Da arte como redenção e da pós-humanidade como revelação

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Cobertos de flores e folhas e pedúnculos verdes, aqueles corpos estavam tão alterados que já não pareciam de pessoas. Os seus movimentos sinuosos davam a ideia de que estavam a tentar libertar-se de tudo o que fosse humano.

Han Kang, A Vegetariana

Vamberto Freitas

O termo pós-humano vem sendo, desde há alguns anos a esta parte, crescentemente aplicado pela crítica literária, já se sabe, pós-moderna, não tanto em busca dos seus possíveis significados teológicos, mas talvez num desejo ideológico de que já somos algo menos ou algo mais do que nos estava previsto pela História, ou então é, a um tempo, um protesto e um desejo. Protesto contra a desumanização em curso, que autores tão essenciais como Aldous Huxley já tinham ensaiado na sua melhor ficção, ou um desejo perverso de contrariar tudo o que tem sido “humano” nas sucessivas construções imaginárias através dos tempos, em que a arte desde sempre representou e tenta representar em todas as suas formas e géneros. Digo isto e relembro que Harold Bloom escreveu algures que tinha sido William Shakespeare o primeiro grande escritor a “inventar” o “humano” nas suas personagens, ou seja, também creio, que tinha sido ele a definir o nosso ser em todo o seu esplendor e fealdade. Não me cabe a mim contestar os mestres académicos – ou anti-académicos, no caso do autor de O Cânone Ocidental – mas também não esqueço um ensaio seu na primeira página do suplemento literário do The New York Times a afirmar, sem quaisquer reticências, há uns bons anos, que a obra de Thomas Wolfe não continha um naco de arte literária. Em literatura não há qualquer “cientificidade”, só instinto e vontade interpretativa, cada um lendo as suas páginas com toda uma geografia, passado e formação nas mais variáveis circunstâncias de vida. Vem tudo isto a propósito do romance A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, vencedor este ano do Man Booker International Prize. Confesso que só o título me desviaria do romance, assim como me desvio seja do que for ou de quem for que venha tão taxativamente classificado, arrumado em qualquer gaveta sócio-económica ou ideológica. Só que, para além da forte sugestão que é um prémio literário internacional tão prestigiado, o seu primeiro parágrafo foi o suficiente para me agarrar à sua leitura, querendo desde logo expulsar todo o ruído à minha volta. Não tinha a ver com o facto de eu nunca ter lido um romance daquele país ou língua, ainda menos de querer tentar apreender um pouco do seu contexto social e cultural, se bem que isso acaba inevitavelmente por nos expor a essas outras e longínquas “realidades”, só para confirmarmos, pela enésima vez, que as diferenças entre nós todos são quase invisíveis ou sentidas, que a nossa humanidade esbate em todas as geografias o que nos separa, a literatura tornando-se esse “choque de reconhecimento” de que  falava Herman Melville numa carta a Nathaniel Hawthorne: “A genialidade, no mundo inteiro, anda de mãos dadas, e um choque de reconhecimento une todo o círculo das nossas vidas”. Os protagonistas deste romance são o outro e somos nós, a estranheza dos seus nomes para um ocidental ou a culinária das suas mesas em nada os torna estranhos, a não ser a condição humana em todo o seu drama de sobrevivência e luta pela libertação de cada um nos redutos fechados em que todos nascemos. A beleza de A Vegetariana está na sua linguagem, mesmo em tradução, está na sua capacidade de ver e rever o labirinto que é o coração humano, e o seu desejo universal de fuga para um paraíso perdido.

