Eliezer ben Natan, ou a morte seguida de vida

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Os déspotas do nosso mundo têm medo dos homens que insistem em narrar as suas próprias histórias até ao fim. Querem controlar o modo como a contamos, mas não devemos deixá-los.

Richard Zimler, O Evangelho segundo Lázaro

Vamberto Freitas

Foi para mim a partir de um dos últimos capítulos de O Evangelho segundo Lázaro que me apercebi que toda a viagem desta narrativa, relatada e comentada na primeira pessoa pelo homem que a mítica cristã diz ter ser sido ressuscitado dois dias após a sua morte em Betânia, na Judeia, pelo seu amigo de infância de nome Yeshua ben Yosef, nos levava para a recriação e lembranças de um Poder exercido sobre todos os outros, da contra-natura que é o domínio de uma cultura sobre uma outra, da impostura militar e política como meio de opressão e escravidão. Certas religiões ou igrejas preferiam que a leitura de textos tido como sagrados fosse deixada aos sacerdotes, as suas parábolas, metáforas e simbolismo estando para além da compreensão dos seres comuns e razoavelmente inteligentes, pensadores desencartados. Poucos de nós, suspeito, alguma vez foi exposto na catequese da sua tradição ao ponto de vista que porventura mais esclarecedor seria – o que pensam e dizem os próprios judeus, daquele tempo e do nosso, de tudo o que levaria a Gólgota um compatriota nazareno de Lázaro, ou, ainda mais, o que possivelmente disseram, pensaram e testemunharam os que com ele conviveram e sofreram a maior convulsão do mundo antigo, os seus descendentes para sempre condenados à fúria assassina de quase todos outros? Como viu ou vê, este mesmo povo, cujos mitos da Criação são os nossos, que não falava as línguas do Poder e que fora colocado pelas circunstâncias históricas numa determinada geografia, essa que perdura no nosso imaginário como sendo o sítio genesíaco do Bem e do Mal, as figuras principais de um drama sem igual nas nossas raízes e tradição greco-romana e judaica? Tudo isto permanece fora do nosso conhecimento e sensibilidade, e é a um escritor, estou em crer, que cabe tentar preencher esses espaços em branco, em que imaginação se alia obrigatoriamente à documentação existente, quer nas páginas bíblicas quer nos documentos e objectos que continuam a ser desenterrados pelos mais variados estudiosos e ramos do saber académico. Antes e depois de chegarmos a este ponto fulcral do romance, Richard Zimler presenteia o seu leitor com alguma da melhor prosa na literatura dos nossos dias, mesmo numa tradução que depressa nos faz esquecer que a língua original em que foi escrito este livro é o inglês – a viveza metafórica e simbolista absolutamente essencial a uma grande história como esta, o inesperado dito de um personagem ou então a sua reinvenção simultaneamente seguidora e apócrifa do que sabemos ou não acerca de cada um deles, a audácia de humanizar os detentores ou inventores do mistério que é a noção de Deus e do nosso destino na vida e na morte. Aliás, a linguagem realista e descritiva é outro marco eloquente da narrativa, como que um contraponto à ofuscação de textos que nos pedem fé e não raciocínio, algo que o próprio Lázaro, nestas páginas, rejeita logo após a seu regresso à vida. A ironia e o humor fazem o resto. Lázaro perde a fé por nada ter “visto”, nada ter experimentado, de nada se lembrar daqueles dias de morte. Faz-me recordar aqui um outro grande romance, Judas, do israelita Amoz Oz – Judas perde a fé quando vê Jesus na cruz e sem salvação, enforcando-se de seguida, não pela traição que dizem ter cometido contra Jesus, mas pelo vazio de viver na ausência de qualquer crença. Zimler consegue recordar-nos de algo histórico e documentado – a convivência pacífica, que hoje nos é tão alheia, entre os mais diversos grupos étnicos e linguísticos, de crenças que iam desde o zoroastrismo persa até ao judaísmo semita e politeísmo greco-romano. Só a exploração imperial de sempre produzia a violência e o ódio, “esta necessidade – diz o narrador a dada altura – de ser o dono dos outros”.

