De George Monteiro: poesia e memória

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Foi então que comecei a perceber que nos Estados Unidos, mesmo que este fosse o meu país natal, eu tinha sido sempre um étnico português e uma espécie de imigrante.

George Monteiro, 38 School Street

Vamberto Freitas

Não creio ser necessário apresentar aqui George Monteiro, pois é um autor bem conhecido nos Estados Unidos e em Portugal entre estudiosos das literaturas norte-americana e portuguesa, e ainda mais pelos que sempre acompanharam a sua obra poética, ficcional e ensaística em geral. Desde há muito que me ocupo de certas facetas do seu trabalho académico, particularmente o que diz respeito à presença literária luso-americana, desde os seus primórdios até aos nossos dias, e à sua poesia narrativa de cunho temático ancestral – se assim se pode também falar de uma obra – e autobiográfica. Aliás, 38 School Street. A Memoir, que ele acaba de lançar, é um misto de memórias familiares e comunitárias, desde os primeiros anos da Grande Depressão até a tempos mais recentes, fatias-de-vida contadas e recontadas em breves textos, alguns dos quais certamente algures entre a realidade e a ficção, ou a realidade tornada num imaginário aqui reinventado, os breves e elegantes textos de prosa entremeados por poemas, tudo a fazer reviver alguns dos seus entes mais próximos ou esquecidos. Um escritor convoca as suas memórias não necessariamente como um gesto estritamente autobiográfico, mas sim para melhor entender a sua vida no contexto em que se desenrolou, colocando as suas origens nacionais e culturais como ponto determinante do que viria a ser o seu destino, o seu fado, ou então uma vida que partiu noutras direcções, mas não pode nem deve esquecer todos esses territórios de memórias e afectos. Poderá haver dois tipos de leitor destas memórias, cada qual retirando os prazeres de um belo texto, agora integrado numa narrativa com princípio, meio, e um fim, mesmo que desejavelmente provisório – os que já conheciam alguns destes textos e poemas, e os que porventura os lêem pela primeira vez. Em qualquer dos casos, retirará da sua leitura ou um feliz reencontro e clarificação do muito que George Monteiro fez e faz – como professor jubilado da Brown University, onde fundou juntamente com Onésimo Teotónio Almeida o Centro, agora Departamento, de Estudos Portugueses e Brasileiros – na escavação da nossa presença norte-americana através da escrita imigrante e luso-americana, ou descobre o grande poeta, ficcionista e memorialista que ele inquestionavelmente é. O autor deste 38 School Street ocupa um espaço entre nós absolutamente original, na medida em que nunca deixou o seu trabalho de investigador e ensaísta da melhor literatura do seu pais, desde Henry James a Elizabeth Bishop, impedir a sua dedicação à literatura portuguesa, que também é de uma continuidade literária que vai de Camões a Fernando Pessoa. Para mim, o mais extraordinário da sua carreira foi sempre o modo como, na companhia dos seus colegas mais chegados na instituição em que decorreu a sua carreira, abriu portas ao estudo da literatura açoriana e, uma vez mais, luso-descendente, conhecendo profundamente muitos dos nossos escritores, traduzindo-os, como o fez em The Sea Within, e, a sair brevemente, Absent Poems, uma escolha de alguma poesia de Pedro da Silveira de A Ilha e o Mundo. Mais nenhum outro escritor e poeta luso-americano, estou em crer, poderia escrever, sem muita adjectivação ou explicações rebuscadas, que se sentiu em “casa” pela primeira vez quando aterrou no Brasil em 1969, onde foi professor convidado na Universidade de São Paulo. É daí que lhe nascem as palavras que transcrevo como epígrafe deste meu escrito, tendo George Monteiro elaborado ainda mais um pouco os seus sentimentos na época. “E há – acrescenta ele – mais. Naquele momento, num país que nunca tinha visto, curiosamente como poderá parecer, senti-me mais em casa, de vários modos importantes, do que no meu próprio país”.

