O orientalismo da nossa alma e história

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Quanto a nós, permanecemos viajantes, fechados no nosso eu, suscetíveis, quem sabe, de nos transformarmos pelo contacto com a alteridade, mas não certamente por fazermos dela uma experiência profunda.

Mathias Enard, Bússola

Vamberto Freitas

Bússola, este brilhante e gigantesco mosaico de história, política, orientalismo, amor, violência, fantasia e arte pura, desde o século XIX até aos nossos dias, é a primeira ficção que leio do autor francês Mathias Enard. Ao ler este e outros grandes romances de tempos recentes lembro-me sempre da pouca visão literária e pobreza analítica por parte de alguns quando olhavam e olham o que lhes parecia ser o estado da cultura e literatura ocidentais em geral, e não só, quando uns e outros pronunciavam a morte do romance, a sua pessoalíssima exaustão assumida como condição universalizada de todos os outros, ou então a sua arrogância em pensarem-se os últimos grandes escritores possíveis. Mathias Enard não está só. O romance como género literário da contemporaneidade em nada fica atrás das grandes e marcantes narrativas do realismo desde as suas origens oitocentistas, retomou a sua grandeza temática, tendo como fundo a sociedade em que se insere, ou crescentemente zonas inteiras do globo com uma história necessariamente interligada. A osmose artística entre civilizações sempre se manifestou de todas as maneiras para quem sabe ver para além do discurso enviesado dos poderes, de ontem e de hoje, ou dos que entregaram os seus talentos e saberes de vária natureza ao serviço desses comerciantes quase sempre do roubo e da morte. Bússola não é só um grande romance do nosso tempo, todo ele construído por uma linguagem que combina uma avassaladora erudição com a fala vivíssima dos seus personagens principais. O seu desdobrado, múltiplo quotidiano reinventado leva-nos por territórios próximos ou mais afastados, marcado pela banalidade que é desde sempre a memória e o desejo de qualquer ser humano, a busca de ou indiferença perante o amor, o medo da morte que nos avisa constantemente a todos, a ambição dando lugar à solidão num quarto fechado ou na imensidão de um deserto ou cidade caída e esquecida. O narrador de Bússola, na primeira pessoa, chama-se Franz Ritter, austríaco de mãe francesa, musicólogo e professor numa universidade em Viena, passando os seus dias e noites num pequeno apartamento atulhado de livros, pautas musicais e monografias, dele e dos seus colegas, enfrentando angustiadamente uma doença supostamente terminal não identificada, e durante uma noite de insónia relembra todo o seu passado como orientalista relutante, e particularmente a mulher que ama, uma judia parisiense, Sarah, que está uma vez mais a perseguir os seus estudos e descobertas filosóficas no Oriente, depois de se dedicar ao estudo profundo do tratamento do Médio Oriente nas literaturas canónicas ou marginais do Ocidente. Franz faz-me lembrar aqui o “homem subterrâneo” de Dostoiévski numa crise existencial que o leva à ira desconstrutivista de si próprio, da carreira universitária, e sobretudo dos colegas e antecessores a partir do século XIX, uma vez mais, que estudaram obcecadamente a cultura e artes dos povos árabes e persas, e que inevitavelmente os europeus desde Beethoven e todos os grandes nomes antes e depois do seu tempo aproveitariam para as suas próprias produções, na música, na literatura e nas artes plásticas. Fernando Pessoa – e muita história portuguesa – está aqui também nas linhas mestras de Mathias Enard, o outro em nós, nós no outro, contextualizando o afastamento presente na luta hiper-violenta entre nós e eles, O Ocidente a pagar agora com os mesmo ferros, reais e simbólicos, com que havia olhado, retalhado e colonizado todos esses povos.