A Vegetariana tem vários narradores e narradoras na primeira e terceira pessoas. Abre com a voz do marido, que apenas chama a esposa de “a minha mulher”, mas de nome Yeong-hye, encontrando-a uma madrugada, calada e perplexa, a olhar para um frigorífico aberto, e contemplando sem expressão e atenção a mais nada os seus conteúdos, que serão todos despejados no lixo, menos os de origem ou natureza vegetal. É descrita nos mais banais termos, como sempre tendo sido uma mulher sem qualquer distinção, quer interior quer fisicamente, nem bonita nem feia, o tipo de esposa, diz ele distanciado, que lhe convinha num casamento.“A personalidade passiva dessa mulher – diz ele – em que eu não conseguia detetar frescura, nem encanto, nem nada de particularmente refinado, servia-me na perfeição”. Eis a definição precisa de uma sociedade patriarcal, em que a mulher parece um adorno e uma servidora, não um ser vivo, com desejos ou segredos, felicidade ou infelicidade. As suas vidas, aqui, são a de uma mediocridade ritualizada, sem nenhum brilho ou sequer ambição para além do dia-a-dia marcado pelo trabalho profissional ou de casa. Yeong-hye vem de uma família da classe média conservadora, dominada por um pai de tolerância-zero, um ex-militar que havia combatido na guerra do Vietname, e ainda se vangloriava ante a família de quantos vietcongue havia morto. Num jantar em casa de uma outra irmã casada, In-hye, também a braços com a rotina da sua vida e um marido que se auto-define como fotógrafo ou cineasta de vídeo vivendo à custa da esposa enquanto grava o que ele acha ser o surrealismo da vida à sua volta, ou a arte contestadora de todos os valores societais, esse pai recusa aceitar a súbita condição de vegetariana da filha, que se definha perante os olhos de todos, e castiga-a à mesa com um murro na cara. O leitor vê muito pouco da sociedade exterior a estes personagens, mas adivinhamos a cada passo a sua demanda de convencionalismo fingido, e em busca do sucesso material a todo o custo. A radical transformação da protagonista é insinuada aos poucos, mas no fim percebemos que o impulso que leva a inesperados extremos numa vida ofuscada até à morte desejada de Yeong-hye é a sua profunda compreensão do Nada como condição existencial, e só na sua rebeldia tranquila ela poderá reencontrar-se consigo própria, ou então transformar-se de novo na natureza implacável de onde vem, de onde vimos todos, onde o tempo não existe e as árvores dobram-se ao vento na infinitude de um ser que de ninguém depende. A “ausência” dela nas vidas da família e do próprio marido não é chorada pela perda que deveria representar, mas sim pela “vergonha” que traz a todos com uma saída onde nem o sangue a escorrer do seu corpo a martiriza ou assusta. Onde mais ninguém via nada, no entanto, o seu cunhado armado com máquinas fotográficas e gravadores de vídeo vê uma mulher de corpo inteiro, e em viagem escondida por onde mais ninguém espreita. Algumas das cenas do romance são de uma sensualidade e beleza tão leves como o corpo pintado de Yeong-hye, e o que se segue será o que entendemos por comédia surrealista, nunca a narração deixando que vejamos ou interpretemos tudo isto como tragédia. O gesto de liberdade da protagonista, a sua loucura, uma vez mais, rebelde, a sua rejeição de toda uma sociedade que a queria moldar à sua imagem, o não ser amada, não permite ao leitor outra afeição a não ser um entendimento e compreensão perante as mais bizarras cenas nesta caminhada para uma outra dimensão, por vontade própria e sem remorso.

“Não é capaz – diz o narrador de In-hye, a irmã de Yeong-hye, com quem ela tinha surpreendido o seu marido fotógrafo em cenas de sexo, simulado ou não – de explicar, nem a si própria, a facilidade com que então decidira abandonar o filho. Fora um crime cruel e irresponsável, nunca se convenceria do contrário; e também fora algo que jamais seria capaz de confessar e que nunca lhe seria perdoado… Se o marido e Yeong-hye não tinham sido esmagados depois de passarem todos os limites, se tudo não se tinha estilhaçado, então talvez tivesse sido ela quem se havia deixado derrubar e, se tinha permitido que isso acontecesse, se tinha largado o fio, talvez nunca mais conseguisse reencontrá-lo. Se assim fosse, o sangue que Yeong-hye vomitara não teria saído de dentro de si, do seu próprio peito?”.

Quanto mais fechada uma sociedade, mais radical a transgressão libertadora? A uma vida sitiada por costumes e estruturas sociais muito antigas segue-se necessariamente a morte? Não me parece ser essa a ideia, se assim nos é permitido falar, que sobressai ao longo destas belas e vivíssimas páginas. Pelo contrário, é a procura de uma vida-outra, a rejeição de um quotidiano opressivo e sem qualquer sentido que leva estas duas irmãs aos limites da vida e do desespero, em que se confunde normalidade com a prisão que uns aceitam, mas outros não. A grande literatura é quase sempre esse acto de representar a nossa humanidade, e de nos reinventar não só como somos, mas sobretudo como gostaríamos de ser quando reconhecemos num outro a razão da sua recusa em apenas existir como mais uma peça de serviço, ou do que não acredita nem valoriza. Yeong-hye começa por ser aquela mulher absurda nas suas transformações e movimentos, a mulher que antes não era feia nem bonita, nem alta nem baixa, nem talentosa nem idiota, nem frígida nem sexual – era o que os outros queriam que fosse, nunca suspeitando que isso não lhe bastava, e que tinha a sua própria força que mais ninguém via ou suspeitava. A Vegetariana encerra com a protagonista numa ambulância a caminho de um hospital, com a irmã ao lado. Não vão a caminho da morte ainda, parece. Vão a caminho, talvez, de uma outra vida. Com ela Yeong-hye leva a irmã – agora sabedora e liberta por obra, exemplo e força de quem havia cortado os próprios pulsos e vomitara sangue, mas sem nunca deixar de viver, a partir desses momentos, como queria e entendia. Posso estar errado aqui, mas este não é romance sobre a morte ou a loucura. É uma tremenda reafirmação da vida livre, quando seguimos as nossas próprias escolhas e recriamos os nossos próprios seres.

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Han Kang, A Vegetariana (tradução do inglês por Maria do Carmo Figueira), Lisboa, D. Quixote, 2016. A tradução das palavras de Herman Melville são da minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 14 de Outubro, 2016.

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