Deixo aos estudiosos e filósofos o lado teológico desta narrativa, cinjo-me ao que constitui uma grande obra literária, como é este Evangelho segundo Lázaro. O relato informal do indefectível amigo de Yeshua/Jesus está a ser feito no exílio da ilha de Rodes, para onde foi Lázaro desde a crucificação do seu amigo, o Mar Egeu a separá-lo dos que lhe tirariam a vida para que ele nunca mais falasse de nada e de ninguém. Está a ditar as suas memórias ao neto Yaphiel porque sabe que a sua vida foi algo de extraordinário, inexplicável no momento em que sai da morte para a vida, mas restando-lhe sobretudo a memória de uma vida em família e comunidade, particularmente nos anos em que Yeshua anda a pregar por todo o Sião, desde a Galileia das suas origens à Jerusalém do seu fim, enquanto ele, Lázaro, regressa à sua profissão de ladrilhador de mosaicos nos palácios dos romanos e de judeus colaborantes com o ocupante desde há décadas, e que não respeita minimamente a identidade do povo que governa e de que extrai toda a riqueza em volta. Nada de novo aqui, outros escritores já haviam proposto ou insinuado a confusão entre pregadores, místicos e feiticeiros e a insurgência da palavra deliberada ou que resultou na denúncia de quem desafiou os sacerdotes do Templo na sua submissão ao conquistador e à sua vida absolutamente faustosa e corrupta. O que não sabemos, o narrador imagina e recria, a vida quotidiana dos que trabalham e tentam sobreviver com um mínimo de dignidade, o seu desespero calado levando à busca de misericórdia por qualquer meio ao seu alcance, a espera de um Messias a mais velha profecia do seu Livro. Lázaro, viúvo de Lia, traça-nos um retrato de minúcia psicológica e realista das suas duas irmãs, Marta, que suspeita das mais vis traições e invejas, e Miriam na sua aparente seriedade e dedicação ao bem-estar do pequeno clã, assim como Yirmi, o seu filho que o acompanha e ajuda nos seus trabalhos diários, um observador adolescente mas atento às ameaças de toda a natureza que envolve vida dos seus, cada rua de Jerusalém vigiada pelos espiões dos romanos e dos sacerdotes irados. Pelo meio, Lázaro recorda ainda outras figuras que os textos sagrados canonizaram mas nunca explicam, Pilatus aqui um arrogante governador de província sem qualquer sentido de justiça ou humanidade. Até a língua do ocupante é odiada, numa viragem de grande ironia e significado, pois seria essa mesma fala que viria a reger a nova religião no império após a morte de Yeshua, que, como se sabe, nunca conheceu ou ouviu a palavra “cristão”, muito menos de uma igreja que não poderia ser sua – nasceu, viveu e morreu judeu. Ao contrário de outras ficções da mesma temática, a figura Yehudah de Cariote, Judas, continua aqui suspeito do que viria a ser a outra mítica sobre a sua pessoa, até hoje, a traição nunca provada mas que Lázaro também suspeitava. Esta é uma narrativa que também cabe no género que consideramos o romance histórico, sendo algo mais, muito mais. Entre os factos históricos e as suposições celestiais ou de um mundo-outro estamos perante uma narrativa que parte de tudo isso para reinventar um mundo tão misterioso como plausível, tão humano como deificado. Cabe a um escritor assumidamente judeu, uma vez mais, essa reinvenção, e mesmo desconstrução da fantasia, ou do não evidente aos nossos olhos. A ética da arte literária está também aqui – nenhum leitor se esquecerá do sofrimento humano que todo um povo tem vivido desde então até hoje, o fundamento principal dessa implacável violência nada mais do que um conjunto de textos de origens mistificadas, que uns aceitam quase literalmente, outros não. A identidade de Yeshua aqui é só uma – a luta pela dignidade e justiça numa sociedade que havia sido conquistada pela força das armas e teria evoluído em exclusivo a benefício dos ricos e poderosos. Na literatura, é o ponto de vista – a perspectiva – que determina o efeito que uma obra exerce no seu leitor. Neste caso, os crentes continuarão crentes, os não-crentes ficarão agradecidos por uma inimitável tirada artística sobre os mais velhos temas da humanidade – vida e morte, amor e ódio, lealdade e traição, o sagrado e o profano. Os últimos dias de Yeshua carregam em si tudo isto, a metáfora suprema da nossa condição de sempre e em toda a parte.

Yaphiel, meu querido, – adverte Lázaro ao seu neto escritor, numa espécie de meta-narração em que se torna este romance, o contar de uma história que subverte a já conhecida, a profecia do Livro – agora que estou numa idade em que os boatos sobre as minhas falhas morais e as das minha irmãs já pouco me afetam, vou contar-te um segredo: ambas as tuas tias-avós foram apanhadas numa tempestade de areia quando atravessavam o deserto da adolescência, e essa tempestade chamava-se Yeshua. No que respeita ao narrador deste texto, deixo que sejas tu a decidir como foi que ele singrou nessa mesma tempestade avassaladora que – como se veio a verificar – acabou por lhe mudar a vida”.

Tempestade de areia” em que, supõe-se, a visão de todos fica inquestionavelmente distorcida, e enquanto se fecha os olhos perde-se o resto do cenário, o coração dessa tempestade para sempre mitificado pelos que a viveram. O Evangelho segundo Lázaro poderá não ser um romance de ideias, no sentido crítico tradicional, mas é de uma inquestionável riqueza na construção de cenários que todos conhecemos, mas não entendemos de todo. Um dos muitos momentos de bom humor e profunda humanidade neste romance é quando Lázaro duvida da sua própria morte. Não terá sido um engano das irmãs que confundiram um tempo de inconsciência com a paragem cardíaca definitiva? Yeshua diz-lhe que não, pois elas colocaram o ouvido duas vezes sobre o seu peito, não havia mais nada. Lázaro não aceita nem deixa de aceitar. Retoma a narrativa sem igual do seu amigo de infância, desde o momento em que lhe salvou de um afogamento num rio galileu, para a gratidão infinita da Miriam, a mãe de Yeshua. Esquecemos também de quem se trata nestas páginas, e vemos só homens e mulheres no seu esplendor ou fealdade humana.