As duas palavras-chave em Bússola são orientalismo e alteridade. A grande arte literária ou é uma projecção intimista do seu narrador, ou então será muito pouco, um escrito banal. Franz Ritter está frente a frente não só ao seu possível fim, como projecta a sua própria pessoa nos acontecimentos que abalam o nosso mundo, uma Europa que continua a negar o seu profundo relacionamento com o Médio Oriente, e um Médio Oriente enraivecido, sobressaindo a imagem de jovens idos de cá para lá, com um facão na mão e segurando pelo pescoço os seus prisioneiros prestes a serem degolados vagarosamente e à nossa frente. Franz leva-nos nas suas próprias viagens a cidades que agora estão totalmente destruídas, a morte à solta em cada um dos seus recantos, Aleppo e Palmira na Síria relembradas na sua majestade artística e na sua civilidade, o ponto outrora de encontro entre estudiosos e amantes europeus em busca de saber e aventura. O rol de nomes dessas personalidades, das suas grandes obras literárias ou em todas as outras artes é deveras avassalador para o leitor, mas a prosa de Mathia Enard é de tal ordem e viveza que nos transporta de página a página, de cena a cena, de personagem a personagem como num sonho de choro, medo e riso, depois tudo lembrado integralmente quando atravessamos o espelho fantástico em que vimos esse outro e, naturalmente, a nossa própria imagem. O narrador Franz Ritter está aqui quase num delírio de saudade pela mulher que diz amar, uma saudade do que nunca foi nem aconteceu a maior parte do tempo, e que está sempre a oriente em busca de si própria, a intimidade de um e outro contida apenas nessa troca esporádica de palavras, os seus estados de alma apenas insinuados num ou noutro passo das suas cartas, entre notícias de andanças e trabalhos em curso. Aliás, a palavra “saudade” entra proeminentemente na sua prosa, os portugueses e a sua história no Oriente um chamamento quase constante, assim como o orientalismo de Fernando Pessoa, particularmente através de Álvaro de Campos e do seu Opiário, “Porque há um Oriente para lá do Oriente, vive no sonho dos viajantes de outrora, na fantasia da vida colonial, no sonho cosmopolita e burguês de ancoradouros e barcos a vapor”. O melhor e o pior de nós, quanto ao nosso próprio orientalismo, está aqui presente, Camões por um lado, Mouzinho de Albuquerque no outro extremo. A certa altura Franz diz, contra certos etimologistas, que “Eu pelo meu lado, pensava que a saudade, como a palavra indica, é um sentimento também árabe e iraniano, e que os jovens Pasdars da ilha, por muito que não sejam originários de Shiraz ou de Teerão e não vão a casa todas as noites, devem recitar poemas à volta de uma fogueira para enganar a tristeza – não, claro, versos de Camões como Sarah empoleirada no canhão enferrujado”. Do Levante a Tibete, acompanhamos, por entre a memória e o desejo de Franz na sua fantasia amorosa com a inefável Sarah, as viagens sem fim de uma Europa a tentar desvendar os mistérios de povos que um dia fizeram as lusitanas naus navegar e chocalhar sabres em cruzadas de conquistas reais e fantasmagóricas. Para além de tudo o mais que um grande romance, como Bússola, nos oferece em estética e abrangência temática, é como se entendêssemos pela primeira vez ou nos fosse recordado que o mundo actual tem as suas raízes dos dois lados da fronteira, essa que pensamos nos separar, quando juntos sempre estivemos. O autor disse numa entrevista recente aqui em Portugal que precisamos da literatura para vermos para além da violência nas guerras do Médio Oriente que assolam o nosso presente, e nos ameaçam a todos. Que bom ouvir de um mestre que, afinal, a literatura serve ainda para muito mais do que alimentar certas “teorias” académicas e outros discursos inconsequentes.

A questão do orientalismo nos estudos e sobretudo nas artes ocidentais vem de longe, essencialmente a criação de imagens do outro, a maior das vezes num acto de aberta inferiorização, ou então ao serviço dos vários poderes europeus, e depois norte-americanos, que financiaram e financiam os mais diversos institutos de investigação histórica e cultural desses povos, muitas vezes por académicos que nem sequer as suas línguas falam ou entendem. Bússola, por outro lado, apresenta-nos ao melhor dessas civilizações a oriente – a sua literatura e artes várias, particularmente a música. Edward Said, o falecido escritor palestiniano, que foi professor de literatura na Columbia University, em Nova Iorque, e um distinto assessor de Yasser Arafat, foi também, sem qualquer dúvida, o intelectual que mais colocou em causa, e definitivamente, tanto esses estudos como a representação dos povos fora da Europa nas diversas literaturas continentais. Num passo de grande humor e empatia meio escondida, Franz Ritter trá-lo ao baile, como quem convoca um djinn d’As Mil E Uma Noites.

