Avenida dos sonhos esquecidos

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A Avenida da Liberdade, em Lisboa, é emblemática desta nova sociedade, com as inúmeras lojas de luxo… a coexistirem com o exército de vencidos da vida que, à noite, dormem nos vãos de entrada.

Eduardo Paz Ferreira, Por Uma Sociedade Decente

Vamberto Freitas

Não queria de modo algum fazer aqui ligações ou comparações despropositadas, mas vou tentar seguir, nestas primeiras linhas, uma das técnicas ou chamamentos textuais de Eduardo Paz Ferreira, neste como noutros livros seus dos tempos mais recentes. É daí também que nos vem o prazer da sua prosa, a contínua descompressão numa leitura que combina a mais séria argumentação e documentação que o autor pratica quando nos cita um romance, uma canção, ou cenas memoráveis dos seus filmes preferidos. Quando li o passo que transcrevo em parte como epígrafe desta minha leitura de Por Uma Sociedade Decente veio-me de imediato à mente uma canção americana que tinha há anos ouvido num vídeo que projectava a solidão iluminada de uma avenida em Los Angeles, provavelmente Hollywood ali ao lado, com o título de Boulevard of Broken Dreams. Por certo que a maior parte da lírica americana foi sempre individualista, em consonância com a solidão do herói ou anti-herói, a ira ou o remorso nascido do interior de cada personagem, sem que a sociedade, a Cidade na Colina, seja culpada das aflições dos sofredores, sentimentais ou não. Só que a inconsciência social e política não elimina as extrapolações que um ouvinte ou leitor poderá fazer de palavras cantadas ou escritas. A verdade é que é precisamente este murmúrio da dor e da perdição o que mais caracteriza as nossas sociedades de hoje, em que o luxo das avenidas convive desafiadoramente com a miséria, os centros iluminados citadinos como que a reafirmar que a vida é assim – e não há alternativa. Pensei durante anos que isto era uma particularidade da ideologia ou mundividência exclusivamente norte-americana, mas hoje sei, sabemos, que praticamente toda a estrutura do poder no Ocidente não só alinha nesta radical visão coisificada do Homem, a Avenida da Liberdade em Lisboa sendo só mais uma metonímia, por assim dizer, do que nos querem fazer acreditar ser o destino, o rumo traçado por supostas leis económicas e financeiras inquestionáveis. É uma espécie de Fado agora mundial, mas ruidoso e sem a arte de uma voz ou guitarra da cidade branca à beira-Tejo. Eduardo Paz Ferreira não só sabe disto, como insiste em ser uma das pouquíssimas vozes dissonantes num coro que se reduz a recitar o que lhe compuseram e ordenaram que cantasse como se de arte maior e universalmente aclamada se tratasse. Só que ele sabe também que o desvio na pauta da nossa vivência é real, profundo e, até, mortífero. Mata o corpo, mata o sonho, por assim dizer, mata a alma, que por natureza nunca deixará de procurar a sua salvação, o seu poiso. É essa interpretação que faço da leitura sublinhada deste livro. As palavras, ditas ou cantadas como expressão de um homem ou mulher a sós com o seu desespero, tornam-se, nos casos raros, em arte literária, e quando isso acontece falam de nós e para nós. “Boulevard of Broken Dreams/Avenida dos Sonhos Perdidos:Caminho pela estrada solitária/a única que alguma vez conheci/Não sei aonde nos leva/Mas é o meu lar e por ela vou indo sozinho.