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Richard Zimler, O Evangelho segundo Lázaro (tradução de Daniela Garcia), Lisboa, Porto Editora, 2016. O autor manteve aqui os nomes dos personagens em hebraico.

*Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 28 de Outubro de 2016.

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Bem-vindos à anti-utopia orwelliana

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Pediram-me para escrever um prefácio para a tradução ucraniana de ‘Animal Farm’… mas primeiro gostaria de dizer algo sobre mim mesmo e sobre as experiências que me conduziram às minhas posições políticas.

George Orwell, Ensaios Escolhidos

Vamberto Freitas

É raríssimo o escritor cujo nome – pseudónimo neste caso – vira adjectivo reconhecido de imediato, mesmo por gerações que provavelmente nunca o leram. Dizer orwelliano é dizer totalitário, levando em conta a carga semântica que a palavra carrega em si, denominando a sociedade onde a liberdade individual nunca existiu ou deixou de existir. Em volta do autor George Orwell, cujo verdadeiro nome é Eric Arthur Blair, nascido na Índia em 1903 de pais que lá prestavam serviço ao governo de sua Majestade, criou-se todo o tipo de mitos, inclusive em tudo que diz respeito às posições políticas e ideológicas que cultivou e manteve até à sua morte precoce em 1950, muito antes ainda da fama e influência discursiva que alguns dos seus romances iriam ter nos tempos que se seguiram, até hoje. O seu impulso anti-totalitário vem de longe, e poderá ter começado com o que ele viu na Birmânia aos vinte e poucos anos de idade, como membro da Polícia Imperial Indiana, tal como nos relata no ensaio “Matar Um Elefante”, quando escreve que “Quanto ao meu trabalho odiava-o mais amargamente do que seria talvez capaz de explicar. Num emprego como aquele observamos de perto o trabalho sujo do império”. Por certo que pouco depois, já em 1933, faz sair um dos seus mais famosos romances, uma alegoria e sátira sob o título de Animal Farm/O Triunfo dos Porcos, ou A Quinta dos Animais, numa edição mais recente da Antígona. O caminho para o romance que o tornaria um nome comum no mundo inteiro teve as suas origens mais directas na sua participação activa na Guerrra Civil de Espanha, onde lutou ao lado não das lendárias brigadas internacionais, mas sim integrado, juntamente com a sua mulher, na milícia trotskista do POUM, sofrendo na pele, como ele próprio deixou escrito no seu também muito conhecido e admirado Homenagem à Catalunha, publicado logo após essa sua experiência, em 1938, a perseguição mortífera que lhes foi movida pelos comunistas estalinistas integrantes da governo da República em luta contra os nacionalistas de Francisco Franco. No entanto, manteve-se um socialista democrático toda a sua vida, confessando a dada altura num destes escritos do presente George Orwell: Ensaios Escolhidos, que se identificava com a ala esquerda do Partido Trabalhista. Não deixará de ser mais do que uma mera curiosidade verificar que tudo na sua vida leva-o ao estatuto canónico que persiste e parece aprofundar-se entre os leitores da vasta aldeia global. Ainda na escola privada de Eton, que ele só conseguiu frequentar com uma bolsa governamental, o seu professor de francês foi Aldous Huxley, que poucos anos depois publicaria a nada menos seminal obra ficcional que imagina um outro tipo de totalitarismo, Admirável Novo Mundo, em 1932, assim como, já nos anos 60 publicaria o nada menos distópico Island/Ilha, sobre o qual escrevi noutra parte. O grande romance de Orwell, 1984, foi terminado em 1948, como se sabe, e o autor apenas mudou os dois últimos dígitos para chegar ao título do que se tornaria uma das mais curtas e significantes referências numa obra literária do século passado. George Orwell, pois, torna-se uma referência universal pela sua ficção, não pela prosa ensaística que produziu proficuamente ao longo da sua carreira. No entanto, a sua presença nos jornais e em revistas literárias foi sempre de uma eloquência e elegância pouco comum em escritores da sua época e com as suas bem definidas posições antes, durante e logo após a II Guerra Mundial. Sobressai de boa parte destes seus ensaios as palavras ariscas sobre os seus colegas que equivocavam nas suas lealdades ora aos nazis alemães ora aos comunistas soviéticos e estalinistas. Orwell regressa nestas páginas a “Recordações da Guerra Civil Espanhola” para, uma vez mais, dizer do que viu e viveu com uma espingarda na mão, o que mais decididamente contribuiu para a luta em prol da democracia em toda a parte. Em 1947 escreve quase profeticamente sobre a ideia de uma Europa unida, prevendo que a beatice da palavra “união” não poderia esconder nos seus significados, ao gosto dos poderes instalados, um projecto para mera defesa de interesses restritos, financeiros, comerciais e industrias. Para ele, a nova Europa ou teria o socialismo democrático como fundamento do seu sucesso e progresso, ou nada resolveria na antiga história de conflitos e guerras, muito menos traria o bem-estar para a maioria dos seus povos. É uma linguagem, a deste ensaio, que hoje apenas mudaria de léxico e falaria de uma Europa dos cidadãos. Curiosamente, o defensor da vitória Aliada no continente queria que o seu país, a Grã-Bretanha sempre orgulhosa e só no outro lado do canal, pertencesse por inteiro ao novo bloco económico e político – para se livrar, de uma vez por todas, da sua dependência, real e mitificada, dos Estados Unidos. Não sei como George Orwell é visto ou entendido pelos seus conterrâneos, mas estou em crer que a sua popularidade como escritor seria muito mais questionável no restante mundo. Raramente o autor destes ensaios é citado nos EUA fora do contexto da sua ficção, pelo menos nas minhas leituras dos mais variados textos daquele país. Provavelmente não seria apreciado pelos governantes europeus actuais, particularmente a partir dos anos 70, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher redefinem o rumo para o Ocidente. Nessas suas palavras, Orwell insiste implicitamente na essencialidade de se conceder a independência, já em curso ou por vir, a todas as suas colónias fora da órbita da terra-pátria. Vale a pena relê-lo no contexto europeu dos nossos dias, e do que aconteceu com o recente voto britânico para saída da União. Poderá não ter previsto a extensão da globalização hoje em curso, mas acertou em partes bem mais, digamos, delicadas. Poderão algumas questões terem sido resolvidas ao contrário do que ele previa, mas aqui temos um intelectual público europeu para quem política, sociedade e literatura eram temas acutilantes e inevitáveis, em oposição ao que hoje temos nos nossos jornais ou em qualquer outro meio de comunicação.