… O Lobo apareceu – diz Franz, deliciado – no deserto gelado no meio do rebanho: Edward Said. Era como invocar o Diabo num convento de carmelitas… Bilger, horrorizado com a ideia de poder ser associado a qualquer orientalismo, começou imediatamente uma autocrítica envergonhada, renegando pai e mãe; François-Marie e Julie tinham uma posição mais matizada, reconhecendo embora que Said havia colocado uma questão incendiária mas pertinente, a das relações entre saber e poder no Oriente – eu não tinha opinião, e continuo, julgo, sem a ter; Edward Said era um excelente pianista, escreveu sobre música e criou com Daniel Barenboim a orquestra West-ostlicher Divan gerida por uma fundação com sede na Andaluzia, onde se pugna por preservar a beleza na partilha e na diversidade”.

O poder das ideias e da arte. Literatura contra a violência, a literatura como partilha entre civilizações, a representação sabedora da nossa própria alteridade, ou a busca desse outro em nós. Afinal, a questão da identidade continua a fornecer às grandes obras o seu ponto de partida e de chegada. Bússola mereceu o grande Prémio Goncourt. Merece agora a leitura de quem não tem medo dos mil e um espelhos que reflectem todo o nosso ser, de quem na arte ainda alimenta a mente e a alma.

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Mathias Enard, Bússola (tradução de Ana Cristina Leonardo), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 30 de Setembro, 2016.

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Avenida dos sonhos esquecidos

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A Avenida da Liberdade, em Lisboa, é emblemática desta nova sociedade, com as inúmeras lojas de luxo… a coexistirem com o exército de vencidos da vida que, à noite, dormem nos vãos de entrada.

Eduardo Paz Ferreira, Por Uma Sociedade Decente

Vamberto Freitas

Não queria de modo algum fazer aqui ligações ou comparações despropositadas, mas vou tentar seguir, nestas primeiras linhas, uma das técnicas ou chamamentos textuais de Eduardo Paz Ferreira, neste como noutros livros seus dos tempos mais recentes. É daí também que nos vem o prazer da sua prosa, a contínua descompressão numa leitura que combina a mais séria argumentação e documentação que o autor pratica quando nos cita um romance, uma canção, ou cenas memoráveis dos seus filmes preferidos. Quando li o passo que transcrevo em parte como epígrafe desta minha leitura de Por Uma Sociedade Decente veio-me de imediato à mente uma canção americana que tinha há anos ouvido num vídeo que projectava a solidão iluminada de uma avenida em Los Angeles, provavelmente Hollywood ali ao lado, com o título de Boulevard of Broken Dreams. Por certo que a maior parte da lírica americana foi sempre individualista, em consonância com a solidão do herói ou anti-herói, a ira ou o remorso nascido do interior de cada personagem, sem que a sociedade, a Cidade na Colina, seja culpada das aflições dos sofredores, sentimentais ou não. Só que a inconsciência social e política não elimina as extrapolações que um ouvinte ou leitor poderá fazer de palavras cantadas ou escritas. A verdade é que é precisamente este murmúrio da dor e da perdição o que mais caracteriza as nossas sociedades de hoje, em que o luxo das avenidas convive desafiadoramente com a miséria, os centros iluminados citadinos como que a reafirmar que a vida é assim – e não há alternativa. Pensei durante anos que isto era uma particularidade da ideologia ou mundividência exclusivamente norte-americana, mas hoje sei, sabemos, que praticamente toda a estrutura do poder no Ocidente não só alinha nesta radical visão coisificada do Homem, a Avenida da Liberdade em Lisboa sendo só mais uma metonímia, por assim dizer, do que nos querem fazer acreditar ser o destino, o rumo traçado por supostas leis económicas e financeiras inquestionáveis. É uma espécie de Fado agora mundial, mas ruidoso e sem a arte de uma voz ou guitarra da cidade branca à beira-Tejo. Eduardo Paz Ferreira não só sabe disto, como insiste em ser uma das pouquíssimas vozes dissonantes num coro que se reduz a recitar o que lhe compuseram e ordenaram que cantasse como se de arte maior e universalmente aclamada se tratasse. Só que ele sabe também que o desvio na pauta da nossa vivência é real, profundo e, até, mortífero. Mata o corpo, mata o sonho, por assim dizer, mata a alma, que por natureza nunca deixará de procurar a sua salvação, o seu poiso. É essa interpretação que faço da leitura sublinhada deste livro. As palavras, ditas ou cantadas como expressão de um homem ou mulher a sós com o seu desespero, tornam-se, nos casos raros, em arte literária, e quando isso acontece falam de nós e para nós. “Boulevard of Broken Dreams/Avenida dos Sonhos Perdidos:Caminho pela estrada solitária/a única que alguma vez conheci/Não sei aonde nos leva/Mas é o meu lar e por ela vou indo sozinho.

