As vivências açorianas do Ramo Grande

foto Terra Lavrada De Trigo

A matriz ideológica introduzida nos Açores no século XV tem-se mantido ao longo dos tempos com o mesmo sentido de fé e esperança num mundo melhor.

Alisalda Pacheco, Terra Lavrada de Trigo

Vamberto Freitas

A minha epígrafe aqui transmite o que retirei, e foi muito, da leitura desta narrativa antropológica de Alisalda Pacheco, que foca o estudo da origem e evolução de uma parcela da vida açoriana e da sua cultura popular durante a primeira metade do século passado, tendo o Ramo Grande, da Ilha Terceira, e o seu histórico cultivo do trigo, como ponto de partida. Mesmo que a autora nunca o diga nestas suas páginas, a verdade é que Terra Cultivada de Trigo funciona para mim como se fora uma sinedóque de toda a nossa sociedade arquipelágica, historicamente uma das primeiras comunidades europeias fundadas como resultado imediato dos Descobrimentos portugueses. Por certo que o Ramo Grande tem as suas características geográficas muito próprias – foi um autêntico celeiro adentro das nove ilhas, e durante mais de 70 anos acolheu uma das maiores bases militares em Portugal, primeiro com os ingleses em 1943, e logo depois com os norte-americanos. Esqueçamos por agora a sua importância estratégica na defesa do mundo ocidental e no apoio aos seus aliados, particularmente no Médio Oriente. Não esqueço que quando Portugal “autorizou” a passagem de caças americanos em auxílio determinante durante uma das guerras nos anos 70 entre Israel e os seus inimigos árabes um estudante judeu na minha faculdade californiana veio dar-me um abraço e “agradecer” pessoalmente por ser eu o único português que ele conhecia. Fiquei perplexo, pois para mim toda essa geografia quase se transformara mais numa memória longínqua do que no meu berço natal, mas entendi a sua emoção, só que nunca lhe disse que eu era natural de uma freguesia que ficava mesmo ao lado Lajes, que meu pai tinha construído a sua casa e criado a família com o seu trabalho para os americanos, e que essa mostra de uma América imaginária no nosso quintal fazia parte fundamental da minha vida até à adolescência, apesar de eu, uma vez mais, tentar esquecer por algum tempo essas origens no processo deliberado de reinvenção da minha própria pessoa, e na construção de um futuro-outro. A ironia é talvez a grande constante da vida de nós todos, a curva na estrada quase sempre inesperada. Pertenço, como a autora deste livro, a uma geração para quem o cultivo do trigo era já pouco importante, e no nosso imaginário eram mais os aviões de guerra a aterrar e levantar voo mesmo ali ao lado, ou de pasmar quando um daqueles grandes carros americanos passavam devagarinho nas nossas estradas, ou então nos verões em que recebíamos as visitas dos nossos amigos e parentes de regresso à ilha, com as suas roupas coloridas e as suas linguagens recortadas entre o português e o inglês, os que alimentavam ainda mais o nosso fascínio generalizado por esse outro mundo. É certo que todos os açorianos viveram – vivem, ainda hoje – quase todas estas experiências de idas e vindas entre as ilhas e o mundo lá fora, mas só o Ramo Grande proporcionava esta intimidade com uma pequena América portas adentro, o seu cheiro único e sedutor despertando em nós imagens de aventura e desejo. Ninguém tinha lido o poema de Nemésio a lamentar tudo isto, e que a autora também relembra aqui, poucos teriam chorado as transformações sócio-económicas que melhoravam radicalmente as nossas vidas no Ramo Grande.