Se a América permanecer capitalista, e especialmente – escreve em ‘Rumo à União Europeia’ – se precisar de mercados para as suas exportações, não poderá ver com bons olhos uma Europa socialista. Sem dúvida que é menos provável que intervenha pela força na Europa do a que a Rússia, mas a pressão americana é um factor importante, porque pode ser exercida mais facilmente sobre a Grã-Bretanha… Desde 1940, a Grã-Bretanha enfrentou as ditaduras europeias à custa de se converter quase numa dependência dos EUA. De facto, a Grã-Bretanha só poderá livrar-se da América renunciando ao esforço de ser uma potência extra-europeia. Os domínios de língua inglesa, as possessões ultramarinas, exceto talvez em África, e mesmo o fornecimento de petróleo à Grã-Bretanha, são como reféns nas mãos dos Estados Unidos. Por conseguinte, há sempre o perigo de os Estados Unidos destruírem qualquer coligação europeia ao atraírem a Grã-Bretanha para fora da mesma”.

George Orwell: Ensaios Escolhidos contem alguns outros momentos deliciosos, ora nas suas verdades ora nas suas especulações teóricas, sobre literatura e sociedade, em que ele tanto responde com humor e firmeza a um famoso ensaio de Tolstoi a denegrir em termos absolutos a obra de William Shakespeare, como relê e recupera alguns dos escritores seus antecessores e contemporâneos, inclusive no castigo ou defesa da utilidade do que ele chama numa destas peças os “Bons Maus Livros/Good Bad Books”, ficando desculpados todos os que entre nós pegam num thriller policial ou político ou meramente cor-de-rosa, os gritantes volumes coloridos de aeroporto, e depois devora secreta ou abertamente, tal como eu (John Le Carré, James Elroy e Raymond Chandler pertencem a esta ambígua casta literária) e outros amigos meus de nome bem mais reconhecível a outros níveis. George Orwell foi aquele escritor e intelectual para quem a busca de um centro para a sua vida, o equilíbrio entre os grandes e os pequenos prazeres, eram a sua razão de ser, tal como a sua noção de decência e humanismo, quase ignorando a sua própria obra. Tenho aqui nas minhas estantes o principal dessa obra, incluindo The Politics of Literary Reputation: The Making And Claiming Of ‘St. George’ Orwell, de John Todden, mas não tinha estes magníficos ensaios, como ainda não tenho os seu George Orwell: diários, recentemente traduzidos e publicados no nosso país. Se há escritores em cuja companhia apetece estar de quando em quando, este será um deles. Nem falei da sua crítica literária, alguma dela escrita enquanto as bombas caiam sobre Londres, como que num desafio ao destino e à barbárie, ou seguia o mandato de Winston Churchill, que dizia no parlamento naqueles precisos momentos que se não estavam a lutar pela sobrevivência ou triunfo da “cultura”, para que valeria a pena sacrificar vidas?