Se utilizo aqui a imagem da Avenida da Liberdade, ao mesmo tempo banal e forte no seu simbolismo de grandeza e miséria, é porque creio ser uma outra síntese perfeita do que levou Eduardo Paz Ferreira a escrever Por Uma Sociedade Decente. Em qualquer regime sócio-político não haverá crítica mais abaladora da que vem de dentro, da que surge de um interveniente ou autor que faz parte do sistema em vigor, neste caso um professor catedrático numa área tão significante e actuante como Direito Financeiro e Económico, e muito especialmente como intelectual público lido e ouvido frequentemente pelas forças vivas do nosso país. A presente obra contém um ou outro gráfico, um pouco de estatística para comprovar certas afirmações, mas a leitura que nos proporciona está, página a página, marcada pela elegância e clareza da sua linguagem, pela convocação da mais ampla literatura e artes da nossa e de outras línguas e culturas, tudo o que sempre caracterizou a grande prosa sócio-histórica sobre um país – ou, como neste caso, todo um continente em que estamos integrados – e a sua época, os olhares e as reflexões que tanto se dirigem aos que temos por especialistas em tudo que diz respeito ao rumo de uma sociedade, como aos seus concidadãos formados noutras áreas mas conscientes do mundo que os rodeia, da condição humana que lhes foi dado conhecer e viver em directo. A linguagem corrompida, diria George Orwell, nasce de realidades corrompidas, ou então tenta corromper, através da mentira e outros subterfúgios retóricos, a comunidade a que pertence. Ler Eduardo Paz Ferreira, para além da apreciação estética em que de repente topamos a citação de uma canção, as palavras de um personagem ou uma cena teatral ou cinematográfica que recordam o melhor dito ou a verdade humana é sobretudo dar-nos conta de que um cidadão razoavelmente informado e formado não deve deixar passar ao lado o que lhe dizem, e muito menos o que lhe fazem ou resulta de decisões eminentemente societaís, no sentido amplo, weberiano. Se lembrarmos que a grande democracia norte-americana, por exemplo, foi pensada e concretizada essencialmente por um pequeno grupo de lavradores, artesãos e autodidatas que nunca haviam pisado uma universidade, que conduziram uma revolução e depois venceram uma guerra contra a mais desenvolvida monarquia no mundo é nunca nos deixarmos levar por uma casta pós-moderna de falsificadores supostamente iluminados pelas suas próprias teorias políticas e económicas, e que têm a vasta humanidade na conta de servos que se devem contentar com as côdegas que de quando em quando caiem das mesas dos seus banquetes. Paz Ferreira não contesta neste livro as virtudes da liberdade e da livre iniciativa, contesta, isso sim, tudo o que leva à acumulação obscena de riqueza sem redistribuição equitativa por quem a produz e sustenta. É esta a “desigualdade” que ele diz, num dos capítulos deste livro, “que mata as pessoas, a desigualdade que mata as economias”. Da criação e ascensão do Estado Social à presente selvajaria bolsista, o autor dá-nos um historial sintético, em que não rejeita a palavra “sonho” como motor e motivação para que as elites regressem às origens da decência e do bem-estar comum, porventura para uma Avenida da Liberdade com as lojas de marca e vaidade, mas também sem desabrigados ou esfomeados. A sua ética não vem da advocacia de sistemas radicalmente alternativos, mas sim da bondade das próprias instituições democráticas, e muito especialmente da Igreja Católica e do Papa Francisco, cujos pronunciamentos são aqui relembrados, não para espalhar culpas, mas sim para relembrar aos poderosos as suas origens políticas abrilistas e responsabilidades comunitárias. O presente estado da sociedade portuguesa é visto e analisado adentro da mais vasta realidade continental, nunca pondo em causa a União Europeia, mas sim os caminhos financeiros e ideológicos por ela percorridos, particularmente a partir dos anos 70, ou a partir do que ele chama a dada altura nestas páginas de “falácia neoliberal… constantemente propagandeada, através do muito oleado sistema de controlo da comunicação social e das faculdades de economia, de que eventuais crises são uma fatalidade menor associada ao sistema capitalista, sem grande expressão no contexto dos enormes benefícios”.

