Bem-vindos à anti-utopia orwelliana

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Pediram-me para escrever um prefácio para a tradução ucraniana de ‘Animal Farm’… mas primeiro gostaria de dizer algo sobre mim mesmo e sobre as experiências que me conduziram às minhas posições políticas.

George Orwell, Ensaios Escolhidos

Vamberto Freitas

É raríssimo o escritor cujo nome – pseudónimo neste caso – vira adjectivo reconhecido de imediato, mesmo por gerações que provavelmente nunca o leram. Dizer orwelliano é dizer totalitário, levando em conta a carga semântica que a palavra carrega em si, denominando a sociedade onde a liberdade individual nunca existiu ou deixou de existir. Em volta do autor George Orwell, cujo verdadeiro nome é Eric Arthur Blair, nascido na Índia em 1903 de pais que lá prestavam serviço ao governo de sua Majestade, criou-se todo o tipo de mitos, inclusive em tudo que diz respeito às posições políticas e ideológicas que cultivou e manteve até à sua morte precoce em 1950, muito antes ainda da fama e influência discursiva que alguns dos seus romances iriam ter nos tempos que se seguiram, até hoje. O seu impulso anti-totalitário vem de longe, e poderá ter começado com o que ele viu na Birmânia aos vinte e poucos anos de idade, como membro da Polícia Imperial Indiana, tal como nos relata no ensaio “Matar Um Elefante”, quando escreve que “Quanto ao meu trabalho odiava-o mais amargamente do que seria talvez capaz de explicar. Num emprego como aquele observamos de perto o trabalho sujo do império”. Por certo que pouco depois, já em 1933, faz sair um dos seus mais famosos romances, uma alegoria e sátira sob o título de Animal Farm/O Triunfo dos Porcos, ou A Quinta dos Animais, numa edição mais recente da Antígona. O caminho para o romance que o tornaria um nome comum no mundo inteiro teve as suas origens mais directas na sua participação activa na Guerrra Civil de Espanha, onde lutou ao lado não das lendárias brigadas internacionais, mas sim integrado, juntamente com a sua mulher, na milícia trotskista do POUM, sofrendo na pele, como ele próprio deixou escrito no seu também muito conhecido e admirado Homenagem à Catalunha, publicado logo após essa sua experiência, em 1938, a perseguição mortífera que lhes foi movida pelos comunistas estalinistas integrantes da governo da República em luta contra os nacionalistas de Francisco Franco. No entanto, manteve-se um socialista democrático toda a sua vida, confessando a dada altura num destes escritos do presente George Orwell: Ensaios Escolhidos, que se identificava com a ala esquerda do Partido Trabalhista. Não deixará de ser mais do que uma mera curiosidade verificar que tudo na sua vida leva-o ao estatuto canónico que persiste e parece aprofundar-se entre os leitores da vasta aldeia global. Ainda na escola privada de Eton, que ele só conseguiu frequentar com uma bolsa governamental, o seu professor de francês foi Aldous Huxley, que poucos anos depois publicaria a nada menos seminal obra ficcional que imagina um outro tipo de totalitarismo, Admirável Novo Mundo, em 1932, assim como, já nos anos 60 publicaria o nada menos distópico Island/Ilha, sobre o qual escrevi noutra parte. O grande romance de Orwell, 1984, foi terminado em 1948, como se sabe, e o autor apenas mudou os dois últimos dígitos para chegar ao título do que se tornaria uma das mais curtas e significantes referências numa obra literária do século passado. George Orwell, pois, torna-se uma referência universal pela sua ficção, não pela prosa ensaística que produziu proficuamente ao longo da sua carreira. No entanto, a sua presença nos jornais e em revistas literárias foi sempre de uma eloquência e elegância pouco comum em escritores da sua época e com as suas bem definidas posições antes, durante e logo após a II Guerra Mundial. Sobressai de boa parte destes seus ensaios as palavras ariscas sobre os seus colegas que equivocavam nas suas lealdades ora aos nazis alemães ora aos comunistas soviéticos e estalinistas. Orwell regressa nestas páginas a “Recordações da Guerra Civil Espanhola” para, uma vez mais, dizer do que viu e viveu com uma espingarda na mão, o que mais decididamente contribuiu para a luta em prol da democracia em toda a parte. Em 1947 escreve quase profeticamente sobre a ideia de uma Europa unida, prevendo que a beatice da palavra “união” não poderia esconder nos seus significados, ao gosto dos poderes instalados, um projecto para mera defesa de interesses restritos, financeiros, comerciais e industrias. Para ele, a nova Europa ou teria o socialismo democrático como fundamento do seu sucesso e progresso, ou nada resolveria na antiga história de conflitos e guerras, muito menos traria o bem-estar para a maioria dos seus povos. É uma linguagem, a deste ensaio, que hoje apenas mudaria de léxico e falaria de uma Europa dos cidadãos. Curiosamente, o defensor da vitória Aliada no continente queria que o seu país, a Grã-Bretanha sempre orgulhosa e só no outro lado do canal, pertencesse por inteiro ao novo bloco económico e político – para se livrar, de uma vez por todas, da sua dependência, real e mitificada, dos Estados Unidos. Não sei como George Orwell é visto ou entendido pelos seus conterrâneos, mas estou em crer que a sua popularidade como escritor seria muito mais questionável no restante mundo. Raramente o autor destes ensaios é citado nos EUA fora do contexto da sua ficção, pelo menos nas minhas leituras dos mais variados textos daquele país. Provavelmente não seria apreciado pelos governantes europeus actuais, particularmente a partir dos anos 70, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher redefinem o rumo para o Ocidente. Nessas suas palavras, Orwell insiste implicitamente na essencialidade de se conceder a independência, já em curso ou por vir, a todas as suas colónias fora da órbita da terra-pátria. Vale a pena relê-lo no contexto europeu dos nossos dias, e do que aconteceu com o recente voto britânico para saída da União. Poderá não ter previsto a extensão da globalização hoje em curso, mas acertou em partes bem mais, digamos, delicadas. Poderão algumas questões terem sido resolvidas ao contrário do que ele previa, mas aqui temos um intelectual público europeu para quem política, sociedade e literatura eram temas acutilantes e inevitáveis, em oposição ao que hoje temos nos nossos jornais ou em qualquer outro meio de comunicação.