Ainda mais se retira destes escritos. Eu, por exemplo, fiquei a saber finalmente como fazer, aquecer, misturar ou não misturar as folhas de um chá à moda inglesa. Mesmo nisto, como se sabe, estou sempre entre o meu portuguesismo e a cultura anglo-saxónica. Aliás, um dos melhores poemas modernos açorianos tem a ver com esse maravilhoso chá das cinco. A busca dos pequenos prazeres e do equilíbrio em tudo e entre todos. Isto, sim, é também orwelliano.

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George Orwell, George Orwell: Ensaios Escolhidos (tradução de José Miguel Silva), Lisboa, Relógio D’Água, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 21 de Outubro, 2016.

Da arte como redenção e da pós-humanidade como revelação

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Cobertos de flores e folhas e pedúnculos verdes, aqueles corpos estavam tão alterados que já não pareciam de pessoas. Os seus movimentos sinuosos davam a ideia de que estavam a tentar libertar-se de tudo o que fosse humano.

Han Kang, A Vegetariana

Vamberto Freitas

O termo pós-humano vem sendo, desde há alguns anos a esta parte, crescentemente aplicado pela crítica literária, já se sabe, pós-moderna, não tanto em busca dos seus possíveis significados teológicos, mas talvez num desejo ideológico de que já somos algo menos ou algo mais do que nos estava previsto pela História, ou então é, a um tempo, um protesto e um desejo. Protesto contra a desumanização em curso, que autores tão essenciais como Aldous Huxley já tinham ensaiado na sua melhor ficção, ou um desejo perverso de contrariar tudo o que tem sido “humano” nas sucessivas construções imaginárias através dos tempos, em que a arte desde sempre representou e tenta representar em todas as suas formas e géneros. Digo isto e relembro que Harold Bloom escreveu algures que tinha sido William Shakespeare o primeiro grande escritor a “inventar” o “humano” nas suas personagens, ou seja, também creio, que tinha sido ele a definir o nosso ser em todo o seu esplendor e fealdade. Não me cabe a mim contestar os mestres académicos – ou anti-académicos, no caso do autor de O Cânone Ocidental – mas também não esqueço um ensaio seu na primeira página do suplemento literário do The New York Times a afirmar, sem quaisquer reticências, há uns bons anos, que a obra de Thomas Wolfe não continha um naco de arte literária. Em literatura não há qualquer “cientificidade”, só instinto e vontade interpretativa, cada um lendo as suas páginas com toda uma geografia, passado e formação nas mais variáveis circunstâncias de vida. Vem tudo isto a propósito do romance A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, vencedor este ano do Man Booker International Prize. Confesso que só o título me desviaria do romance, assim como me desvio seja do que for ou de quem for que venha tão taxativamente classificado, arrumado em qualquer gaveta sócio-económica ou ideológica. Só que, para além da forte sugestão que é um prémio literário internacional tão prestigiado, o seu primeiro parágrafo foi o suficiente para me agarrar à sua leitura, querendo desde logo expulsar todo o ruído à minha volta. Não tinha a ver com o facto de eu nunca ter lido um romance daquele país ou língua, ainda menos de querer tentar apreender um pouco do seu contexto social e cultural, se bem que isso acaba inevitavelmente por nos expor a essas outras e longínquas “realidades”, só para confirmarmos, pela enésima vez, que as diferenças entre nós todos são quase invisíveis ou sentidas, que a nossa humanidade esbate em todas as geografias o que nos separa, a literatura tornando-se esse “choque de reconhecimento” de que  falava Herman Melville numa carta a Nathaniel Hawthorne: “A genialidade, no mundo inteiro, anda de mãos dadas, e um choque de reconhecimento une todo o círculo das nossas vidas”. Os protagonistas deste romance são o outro e somos nós, a estranheza dos seus nomes para um ocidental ou a culinária das suas mesas em nada os torna estranhos, a não ser a condição humana em todo o seu drama de sobrevivência e luta pela libertação de cada um nos redutos fechados em que todos nascemos. A beleza de A Vegetariana está na sua linguagem, mesmo em tradução, está na sua capacidade de ver e rever o labirinto que é o coração humano, e o seu desejo universal de fuga para um paraíso perdido.