Acontece que a minha leitura de Por Uma Sociedade Decente foi seguida pela imersão num dos grandes romances norte-americanos publicado há poucos meses e com o título feroz de Cidade Em Chamas, de Garth Risk Hallberg. Nova Iorque na fatídica noite do seu apagão em Julho de 1977, a cidade de Wall Street financeiramente falida, governada tanto pela criminalidade dos bastidores como pela de rua. É uma representação artística sem igual na literatura do grande país, uma cidade tornada símbolo e metáfora de todo um sistema à deriva. Estamos no auge do movimento punk, e um pequeno grupo que se auto-denomina de Pós-Humanistas diverte-se durante as noites incendiando prédios decrépitos e abandonados. Em vez de serem procurados pela polícia são aplaudidos e até incentivados secretamente por uma multinacional dedicada à grande construção, à gentrificação luxuosa de guetos, puxando para as novas margens ainda mais afastadas o resto da humanidade. Quando terminamos as suas mil páginas na tradução portuguesa, ninguém vai para cadeia, prosperam os construtores de uma nova sociedade, retiram-se para a obscuridade os rebeldes sem casa nem causa. O romance pode ser lido como uma peça de época, mas isso seria redutor e falso – é, repita-se, uma representação multifacetada de um outro mosaico da humanidade a saque, ou ainda de como chegamos às sociedades actuais, e sobretudo o que lhes poderá acontecer num Apocalipse que parece anunciado.

É claro que este livro de Eduardo Paz Ferreira não é nem um romance nem pretende espelhar o pior em nós. Muito pelo contrário. Por Uma Sociedade Decente é mais uma obra de um pensador e escritor que não se conforma com a miséria presente do seu país, e muito menos aceita essa fatalidade de sermos permanentemente os servidores obedientes e empobrecidos até à fome de poderosas forças nacionais e exteriores, que já decidem todo o nosso dia-a-dia. Trata-se, apesar do negrume que sobressai da realidade portuguesa dos nossos dias, de um gesto optimista e absolutamente convencido de que a razão e o saber acumulados de séculos acabarão por prevalecer. As suas últimas palavras, aliás, reafirmam que a tecnologia, se guiada por políticas conscientes do bem-comum não nos oprime nem nos retira o sentido de vida. A decência reivindicada pelo autor é simplesmente o alargamento das nossas liberdades e o combate definitivo à fome e à marginalidade de boa parte dos nossos concidadãos.

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Eduardo Paz Ferreira, Por Uma sociedade Decente: começar de novo vale a pena, Lisboa, Marcador, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 23 de Setembro, 2016.

Quando Nova Iorque se tornou outra metáfora da pós-modernidade

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Nicky tinha razão: só se conseguia compreender verdadeiramente o Pós-Humanismo depois de ver aquelas garrafas de fogo a sibilarem umas atrás das outras pelos ares… Ou melhor: imaginava o que ‘devia’ sentir, mas não sabia ao certo o que ‘sentia’.

