Quando Nova Iorque se tornou outra metáfora da pós-modernidade

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Nicky tinha razão: só se conseguia compreender verdadeiramente o Pós-Humanismo depois de ver aquelas garrafas de fogo a sibilarem umas atrás das outras pelos ares… Ou melhor: imaginava o que ‘devia’ sentir, mas não sabia ao certo o que ‘sentia’.

Garth Risk Hallberg, Cidade Em Chamas

Vamberto Freitas

Resumir o conteúdo, os temas ou as personagens predominantes numa obra como este Cidade Em Chamas, de Garth Risk Hallberg, com mais de mil páginas na tradução portuguesa, é possível mas não aconselhável num contexto que quero que seja mais um mini-ensaio do que uma recensão. Terei de dizer, no entanto, que se trata de um primeiro grande romance de um autor nascido em 1978, ou seja, apenas um ano após a decorrência de toda a trama e tempo histórico-ficccional situado na cidade de Nova Iorque durante os dias do inesquecível apagão geral, que aconteceu na noite de 13 de Julho de 1977. Por essa altura eu estava formado e a dar aulas há mais ou menos três anos, e raramente visitava ou me passeava na baixa de Los Angeles, no outro lado do continente, ali a pouca distância, não necessariamente por medo mas provavelmente pela indiferença ante o espectáculo humano que lá se vivia, existia, ou simplesmente se arrastava de vitrine em vitrine, de jardim em jardim, de miséria em miséria. Se escrevo assim é porque é precisamente estes cenários da comédia e tragédia universais que permanecem até hoje na minha memória, e num tempo que ser português conscientemente político, mesmo que numa outra pátria ao longe, era cultivar outros sonhos e fazer crer que a terra natal acabava de iniciar a sua libertação rumo a uma sociedade que não tinha necessariamente a América como modelo, e que despertava em nós a crença que ainda seria possível reconstruir um país com base no republicanismo francês – liberdade, fraternidade, igualdade. Sabemos todos muito bem que antes dos dias presentes tudo isto já se tinha mais ou menos evaporado da alma e da mente, ou pelo menos da realidade em que todos vivemos, na descrença mais ou menos colectiva em que estão submersas todas as sociedade que nos são próximas. Que um escritor tão jovem, nascido na Louisiana e criado e formado na Carolina do Norte, no Sul profundo, é capaz de transfigurar o que então vivíamos sem ver ou entender as implicações de uma humanidade de olhos baços e caras sem outros sinais que não fossem a pura sobrevivência quotidiana, é um acto muito próximo do que se poderia chamar, em arte literária, de genial. Cidade Em Chamas saiu com grande alarde mediático nas melhores publicações do seu país, mas desta vez com a razão e o entusiasmo de quem se sente grato perante uma obra que, a um tempo, recupera muito do que se pensava perdido – a grande narrativa realista que tem como fundo a sociedade representada por uma variedade de personagens representantes dos mais evidentes estratos sócio-profissionais, desde os desabrigados aos magnatas industrias com poiso nos arranha-céus e salas milionárias. Para além do prólogo, toda a narrativa está na terceira pessoa ou em discurso directo, mas em páginas sucessivas e salteadas suspeitamos que um outro protagonista está a fornecer toda a informação a que o leitor tem acesso. De resto, o autor demonstra que ainda é possível a grande literatura sem obscuros jogos de linguagens tão queridas das academias ou dos pseudo-teóricos, como num mosaico da diversidade humana e social dos tempos modernos e pós-modernos, cada personagem, na sua vivência observada e descrita, e ainda mais na escalpelização do seu interiorismo, torna-se como que intimamente conhecida e inevitável ponto de reflexão dos seus leitores. É certo que desde Tom Wolfe a Jonathan Frazen a grande narrativa urbana ou de classe social esteve quase sempre no seu melhor, ou pelo menos nas suas históricas ambições. Garth Risk Halberg, que até à data havia só publicado a novela A Field Guide to the North American Family, creio que pouco conhecida, vai agora muito além destes seus mais conhecidos pares.