A Vegetariana tem vários narradores e narradoras na primeira e terceira pessoas. Abre com a voz do marido, que apenas chama a esposa de “a minha mulher”, mas de nome Yeong-hye, encontrando-a uma madrugada, calada e perplexa, a olhar para um frigorífico aberto, e contemplando sem expressão e atenção a mais nada os seus conteúdos, que serão todos despejados no lixo, menos os de origem ou natureza vegetal. É descrita nos mais banais termos, como sempre tendo sido uma mulher sem qualquer distinção, quer interior quer fisicamente, nem bonita nem feia, o tipo de esposa, diz ele distanciado, que lhe convinha num casamento.“A personalidade passiva dessa mulher – diz ele – em que eu não conseguia detetar frescura, nem encanto, nem nada de particularmente refinado, servia-me na perfeição”. Eis a definição precisa de uma sociedade patriarcal, em que a mulher parece um adorno e uma servidora, não um ser vivo, com desejos ou segredos, felicidade ou infelicidade. As suas vidas, aqui, são a de uma mediocridade ritualizada, sem nenhum brilho ou sequer ambição para além do dia-a-dia marcado pelo trabalho profissional ou de casa. Yeong-hye vem de uma família da classe média conservadora, dominada por um pai de tolerância-zero, um ex-militar que havia combatido na guerra do Vietname, e ainda se vangloriava ante a família de quantos vietcongue havia morto. Num jantar em casa de uma outra irmã casada, In-hye, também a braços com a rotina da sua vida e um marido que se auto-define como fotógrafo ou cineasta de vídeo vivendo à custa da esposa enquanto grava o que ele acha ser o surrealismo da vida à sua volta, ou a arte contestadora de todos os valores societais, esse pai recusa aceitar a súbita condição de vegetariana da filha, que se definha perante os olhos de todos, e castiga-a à mesa com um murro na cara. O leitor vê muito pouco da sociedade exterior a estes personagens, mas adivinhamos a cada passo a sua demanda de convencionalismo fingido, e em busca do sucesso material a todo o custo. A radical transformação da protagonista é insinuada aos poucos, mas no fim percebemos que o impulso que leva a inesperados extremos numa vida ofuscada até à morte desejada de Yeong-hye é a sua profunda compreensão do Nada como condição existencial, e só na sua rebeldia tranquila ela poderá reencontrar-se consigo própria, ou então transformar-se de novo na natureza implacável de onde vem, de onde vimos todos, onde o tempo não existe e as árvores dobram-se ao vento na infinitude de um ser que de ninguém depende. A “ausência” dela nas vidas da família e do próprio marido não é chorada pela perda que deveria representar, mas sim pela “vergonha” que traz a todos com uma saída onde nem o sangue a escorrer do seu corpo a martiriza ou assusta. Onde mais ninguém via nada, no entanto, o seu cunhado armado com máquinas fotográficas e gravadores de vídeo vê uma mulher de corpo inteiro, e em viagem escondida por onde mais ninguém espreita. Algumas das cenas do romance são de uma sensualidade e beleza tão leves como o corpo pintado de Yeong-hye, e o que se segue será o que entendemos por comédia surrealista, nunca a narração deixando que vejamos ou interpretemos tudo isto como tragédia. O gesto de liberdade da protagonista, a sua loucura, uma vez mais, rebelde, a sua rejeição de toda uma sociedade que a queria moldar à sua imagem, o não ser amada, não permite ao leitor outra afeição a não ser um entendimento e compreensão perante as mais bizarras cenas nesta caminhada para uma outra dimensão, por vontade própria e sem remorso.

“Não é capaz – diz o narrador de In-hye, a irmã de Yeong-hye, com quem ela tinha surpreendido o seu marido fotógrafo em cenas de sexo, simulado ou não – de explicar, nem a si própria, a facilidade com que então decidira abandonar o filho. Fora um crime cruel e irresponsável, nunca se convenceria do contrário; e também fora algo que jamais seria capaz de confessar e que nunca lhe seria perdoado… Se o marido e Yeong-hye não tinham sido esmagados depois de passarem todos os limites, se tudo não se tinha estilhaçado, então talvez tivesse sido ela quem se havia deixado derrubar e, se tinha permitido que isso acontecesse, se tinha largado o fio, talvez nunca mais conseguisse reencontrá-lo. Se assim fosse, o sangue que Yeong-hye vomitara não teria saído de dentro de si, do seu próprio peito?”.

Quanto mais fechada uma sociedade, mais radical a transgressão libertadora? A uma vida sitiada por costumes e estruturas sociais muito antigas segue-se necessariamente a morte? Não me parece ser essa a ideia, se assim nos é permitido falar, que sobressai ao longo destas belas e vivíssimas páginas. Pelo contrário, é a procura de uma vida-outra, a rejeição de um quotidiano opressivo e sem qualquer sentido que leva estas duas irmãs aos limites da vida e do desespero, em que se confunde normalidade com a prisão que uns aceitam, mas outros não. A grande literatura é quase sempre esse acto de representar a nossa humanidade, e de nos reinventar não só como somos, mas sobretudo como gostaríamos de ser quando reconhecemos num outro a razão da sua recusa em apenas existir como mais uma peça de serviço, ou do que não acredita nem valoriza. Yeong-hye começa por ser aquela mulher absurda nas suas transformações e movimentos, a mulher que antes não era feia nem bonita, nem alta nem baixa, nem talentosa nem idiota, nem frígida nem sexual – era o que os outros queriam que fosse, nunca suspeitando que isso não lhe bastava, e que tinha a sua própria força que mais ninguém via ou suspeitava. A Vegetariana encerra com a protagonista numa ambulância a caminho de um hospital, com a irmã ao lado. Não vão a caminho da morte ainda, parece. Vão a caminho, talvez, de uma outra vida. Com ela Yeong-hye leva a irmã – agora sabedora e liberta por obra, exemplo e força de quem havia cortado os próprios pulsos e vomitara sangue, mas sem nunca deixar de viver, a partir desses momentos, como queria e entendia. Posso estar errado aqui, mas este não é romance sobre a morte ou a loucura. É uma tremenda reafirmação da vida livre, quando seguimos as nossas próprias escolhas e recriamos os nossos próprios seres.