Garth Risk Hallberg, Cidade Em Chamas

Vamberto Freitas

Resumir o conteúdo, os temas ou as personagens predominantes numa obra como este Cidade Em Chamas, de Garth Risk Hallberg, com mais de mil páginas na tradução portuguesa, é possível mas não aconselhável num contexto que quero que seja mais um mini-ensaio do que uma recensão. Terei de dizer, no entanto, que se trata de um primeiro grande romance de um autor nascido em 1978, ou seja, apenas um ano após a decorrência de toda a trama e tempo histórico-ficccional situado na cidade de Nova Iorque durante os dias do inesquecível apagão geral, que aconteceu na noite de 13 de Julho de 1977. Por essa altura eu estava formado e a dar aulas há mais ou menos três anos, e raramente visitava ou me passeava na baixa de Los Angeles, no outro lado do continente, ali a pouca distância, não necessariamente por medo mas provavelmente pela indiferença ante o espectáculo humano que lá se vivia, existia, ou simplesmente se arrastava de vitrine em vitrine, de jardim em jardim, de miséria em miséria. Se escrevo assim é porque é precisamente estes cenários da comédia e tragédia universais que permanecem até hoje na minha memória, e num tempo que ser português conscientemente político, mesmo que numa outra pátria ao longe, era cultivar outros sonhos e fazer crer que a terra natal acabava de iniciar a sua libertação rumo a uma sociedade que não tinha necessariamente a América como modelo, e que despertava em nós a crença que ainda seria possível reconstruir um país com base no republicanismo francês – liberdade, fraternidade, igualdade. Sabemos todos muito bem que antes dos dias presentes tudo isto já se tinha mais ou menos evaporado da alma e da mente, ou pelo menos da realidade em que todos vivemos, na descrença mais ou menos colectiva em que estão submersas todas as sociedade que nos são próximas. Que um escritor tão jovem, nascido na Louisiana e criado e formado na Carolina do Norte, no Sul profundo, é capaz de transfigurar o que então vivíamos sem ver ou entender as implicações de uma humanidade de olhos baços e caras sem outros sinais que não fossem a pura sobrevivência quotidiana, é um acto muito próximo do que se poderia chamar, em arte literária, de genial. Cidade Em Chamas saiu com grande alarde mediático nas melhores publicações do seu país, mas desta vez com a razão e o entusiasmo de quem se sente grato perante uma obra que, a um tempo, recupera muito do que se pensava perdido – a grande narrativa realista que tem como fundo a sociedade representada por uma variedade de personagens representantes dos mais evidentes estratos sócio-profissionais, desde os desabrigados aos magnatas industrias com poiso nos arranha-céus e salas milionárias. Para além do prólogo, toda a narrativa está na terceira pessoa ou em discurso directo, mas em páginas sucessivas e salteadas suspeitamos que um outro protagonista está a fornecer toda a informação a que o leitor tem acesso. De resto, o autor demonstra que ainda é possível a grande literatura sem obscuros jogos de linguagens tão queridas das academias ou dos pseudo-teóricos, como num mosaico da diversidade humana e social dos tempos modernos e pós-modernos, cada personagem, na sua vivência observada e descrita, e ainda mais na escalpelização do seu interiorismo, torna-se como que intimamente conhecida e inevitável ponto de reflexão dos seus leitores. É certo que desde Tom Wolfe a Jonathan Frazen a grande narrativa urbana ou de classe social esteve quase sempre no seu melhor, ou pelo menos nas suas históricas ambições. Garth Risk Halberg, que até à data havia só publicado a novela A Field Guide to the North American Family, creio que pouco conhecida, vai agora muito além destes seus mais conhecidos pares.