Se a América permanecer capitalista, e especialmente – escreve em ‘Rumo à União Europeia’ – se precisar de mercados para as suas exportações, não poderá ver com bons olhos uma Europa socialista. Sem dúvida que é menos provável que intervenha pela força na Europa do a que a Rússia, mas a pressão americana é um factor importante, porque pode ser exercida mais facilmente sobre a Grã-Bretanha… Desde 1940, a Grã-Bretanha enfrentou as ditaduras europeias à custa de se converter quase numa dependência dos EUA. De facto, a Grã-Bretanha só poderá livrar-se da América renunciando ao esforço de ser uma potência extra-europeia. Os domínios de língua inglesa, as possessões ultramarinas, exceto talvez em África, e mesmo o fornecimento de petróleo à Grã-Bretanha, são como reféns nas mãos dos Estados Unidos. Por conseguinte, há sempre o perigo de os Estados Unidos destruírem qualquer coligação europeia ao atraírem a Grã-Bretanha para fora da mesma”.

George Orwell: Ensaios Escolhidos contem alguns outros momentos deliciosos, ora nas suas verdades ora nas suas especulações teóricas, sobre literatura e sociedade, em que ele tanto responde com humor e firmeza a um famoso ensaio de Tolstoi a denegrir em termos absolutos a obra de William Shakespeare, como relê e recupera alguns dos escritores seus antecessores e contemporâneos, inclusive no castigo ou defesa da utilidade do que ele chama numa destas peças os “Bons Maus Livros/Good Bad Books”, ficando desculpados todos os que entre nós pegam num thriller policial ou político ou meramente cor-de-rosa, os gritantes volumes coloridos de aeroporto, e depois devora secreta ou abertamente, tal como eu (John Le Carré, James Elroy e Raymond Chandler pertencem a esta ambígua casta literária) e outros amigos meus de nome bem mais reconhecível a outros níveis. George Orwell foi aquele escritor e intelectual para quem a busca de um centro para a sua vida, o equilíbrio entre os grandes e os pequenos prazeres, eram a sua razão de ser, tal como a sua noção de decência e humanismo, quase ignorando a sua própria obra. Tenho aqui nas minhas estantes o principal dessa obra, incluindo The Politics of Literary Reputation: The Making And Claiming Of ‘St. George’ Orwell, de John Todden, mas não tinha estes magníficos ensaios, como ainda não tenho os seu George Orwell: diários, recentemente traduzidos e publicados no nosso país. Se há escritores em cuja companhia apetece estar de quando em quando, este será um deles. Nem falei da sua crítica literária, alguma dela escrita enquanto as bombas caiam sobre Londres, como que num desafio ao destino e à barbárie, ou seguia o mandato de Winston Churchill, que dizia no parlamento naqueles precisos momentos que se não estavam a lutar pela sobrevivência ou triunfo da “cultura”, para que valeria a pena sacrificar vidas?

Ainda mais se retira destes escritos. Eu, por exemplo, fiquei a saber finalmente como fazer, aquecer, misturar ou não misturar as folhas de um chá à moda inglesa. Mesmo nisto, como se sabe, estou sempre entre o meu portuguesismo e a cultura anglo-saxónica. Aliás, um dos melhores poemas modernos açorianos tem a ver com esse maravilhoso chá das cinco. A busca dos pequenos prazeres e do equilíbrio em tudo e entre todos. Isto, sim, é também orwelliano.

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George Orwell, George Orwell: Ensaios Escolhidos (tradução de José Miguel Silva), Lisboa, Relógio D’Água, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 21 de Outubro, 2016.

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One thought on “Bem-vindos à anti-utopia orwelliana

  1. Maria Gilda Faria Miguel Ramos Dezembro 18, 2016 / 9:07 pm

    Gostei muito Vamberto, a partir de hoje serei sua seguidora.Desconhecia a existência deste seu bloq. Muitos parabéns, a propósito “Dias Birmaneses”, do George Orwell (Relógio d’Água), foi hoje escolhido pela jornalista do Observador Joana Emidio Marques, como o numero dois na lista do TOP 10 para os livros de 2016.
    (….)Menos celebrado do que 1984 ou Animal Farm, pertence à mesma família de romances que descrevem sociedades totalitárias, mas desta vez vira a agulha para o colonialismo e mostra-nos o racismo, tanto na sua forma violenta e visceral como benévola e condescendente, o parasitismo da elite colonial, o parasitismo também de alguns nativos que desejam ascender na sociedade dos brancos, os modos de subjugação da grande massa popular. É fascinante saber que este livro se baseia na experiência do autor como polícia colonial na Birmânia, nos anos 20 do século passado, quando ainda era apenas o cidadão Eric Blair e não o inquietante escritor George Orwell.(….)

    Cumprimentos.
    E porque estamos na quadra natalicia, e eventualmente não nos cruzaremos antes de dia 25. Votos de festas felizes, aquela abraço caloroso.

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