O tempo de Cidade Em Chamas reduz-se a esses poucos dias que antecedem e seguem a referida noite na escuridão e paralisação de toda a cidade, com as habituais analepses, que consistem frequentemente do historial de personagens e suas famílias, terminando com um email datado de Agosto de 2003, quando tudo já passou há muitos anos, mas funciona como um resumo ou sugestão do que entretanto havia acontecido às figuras principais, lembrando ou expondo ao leitor que as suas prováveis expectativas, quanto a cada uma das vidas aqui inventadas, ou não se concretizaram, ou então o fim ou a continuidade da vida seguiu o seu caminho natural. O que nos fascina durante toda a leitura dos mais inesperados incidentes que envolvem uns e outros, como indivíduos ou como grupo, é a audácia narrativa de juntar a marginalidade humana na mesma rua ou bairro com aqueles que nos bastidores vão decidindo a sorte de toda uma metrópole, ou então como uma classe social, mesmo sem ter consciência da seu lugar na sociedade, está irremediavelmente ligada ou em colaboração com o melhor ou o pior que se possa pensar sobre a vida pública. O romance abre com uma tentativa de assassínio à pistola em Central Park, e como vítima tem Samantha Cicciaro, filha única e desavinda de um italiano-americano que dedicou a vida a desenvolver e a oferecer espectáculos de fogo-de-artífico à cidade e arredores. É certo que o vasto leque de personagens e os seus relacionamentos poderão parecer forçados. É este incidente, no entanto, que faz parte da vida diária de uma cidade literalmente falida e corrompida por todo o tipo de interesses financeiros, com Wall Street ali no seu coração, que proporciona o momento que permite ao narrador juntar os que são próximos da vítima, ou que a ela chegaram por via de conhecimento ou relacionamentos de vária natureza. Samantha, ou Sam como é chamada, estava desde há algum tempo a acompanhar um grupo de jovens punk auto-denominado politicamente de Pós-Humanistas, e que ocupam um edifício decrépito e abandonado, tendo eles num passado recente constituído a banda Ex Post Facto, um dos mais conhecidos actos da música apocalíptica nesta grande metrópole aqui reinventada e literalmente a arder no calor de Julho e nos incêndios nocturnos provocados deliberadamente num acto supostamente “ideológico”. O líder da banda havia sido um Billy, ou William Hamilton-Sweeny, agora só lembrado pelos ex-colegas das noites barulhentas ou por uma ou outra fã, artista plástico, viciado em drogas pesadas e tímido homossexual, mas que acontece ser filho e um dos afastados herdeiros de uma das mais poderosas famílias detentoras de uma multinacional da grande construção e negócios menos claros, precisamente quem está interessado na reconstrução de Nova Iorque, pegar em guetos e fazer deles uma geografia habitacional exclusiva. Isso mesmo – o leitor vai esquecendo se está a contemplar um quadro à Picasso sobre a arte pela arte, ou sobre as origens da beleza e do horror, do princípio e do fim, Nova Iorque no seu pior décadas antes, ou no seu esplendor actual de riqueza e beleza guardada só para os que desde sempre olham a cidade do alto dos seus riquíssimos aposentos, o restante espaço reservado aos seus servidores, aos caçadores anónimos de sonhos, aos que, como no famoso quadro de Edward Hopper, tomam o seu café, ou seja lá o que for, a meio da noite, sentados juntos mas na mais abismal alienação. O apagão parece um interlúdio de escuridão na travessia do purgatório que é vida destes personagens, para renascer como o paraíso dos escolhidos de Deus ou do Diabo. No fim de Cidade Em Chamas ninguém foi para a prisão, a sorte de Samantha na sua coma induzida não fica clara, e a única morte foi a de Williams, desde o início anunciada pelo abuso das drogas e pela Sida, que depressa se faria sentir no mundo inteiro. As últimas páginas, em jeito de posfácio, é um relato de um dos seus sobrinhos sobre a primeira exposição das obras do irmão da sua mãe, enquanto todos os outros se encontram no vaivém da vida, perseguindo a salvação ou a fantasia de que é feita esta sociedade, estas sociedades. Jay Gatsby é lembrado aqui em directo pelo menos uma vez.

A riqueza referencial de Cidade Em Chamas é quase indescritível, desde a própria literatura norte-americana e europeia (os intelectuais franceses da época são quase todos enumerados, desde Derrida a Foucault), filmes como The French Connection (ban! bang!, resumia a um amigo Edmund Wilson o último filme que viu no contexto de uma sociedade que o desgostava desde há muito) como representações do reinante comércio da violência e da morte, e muito especialmente a música rebelde da época, incluindo os Ramones, Sex Pistols, The Clash, e Patti Smith, esta com o destaque com que se reproduz algumas das suas letras e se especula sobre os seus significados e estados de alma. De resto, e muito ao contrário de outras obras comparáveis destes anos mais recentes, a ficção presente recria ou reinventa uma sociedade na sua infindável pluralidade étnica (um dos protagonistas é um intelectual negro, professor e aspirante a escritor, de nome Mercer Goodman, oriundo da parte sul do país), assim como toda a estrutura de famílias de várias classes sociais e religiosidade activa ou passiva.

Nova Iorque, aqui, não é só uma cidade – é todo um mundo urbano em qualquer parte, a sua história comummente vivida nas mais afastadas geografias, os seus sonhos e pesadelos, nas variantes de cada um destes personagens, um espelho do que suspeito serem os seus leitores em toda a parte. A uni-los só a sede de que a vida tem de ser mais do que um incêndio, mais do que um claustrofóbico e solitário apartamento, ou a arte literária como fonte de prazer e identidade na ausência de outras crenças. Cidade Em Chamas é um grande romance, e algo mais. É o mais colorido e gigantesco quadro da vida nestes que são os nossos dias.

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Garth Risk Hallberg, Cidade Em Chamas (tradução de Tânia Ganho), Lisboa, LeYa/Teorema, 2015. Publicado na minha coluna literária “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, de 16 de Setembro, 2016

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