O tempo de Cidade Em Chamas reduz-se a esses poucos dias que antecedem e seguem a referida noite na escuridão e paralisação de toda a cidade, com as habituais analepses, que consistem frequentemente do historial de personagens e suas famílias, terminando com um email datado de Agosto de 2003, quando tudo já passou há muitos anos, mas funciona como um resumo ou sugestão do que entretanto havia acontecido às figuras principais, lembrando ou expondo ao leitor que as suas prováveis expectativas, quanto a cada uma das vidas aqui inventadas, ou não se concretizaram, ou então o fim ou a continuidade da vida seguiu o seu caminho natural. O que nos fascina durante toda a leitura dos mais inesperados incidentes que envolvem uns e outros, como indivíduos ou como grupo, é a audácia narrativa de juntar a marginalidade humana na mesma rua ou bairro com aqueles que nos bastidores vão decidindo a sorte de toda uma metrópole, ou então como uma classe social, mesmo sem ter consciência da seu lugar na sociedade, está irremediavelmente ligada ou em colaboração com o melhor ou o pior que se possa pensar sobre a vida pública. O romance abre com uma tentativa de assassínio à pistola em Central Park, e como vítima tem Samantha Cicciaro, filha única e desavinda de um italiano-americano que dedicou a vida a desenvolver e a oferecer espectáculos de fogo-de-artífico à cidade e arredores. É certo que o vasto leque de personagens e os seus relacionamentos poderão parecer forçados. É este incidente, no entanto, que faz parte da vida diária de uma cidade literalmente falida e corrompida por todo o tipo de interesses financeiros, com Wall Street ali no seu coração, que proporciona o momento que permite ao narrador juntar os que são próximos da vítima, ou que a ela chegaram por via de conhecimento ou relacionamentos de vária natureza. Samantha, ou Sam como é chamada, estava desde há algum tempo a acompanhar um grupo de jovens punk auto-denominado politicamente de Pós-Humanistas, e que ocupam um edifício decrépito e abandonado, tendo eles num passado recente constituído a banda Ex Post Facto, um dos mais conhecidos actos da música apocalíptica nesta grande metrópole aqui reinventada e literalmente a arder no calor de Julho e nos incêndios nocturnos provocados deliberadamente num acto supostamente “ideológico”. O líder da banda havia sido um Billy, ou William Hamilton-Sweeny, agora só lembrado pelos ex-colegas das noites barulhentas ou por uma ou outra fã, artista plástico, viciado em drogas pesadas e tímido homossexual, mas que acontece ser filho e um dos afastados herdeiros de uma das mais poderosas famílias detentoras de uma multinacional da grande construção e negócios menos claros, precisamente quem está interessado na reconstrução de Nova Iorque, pegar em guetos e fazer deles uma geografia habitacional exclusiva. Isso mesmo – o leitor vai esquecendo se está a contemplar um quadro à Picasso sobre a arte pela arte, ou sobre as origens da beleza e do horror, do princípio e do fim, Nova Iorque no seu pior décadas antes, ou no seu esplendor actual de riqueza e beleza guardada só para os que desde sempre olham a cidade do alto dos seus riquíssimos aposentos, o restante espaço reservado aos seus servidores, aos caçadores anónimos de sonhos, aos que, como no famoso quadro de Edward Hopper, tomam o seu café, ou seja lá o que for, a meio da noite, sentados juntos mas na mais abismal alienação. O apagão parece um interlúdio de escuridão na travessia do purgatório que é vida destes personagens, para renascer como o paraíso dos escolhidos de Deus ou do Diabo. No fim de Cidade Em Chamas ninguém foi para a prisão, a sorte de Samantha na sua coma induzida não fica clara, e a única morte foi a de Williams, desde o início anunciada pelo abuso das drogas e pela Sida, que depressa se faria sentir no mundo inteiro. As últimas páginas, em jeito de posfácio, é um relato de um dos seus sobrinhos sobre a primeira exposição das obras do irmão da sua mãe, enquanto todos os outros se encontram no vaivém da vida, perseguindo a salvação ou a fantasia de que é feita esta sociedade, estas sociedades. Jay Gatsby é lembrado aqui em directo pelo menos uma vez.

A riqueza referencial de Cidade Em Chamas é quase indescritível, desde a própria literatura norte-americana e europeia (os intelectuais franceses da época são quase todos enumerados, desde Derrida a Foucault), filmes como The French Connection (ban! bang!, resumia a um amigo Edmund Wilson o último filme que viu no contexto de uma sociedade que o desgostava desde há muito) como representações do reinante comércio da violência e da morte, e muito especialmente a música rebelde da época, incluindo os Ramones, Sex Pistols, The Clash, e Patti Smith, esta com o destaque com que se reproduz algumas das suas letras e se especula sobre os seus significados e estados de alma. De resto, e muito ao contrário de outras obras comparáveis destes anos mais recentes, a ficção presente recria ou reinventa uma sociedade na sua infindável pluralidade étnica (um dos protagonistas é um intelectual negro, professor e aspirante a escritor, de nome Mercer Goodman, oriundo da parte sul do país), assim como toda a estrutura de famílias de várias classes sociais e religiosidade activa ou passiva.

Nova Iorque, aqui, não é só uma cidade – é todo um mundo urbano em qualquer parte, a sua história comummente vivida nas mais afastadas geografias, os seus sonhos e pesadelos, nas variantes de cada um destes personagens, um espelho do que suspeito serem os seus leitores em toda a parte. A uni-los só a sede de que a vida tem de ser mais do que um incêndio, mais do que um claustrofóbico e solitário apartamento, ou a arte literária como fonte de prazer e identidade na ausência de outras crenças. Cidade Em Chamas é um grande romance, e algo mais. É o mais colorido e gigantesco quadro da vida nestes que são os nossos dias.

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Garth Risk Hallberg, Cidade Em Chamas (tradução de Tânia Ganho), Lisboa, LeYa/Teorema, 2015. Publicado na minha coluna literária “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, de 16 de Setembro, 2016