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Han Kang, A Vegetariana (tradução do inglês por Maria do Carmo Figueira), Lisboa, D. Quixote, 2016. A tradução das palavras de Herman Melville são da minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 14 de Outubro, 2016.

De George Monteiro: poesia e memória

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Foi então que comecei a perceber que nos Estados Unidos, mesmo que este fosse o meu país natal, eu tinha sido sempre um étnico português e uma espécie de imigrante.

George Monteiro, 38 School Street

Vamberto Freitas

Não creio ser necessário apresentar aqui George Monteiro, pois é um autor bem conhecido nos Estados Unidos e em Portugal entre estudiosos das literaturas norte-americana e portuguesa, e ainda mais pelos que sempre acompanharam a sua obra poética, ficcional e ensaística em geral. Desde há muito que me ocupo de certas facetas do seu trabalho académico, particularmente o que diz respeito à presença literária luso-americana, desde os seus primórdios até aos nossos dias, e à sua poesia narrativa de cunho temático ancestral – se assim se pode também falar de uma obra – e autobiográfica. Aliás, 38 School Street. A Memoir, que ele acaba de lançar, é um misto de memórias familiares e comunitárias, desde os primeiros anos da Grande Depressão até a tempos mais recentes, fatias-de-vida contadas e recontadas em breves textos, alguns dos quais certamente algures entre a realidade e a ficção, ou a realidade tornada num imaginário aqui reinventado, os breves e elegantes textos de prosa entremeados por poemas, tudo a fazer reviver alguns dos seus entes mais próximos ou esquecidos. Um escritor convoca as suas memórias não necessariamente como um gesto estritamente autobiográfico, mas sim para melhor entender a sua vida no contexto em que se desenrolou, colocando as suas origens nacionais e culturais como ponto determinante do que viria a ser o seu destino, o seu fado, ou então uma vida que partiu noutras direcções, mas não pode nem deve esquecer todos esses territórios de memórias e afectos. Poderá haver dois tipos de leitor destas memórias, cada qual retirando os prazeres de um belo texto, agora integrado numa narrativa com princípio, meio, e um fim, mesmo que desejavelmente provisório – os que já conheciam alguns destes textos e poemas, e os que porventura os lêem pela primeira vez. Em qualquer dos casos, retirará da sua leitura ou um feliz reencontro e clarificação do muito que George Monteiro fez e faz – como professor jubilado da Brown University, onde fundou juntamente com Onésimo Teotónio Almeida o Centro, agora Departamento, de Estudos Portugueses e Brasileiros – na escavação da nossa presença norte-americana através da escrita imigrante e luso-americana, ou descobre o grande poeta, ficcionista e memorialista que ele inquestionavelmente é. O autor deste 38 School Street ocupa um espaço entre nós absolutamente original, na medida em que nunca deixou o seu trabalho de investigador e ensaísta da melhor literatura do seu pais, desde Henry James a Elizabeth Bishop, impedir a sua dedicação à literatura portuguesa, que também é de uma continuidade literária que vai de Camões a Fernando Pessoa. Para mim, o mais extraordinário da sua carreira foi sempre o modo como, na companhia dos seus colegas mais chegados na instituição em que decorreu a sua carreira, abriu portas ao estudo da literatura açoriana e, uma vez mais, luso-descendente, conhecendo profundamente muitos dos nossos escritores, traduzindo-os, como o fez em The Sea Within, e, a sair brevemente, Absent Poems, uma escolha de alguma poesia de Pedro da Silveira de A Ilha e o Mundo. Mais nenhum outro escritor e poeta luso-americano, estou em crer, poderia escrever, sem muita adjectivação ou explicações rebuscadas, que se sentiu em “casa” pela primeira vez quando aterrou no Brasil em 1969, onde foi professor convidado na Universidade de São Paulo. É daí que lhe nascem as palavras que transcrevo como epígrafe deste meu escrito, tendo George Monteiro elaborado ainda mais um pouco os seus sentimentos na época. “E há – acrescenta ele – mais. Naquele momento, num país que nunca tinha visto, curiosamente como poderá parecer, senti-me mais em casa, de vários modos importantes, do que no meu próprio país”.