Quase todos os textos e poemas desta sua narrativa recordam as origens dos pais, Francisco José Monteiro, de Freixo-de Espada-à-Cinta, em Trás-os-Montes, e Maria Augusta Temudo, de Vila Ruiva da Serra, na Beira Alta, e depois a sua própria infância e juventude em Valley Falls (Rhode Island) a partir dos primeiros anos da Grande Depressão, e quando já a indústria têxtil, que havia sido o poiso seguro dos primeiros imigrantes nossos naquela zona do país, estava de partida, seguida pela II Guerra Mundial, em que o autor perdeu o seu irmão nas batalhas da tomada da Sicília. Nada de extraordinário no seu quotidiano daqueles anos, mas a astúcia das suas observações agora recordadas nunca deixa passar os momentos e comportamentos de um tio ou tia, vizinho ou companheiro de rua e traquinices, recriando para nós toda uma ambiência da normalidade que me faz pensar que as Fontinhas ficava ali ao lado, menos os jogos alternativos de baseball, e não a bexiga de porco que eu e os meus comparsas metamorfoseávamos numa bola de futebol no tempo das matanças. O que George Monteiro diz de si e dos seus é o que a maioria dos grandes escritores, suspeito, diriam de si, do seu tempo e lugar. Poderia não haver livros em sua casa, mas havia a biblioteca meio improvisada ali ao lado, com o proverbial bibliotecário-vigia a impedir leituras maturas demais para as almas supostamente inocentes dos pequenos e pequenas. Antes das suas aventuras na vizinhança natal, Monteiro, sem ter consciência do facto, haveria de acompanhar a mãe de regresso temporário à sua aldeia portuguesa depois de ser denunciada por alguém por ter entrado ilegalmente no país, como resultado de um esquema montado por uma compatriota lusa. Estas situações, aparentemente, eram ainda resolvidas com certa amizade e empatia por parte dos federais – saiu por uns tempos para depois reentrar definitivamente com o seu filho americano. Noutra parte, reconta o orgulho de um tio que foi mestre e compositor da filarmónica do Clube Social Português, e lembra-se de o ver apagar e a reescrever notas musicais, uma a uma, e para cada um dos seus músicos, a sua pomposa farda por ele próprio desenhada, inclusive a selecção de cores meio espampanantes. Como isto me é ou foi familiar numa pequena e rural freguesia açoriana. Os barbeiros eram, como para todos os meninos e jovens, objecto de partidarismo no bairro, tal como uma equipe de futebol ou mesmo um político. Nada disto apontava – nunca aponta – para a vida de quem viria a tornar-se um dos mais prestigiados scholars e poetas entre nós, tal como no caso de alguns outros, hoje literalmente espalhados pelo mundo. Só George Monteiro, antes de todos nós e integrando uma das mais elitistas universidades americanas, ultrapassou todo e qualquer preconceito, desbravando sistematicamente toda a nossa experiência naquela sociedade através da literatura, essa que outros, provavelmente, nem suspeitavam que existia. Hoje, até mesmo em Lisboa, tudo isto é terreno cultivado, especialmente após o seu trabalho e com a chegada de dinheiros públicos e de certas fundações. George Monteiro é, para mim, um símbolo vivo do melhor em nós, e dos laços profundos entre ser-se americano e o ser-se português, sem conflitos, sem deslealdades laceradas.

Não me recordo – escreve numa nota prévia ao livro – de um tempo em que não falasse Português e Inglês. A alguns metros e pouco da School Street – surpresa das surpresas – ficava a Valley Falls School, com quatro salas, a escola da quarta classe a que sempre nos referíamos – não sei bem porquê – como sendo A Capoeira. Quase todos os seus alunos eram ou filhos e filhas de imigrantes ou originários de famílias que sobreviviam com grandes dificuldades a Grande Depressão”.

Noutro ensaio Monteiro enumera músicos luso-americanos de renome, sendo um deles uma absoluta notícia para mim: Paul Gonsalves, o saxofonista “lendário” de Duke Ellington, e ainda Joe Raposo, um dos compositores da série televisiva infantil Abre-te Sésamo. Menciona estes e outros nomes para antes e depois dizer do seu desgosto ao ler a autobiografia, Marching Along, do grande John Philip Sousa, de pai português e mãe alemã, quase ignorando o lado paterno ou atribuindo-lhe qualidades negativas enquanto engrandece as virtudes teutónicas maternais que supostamente herdou na sua caminhada musical grandiosa. Para além de tudo o mais na escrita de George Monteiro, desde sempre, é este tipo de informação, a mais das vezes escondida de nós todos, que ele desenterra, servindo-lhe de contextualização ao processo de se ser o outro na pátria natal americana. Raramente escrevo sobre qualquer tema literário luso-americano ou da nossa imigração que não me pergunto o que terá dito Monteiro deste autor ou autora, desta ou daquela obra. Ele é essa referência inescapável nos estudos que nos últimos anos, como foi aqui referido anteriormente, ocupam já um bom número de universitários no nosso e noutros países.

38 School Street: A Memoir junta-se agora a uma vasta obra, creio que ainda em curso, ensaística, ficcional e poética, que constitui talvez a mais rica fonte crítica e criativa da nossa presença nos EUA. Tenho especial carinho pelos poemas de The Coffee Exchange, e Double Weaver’s Knot. Na minha secretária de trabalho tenho também o extenso e recente The Pessoa Chronicles: Poems, 1980-2016, que vou saboreando aos poucos. O regresso às minhas próprias origens, portuguesas e americanas, passam feliz e definitivamente por aqui.

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George Monteiro, 38 School Street: A Memoir, Willimantic, CT, Bricktop Hill Books, 2016. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

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