De tudo isto e de muito mais me lembrei enquanto lia estas belas páginas de Alisalda, dando-me conta naturalmente que ela própria viveu esta fase das nossas vidas nas Fontinhas, conhecendo intimamente esse passado que é parte indelével da nossa história, lançando agora um olhar sistemático através de metodologias e práticas da sua área de estudo na recuperação ou resgate possível de toda uma cultura popular que nasceu do cultivo do trigo, para depois se expandir por outras e muito maiores partes do mundo, desde a América do Norte ao Brasil, onde ainda hoje existem e estão activas Casas dos Açores. Não quero entrar aqui pela parte teórica referente à antropologia cultural, que não domino e que é amplamente abordada pela autora na primeira parte do seu livro, dando assim ao leitor o devido contexto e objectivos principais que a orientaram, e que resulta essencialmente de um estágio no Museu de Angra do Heroísmo após uma licenciatura na mesma área científica, no ISCTE. Parte fundamental deste projecto envolveu inúmeras entrevistas com homens e mulheres cuja memória guarda a experiência da vida pessoal e comunitária no Ramo Grande, algo de inestimável valor, pois esta narrativa é também construída pelo que poderemos chamar de história oral, vozes que se não forem gravadas a tempo perderemos para sempre a essência humana de se ter sido e vivido num determinado espaço e época. Diz-nos a autora que o presente livro foi (re)escrito e repensado para o leitor leigo. Só lhe devemos agradecer este gesto e esta disponibilidade para uma partilha intelectual que, estou em crer, ainda é pouco comum entre a maioria dos estudiosos a nível superior. Há dois tipos de leitores que muito desfrutarão desta leitura – os que viveram pessoalmente muito ou tudo do que aqui se reconstrói, por assim dizer, e haviam suprimido da sua memória na azáfama que é a sobrevivência “modernizada” no nosso quotidiano, e particularmente os de uma nova geração que provavelmente quase tudo ignoram do que ainda há bem poucas décadas era um mundo radicalmente diferente, subdesenvolvido em termos económicos, isolado de ilha para ilha e destas para os continentes a leste e oeste, o “primitivismo” de um tempo que a nossa geração recorda vivamente sem meios de transporte para a maioria dos cidadãos, sem os meios mais elementares de comunicação de que outros já dispunham há décadas noutros países ou regiões comparáveis à nossa. A leitura de Terra Lavrada de Trigo proporcionou-me momentos de grande prazer pela torrente de memórias que me reavivou, pelos valores que enformam as nossas pequenas comunidades, que estruturam o homem que sou, que somos, pelos ritos e tradições religiosas e profanas que ainda hoje são indissociáveis do nosso ser e estar, e que, por entre a modernização, globalizada e implacável, das ilhas no seu todo, reafirmam o nosso enraizamento enquanto se renovam na nossa diáspora, desde as festas do Espírito Santo às danças de carnaval, dois exemplos de uma herança que nos vem desde tempos imemoriais.

Oriundo de comunidades – escreve a autora, dando ênfase a esses nossos mundos no além-mar, e quanto à vida dessas primeiras gerações na América do Norte, mencionando, para minha surpresa, neste contexto, a semelhança com o que se passa numa grande cidade brasileira – pequenas e fechadas, com uma cultura padronizada, o emigrante não se revê no estonteante mundo-novo, e a maior parte dos açorianos empenha-se na comunidade e nas tradições que estão ligados. Foi o caso do culto do Espírito santo, fundado nos alvores da emigração no estado da Califórnia onde se constitui na comunidade de San Leandro em 1882 e em Point Loma, um porto baleeiro na baía de San Diego. Mais tarde, com o crescimento da população, forma-se multiplicando as irmandades e os halls (recinto onde se organizam e efectuam as Festas do Espírito Santo) por todo o estado da Califórnia… Tal como acontece na comunidade açoriana do Rio de Janeiro, os emigrantes são reservados em relação à cultura norte-americana. A distância linguística, aliada à religião anglo-saxónica, dificulta o convívio e a integração nestas sociedade mais vasta”.

Os arquivos de um povo nunca serão feitos meramente de monografias dirigidas aos pares nas universidades, tantas vezes acabando esquecidas em estantes que poderão ou não ser consultadas por futuros estudiosos. O saber especializado nada deve conter de misterioso quando comunicado em linguagens claras, e em que a informação, pensamento ou propostas de análise se aliam ao prazer do texto, como é caso de Terra Lavrada de Trigo. São trabalhos como este que quase sempre incentivam outros a perseguir em investigações e escrita sobre facetas sócio-culturais inexploradas, a desenvolver outros ângulos ou abordagens das mesmas “realidades”, ou a rever a história legada na tentativa de se entender ou clarificar um pouco mais as nossas origens – tudo o que se combinou para sermos o povo que fomos e somos, tudo o que, mesmo ideologicamente, queremos manter ou transformar.

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Alisalda Pacheco, Terra Lavrada de Trigo, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2016. Parte deste texto serve de prefácio ao presente volume.

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