Quase todos os textos e poemas desta sua narrativa recordam as origens dos pais, Francisco José Monteiro, de Freixo-de Espada-à-Cinta, em Trás-os-Montes, e Maria Augusta Temudo, de Vila Ruiva da Serra, na Beira Alta, e depois a sua própria infância e juventude em Valley Falls (Rhode Island) a partir dos primeiros anos da Grande Depressão, e quando já a indústria têxtil, que havia sido o poiso seguro dos primeiros imigrantes nossos naquela zona do país, estava de partida, seguida pela II Guerra Mundial, em que o autor perdeu o seu irmão nas batalhas da tomada da Sicília. Nada de extraordinário no seu quotidiano daqueles anos, mas a astúcia das suas observações agora recordadas nunca deixa passar os momentos e comportamentos de um tio ou tia, vizinho ou companheiro de rua e traquinices, recriando para nós toda uma ambiência da normalidade que me faz pensar que as Fontinhas ficava ali ao lado, menos os jogos alternativos de baseball, e não a bexiga de porco que eu e os meus comparsas metamorfoseávamos numa bola de futebol no tempo das matanças. O que George Monteiro diz de si e dos seus é o que a maioria dos grandes escritores, suspeito, diriam de si, do seu tempo e lugar. Poderia não haver livros em sua casa, mas havia a biblioteca meio improvisada ali ao lado, com o proverbial bibliotecário-vigia a impedir leituras maturas demais para as almas supostamente inocentes dos pequenos e pequenas. Antes das suas aventuras na vizinhança natal, Monteiro, sem ter consciência do facto, haveria de acompanhar a mãe de regresso temporário à sua aldeia portuguesa depois de ser denunciada por alguém por ter entrado ilegalmente no país, como resultado de um esquema montado por uma compatriota lusa. Estas situações, aparentemente, eram ainda resolvidas com certa amizade e empatia por parte dos federais – saiu por uns tempos para depois reentrar definitivamente com o seu filho americano. Noutra parte, reconta o orgulho de um tio que foi mestre e compositor da filarmónica do Clube Social Português, e lembra-se de o ver apagar e a reescrever notas musicais, uma a uma, e para cada um dos seus músicos, a sua pomposa farda por ele próprio desenhada, inclusive a selecção de cores meio espampanantes. Como isto me é ou foi familiar numa pequena e rural freguesia açoriana. Os barbeiros eram, como para todos os meninos e jovens, objecto de partidarismo no bairro, tal como uma equipe de futebol ou mesmo um político. Nada disto apontava – nunca aponta – para a vida de quem viria a tornar-se um dos mais prestigiados scholars e poetas entre nós, tal como no caso de alguns outros, hoje literalmente espalhados pelo mundo. Só George Monteiro, antes de todos nós e integrando uma das mais elitistas universidades americanas, ultrapassou todo e qualquer preconceito, desbravando sistematicamente toda a nossa experiência naquela sociedade através da literatura, essa que outros, provavelmente, nem suspeitavam que existia. Hoje, até mesmo em Lisboa, tudo isto é terreno cultivado, especialmente após o seu trabalho e com a chegada de dinheiros públicos e de certas fundações. George Monteiro é, para mim, um símbolo vivo do melhor em nós, e dos laços profundos entre ser-se americano e o ser-se português, sem conflitos, sem deslealdades laceradas.

Não me recordo – escreve numa nota prévia ao livro – de um tempo em que não falasse Português e Inglês. A alguns metros e pouco da School Street – surpresa das surpresas – ficava a Valley Falls School, com quatro salas, a escola da quarta classe a que sempre nos referíamos – não sei bem porquê – como sendo A Capoeira. Quase todos os seus alunos eram ou filhos e filhas de imigrantes ou originários de famílias que sobreviviam com grandes dificuldades a Grande Depressão”.

Noutro ensaio Monteiro enumera músicos luso-americanos de renome, sendo um deles uma absoluta notícia para mim: Paul Gonsalves, o saxofonista “lendário” de Duke Ellington, e ainda Joe Raposo, um dos compositores da série televisiva infantil Abre-te Sésamo. Menciona estes e outros nomes para antes e depois dizer do seu desgosto ao ler a autobiografia, Marching Along, do grande John Philip Sousa, de pai português e mãe alemã, quase ignorando o lado paterno ou atribuindo-lhe qualidades negativas enquanto engrandece as virtudes teutónicas maternais que supostamente herdou na sua caminhada musical grandiosa. Para além de tudo o mais na escrita de George Monteiro, desde sempre, é este tipo de informação, a mais das vezes escondida de nós todos, que ele desenterra, servindo-lhe de contextualização ao processo de se ser o outro na pátria natal americana. Raramente escrevo sobre qualquer tema literário luso-americano ou da nossa imigração que não me pergunto o que terá dito Monteiro deste autor ou autora, desta ou daquela obra. Ele é essa referência inescapável nos estudos que nos últimos anos, como foi aqui referido anteriormente, ocupam já um bom número de universitários no nosso e noutros países.

38 School Street: A Memoir junta-se agora a uma vasta obra, creio que ainda em curso, ensaística, ficcional e poética, que constitui talvez a mais rica fonte crítica e criativa da nossa presença nos EUA. Tenho especial carinho pelos poemas de The Coffee Exchange, e Double Weaver’s Knot. Na minha secretária de trabalho tenho também o extenso e recente The Pessoa Chronicles: Poems, 1980-2016, que vou saboreando aos poucos. O regresso às minhas próprias origens, portuguesas e americanas, passam feliz e definitivamente por aqui.

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George Monteiro, 38 School Street: A Memoir, Willimantic, CT, Bricktop Hill Books, 2016. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.