urbano e modernista. Aliás, na secção sobre a literatura canadiana de língua inglesa, Wilson diz a determinada altura que os próprios canadianos poderiam nem se valorizar nem sequer ler-se mutuamente, ou nem tão-pouco reconhecerem a existência de uma literatura canadiana digna desse nome (por mais incrível que pareça, estamos aqui a princípios da década de 60), mas o que existia, existia e bem, na opinião do crítico visitante, já bem informado através de leituras exaustivas. Wilson é, também aqui, um dois primeiros críticos e homem de letras a reconhecer o que despontava artisticamente no país vizinho, e que tanto era ignorado pelos outros como pelos próprios canadianos, não rara vezes pelos que estavam directamente envolvidos, os escritores das duas línguas canadianas. Tal era aparentemente o grau de descrença na possibilidade nacional e internacional de uma literatura canadiana, que, diz Wilson algo perplexo, os escritores de língua inglesa não se liam uns aos outros, sendo o objectivo de cada um em qualquer das duas comunidades a publicação “prestigiada” em Paris ou em Nova Iorque. Como exemplo mais claro deste fenómeno na literatura canadiana de então, temos o caso do romancista John Buell, que disse a Wilson considerar serem franceses alguns dos seus romances (The Pyx, por exemplo, e como apontou o próprio autor a Wilson), e publicava em tradução na capital francesa e em Nova Iorque no original. Wilson, repita-se, recebia constantemente nessa época livros canadianos e indicações-outras provindas dessa sua sempre larga rede de contactos nos dois lados da fronteira. Tinha, como mais ninguém, conhecimento directo das obras e de nomes que só hoje são bem conhecidos, pelo menos na América do Norte, como, só para nomear uns poucos, Morley Callaghan, Marie-Claire Blais, E. J. Pratt, Mavis Gallant e André Laugevine . Creio que não será tão descabido aqui, como poderá parecer à primeira vista, afirmar que Wilson foi possivelmente uma das vozes mais importantes no lançamento dos escritores canadianos nos Estados Unidos, e muito provavelmente foi também uma voz que “impulsionou” radicalmente e ofereceu segurança a alguns desses mesmos escritores do país vizinho, que pela primeira vez nas suas carreiras e esforços viam os seus trabalhos reconhecidos nas mais prestigiadas páginas do jornalismo cultural e literário nova-iorquino.

Wilson lembra e relembra sempre em várias passos que é a favor desta convivência étnica, que caracteriza o Canadá acima de tudo. Anos mais tarde, essa realidade do mosaico societal canadiano seria oficializada por uma política aberta e de defesa do multiculturalismo do país, fazendo hoje do Canadá uma das sociedades mais abertas do mundo. Do mesmo modo, esse multiculturalismo que Wilson então chamava simplesmente a “heterogeneidade” étnica, marcaria do mesmo modo todo o discurso teórico “pós-colonial” nas universidades dos Estados Unidos a partir dos anos 80, perdurando até aos nossos dias. Significativo, neste sentido, será por certo a admiração que Edward Said, um dos mais proeminentes teóricos pós-colonialistas, manifestava por Edmund Wilson em alguns dos seus escritos. Wilson, por outro lado, toma nota do que alguém no Canadá lhe diz acerca dessa realidade multicultural, que ele tanto valoriza e apoia: essa diferenciação poderia também permitir hipocritamente a “exclusão” ou “afastamento” do poder político comunitário ou nacional de alguns desses grupos possivelmente fechados entre si. É, no entanto, insista-se, o mosaico canadiano que Wilson prefere ao melting pot do seu país. Wilson parece totalmente conciliado com a ausência de definições ou certezas absolutas acerca do que constitui ou não uma “nação” ou “nacionalidade”, vendo nessa indeterminação canadiana virtudes e liberdades, que só o multiculturalismo politicamente estabelecido e a retórica académica norte-americana viriam mais tarde a reconhecer.

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Edmund Wilson, O Canada: An American’s Notes On Canadian Culture, New York, Farrar, Strauss And Giroux, 1965. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade. Este escrito foi tirado e revisto de um longo ensaio inédito sobre a obra crítica e ensaística de Edmund Wilson. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 22 de Julho, 2016.

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