Se utilizo aqui a imagem da Avenida da Liberdade, ao mesmo tempo banal e forte no seu simbolismo de grandeza e miséria, é porque creio ser uma outra síntese perfeita do que levou Eduardo Paz Ferreira a escrever Por Uma Sociedade Decente. Em qualquer regime sócio-político não haverá crítica mais abaladora da que vem de dentro, da que surge de um interveniente ou autor que faz parte do sistema em vigor, neste caso um professor catedrático numa área tão significante e actuante como Direito Financeiro e Económico, e muito especialmente como intelectual público lido e ouvido frequentemente pelas forças vivas do nosso país. A presente obra contém um ou outro gráfico, um pouco de estatística para comprovar certas afirmações, mas a leitura que nos proporciona está, página a página, marcada pela elegância e clareza da sua linguagem, pela convocação da mais ampla literatura e artes da nossa e de outras línguas e culturas, tudo o que sempre caracterizou a grande prosa sócio-histórica sobre um país – ou, como neste caso, todo um continente em que estamos integrados – e a sua época, os olhares e as reflexões que tanto se dirigem aos que temos por especialistas em tudo que diz respeito ao rumo de uma sociedade, como aos seus concidadãos formados noutras áreas mas conscientes do mundo que os rodeia, da condição humana que lhes foi dado conhecer e viver em directo. A linguagem corrompida, diria George Orwell, nasce de realidades corrompidas, ou então tenta corromper, através da mentira e outros subterfúgios retóricos, a comunidade a que pertence. Ler Eduardo Paz Ferreira, para além da apreciação estética em que de repente topamos a citação de uma canção, as palavras de um personagem ou uma cena teatral ou cinematográfica que recordam o melhor dito ou a verdade humana é sobretudo dar-nos conta de que um cidadão razoavelmente informado e formado não deve deixar passar ao lado o que lhe dizem, e muito menos o que lhe fazem ou resulta de decisões eminentemente societaís, no sentido amplo, weberiano. Se lembrarmos que a grande democracia norte-americana, por exemplo, foi pensada e concretizada essencialmente por um pequeno grupo de lavradores, artesãos e autodidatas que nunca haviam pisado uma universidade, que conduziram uma revolução e depois venceram uma guerra contra a mais desenvolvida monarquia no mundo é nunca nos deixarmos levar por uma casta pós-moderna de falsificadores supostamente iluminados pelas suas próprias teorias políticas e económicas, e que têm a vasta humanidade na conta de servos que se devem contentar com as côdegas que de quando em quando caiem das mesas dos seus banquetes. Paz Ferreira não contesta neste livro as virtudes da liberdade e da livre iniciativa, contesta, isso sim, tudo o que leva à acumulação obscena de riqueza sem redistribuição equitativa por quem a produz e sustenta. É esta a “desigualdade” que ele diz, num dos capítulos deste livro, “que mata as pessoas, a desigualdade que mata as economias”. Da criação e ascensão do Estado Social à presente selvajaria bolsista, o autor dá-nos um historial sintético, em que não rejeita a palavra “sonho” como motor e motivação para que as elites regressem às origens da decência e do bem-estar comum, porventura para uma Avenida da Liberdade com as lojas de marca e vaidade, mas também sem desabrigados ou esfomeados. A sua ética não vem da advocacia de sistemas radicalmente alternativos, mas sim da bondade das próprias instituições democráticas, e muito especialmente da Igreja Católica e do Papa Francisco, cujos pronunciamentos são aqui relembrados, não para espalhar culpas, mas sim para relembrar aos poderosos as suas origens políticas abrilistas e responsabilidades comunitárias. O presente estado da sociedade portuguesa é visto e analisado adentro da mais vasta realidade continental, nunca pondo em causa a União Europeia, mas sim os caminhos financeiros e ideológicos por ela percorridos, particularmente a partir dos anos 70, ou a partir do que ele chama a dada altura nestas páginas de “falácia neoliberal… constantemente propagandeada, através do muito oleado sistema de controlo da comunicação social e das faculdades de economia, de que eventuais crises são uma fatalidade menor associada ao sistema capitalista, sem grande expressão no contexto dos enormes benefícios”.

Acontece que a minha leitura de Por Uma Sociedade Decente foi seguida pela imersão num dos grandes romances norte-americanos publicado há poucos meses e com o título feroz de Cidade Em Chamas, de Garth Risk Hallberg. Nova Iorque na fatídica noite do seu apagão em Julho de 1977, a cidade de Wall Street financeiramente falida, governada tanto pela criminalidade dos bastidores como pela de rua. É uma representação artística sem igual na literatura do grande país, uma cidade tornada símbolo e metáfora de todo um sistema à deriva. Estamos no auge do movimento punk, e um pequeno grupo que se auto-denomina de Pós-Humanistas diverte-se durante as noites incendiando prédios decrépitos e abandonados. Em vez de serem procurados pela polícia são aplaudidos e até incentivados secretamente por uma multinacional dedicada à grande construção, à gentrificação luxuosa de guetos, puxando para as novas margens ainda mais afastadas o resto da humanidade. Quando terminamos as suas mil páginas na tradução portuguesa, ninguém vai para cadeia, prosperam os construtores de uma nova sociedade, retiram-se para a obscuridade os rebeldes sem casa nem causa. O romance pode ser lido como uma peça de época, mas isso seria redutor e falso – é, repita-se, uma representação multifacetada de um outro mosaico da humanidade a saque, ou ainda de como chegamos às sociedades actuais, e sobretudo o que lhes poderá acontecer num Apocalipse que parece anunciado.

É claro que este livro de Eduardo Paz Ferreira não é nem um romance nem pretende espelhar o pior em nós. Muito pelo contrário. Por Uma Sociedade Decente é mais uma obra de um pensador e escritor que não se conforma com a miséria presente do seu país, e muito menos aceita essa fatalidade de sermos permanentemente os servidores obedientes e empobrecidos até à fome de poderosas forças nacionais e exteriores, que já decidem todo o nosso dia-a-dia. Trata-se, apesar do negrume que sobressai da realidade portuguesa dos nossos dias, de um gesto optimista e absolutamente convencido de que a razão e o saber acumulados de séculos acabarão por prevalecer. As suas últimas palavras, aliás, reafirmam que a tecnologia, se guiada por políticas conscientes do bem-comum não nos oprime nem nos retira o sentido de vida. A decência reivindicada pelo autor é simplesmente o alargamento das nossas liberdades e o combate definitivo à fome e à marginalidade de boa parte dos nossos concidadãos.

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Eduardo Paz Ferreira, Por Uma sociedade Decente: começar de novo vale a pena, Lisboa, Marcador, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 23 de Setembro, 2016.

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2 thoughts on “Avenida dos sonhos esquecidos

  1. artur veríssimo Setembro 25, 2016 / 6:34 pm

    Muito bom. Foi ainda melhor ouvi-lo, na presença do autor livro. A «Cidade em chamas» é, de facto, incontornável na problemática que inspira o artigo e a obra de Paz Ferreira.

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